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07/10/10

BADALADAS - TEXTO 56 - 10 SET 2010



TEMPO DE GUERRA
OS BONS E OS MAUS


José NR Ermitão

Ninguém põe em causa a importância dos ingleses no desenrolar da Guerra Peninsular contra os exércitos napoleónicos invasores. Contudo, quando se fala em comportamentos, não se pode identificar os franceses como “os maus” e os ingleses como “os bons”.
É hoje bem sabido que muitos militares ingleses,  soldados e até oficiais, tiveram para com os portugueses um comportamento absolutamente condenável. E tanto mais condenável quanto foram recebidos de um modo caloroso e festivo pela generalidade da população. O próprio Wellington queixava-se de que não havia correio ou relatório que recebesse que não trouxesse um rol de queixas contra violências e desmandos cometidos pelas tropas britânicas...
          No entanto, tão negativo como este péssimo comportamento era a atitude geral de condescendência, de superioridade, de arrogância britânicas relativamente aos portugueses, em muitos casos considerados de forma inferior e como uns incapazes tanto para governar como para defender o seu próprio país. Os ingleses tinham, por exemplo, uma péssima ideia sobre as nossas capacidades bélicas, só começando a alterar esse ponto de vista depois de constatarem a valentia dos soldados portugueses na Batalha do Buçaco.
E divulgaram esse mau conceito sobre nós em livros, em jornais, em revistas: durante e depois das invasões foram publicadas inúmeras obras que criticavam tendenciosamente o país e mostravam os seus habitantes como supersticiosos e ignorantes. E quanto à actuação do nosso exército, sempre a sua actuação foi desvalorizada comparativamente à do exército britânico, apesar de todos os elogios de Beresford e de Wellington à demonstrada capacidade de combate do militar português.   
Mas felizmente que nem todos assim pensavam e agiam. Muitos militares e civis incorporados no exército britânico eram homens de elevada formação cultural e fortes sentimentos humanos que, despindo-se da arrogância e preconceitos dos seus compatriotas, olharam o país e os seus habitantes com outros olhos, mais objectivos; e desse olhar diferente deram o devido testemunho em livros – livros em que descrevem o país destroçado pela guerra e o sofrimento dos habitantes, anotam a beleza das paisagens, tipos sociais e cenas quotidianas características, muitas vezes com ilustrações a complementarem o texto. Noutros casos, militares ingleses houve que praticaram actos de um humanismo raro em tempos de guerra.
Das várias obras publicadas que revelam atitudes diferentes e positivas na relação com os portugueses ou actos de grande humanismo, apresentarei, nos próximos dois artigos, dois exemplos. O primeiro é de Joseph Moyle Sherer, um militar que tanto se sente deslumbrado perante tudo o que vê, desde as cidades às cenas mais triviais – que procura entender como expressões próprias de um povo diferente – como condena as atitudes de sobranceria dos seus compatriotas. 
O segundo texto, de autor não identificado, revela um comportamento de elevado sentido humano por parte de militares ingleses. No texto de Moyle Sherer a guerra está longe embora paire como ameaça; mas no segundo ela está muito próxima: as populações estão em fuga perante o avanço francês e uma criança tragicamente perdida é salva por um militar britânico...

Por último, uma nota para dizer que também houve militares franceses que praticaram actos de elevado sentido humano. Refiro, por exemplo, o caso do general Travot que, durante a 1ª invasão, prestou valioso auxílio aos pescadores de Cascais; ou o caso passado com Guingret durante a 3ª invasão. Próximo de Leiria, um «bravo soldado» apresentou-lhe uma jovem e sua mãe, de uma família «conhecida e respeitada em Portugal», que tinha conseguido arrancar das mãos de soldados que se preparavam para as atacar, sobretudo a filha, da pior maneira. Guingret protegeu-as com todo o cuidado e fê-las conduzir para longe, guiadas pelo digno soldado que as salvou da ignomínia. Vários meses depois, em Espanha, um homem disfarçado de camponês procurou Guingret e entregou-lhe em segredo uma carta. Era da senhora portuguesa que, afectuosamente, lhe agradecia a protecção dada. Juntamente com a carta, ia um presente em ouro para o soldado que tinha salvo a honra da filha – presente que Guingret devolveu, porque o soldado tinha entretanto morrido em combate...
          Enfim, gestos e atitudes de paz em tempos de guerra...





       




24/08/10

BADALADAS - Texto 55 - 27 AGOSTO 2010




 
FAZ HOJE 200 ANOS
ALMEIDA RENDE-SE À TRAGÉDIA


 

Joaquim Moedas Duarte


 
Almeida foi sempre a praça-forte mais avançada na resistência aos invasores. Na raia beirã, fronteira leste com Espanha, por aqui fazia entrada quem vinha sem licença e à força. Os anais históricos lembram as correrias bélicas da primeira dinastia, as investidas castelhanas na crise da independência dos finais do século XIV, a Guerra da Restauração trezentos anos depois, os cercos da Guerra da Sucessão já no XVIII - embates permanentes da teimosia espanhola contra o irredutível vizinho. Entrado o século XIX, o velho baluarte tinha ainda uma dura prova a cumprir. Foi quando o exército napoleónico, comandado por Massena, irrompeu por ali, disposto a vergar finalmente a velha Lusitânia com uma terceira invasão.

