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06/06/09

A GUERRA PENINSULAR


Trata-se das Actas do Congresso TURRES VETERAS XI, realizado em Torres Vedras em 2008 e publicadas em 2009. Comunicações: (clicar para aumentar )

















03/05/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 13 - 30 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE



MULHERES NO EXÉRCITO FRANCÊS

Pedro Fiéis


As cantinières (numa tradução livre – aguadeiras), eram mulheres francesas a quem os regimentos davam uma autorização para a venda de comida e bebida, para além daquilo que eram as rações atribuídas a cada soldado. Tinham como única obrigação a de serem casadas com soldados do dito regimento.
A sua principal função era vender álcool, geralmente brandy de várias qualidades, que guardavam nos seus cantis pintados de azul, branco e vermelho e presos em bandoleira por uma correia de couro, onde estavam pendurados os copos de cobre ou latão, em que serviam a bebida. Também efectuavam outros serviços, como cozinhar, lavar e coser a roupa, recolher água e lenha para as fogueiras.
Não menos importante era o facto de constituírem uma muito necessária companhia feminina durante os longos meses das campanhas. Um dos mais famosos generais napoleónicos, Lasalle, chegou a dedicar-lhes uma canção nas vésperas da batalha de Marengo. Mas se por acaso se tornassem demasiado desordeiras, uma ordem do dia permitiria que os soldados pudessem pilhar os seus bens.
Muitas serviam até 30 anos no exército e se o respectivo marido fosse morto em combate, casavam com outro soldado para poderem manter a posição. Sobreviviam do salário do homem e dos ganhos com as vendas, mas os preços que podiam praticar eram obrigatoriamente baixos, sob pena de confiscação dos bens e não podiam vender a civis ou membros de outro regimento.
Não deixavam, elas próprias, de serem civis no exército e não tendo direito a uniforme, o garbo pessoal de cada mulher fazia com que envergassem uma mistura de vestidos de camponesa, com casacas militares e por vezes, o chamado bonet de police – o chapéu militar para ser usado nas folgas.
Os filhos surgiam naturalmente, os quais acompanhavam as mães durante as campanhas. Existem relatos de mulheres que seguiam os seus maridos no cativeiro, como foi o caso dos que foram aprisionados na ilha de Cabrera, em Espanha. Afinal, até na derrota sofriam as mesmas agruras, com os roubos, os ferimentos e as doenças, agravados pelas violações.
A sua coragem ficou demonstrada em diversos episódios, quando em plena batalha e a receberem fogo inimigo, corriam as fileiras dando de beber aos homens, carregando os mosquetes e não poucas vezes disparando-os. Há relatos de mulheres que chegaram a transportar os seus maridos feridos em grandes distâncias até chegarem a um hospital ou encontrarem uma ambulância.
Em 1807, na primeira invasão francesa, há testemunho de algumas que acompanharam os maridos na penosa marcha através de Espanha até à fronteira portuguesa.

10/04/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO X - 9 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE

Portinari: Chegada de D. João VI a S. Salvador


A Corte portuguesa no Brasil

Maria Guilhermina Pacheco


A família real vai permanecer no Brasil de 1808 a 1821. Esta deslocação foi provocada pela conjuntura europeia durante o período napoleónico e vai influenciar o processo de independência da colónia brasileira.
Devido à aproximação das tropas francesas de Lisboa, o príncipe regente D. João, com o apoio da esquadra inglesa, transfere o governo e a corte para o Brasil. Chega aí em Janeiro de 1808, instalando-se dois meses depois no Rio de Janeiro. A vida na colónia vai começar a mudar.
Logo que se instala a corte, o príncipe regente empenha-se nas tarefas de organização do Estado, nomeando o governo e promovendo a estruturação das instituições administrativas, políticas e judiciais, num território que até aí era uma colónia e agora funcionava como a sede da monarquia.
Assim, a instalação dos órgãos administrativos do Império foram integrados na própria estrutura colonial sem haver corte no normal funcionamento das instituições. Foi criado o Conselho de Estado, o Conselho Militar e o da Fazenda, a Mesa do Desembargo do Paço e a da Consciência e Ordens. No sector da Justiça, foi criada a Casa da Suplicação, como tribunal superior e de última instância, no sector militar, a Academia Militar e da Marinha e o Hospital e o Arquivo Militar. No âmbito da administração municipal, a Intendência Geral da Polícia, contribuindo para o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro.
As medidas de carácter administrativo-jurídico visavam as várias capitanias e comarcas do território brasileiro contribuindo para a expansão da agricultura, o desenvolvimento do comércio interno e melhoria da rede viária, facilitando a penetração em zonas menos conhecidas do território. Houve uma política de expansão territorial, a norte e a sul do Brasil: exemplo disso, a invasão da Guiana Francesa em 1809; ou, dois anos depois, o cerco de Montevideu por forças navais portuguesas, e ocupação da Banda Oriental (actual Uruguai), território integrante do antigo Vice-Reinado do Prata.
Mas as mudanças mais emblemáticas foram; em 1º lugar a abertura dos portos brasileiros, “aos navios de todas as nações amigas”; permitindo a entrada de mercadorias de qualquer proveniência, acabando com o sistema do “pacto colonial”, em vigor desde a época pombalina. Portugal deixava de ter direito ao monopólio da exploração dos produtos coloniais brasileiros. Em 1810 assina-se os tratados de Comércio e Amizade e de Aliança e Navegação, que asseguravam aos Britânicos o acesso preferencial dos seus produtos.
A data de 1808 representa, na opinião do historiador Kenneth Maxwell, “uma verdadeira linha divisória, tanto na história de Portugal como na do Brasil.”
Em 1815 o Brasil é elevado à condição de Reino Unido. Era a garantia para a monarquia portuguesa estar formalmente representada no Congresso de Viena, que reorganiza o mapa político da Europa após a derrota de Napoleão.


IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO IX - 2 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE





NAPOLEÃO


José Travanca Rodrigues


Quando começa o novo século, todas as ambições lhe são possíveis. Tem, ao virar dessa página do tempo, 31 anos. Nascera em 1769, na Córsega, meio italiano, meio francês. Carreira militar meteórica – general em 1793 – participou activamente nas vicissitudes da grande revolução iniciada na França em 1789. A carreira de Napoleão acompanhou os espasmos políticos que dilaceraram a França nesses anos. Sagaz e maleável, sabendo colher as oportunidades, passou praticamente incólume a tempestade da Convenção (chegou a ser preso por amigo dos jacobinos, em 1794), soube adaptar-se em crescendo aos novos tempos, muito próprios afinal aos seus projectos. Dois anos bastaram para chegar à fama europeia: em 1796, consumadas as suas primeiras vitórias militares em terras italianas, proclamava: “Povos da Itália! O exército francês vem quebrar as vossas grilhetas. O povo francês é o amigo de todos os povos. Para nunca mais os tiranos que vos têm subjugado!”
São estas as tintas políticas de que se cobre o manto “libertador” de Napoleão, génio da guerra. Doravante, ele torna-se o pesadelo das velhas monarquias europeias. Naqueles reinos ainda absolutistas, socialmente de matriz feudal, Napoleão passa a ser visto como o portador temido da “desordem”, do “caos”, da “impiedade”, enfim. Personificação do Anti-Cristo.
Internamente, a carreira de Napoleão foi fulgurante. Em 1802, torna-se cônsul vitalício. Em 1804 é coroado imperador dos franceses, com a caução do Papa Pio VII. Depois das turbulências do processo revolucionário, a figura de Napoleão emergia como a de um tipo novo de líder político. Incorporando certos conceitos e ideias liberais, atraía largas franjas da burguesia e boa parte da aristocracia se lhe rendia. Muitas desconfianças se desvaneciam para quem via no imperador o instrumento da normalização e da afirmação da França no quadro europeu.

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO VIII - 26 MARÇO 2009 - FRENTE OESTE

“Bonaparte louco de raiva ou mais navios, colónias e comércio” – Água-forte gravada por I. Cruikshand, 1808, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga




QUE NOME DAR A ESTA GUERRA?


Carlos Guardado da Silva


Comemorando-se o bicentenário da «Guerra Peninsular», os historiadores reflectem sobre este conflito que teve uma dimensão internacional, e que se desenvolveu no contexto das «Guerras Napoleónicas», protagonizadas por França e Inglaterra, as maiores potências, em finais do século XVIII e inícios do século XIX. Dentro da estratégia hegemónica de Napoleão Bonaparte, o domínio da Península Ibérica era fundamental para travar o forte poder marítimo inglês no Atlântico, assim como nos portos comerciais do Mediterrâneo. Pois quem dominava economicamente, tinha igualmente a supremacia política na Europa.
O período (1807-1814) acabou por ser conhecido por três designações: «Guerra Peninsular», a mais generalizada, sobretudo no mundo anglo-saxónico, mas também em Portugal; «Guerra de la Independencia», em Espanha; e «Invasões Francesas» (em número de três ou quatro, se considerarmos, neste caso, a Guerra das Laranjas, em 1801) ou Napoleónicas. Deste modo, a denominação inglesa e portuguesa de «Guerra Peninsular» tem sobretudo em conta a realidade geográfica do conflito, sublinhando o apoio fundamental do exército inglês chefiado por Arthur Wellesley, mais tarde duque de Wellington, para a vitória, quer em Portugal, quer em Espanha.
Geograficamente, a Guerra Peninsular abrangeu toda a Península Ibérica, França com os seus aliados e vassalos, e Inglaterra. Mas este conflito teve uma dimensão europeia e atlântica, enquanto parte das Guerras Napoleónicas, travadas sobretudo entre França e Grã-Bretanha pela hegemonia no continente europeu.
Assim, as designações «Guerras Napoleónicas», «Guerra Peninsular» e «Guerra de la Independência» ou «Invasões Francesas» expressam diferentes dimensões do conflito – europeia, peninsular e nacional – que, apesar das características comuns, teve processos distintos em Portugal e em Espanha.








