31/01/10

DIVULGAÇÃO DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS




AO ENCONTRO DA HISTÓRIA



À atenção de:

Escolas

Juntas de Freguesia

Paróquias

Associações recreativas e culturais

Centros de Dia

Outras entidades interessadas



A Associação do Património de Torres Vedras desloca-se a estes locais, sempre que solicitada, para realizar palestras sobre a Guerra Peninsular, adaptando-as às audiências e apoiando-as em projecção de imagens. Duração base: 1h 30m

Este serviço, totalmente gratuito e a cargo de Professores de História, está integrado no Programa Municipal das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, de cuja Comissão executiva a Associação do Património faz parte.

Disponível mediante marcação prévia. Contactos:

TM: 962 435 928 / 914 002 792 / 261 332 854

Apartado 50, 2564-909 TORRES VEDRAS

addpctvedras@gmail.com


Para saber mais sobre a Associação do Património de Torres Vedras, visitar os blogues:

http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com

http://linhasdetorres.blogspot.com

23/01/10

UM QUADRO DE GOYA

O nome de Goya é indissociável da Guerra Peninsular. São dele os quadros sobre a insurreição de Madrid em 2 de Maio de 1808 contra a ocupação francesa, e - talvez o mais conhecido - o do fuzilamento dos insurrectos, em 3 de Maio.
Mas há um outro que nem sempre é lembrado e que constitui o reverso da realidade brutal dos quadros referidos, aquele em que retrata a família real espanhola. Onde vemos que gente era a que governava Espanha nas vésperas da Guerra Peninsular.





Transcrevo do site da GLOBO:

«"A família de Carlos IV" (1800) é um dos quadros mais conhecidos do pintor espanhol Francisco de Goya y Lucientes. O retrato dos governantes de Bourbon, que se mantinham altivamente distantes de seus súditos, mostra os modelos como de fato eram – enfatuados e pomposos.

O quadro impressiona pela beleza e cruel introvisão. Os membros da família real, com fisionomias apáticas, desdobram-se na tela como se estivessem num friso arquitetônico, pesados e presunçosos, ajuntando-se com pouca elegância e nenhum estilo. A imagem é de um rei fraco, de uma rainha irritável e rixenta, de um herdeiro crasso.
Em todos os retratos, Goya captura o que se passa com o modelo com tal intensidade que combina um senso decorativo aguçado para contrabalançar o impacto. Aqui, trajes deslumbrantes, sedas e rendados, delicadas jóias, medalhes e faixas garantem certo glamour à cena.»

A este propósito Raul Brandão, no seu EL-REI JUNOT, escreve estas páginas fulgurantes:

« É o pobre Carlos IV, feito manequim nas mãos da mulher, que o ludibria de acordo com o favorito; é Carlos IV, cego até comunicar ternura, e, apesar de tudo, inabalável na sua profunda confiança. Arrastam-no, mentem-lhe, perde tudo, mulher, trono, oiro, e já entre as mãos de Napoleão, sem coroa, sem reino, sem prestígio, ainda pergunta numa aflição: — O Manuel? onde está o Manuel?  ( Trata-se de Manuel Godoy, o "príncipe da paz", que se tornara amante da rainha Maria Luisa. Toda a gente sabia menos o pobre coitado Carlos IV... - Nota do autor deste blogue)


É a rainha, a impetuosa e lasciva Maria Luísa. Tem 50 anos. Até aí o tropel da vida, o sangue, a miragem, não a deixaram ver a realidade em todos os seus aspectos. Primeiro rebate da velhice, primeiro sabor do sepulcro. Tantas horas perdidas... Pouco te resta já - e já rugas, a pele ressequida, os olhos apagados. É quando a mulher se apega com desespero — restos de colo, restos de cabelo - ao pó de um sonho extinto. Momento em que a vida e a morte se tocam, em que a verdade e a ilusão se misturam. Submete-se. Godoy trata-a como uma criada de servir.