Estava-se em Julho de 1810. O Grande Exército francês, composto por três Corpos num total de cerca de 65 000 homens, estava prestes a invadir Portugal. Mas foi necessário, primeiro, cercar e dominar Ciudad Rodrigo, para garantir as linhas de abastecimento e comunicação com França. Feito isso, aí temos o invasor a derramar-se pelas serranias raianas, ciente da necessidade de dominar a grande praça-forte de Almeida, fortaleza de grossos muros em forma de estrela, que dispunha de 5 000 homens e de um poderoso equipamento de 98 peças de artilharia. Era seu comandante o brigadeiro inglês Guilherme Cox, tendo como subalternos alguns oficiais portugueses.
Depois do primeiro embate junto à ponte do rio Côa, em que o general inglês Craufurd a custo salvou a sua Divisão Ligeira, mas com pesadíssimas baixas, (ver nosso artigo neste jornal, em 22 /01/2010), as operações militares vão centrar-se em redor de Almeida.
Os preparativos para o cerco foram demorados. Os terrenos eram rochosos para trincheiras, e impraticáveis as vias de acesso aos trens de artilharia. Nestes trabalhos demoraram os franceses mais de quinze dias. As tropas anglo-lusas não estavam muito longe dali mas o prudente general inglês que as comandava – Arthur Wellesley – optara pela estratégia de não dar combate directo, fiado na capacidade de resistência da praça-forte e receoso da força inimiga em campo aberto.
A história do cerco está feita e não cabe aqui deter-nos em pormenores. (1)
Recordemos apenas que Massena escolhe o dia 15 de Agosto, aniversário de Napoleão, para iniciar o ataque mas os bombardeamentos sucessivos não vergam a valentia dos sitiados. Sucedem-se dias e noites de pesadelo. Atacar, atacar sem piedade. Resistir, resistir até poder. O drama, porém, estava guardado para um acontecimento inesperado. Foi no dia 26 de Agosto de 1810. O paiol da pólvora, no castelo de Almeida, bem no interior da povoação-fortaleza, foi deixado aberto enquanto se procedia ao transporte dos barris. Estranha e nunca bem explicada imprudência. Relata o narrador das “Memórias”:

Às sete da tarde ouviu-se uma tremenda explosão. Duas bombas lançadas pela bataria n.° 4 tinham atingido o grande armazém do castelo, que continha 75 000 quilogramas de pólvora. Foi como uma erupção vulcânica; o terrapleno das muralhas adjacentes abriu fendas; muitos canhões saltaram das suas posições e caíram no fosso; grande parte das casas ficou destruída, sepultando 500 homens nos escombros. Che­garam a cair destroços nas nossas trincheiras, ferindo alguns homens. As fortificações da frente de ataque, porém, ficaram intactas, e só a cortina do castelo sofreu danos. Os soldados da guarnição que escaparam ao desastre corriam entre as ruínas como perdidos, e um violento incêndio vinha aumentar o horror da sua situação. O governa­dor mandou tocar a reunir e dirigiu-se à muralha, onde chegou fogo por suas próprias mãos às poucas peças que ainda lá se encontravam. As nossas batarias de morteiros e obuses bombardearam durante toda a noite.”

Foi este trágico acontecimento que quebrou a resistência de Almeida. Depois de novo ataque francês, a praça-forte capitulou em 27 de Agosto – faz hoje 200 anos! Estava aberto aos invasores o caminho para Celorico e Viseu.
Saldo terrível: calculam-se as baixas em 600 mortos e 3 400 feridos entre os sitiados e cerca de 60 mortos e 320 feridos entre os franceses.
Por que razão Wellington não socorreu Almeida? Os estrategas militares ainda hoje discutem a opção do general inglês. Os factos, contudo, parecem desmentir a acusação de fraqueza que lhe é feita por alguns. Wellington jogava pela certa e não arriscava a sobrevivência do exército inglês, mesmo que isso significasse sacrifícios acrescidos para a população portuguesa. Um mês depois, no Buçaco, provou a justeza das suas escolhas. De mais, ele sabia o que Massena ignorava: mais a sul esperavam-no as formidáveis Linhas de defesa de Torres Vedras.

(1)
Memórias de Massena, General Koch, Livros Horizonte, Lisboa, 2007
Guerra Peninsular – Novas Interpretações, Vários, Inst. Def. Nacional, Tribuna, Lisboa , 2005

16/06/10

BADALADAS - TEXTO 50 - 11 JUNHO 2010


Le maréchal Masséna (1758-1817)



CENAS DA 3ª INVASÃO

 NOVA CARTA DE WELLINGTON A MASSENA 

José NR Ermitão         

Conforme referi no artigo anterior Massena respondeu a Wellington numa carta datada de 14 de Setembro. Nela, afirma que não pode considerar como soldados um bando de camponeses sem uniforme e que praticam assassinatos; considera que Wellington se contradiz ao reclamar, por um lado, respeito pelas leis da guerra e, por outro, ao obrigar os portugueses a destruir as suas propriedades e outros bens e a fugir diante dos franceses. E acusa Wellington de violar expressamente as leis da guerra por desrespeitar os termos da capitulação de Almeida, segundo as quais os milicianos postos em liberdade pelos franceses não deviam retomar o serviço militar.