23/03/09

Texto nº 28 (Jornal BADALADAS, 20 / 03 / 2009)


SIMÃO JOSÉ DA LUZ SORIANO,

HISTORIADOR DAS INVASÕES FRANCESAS (2)

JOSÉ NR ERMITÃO

1.
No anterior artigo referi que dos 19 volumes que compõem a História da Guerra Civil... sete (do 4.º ao 10.º volumes) são dedicados às invasões francesas e guerra pe-ninsular. No entanto, os 3 primeiros são também importantes pois neles são descritas as movimentações diplomáticas e militares do país no quadro da situação político-militar eu-ropeia resultante da Revolução Francesa e que desembocaram na 1.ª invasão.
Neles critica quer o oportunismo da Inglaterra, que tanto invoca a aliança com Portugal como a seguir o despreza, segundo os seus interesses, quer a incapacidade do regime absolutista e a sua subserviência para com aquele país. Sobre o governo diz «(os povos estavam) magoados de verem conduzir a nação de ruína em ruína, sacrificada aos caprichos de um governo despótico, ordinariamente inepto e corrupto»; sobre o príncipe regente, futuro João VI, chama-lhe «frouxo e irresoluto», «inexperiente e incapaz de to-mar por si uma resolução... a sua natural irresolução era acompanhada de muita dissimulação... bem longe de promover a união ministerial o regente adoptou o sistema oposto».
As relações com os ingleses e os seus actos são em geral assim referidos: «... sua subserviência (do governo português) para com o inglês e humilhações e vexames por que este o fez passar»; «...má disposição do governo inglês em nos auxiliar»; «duro abandono em que a Inglaterra deixou ficar este reino em tão triste conjuntura...» Enfim, se os franceses eram rapaces, a perfídia inglesa não lhes era inferior, nem a rapacidade britânica sobre a Madeira e a Índia portuguesa foi menor...
Sobre a ida para o Brasil da família real e governo tem uma posição muito crítica: «A família real..., desejando evitar o golpe que tão seriamente a ameaçava, procurou precipitada abandonar a foz do Tejo; e como porta que abriu para novas, mais pesadas e duradouras desgraças, a nação viu... que o governo, em vez de se abrigar a qualquer ilha do Atlântico, se tinha deixado arrastar pelos insidiosos conselhos ingleses, indo transformar os sertões do Brasil em largos campos de ruína para este reino...». Note-se o anti-inglesismo do autor, que não perde uma oportunidade para o afirmar.
2.
O 4.º, 5.º e 6.º volumes incidem sobre as Invasões e os acontecimentos que lhes são consequentes ou coetâneos; o 7.º e 8.º volumes referem a continuação da guerra mas no quadro hispânico; o 9.º e 10.º contêm o conjunto de documentos de suporte dos volumes anteriores.
Apesar de caracterizar a presença francesa em termos de violência, pilhagem, roubo, tirania e perda da independência nacional e de assinalar bem a revolta popular contra ela, vê também as consequências positivas da sua presença, na perspectiva da afirmação das ideias liberais: «Foi então que as armas do imperador dos franceses nos trouxeram os verdadeiros e mais profundos germens das novas e liberais doutrinas, li-gando os naturais do país em associações secretas e políticas, que pouco a pouco se foram ramificando e estendendo entre as pessoas de maior reputação e mérito nas superiores classes da sociedade, particularmente entre militares».
3.
Os movimentos de sublevação popular, que formam juntas governativas locais e restauram a soberania nacional por todo o Norte e Sul do país, são descritos com pormenor, como também as suas debilidades: a desunião entre as diferentes juntas, a falta de comunicação entre elas, a sua fraqueza militar e os tumultos populares, sobretudo no Norte, que num caso ou outro põem em causa a estrutura socio-política vigente. A par da violência repressiva de Loison refere também a capacidade da guerrilha, em Mesão Frio, que o acossa e obriga a retroceder. Escreve: «... a nação portuguesa... não hesitou em prontamente se levantar contra o jugo estrangeiro com tal união e força... e tão feliz êxito que restituiu Portugal à sua antiga independência... (mas) não seria fácil alcançá-lo... se não tivesse sido precedida da insurreição espanhola e sobretudo apoiada pelos ingleses... vindo (estes) a identificar com a nossa, a defesa da sua mesma causa».