É Fernando, envelhecido na crápula, obtuso e concentrado, odiando o próprio pai, e conseguindo abrir a estúpida boca com sono, perante o formidável drama que se desencadeia na Europa. É enfim o valido, que, por ser esbelto e tocar guitarra como um bandido de Astorga, conquistara um trono. Godoy, que iniciara o seu reinado com estrépito, engorda e parece um cocheiro sebáceo. Há um quadro no Prado que aclara todo o drama confuso: as tintas conservaram e exprimem os sentimentos, os rancores, a ambição, o ódio, as vergonhas e o indeciso e o falso dos caracteres: está ali vivo o que há muito se sumiu para sempre na eternidade. Basta vê-lo ao rei, pachorrento e gordo, de olhos à flor do rosto, estupidez e inocência, satisfação por que o retratem com a família toda — e o Manuel ao lado: compreende-se logo que o representante da sombria raça de crueldade e loucura, nasceu para ser o ludíbrio da mulher e do aventureiro vulgar. É o boi, como lhe chama o embaixador francês em Madrid. Chega a desgraça e ele não entende nem a catástrofe nem o escárnio; num espanto, sem um ímpeto, obedece às ordens deste ou daquele, da rainha, de Godoy, do filho, dos generalões sem escrúpulos, de Napoleão, até ao fim enganado e iludido, obcecado por uma amizade cujas raízes se tinham apoderado de todo o seu ser. Vale a pena encará-lo por mo¬mentos no cenário a negro que é a Espanha, rodeado de fidalgos, de intrigas, de tropas sobre tropas — multidões sôfregas que descem os Pirenéus para lhe arrancarem o trono, de ódios, de gritos de vergonhas: num mar bravio depois: mortes, rapinas, almas sanguinárias à solta — e ele simples e terno, espantadiço e inalterável: — Onde está o Manuel?



Já um criador de moda actual lê assim este quadro:



«Nesse extraordinário trabalho de Francisco de Goya, “A Família Real de Carlos IV”, de 1801, vemos a influência da silhueta império em outras cortes, como a espanhola. A figura central, mais iluminada que o rei é a rainha Maria Luísa de Parma que, junto com toda as outras figuras feminina do quadro, ostenta vestido da linha império. Podemos ver também o magnifíco contraste de cores, a leveza dos trajes femininos e a altivez dos masculinos, mas todos os adultos apresentam traços no rosto entre a alienação e a pasmaceira, incomum na composição pictórica de nobres e ainda mais dos supremos líderes de uma corte.
A genialidade de Goya como retratista faz com que mais do que vermos os brilhos dos brocados, dos bordados a ouro, das pedras preciosas, das pérolas, os sentíssemos reluzindo. O brilho ofusca as caras meio tolas e alienadas dos personagens principais que estão prestes a serem subjugados exatamente pela força que difundiu os vestidos império, a era napoleônica. É uma corte retratada em seu fim. Enfim, as mulheres já vestiam culturalmente o que depois seria político. De alguma forma, a moda antecipou os fatos.»

in: http://dusinfernus.wordpress.com/2009/08/17/goya-e-juliette-o-espanhol-e-a-francesa-e-a-brasileira/

15/01/10

BADALADAS - TEXTO Nº 45 - 22 JANEIRO 2010


A BATALHA DO CÔA

J. Moedas Duarte

Em Julho de 1809 Napoleão, vitorioso em Essling e Wagram, dominava a Áustria, a Prússia e tinha a Rússia sobre controlo. Considerou que estava na altura de se voltar para a Península Ibérica onde a aliança Luso-Britânica mantinha um foco de resistência. Ponderou vir, ele próprio, resolver o problema militar mas acabou por entregar a um dos seus mais eficientes generais, André Massena ( 1758-1817),  o comando do denominado “Exército de Portugal”, criado em 17 de Abril de 1810. Massena, gasto por muitas batalhas, aceitou contrariado esta missão e mais contrariado ficou com a atitude dos generais seus subordinados, invejosos por se sentirem preteridos. Para muitos autores, estas desconfianças mútuas explicam parte do fracasso de Massena nesta campanha militar.
A primeira acção dos franceses foi contra Ciudad Rodrigo, já muito próximo da fronteira portuguesa. Durante setenta e dois dias esta cidade resistiu heroicamente ao cerco mas acabou por se render face à superioridade do inimigo. Ultrapassado o obstáculo, Massena entra em Portugal em meados de Julho e prepara-se para neutralizar Almeida de modo a garantir linhas de abastecimento com a Espanha, dominada pelos franceses. Não tinha muita pressa pois recebera instruções de Napoleão para que a campanha em Portugal se desencadeasse em Setembro, «depois do tempo quente e sobretudo depois das colheitas». Wellington, ciente da sua inferioridade numérica - o exército francês tinha cerca de 65 000 homens – não acorrera em auxílio de Ciudad Rodrigo e evita agora o confronto directo. Conta com a capacidade de resistência da vila fortificada de Almeida, uma praça-forte construída em forma de estrela, segundo o modelo idealizado dois séculos antes pelo engenheiro francês Vauban, de modo a neutralizar os efeitos da artilharia atacante e a aumentar a capacidade da artilharia defensiva. A estratégia de Wellington assentava em três princípios: desertificação do território, com destruição dos víveres que não pudessem ser transportados para Sul pelo êxodo das populações; acção de guerrilha das milícias e ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas formadas por camponeses mas enquadradas por oficiais britânicos; e manobras no terreno, do exército luso-britânico de primeira linha, de forma habilidosa, de modo a encontrar um lugar propício ao embate, em condições de superioridade táctica - o que veio a suceder no Buçaco, em 27 de Setembro. Subjacente a estes princípios estava o segredo das Linhas de Torres Vedras, em construção acelerada mas ainda incompletas. Era vital, por isso, atrasar o mais possível a marcha de Massena sobre Lisboa.