          Wellington respondeu a Massena, a 24 de Setembro, numa carta contundente e sarcástica, que transcrevo parcialmente:

          “Senhor Marechal (...)
          Aquilo a que o Sr. chama “camponeses sem uniforme”, “assassinos e salteadores de estradas” são a Ordenança deste país... corpo militar comandado por oficiais e submetidos às leis militares. Parece que o Sr. exige que eles tenham de usar uniforme militar para poderem gozar dos direitos da guerra; mas o Sr. mesmo deve lembrar-se de quanto aumentou a glória do exército francês ao comandar soldados sem uniforme (1).
          O Sr. queixa-se da conduta da Ordenança de Nave de Haver para com o coronel Pavetti. A questão é somente saber se um país invadido por um formidável inimigo tem o direito de se defender por todos os meios ao seu alcance. Se este direito existe, justifica-se que Portugal utilize a Ordenança, um corpo militar reconhecido e organizado segundo as antigas leis do país. Asseguro a V. Ex. que a Ordenança de Nave de Haver tratou bem o coronel Pavetti e que teria sido punida se o tivesse maltratado. Assim, eu desejava não ter sabido que... a casa do capitão-mor foi incendiada e que alguns soldados da sua companhia foram fuzilados por terem cumprido o dever para com o seu país.
          Sinto muito que V. Ex. sofra alguns inconvenientes pessoais pelo facto de os portugueses abandonarem os lares à aproximação do exército francês. É meu dever fazer retirar todos os que não dispõem de meios para se defenderem; e observo-lhe que as ordens dadas nesse sentido quase que não foram necessárias. Porque aqueles que se lembravam da invasão do país em 1807, da usurpação do governo do seu Príncipe... dificilmente podiam achar a conduta dos soldados do exército francês... para com as suas propriedades, para com as suas mulheres e para com eles próprios, de acordo com as proclamações de V Ex (2).
          Não é pois de espantar que eles abandonem os seus lares voluntariamente, queimando e destruindo tudo o que não podem levar; e não tenho que apresentar... desculpas pelo encorajamento que lhes dou, a não ser pelos inconvenientes pessoais que po-dem causar a V. Ex.
V. Ex. foi mal informado sobre a questão da milícia que fazia parte da guarnição de Almeida. Antes de se queixar sobre a infracção dos termos da capitulação de Almeida, V. Ex. deveria lembrar-se que ela foi violada logo após ter sido assinada. V. Ex. comprometeu-se a que os oficiais e soldados da Milícia voltassem às suas casas; e apesar deste compromisso, o Sr. reteve 7 oficiais e 200 soldados de cada regimento para fazer deles um corpo de pioneiros. A capitulação de Almeida está assim anulada... Mas posso assegurar-lhe que nenhum dos soldados da Milícia de Almeida se encontra em serviço.”
Massena recebeu a carta, ressentiu-se do teor do seu primeiro parágrafo (segundo as suas “Memórias”), mas não respondeu, terminando assim a correspondência entre ambos. A 3ª invasão iria ser mesmo caracterizada, por parte dos franceses, por ter aspectos de guerra de extermínio, bem sofrido por parte da população portuguesa, so-bretudo como resposta à política de terra queimada levada a efeito por Wellington.
______________
(1) Wellington, ofensivo, referia-se ao facto de Massena, em 1793 e 1794, ter comandado vitoriosamente tropas francesas de aspecto miserável e desprovidas de uniforme...
(2) Referência à proclamação de Massena dirigida aos portugueses, na qual afirma que os vem proteger e garantir-lhes a prosperidade, sendo seu objectivo único expulsar os ingleses...
         

BADALADAS - Texto 49 - 7 MAIO 2010


BARTOLOZZI, Francesco, 1728-1815

Lord Wellington, terror hostium Lusitaniae... [Visual gráfico / Pelegrini pinxit ; F. Bartolozzi sculp. de idade 83 annos em Lx.ª, em 1810. - [Lisboa? : s.n., 1810]. - 1 gravura : água-forte e ponteado, p&b http://purl.pt/6163 - Biblioteca Nacional Digital






CENAS DA 3ª INVASÃO

UMA CARTA DE WEELLINGTON A MASSENA

jOSÉ NR ERMITÃO

No início da 3ª invasão francesa, dias antes da capitulação da praça de Almeida (27 de Agosto de 1810), um grupo de militares franceses, composto pelo coronel Pavetti, 2 oficiais e uma dúzia de soldados, entraram em Portugal em missão de reconhe-cimento; ao regressarem a Espanha, foram surpreendidos por uma noite escura e tempestuosa e perderam o caminho. Encontraram um pastor português que se propôs guiá-los; mas es-te, manhoso e incapaz de resistir à animosidade contra os invasores, em lugar de os conduzir ao destino, levou-os à povoação de Nave de Haver (situada a sul de Almeida) e entregou-os à Ordenança. Os franceses resistiram, houve mortos, mas o coronel Pavetti foi aprisionado pelo capitão da ordenança, que o entregou a Wellington.


Massena, comandante do exército invasor, perante as notícias do facto, considera-o praticado não por militares mas por assaltantes e assassinos; manda cercar Nave de Haver, ordena o fuzilamento dos soldados da ordenança e o incêndio da casa do respectivo capitão.

Wellington, ao tomar conhecimento da vingança brutal dos franceses, absoluta-mente contrária às leis da guerra, fica tão constrangido que decide escrever uma carta a Massena – uma carta em que explica a estrutura do exército português e solicita tratamento digno para os soldados da Ordenança, não deixando de antever o pior para os soldados franceses, caso Massena mantenha a ordem de fuzilamento dos soldados desta estrutura militar.

A carta é data de 9 de Setembro de 1810; transcrevo-a parcialmente:

“Senhor Marechal (...)


É preciso que saiba que todos os portugueses são obrigados, pelas antigas leis do país, a servir no Exército Regular ou na Milícia ou na Ordenança, e que todas estas tropas estão sujeitas às leis militares e sob ordens de oficiais generais portugueses*. A prova é que, apesar do que a Ordenança tem sofrido... por causa das ordens que o Sr. deu e da violação das leis da guerra sobre os seus soldados, eles obedecem às ordens que lhes foram dadas; e têm poupado a vida e tratado bem todos os prisioneiros que fazem. O coronel Pavetti, por quem o Sr. tanto se interessa, foi feito prisioneiro pela Ordenança, foi por ela bem tratado, tal como a sua escolta.