01/03/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - III - FRENTE OESTE 19 Fev 2009


Grupo de patriotas planta um "Maio da Liberdade". Gravura francesa, finais séc. XVIII


VENTOS DE LIBERDADE
Antecedentes da Guerra Peninsular

Em França, durante o período da Convenção (1792-1795) o apelo à participação popular para viver os acontecimentos que estavam a mudar o seu quotidiano foi recebido com entusiasmo. Proliferam os símbolos que todo o patriota se orgulha de ostentar: o “barrete frígio”, o “vestuário”, as “rosetas” tricolores que se afirmam nas lapelas e chapéus…
De entre os novos símbolos, um dos mais famosos, “a árvore da Liberdade” ou “Maio da Liberdade” readapta o uso de plantar, durante a noite, em frente da casa de uma namorada, de um vizinho ou de um inimigo uma árvore, o tradicional “Maio”. Deste costume, que coincidia com o início da Primavera e, amorosa ou cruelmente, traduzia em laços, fitas, objectos, papéis escritos, as mensagens, os dizeres, as injúrias, que de viva voz não havia coragem para assumir, irão os patriotas reavivar o fervor popular. Por toda a França se passaram a realizar as “festas cívicas”, plantando árvores nas vilas e cidades com fitas, laços, rosetas tricolores e palavras de incentivo e louvor aos actos e personagens da Revolução, mas também de verdadeiras ameaças aos seus opositores.
O processo revolucionário continua a sua marcha. Ao terminar funções, a Convenção aprova uma nova Constituição em 1795 sob o lema “ liberdade, igualdade, propriedade” dando início a uma nova etapa da Revolução Francesa – o Directório. Na guerra que a França sustenta na Europa começa a ganhar proeminência o nome de um general – Bonaparte.
O alastramento das ideias revolucionárias começou a ser objecto de preocupação por parte das monarquias absolutas logo a partir de 1793, e principalmente após a condenação à morte de Luís XVI. Pode-se, assim, compreender a acção do Intendente Geral da Polícia, Pina Manique, que tenta travar a todos os níveis a introdução em Portugal dos costumes, modas, opiniões, obras literárias ou quaisquer outras formas de contacto com as “perigosas” ideias. A França é, apesar de tudo, a grande referência cultural da época. Para alguns, muito poucos, espíritos iluminados que se reúnem em tertúlias e cafés, as ideias de igualdade e liberdade são objecto de discussão e defesa acalorada mas não põem em causa a ordem instituída.
Não será, portanto, de estranhar que esses homens ditos “afrancesados” associem a entrada na cidade de Lisboa, das tropas comandadas por Junot, ao sopro dos desejados ventos de Liberdade!

Manuela Catarino

24/02/09

Texto nº 26 ( Jornal "BADALADAS", 13 / 02 / 2009)




REVOLTAS POPULARES NO ALGARVE CONTRA OS FRANCESES DE JUNOT

Henrique Vieira*

Junot ocupou Portugal a partir de finais de Novembro de 1807. Os actos que se seguiram foram os do ocupante que procura neutralizar qualquer possibilidade de revolta: desarmamento geral, imposição da lei marcial com julgamentos sumários que espalham terror, lançamento de pesados impostos. Junot fixou o quartel-general em Lisboa mas as tropas francesas e espanholas espalharam-se pelos principais pontos do país. O Algarve foi inicialmente ocupado pelo general espanhol Campigny mas, depois de um desentendimento com os franceses, são estes que vêm a fixar-se em Faro, sob o comando do general Maurin.
Nos primeiros dias de Março de 1808, este general lança um tributo mensal de 1.200$000 reis, a ser pago pelas comarcas de Faro, Tavira e Lagos, para o chamado prato do governador (para o sustento da sua casa e estado), para além de outros impostos diversos. Tudo o que era ouro e prata das igrejas passou para as mãos dos franceses, sob o pretexto que eram mais úteis no fabrico de moedas de ouro e prata do que no sítio onde estavam. Destes actos ainda hoje os mais antigos utilizam as expressões “Roubar à grande e à francesa” e “Tens mais artes que os Bonapartes”.