Ponte sobre o Côa





Memorial aos combatentes do Côa


O primeiro grande embate entre invasores e defensores estava reservado para as margens do Rio Côa, perto de Almeida. Deu-se entre uma parte do exército francês, comandada pelo general Ney e a Divisão Ligeira Luso-Britânica comandada pelo general Craufurd. Os testemunhos da época dão-nos conta de um embate terrível, em que as forças aliadas estiveram a ponto de serem completamente aniquiladas pela superioridade numérica do inimigo. Tudo se passou em redor de uma ponte granítica sobre o Côa, que ainda hoje podemos visitar, poucos quilómetros antes de Almeida, na qual foi construído um singelo memorial a recordar as centenas de combatentes que ali perderam a vida. Contrariando ordens do sempre prudente e astucioso duque de Wellington, Craufurd não se limitou a pequenas acções de reconhecimento e diversão táctica. Decidiu enfrentar os franceses, apesar de manobrar em terreno acidentado e declivoso. Só a valentia desesperada dos seus soldados e oficiais subalternos impediu o desastre total, conseguindo a retirada pela ponte para a margem oposta, em sucessivos combates de enorme violência.
O confronto seguinte vai dar-se em Almeida. Dele falaremos em próximo artigo.

10/01/10

CURSO DE FORMAÇÃO



Começa no dia 20 de Janeiro. Inscrições abertas. Contactar o Arquivo Municipal de Torres Vedras

Esclarecemos que a data inicial, que era 13 de Janeiro, foi alterada pela organização.

ACTIVIDADES DO PROGRAMA COMEMORATIVO


"Linhas Cruzadas": projecto artístico transdisciplinar que visa valorizar o contributo das artes, ofícios e lazeres tradicionais, pelo seu cruzamento com saberes e leituras con-temporâneas. Decorre em vários locais do concelho tendo como parceiros artistas convidados, Clube Sénior, lares e escolas.

"Linhas de Leitura": Concurso Municipal de Leitura para alunos do 3o ciclo que te¬rá por base obras literárias relacionadas com as invasões francesas. As provas de¬correm a 3 de Fevereiro devendo as inscrições ser efectuadas para 261 310 457 ou biblioteca@cm-tvedras.pt

Campelos: de 11 a 15, Semana do Bicentenário da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres Vedras, na Escola Básica 2, 3 Gaspar Campello. A acção tem como objecti¬vo dar a conhecer à comunidade a história e a influência local da Guerra e das Li¬nhas com exposições temáticas, exibição de filmes e visitas de estudo. Informações: 261 438 130.

04/01/10

BADALADAS - TEXTO Nº 44 8 JANEIRO 2010





AS LINHAS DE TORRES VEDRAS

VISTAS POR UM GENERAL FRANCÊS



J. Moedas Duarte



As fontes históricas são o instrumento necessário para o conhecimento do passado humano. Podem ser escritas e não escritas e exigem tratamento específico de modo a retirar delas toda a informação possível. Para o conhecimento da História da Guerra Peninsular há um acervo quase infinito de fontes escritas. E há também fontes iconográficas, mapas, construções militares, armamento, etc. Das fontes escritas há um núcleo particularmente rico, constituído pelas “memórias” e pela “correspondência”, escritas por intervenientes directos, geralmente franceses e ingleses, que nos relatam a sua visão dos acontecimentos. Nelas encontramos descrições de costumes, de paisagens e de pessoas. Ou pormenores e observações mais ou menos judiciosas sobre toda esta época tão rica de acontecimentos. No entanto o Historiador sabe que deve lê-las com prudência pois elas transmitem visões pessoais, com uma inevitável carga subjectiva que tende a deformar a realidade relatada. Daí a necessidade de cruzar essas informações com outras de diferente proveniência.