Como a Ordenança faz parte do exército português... peço-lhe que dê ordens para que os oficiais e soldados da Ordenança, quando feitos prisioneiros, possam usufruir, como os outros soldados do exército português, das leis da guerra.


Desde que assumi o comando das tropas neste país, tenho feito todos os possí-veis... para conduzir a guerra de um modo leal e para respeitar as leis da guerra... Mas se o exército francês continuar a fuzilar os soldados da Ordenança, certamente que não pode esperar que os soldados deste corpo e os outros soldados do exército português não façam o mesmo aos prisioneiros do exército francês. Não estará em meu poder protegê-los; e as ordens que o Senhor deu serão a causa das desgraças que os soldados franceses, ao caírem nas mãos das tropas portuguesas, vão sofrer.”

Nas suas “Memórias”, Massena comenta a carta e atitude de Wellington de forma absolutamente negativa: diz que a humanidade dos ingleses só se comovia quando estavam em causa os seus interesses, que Wellington estava a legitimar actos de assassínio e prisão indevida ao transformar camponeses/salteadores em militares e que, agindo assim, devia assumir a responsabilidade moral por transformar «uma guerra política em guerra de extermínio».

Em conformidade com estes raciocínios, Massena respondeu a Wellington, numa carta datada de 14 de Setembro e cujo conteúdo se pode deduzir das suas Memórias. No próximo artigo darei conta desta e da segunda carta que Wellington lhe escreveu.

___________

* Após a Restauração, em 1640, a defesa do reino assenta em 3 tipos de tropas com funções dife-rentes e que integram todos os homens válidos dos 15 aos 60 anos: o exército de 1ª linha, ou regular, defensivo e ofensivo, de carácter nacional; o exército auxiliar, chamado Milícias no reinado de D. Maria I, defensivo e de carácter regional; e as Ordenanças, chefiadas pelos capitães-mor, também defensivas mas de carácter mais local.

15/03/10

BADALADAS - Texto 47 - 12 MARÇO 2010

A OPOSIÇÃO AO PLANO DE DEFESA DE WELLINGTON


Rui Prudêncio


Apesar da vitória na batalha de Talavera (27-28 de Julho de 1809) Wellington entendeu que o avanço do exército anglo-luso até Madrid era arriscado devido às discrepâncias com o exército espanhol quanto à adopção de uma estratégia comum e à ameaçadora proximidade do exército francês da fronteira portuguesa. Além disso, a diplomacia francesa obtinha mais uma relevante vantagem para Napoleão com repercussões na Península Ibérica. O tratado de paz entre o império francês e o império austríaco (14 de Outubro de 1809) possibilitava a Napoleão a formação de um grande exército de conquista de Portugal. Com a situação militar controlada em Espanha a terceira invasão seria apenas uma questão de tempo.

Neste contexto político-militar Wellington define um plano de defesa de Portugal. O plano visava preservar o exército, evitando os confrontos directos com o inimigo, de resultados imprevisíveis. Objectivando também a defesa de Lisboa, o plano prevê a invasão das Beiras e Estremadura, retirando destas os meios de subsistência ao invasor como parte da táctica da terra queimada e constrói as linhas de defesa de Torres Vedras. As linhas de Torres Vedras articulavam-se com o primeiro objectivo ao servirem de protecção a uma eventual retirada do exército inglês por mar.

O plano de defesa de Portugal foi apresentado em Fevereiro de 1810 aos governadores do reino. Estes concordaram com a sua execução, aparentemente sem qualquer reserva. Contudo, algum tempo depois, verificou-se uma alteração no elenco governativo, com a nomeação do principal Sousa para o governo. Na opinião do principal Sousa, a defesa de Portugal devia fazer-se em território espanhol, por meio de batalha forte e dura ao invasor para impedir a sua entrada em solo português. Estava persuadido que permitir ao exército francês percorrer o país até às linhas de Torres Vedras era condenar a economia agrária e as populações. Obrigar as populações a abandonar casas e propriedades seria não só desmoralizante como lesivo para as finanças do reino, e consequentemente para o exército pela falta de dinheiro e de homens. Pensamento incompatível com o plano de defesa de Wellington que previa a evacuação da população em grande escala e a destruição de culturas e colheitas para retirar abastecimentos ao exército napoleónico.

Outro ponto discordante dizia respeito aos objectivos militares. Enquanto Wellington tinha por objectivo primordial a defesa de Lisboa e a retirada em segurança do exército inglês em caso de retirada, o principal Sousa pretendia a defesa da integralidade do território português através de acções militares em Espanha. Criticava as premissas militares de Wellington interrogando-se retoricamente: «Há de a fuga ser o meio de resistir ao inimigo? Há de ser a ruína das propriedades o meio de defender o reino? Há de Lisboa só considerar-se o ponto a defender em Portugal, e gostosamente hão de os povos danificar as suas fortunas para defesa desta cidade?» . (Arquivo Histórico Militar-DIV-1-14-002-34)

Queixa-se Wellington a 30 de Novembro de 1810 ao príncipe regente D. João que além dos governadores do reino não terem competências políticas nos planos e operações militares, pois só ele era responsável perante o rei português e inglês pela condução do exército anglo - luso, foram, sobretudo devido à oposição do principal Sousa, demorados em tomar as medidas necessárias para dificultar o avanço do invasor e implementar a táctica da terra queimada. Como consequência desta demora, escreve Wellington, «o inimigo há achado na Estremadura todas as coisas que não somente podiam cooperar para o seu conforto, mas até mesmo para a sua subsistência e para os habilitar a manter a sua posição em Portugal» . Em conclusão, o general inglês responsabilizava o principal Sousa pela sorte dos acontecimentos e pedia ao príncipe regente os devidos resultados políticos da sua acção: «Há sido pois a consequência da oposição ocasionada pelo principal Sousa contra as indicadas medidas que elas hão ficado improcedentes, e parte dos territórios de Vossa Alteza Real assim como do seu povo, estão agora suportando vexames e muitos pesados sofrimentos. A influência do principal Sousa se há em uma tal instância manifestado perniciosa e por isto deixo às sábias determinações de Vossa Alteza Real o decidir se acaso será conveniente que esta personagem continue um dos membros do governo» . Porém, o principal Sousa permanece no governo até à Revolução de 1820.

BADALADAS - Texto 46 - 26 FEVEREIRO 2010

O MARECHAL MASSENA

Maria Guilhermina Pacheco


“Guindam-se aos mais altos cargos homens como Massena, contrabandista e estalajadeiro...” Raul Brandão, El-rei Junot


Realmente, poder-se-á perguntar quem foi André Massena, que em 1810 comandou a terceira invasão francesa a Portugal.

Nasceu em Nice, em 1758, o pai era taberneiro. Começou por ser grumete, na marinha mercante, depois alistou-se no exército, mas como era de origem burguesa, não podia atingir o cargo de alferes, demitiu-se, era sargento-ajudante, estava-se em 1789.

Com a revolução, vai aderir à Guarda Nacional e, regressa à vida militar, em 1792, já detém o cargo de chefe de batalhão e, em 1793, era general de divisão.
Conhecido como bom estratega, Napoleão, elogiava-o, dizendo que tinha “...des talents militaires devant lesquels il faut se prosterner...”. (talentos militares, diante dos quais temos de nos inclinar…)
A sua carreira militar não se caracteriza, no entanto, por uma ascensão contínua, terá campanhas vitoriosas, seguidas de períodos de abrandamento ou mesmo paragem.
Entre 1795 e 1799, Massena, combate os piemonteses, os austríacos, tendo alcançado vitórias em Loano (1795) e na campanha da Itália (1797), mas vai ser em Zurique (1799) que consegue uma das suas mais importantes vitórias militares. Como resultado, ganha o cognome de Filho Querido da Vitória e o título de marechal.
Entretanto, em França a cena política sofre mudanças, Massena é republicano, mas não aprovou o golpe de 18 de Brumário, vai apoiar o Império, e passa a fazer parte da lista dos marechais do exército francês, tendo recebido a condecoração da Grã-cruz da Legião de Honra.

Novamente em campanha, trava batalhas na Itália e na Polónia, tendo tido êxito em Essling e Wagram (1809). Teve um acidente, impossibilitando-o de combater, e será durante a sua recuperação que Napoleão o vai enviar como comandante do exército que invadirá Portugal pela terceira vez.
Este exército estava dividido em três corpos, comandados respectivamente por Reynier, Ney e Junot, tinha também, uma divisão de cavalaria comandada por Kellerman, no total eram 65 000 homens, tinha ainda 65 oficiais e 16 ajudantes-de-campo sob as suas ordens.
Em Julho de 1810, o exército francês está perto da fronteira portuguesa. Depois de ocupar Astorga e Cidade Rodrigo, prepara-se para tomar a praça de Almeida, o que consegue devido a uma explosão no paiol, tendo o seu responsável, Costa e Almeida, capitulado.

A 15 de Setembro, Massena inicia a invasão, dirige-se para Celorico da Beira, seguidamente Fornos de Algodres em direcção ao Mondego. Entretanto as populações com medo e recebendo ordens de Wellington, abandonam as suas casas, contribuindo para dificultar o abastecimento ao exército inimigo. Massena vai seguindo para o interior do país as tropas de Wellington, não se apercebendo da estratégia. Encontram-se os dois exércitos em Buçaco, tendo as tropas portuguesas e inglesas lutado tão vigorosamente que os franceses tiveram que retirar, perdendo 4 498 homens.
Massena, no entanto, ansiava chegar a Lisboa, e continuou o seu caminho, indo em direcção a Coimbra que tomou e pilhou, e continuou desconhecendo a existência de fortes defesas: Linhas de Torres Vedras. Aí não teve capacidade para atacar, ficando à espera de reforços, enquanto os seus soldados saqueavam as populações das aldeias mais perto, havendo também grupos de desertores que se organizavam em quadrilhas de ladrões, devastando tudo à sua roda.

Em meados de Novembro, Massena, dá inicio à retirada, tendo seguido na direcção de Santarém, quando a ajuda que esperava chegou, era insuficiente, pelo que o comandante francês resolveu retirar-se para Espanha. O seu caminho de regresso não foi fácil, vários foram os encontros entre os dois exércitos, a retirada tinha-se iniciado a 4 de Março de 1811, e atravessa a fronteira a 8 de Abril, continuando a ser perseguido quer pelos aliados quer por grupos de guerrilhas e de milícias.
O próprio exército francês sofre problemas fracturantes como é o caso da insubordinação de Ney, que não concorda com a estratégia do marechal, tendo sido destituído do seu comando.
Em Espanha travou vários combates, destacando-se o de Fuentes de Oñoro a 2 de Maio, tendo sido posteriormente destituído do seu cargo por Napoleão e substituído por Marmont, duque de Ragusa.