Estão publicados em Português alguns livros de memórias e cartas que constituem testemunhos valiosos e imprescindíveis para o conhecimento da Guerra Peninsular.

Neste espaço falamos hoje de um livro que se liga directamente com a Terceira Invasão Francesa: General Barão de Marbot - Memórias sobre a 3ª Invasão Francesa, edição da Caleidoscópio, Lisboa, 2006, com uma introdução do professor universitário, António Vicente.

Este historiador traça o percurso biográfico de Marbot, general francês que fez parte do Estado-Maior de Massena em Portugal, em 1810. Mas antes esclarece o lugar das suas memórias no conjunto dos relatos da época. Considerado inicialmente como fantasista, o testemunho de Marbot foi reconhecido como de grande fiabilidade pela edição crítica da sua obra. António Vicente considera que se trata de um contributo de grande importância para o apuramento da verdade histórica. Até porque – escreve ele na sua Introdução - “ Marbot faz justiça ao comportamento dos portugueses na Guerra Peninsular. Quando analisa, no último capítulo dedicado à guerra na Penín¬sula, o desempenho dos diversos intervenientes, escreve: «No que respeita aos portugueses, não lhes foi feita justiça pelo contributo que deram às guer¬ras da Península. Menos cruéis, muito mais disciplinados que os espanhóis e com uma coragem mais calma, eles formavam, no exército de Wellington várias brigadas e divisões que, dirigidas pelos oficiais ingleses, não ficavam a dever nada às tropas britânicas, mas, como eram menos gabarolas que os espanhóis, falaram pouco deles e das suas façanhas e a reputação tornou-os menos célebres». Palavras tanto mais elogiosas quanto foram escritas por um adversário...”



A leitura do relato de Marbot é, de facto, apaixonante. Habituados que estamos ao ponto de vista patriótico e inglês, somos levados ao outro lado da guerra, o do inimigo, representado pelo exército francês. Ele relata inicialmente os acontecimentos da 2ª Invasão, no Norte de Portugal, pelo exército de Soult, mas centra-se depois na 3ª Invasão, na qual participou como ajudante de campo de Massena, sempre perto dos centros de decisão. É muito crítico quanto à forma como Massena conduziu a campanha, acusando-o de hesitações nos momentos cruciais e de não saber impor a sua autoridade aos comandantes mais contestatários, o marechal Ney e o general Reynier. Considera que o desaire francês na Serra do Buçaco se deveu a erros grosseiros na avaliação e reconhecimento das posições de Wellington, agravados depois por opções inexplicáveis na fase da marcha para Lisboa.

Frente às Linhas de Torres Vedras, que refere muitas vezes como sendo “de Sintra”, Marbot faz uma crítica demolidora às orientações de Massena. Do seu ponto de vista, no início de Outubro de 1810, as Linhas não eram inexpugnáveis e Massena deveria ter optado por um ataque bem planeado, com diversos pontos de investida, o qual teria condições de êxito face à desorganização dos ingleses, a braços com a multidão de refugiados que acompanhara Wellington para trás das Linhas. Marbot refere também que estas famosas fortificações ainda não estavam concluídas, pelo que seria ainda mais fácil a sua abordagem. Massena hesitou devido à recusa formal de Ney em lhe obedecer e às reservas de Reynier. Tudo isso agravado pela facto de outro general francês, Sainte-Croix, o único que poderia dar bons conselhos ao comandante em chefe, ter sido morto por um tiro de canhão quando fazia um reconhecimento perto de Alhandra. E Marbot termina assim o capítulo em que fala das Linhas de Torres Vedras:

«Afastei-me, portanto, com muita pena das colinas de Sintra, de tal for¬ma estava persuadido que poderíamos ter quebrado as linhas que estavam ainda por acabar, aproveitando a confusão no campo inglês lançada pelos fugitivos. Mas o que era, então, fácil já o não foi de todo quinze dias depois! Na verdade, Wellington, obrigado a alimentar a multidão que tinha obrigado a recuar para Lisboa, utilizava a força de braços de 40 000 camponeses sãos e fazia-os trabalhar na conclusão das fortalezas que ele queria espalhar por Lisboa. A cidade ficou, desde então, muito forte.»









01/01/10

BOM ANO 2010


(Abertura das comemorações junto ao obelisco da Guerra Peninsular - 11 Nov 2009)


AOS LEITORES DESTE ESPAÇO DE DIVULGAÇÃO HISTÓRICA
A ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS
DESEJA UM BOM ANO 2010.