Com as mudanças políticas em França, aceita a Restauração e Luís XVIII, mantém-no como comandante da 8ª divisão militar em Marselha. Morre em Paris em 1817.
Massena distinguiu-se como militar pela coragem, dotes estratégicos e mesmo bravura, mas como pessoa, actuou de uma forma ambiciosa e sem escrúpulos, esquecendo-se muitas vezes da posição que detinha, aproximando-se das atitudes dos seus subordinados. Assim, em 10 anos aumentou sua fortuna pessoal em 40 milhões de francos.
“Em Portugal, deixou um rasto de ruínas e de morte, que ficarão pelos tempos fora, a macular a sua memória e a empanar o lustre que alcançou nos campos de batalha.” (António Álvaro Dória)

15/01/10

BADALADAS - TEXTO Nº 45 - 22 JANEIRO 2010


A BATALHA DO CÔA

J. Moedas Duarte

Em Julho de 1809 Napoleão, vitorioso em Essling e Wagram, dominava a Áustria, a Prússia e tinha a Rússia sobre controlo. Considerou que estava na altura de se voltar para a Península Ibérica onde a aliança Luso-Britânica mantinha um foco de resistência. Ponderou vir, ele próprio, resolver o problema militar mas acabou por entregar a um dos seus mais eficientes generais, André Massena ( 1758-1817),  o comando do denominado “Exército de Portugal”, criado em 17 de Abril de 1810. Massena, gasto por muitas batalhas, aceitou contrariado esta missão e mais contrariado ficou com a atitude dos generais seus subordinados, invejosos por se sentirem preteridos. Para muitos autores, estas desconfianças mútuas explicam parte do fracasso de Massena nesta campanha militar.
A primeira acção dos franceses foi contra Ciudad Rodrigo, já muito próximo da fronteira portuguesa. Durante setenta e dois dias esta cidade resistiu heroicamente ao cerco mas acabou por se render face à superioridade do inimigo. Ultrapassado o obstáculo, Massena entra em Portugal em meados de Julho e prepara-se para neutralizar Almeida de modo a garantir linhas de abastecimento com a Espanha, dominada pelos franceses. Não tinha muita pressa pois recebera instruções de Napoleão para que a campanha em Portugal se desencadeasse em Setembro, «depois do tempo quente e sobretudo depois das colheitas». Wellington, ciente da sua inferioridade numérica - o exército francês tinha cerca de 65 000 homens – não acorrera em auxílio de Ciudad Rodrigo e evita agora o confronto directo. Conta com a capacidade de resistência da vila fortificada de Almeida, uma praça-forte construída em forma de estrela, segundo o modelo idealizado dois séculos antes pelo engenheiro francês Vauban, de modo a neutralizar os efeitos da artilharia atacante e a aumentar a capacidade da artilharia defensiva. A estratégia de Wellington assentava em três princípios: desertificação do território, com destruição dos víveres que não pudessem ser transportados para Sul pelo êxodo das populações; acção de guerrilha das milícias e ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas formadas por camponeses mas enquadradas por oficiais britânicos; e manobras no terreno, do exército luso-britânico de primeira linha, de forma habilidosa, de modo a encontrar um lugar propício ao embate, em condições de superioridade táctica - o que veio a suceder no Buçaco, em 27 de Setembro. Subjacente a estes princípios estava o segredo das Linhas de Torres Vedras, em construção acelerada mas ainda incompletas. Era vital, por isso, atrasar o mais possível a marcha de Massena sobre Lisboa.


Ponte sobre o Côa





Memorial aos combatentes do Côa


O primeiro grande embate entre invasores e defensores estava reservado para as margens do Rio Côa, perto de Almeida. Deu-se entre uma parte do exército francês, comandada pelo general Ney e a Divisão Ligeira Luso-Britânica comandada pelo general Craufurd. Os testemunhos da época dão-nos conta de um embate terrível, em que as forças aliadas estiveram a ponto de serem completamente aniquiladas pela superioridade numérica do inimigo. Tudo se passou em redor de uma ponte granítica sobre o Côa, que ainda hoje podemos visitar, poucos quilómetros antes de Almeida, na qual foi construído um singelo memorial a recordar as centenas de combatentes que ali perderam a vida. Contrariando ordens do sempre prudente e astucioso duque de Wellington, Craufurd não se limitou a pequenas acções de reconhecimento e diversão táctica. Decidiu enfrentar os franceses, apesar de manobrar em terreno acidentado e declivoso. Só a valentia desesperada dos seus soldados e oficiais subalternos impediu o desastre total, conseguindo a retirada pela ponte para a margem oposta, em sucessivos combates de enorme violência.
O confronto seguinte vai dar-se em Almeida. Dele falaremos em próximo artigo.

30/10/09

BADALADAS - TEXTO 40 - 30 OUTUBRO 2009





LINHAS DE TORRES VEDRAS

A DECISÃO DO DUQUE DE WELLINGTON EM 1809


VENERANDO DE MATOS



Em Outubro de 1809, estando o exército anglo-luso acantonado nas margens do Guadiana, Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, deslocou-se a Lisboa e, na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, percorreu durante alguns dias os terrenos a norte de Lisboa, deixando instruções para este último, num documento datado de 20 de Outubro de 1809, que ficou conhecido pelo “Memorando Fletcher”.

Do seu conteúdo, entre outras coisas, constava o seguinte:

“O grande objectivo em Portugal é a posse de Lisboa e do rio Tejo e todas as medidas terão de ser dirigidas com este objecto em vista. Existe um outro, ligado igualmente com este primeiro objectivo para o qual devemos também prestar atenção, e que é o embarque das tropas britânicas em caso de revés.
“Qualquer que seja a época do ano em que o inimigo possa entrar em Portugal ele fará o seu ataque provavelmente por duas linhas distintas, uma a norte do Tejo e outra a sul; e o sistema de defesa adoptado terá que levar em conta este facto.
“(...) O objectivo dos aliados deverá ser o de obrigar o inimigo, tanto quanto possível a realizar o seu ataque com o corpo do exército concentrado: Eles deverão ficar em todas as posições que o terreno possa permitir, o tempo necessário para permitir que a população rural local evacue as vilas e aldeias levando consigo ou destruindo todos os meios de subsistência e meios de transporte que não forem necessários aos exércitos aliados; cada corpo do exército deve ter o cuidado de manter as suas comunicações com os outros e a sua distância relativa do lugar de junção”.

As intenções de Wellington, com essa recomendação, foram resumidas por Teixeira Botelho, na sua obra História Popular da Guerra da Península, (Porto, 1915), como a necessidade de “escolher uma posição suficientemente ampla para abrigar todas as tropas, quer da primeira, quer da segunda linha, das duas nações, que lhes permitisse ocupar uma situação vantajosa para cobrir Lisboa, sede dos recursos do país, e que não pudesse ser torneada nos seus flancos pelo inimigo, devendo ter uma comunicação segura com o mar, para permitir o embarque das tropas inglesas no caso de revezes sucessivos as obrigarem a esse extremo”.

Tomada a decisão, Wellington enviou uma carta para o Rio de Janeiro, dirigida ao príncipe regente onde explicava as suas razões no contexto da guerra peninsular que se iniciara um ano antes.
Uma interpretação mais recente (Gastão de Mello de Mattos, “Torres Vedras, Linhas de (1810)”, in Dicionário de História de Portugal, vol. VI, 2ª ed. , pp.180 a 182), questiona a opinião perfilhada pela “maior parte dos autores”, que defendiam “a opinião errada de serem as linhas de Torres Vedras destinadas a proteger Lisboa. Ora a verdade é que o fim das linhas que Wellington mandou levantar só subsidiariamente era esse. O seu projecto de campanha (...) era tornar praticamente impossível a vida de um exército invasor, destruindo ou transportando para outro ponto todas as produções utilizáveis do País. Assim a região escolhida pelos Franceses para seguirem a sua marcha em Portugal tornar-se-ia numa espécie de deserto, em que o invasor não poderia subsistir”. (...) O Governo Português procurou transportar para fora das suas residências os habitantes da zona em que operavam as tropas francesas, mas (...) a evacuação dessas regiões não foi total (…). Por outro lado, como as tropas inglesas tinham, em regra, mostrado fraca capacidade combativa no continente, Wellington procurava evitar uma acção que pudesse tornar-se geral, comprometendo a existência do seu exército, não só por motivos exclusivamente militares, mas também por causa da política interna da Inglaterra, onde existia um forte partido de oposição ao Governo e favorável à retirada das tropas expedicionárias para a sua Ilha.”.
Esta opinião é corroborada por Norris e Bremner na obra The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, tradução de Thomas Croft de Moura, afirmando que em “Outubro de 1809 o plano de Wellington tinha incluído não mais do que uma linha contínua de obras desde Alhandra, no Tejo, até à foz de S. Lourenço (agora chamado Safarujo), no Atântico, com certos redutos e acampamentos fortificados colocados em frente de Torres Vedras, Monte Agraço, Arruda e outros pontos. Não era intenção ocupar estes reductos permanentemente”, mas apenas “deter e estorvar o ataque do inimigo na linha principal na retaguarda”.
Seja como for, Fletcher, depois de receber aquelas ordens por escrito em 20 de Outubro, dirigiu o início da construção das linhas que se iniciaram em 3 de Novembro de 1809 pela construção dos fortes de S. Julião, Sobral e Torres Vedras.
Desenvolvimento deste texto em:

21/08/09

ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS NO FORTE DE ALQUEIDÃO



No Forte de Alqueidão, Sobral de Monte Agraço, está a decorrer uma campanha de escavações para pôr a descoberto o conjunto de estruturas militares que faziam parte daquele complexo. Ver site da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, AQUI

05/08/09

FRENTE OESTE - TEXTO 23 - 9 JUL 2009


DUQUE DE WELLINGTON


Maria Guilhermina Pacheco




Artur Wellesley, nasceu em Dublin a 1 de Maio de 1769, seguiu a carreira militar, tendo frequentado o colégio de Eton, ausentou-se de Inglaterra com a família, recebendo parte da sua formação em França. Em 1786 estava de regresso assentando praça no 75º regimento.
Tem um papel muito activo em combates e acontecimentos, relacionados com a defesa da Grã-Bretanha na política internacional, destacando-se a sua participação na luta contra o bloqueio continental, contabilizando êxitos militares que lhe proporcionarão o desenvolvimento de uma carreira que o celebrará.
Em 1807, seguiu com a expedição que bombardeará Copenhaga, iniciando a reacção Inglesa ao bloqueio, mas será na Península Ibérica que a sua acção contra os franceses vai somar êxitos, ficando ligado à História dos países peninsulares.
Desembarca na Figueira da Foz, em 1808, vencendo as tropas de Junot, em Roliça e Vimeiro, assinando posteriormente a Convenção de Sintra, que pelas facilidades de retirada dadas aos franceses, foi muito contestada, mas Wellesley, sai ilibado, em tribunal militar, desta responsabilidade.
Regressa à Península somando êxitos, em Espanha, a vitória de Talavera (1809) e a de Vitória (1813), em Portugal a do Buçaco (1810), expulsando os franceses com o apoio das linhas defensivas de Torres Vedras.
Mas o auge da sua carreira militar foi conseguido com a derrota imposta às tropas de Napoleão Bonaparte em Waterloo, em 1815, contribuindo para o afastamento definitivo daquele, da cena política europeia.
Ser-lhe-ão atribuídos títulos de Conde de Vimeiro, Marquês de Torres Vedras e Duque de Vitória, o cargo de Marechal e o título de Primeiro Duque de Wellington.
As vitórias militares de Wellington, o “duque de ferro”, nas guerras napoleónicas favoreceram a sua ascensão a altos cargos do governo britânico. Foi nomeado comandante-chefe do exército britânico, 1827, desempenha um papel de destaque no partido conservador, e ocupa o cargo de primeiro-ministro entre 1828-30, ficando o seu governo ligado à publicação da lei de tolerância para com os católicos.
Tanto em vida como depois da sua morte, dedicaram-lhe muitas homenagens e monumentos, servindo de exemplo uma preciosa baixela de prata, desenhada e feita pelos melhores artistas e artífices portugueses, (Domingues Sequeira…) que marca uma época na história da arte portuguesa.
Morreu em 1852 tendo sido sepultado com grande pompa, na Catedral de S. Paulo, em Londres.

04/06/09

BADALADAS - Texto 31 - 29 MAIO 2009

A “PROTECÇÃO BRITÂNICA”


DUAS CARTAS DE LORD WELLINGTON


José NR Ermitão


As grandes potências não têm amizades, têm interesses; e quando invocam amizades ou alianças, fazem-no sempre em seu favor e pagando-se bem. Foi o que aconteceu entre a Grã-Bretanha e Portugal no século XIX. A Inglaterra protegeu-nos, é um facto, da ameaça napoleónica – protecção reconhecida “pela confiança que o príncipe regente tem posto... (na) cooperação do governo do reino e do povo daquele país”, segundo o discurso da Coroa ao Parlamento inglês em Janeiro de 1810.
Mas esta protecção teve custos elevadíssimos: a abertura do comércio brasileiro à Inglaterra e a subsequente ruína do comércio português, a utilização do país como testa de ponte pelos britânicos na luta contra Napoleão, a participação do representante inglês na regência do país, a submissão desta e do governo do Rio aos ditames ingleses e o comportamento violento dos militares britânicos.
Escreveu Napier que “Este reino foi por então reduzido à condição de estado feudatário (dependente)”. E acrescentava Luz Soriano que Portugal “sofria por então todos os males inerentes a uma semelhante situação, porque depois de roubado e devastado pelos franceses, igualmente o estava sendo pelos ingleses”.
Em artigo anterior já se referiu que os ingleses se comportavam no nosso país co-mo se tratasse de terra conquistada: eram constantes as queixas sobre os seus roubos. Mas as violências também eram cometidas por oficiais: é conhecido o caso de um coronel, em Monforte, que mantinha um cárcere privado e que, à revelia da justiça portuguesa, mandou chicotear publicamente dois paisanos, amarrados a quatro estacas...

Preocupado com o comportamento violento dos militares ingleses, escreveu Wellington em 17/6/1809 a Lord Castlereagh, membro do governo inglês:
«É impossível pintar-vos os excessos e violências das tropas (britânicas). (...) jamais elas têm estado fora da vigilância dos comandantes dos seus regimentos... a fim de impedir as violências cometidas. Pois apesar das precauções por mim tomadas... não chega postilhão nem correio, nem mesmo um só oficial vindo da retaguarda do exército, que não traga queixas contra as violências cometidas pelos soldados... (...) a nenhum destacamento permito que marche sem ser comandado por um oficial, e todavia não há violências, seja de que espécie for, que não tenha experimentado este povo, que nos recebeu como amigos, da parte dos nossos soldados, apesar destes não terem sofrido em qualquer momento a mais ligeira precisão ou privação.»
Já antes, a 31 de Maio de 1809, numa carta ao representante do seu país em Lisboa, reconhecia que os militares ingleses “roubavam terrivelmente o país que tinham vindo socorrer”, roubando não para sobreviver mas para fazer dinheiro; e pedia que os governadores do reino emitissem uma ordem proibindo o povo de comprar o quer que fosse aos militares ingleses porque certamente se tratava de produtos roubados.

E a propósito de facto de o governo britânico estar a apresentar aos espanhóis as mesmas exigências comerciais feitas antes ao governo português, Wellington, em carta a seu irmão, datada de 10/08/1810, analisava a ruinosa situação a que o seu país tinha conduzido Portugal e interrogava-se sobre a justiça do facto:
“Espero que a regência (espanhola) tenha a firmeza de resistir à (nossa) exigência de comércio livre com as suas colónias... Nós não temos... direito... da nossa parte em exigir isso. A Grã-Bretanha arruinou Portugal com o seu comércio livre com o Brasil: não só Portugal perdeu rendimentos alfandegários, como a fortuna de numerosas pessoas que viviam desse comércio ficou arruinada... Portugal estaria hoje numa situação muito diferente como aliado se o nosso comércio com o Brasil fosse feito como antes, através de Lisboa; e eu pergunto se é justo destruir o poder e rendimentos, em suma, arruinar o nosso aliado, só para pôr nos bolsos dos nossos comerciantes o dinheiro que antes ia para o seu tesouro e que, agora, seria empregado na manutenção da campanha militar contra o nosso comum inimigo”.
Não é preciso acrescentar nem mais uma palavra ao que Wellington escreveu...