Entretanto em Espanha, a 2 de Maio, inicia-se a sublevação contra a ocupação napoleónica e a 26 processa-se a Revolta da Andaluzia estabelecendo-se, em Sevilha, uma Suprema Junta de Governo que, a 6 de Junho, declara guerra à França, em nome de Fernando VII, Rei de Espanha. Em Julho os franceses, até aí invencíveis, sofrem uma grande derrota em Bailén, Espanha. As notícias destes acontecimentos chegam rapidamente ao Algarve. Junot ordena a Maurin que concentre os seus homens nas fortalezas do Guadiana, pelo que passam a ser pequenos os contingentes franceses que ficam nas cidades e fortalezas de defesa da costa. Por esta altura a armada inglesa mantém uma vigilância permanente nas costas algarvias e nas da Andaluzia, dificultando ao máximo o abastecimento dos franceses. O povo, insofrido com a ocupação, esperava apenas um rastilho para incendiar a revolta. Ele surge quando, em 12 de Junho se iniciam os preparativos para a festa de Santo António, em Olhão. João da Rosa, ao armar o andor para colocar o Santo, “olhando para as armas reais que estão na dita capela e se achavam tapadas e pregadas com um painel da Senhora da Conceição, pô-las a público, sem olhar a mais nada e somente confiado em Deus”. No dia 13 quando os marítimos se dirigiam para a festa e vendo tal acto, foram para a praia e embandeiraram todas as embarcações com a bandeira portuguesa e lançaram vivas ao Príncipe Regente e à Liberdade.
Quatro dias depois o tenente – coronel José Lopes de Sousa, governador da praça de Vila Real de Santo António, que estava em Olhão há dois meses, ao dirigir-se com a sua família para a missa do Corpo de Deus, reparou que alguns marítimos tentavam ler um edital que estava fixado à porta da igreja, no qual Junot incentivava os portugueses a aliarem-se aos franceses contra os espanhóis revoltosos. Lopes de Sousa rasga o cartaz e diz: -”Já não merecemos o nome de portugueses e já não há homens do mar como os antigos!” ao que respondem os presentes que “eram homens como os seus antecessores, fiéis e leais a Sua Majestade, por quem estavam prontos a derramar a última pinga de sangue (…). Logo, sem mais demora, correu cada um quanto mais podia a rasgar os editais; subindo à torre puseram-se a tocar a rebate e todos a uma voz puseram-se a clamar: Viva Sua Majestade e o Príncipe Regente, Nosso Senhor, Dom João de Portugal; Viva toda a Família Real; Vivam todos os nossos governos portugueses que foram fiéis ao nosso amado Príncipe; morra toda a nação francesa”.

A partir daqui desenrolam-se múltiplos confrontos. Os franceses estão agora perante uma população exaltada e disposta a tudo para recuperar a liberdade. Olhão, mas também Faro, Tavira e Vila Real de Santo António, entre outras localidades, sem qualquer apoio militar, desgastam a tropa francesa com acções constantes de guerrilha, infligindo baixas entre os soldados inimigos. Um barco de Olhão, com 17 tripulantes, mete-se ao mar e leva ao Príncipe Regente no Brasil, novas do Algarve em armas. Acto heróico que ainda hoje se evoca no nome de Vila de Olhão da Restauração concedido pelo Príncipe.
Por todo o lado os franceses não mais terão descanso até serem obrigados a abandonarem o país, após a Convenção de Sintra, em finais de Agosto de 1808.

* Professor

05/02/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - I / 5 Fev 2009 - FRENTE OESTE




GUARDAR BEM VIVA A MEMÓRIA


Entre o Campo Grande e o início da Avenida da República, em Lisboa, ergue-se o monumento aos heróis da Guerra Peninsular, inaugurado em 1933. A ideia da sua construção nasceu em 1908, na comemoração do 1º centenário daquela guerra. Os autores, o arquitecto Francisco Ferreira e o escultor José de Oliveira Ferreira, procuraram exprimir, no estilo da época, a gratidão para com o povo e os militares portugueses que enfrentaram os poderosos exércitos napoleónicos.
Comemoramos agora os 200 anos destes acontecimentos. Não se trata de festejar mas sim de evocar, guardar bem viva a memória de um tempo em que Portugal foi invadido três vezes, a Coroa real e as suas elites embarcaram para o Brasil (em fuga ou obedecendo a um desígnio estratégico?) e ao povo foi pedido que sofresse e resistisse. Foi o tempo das Invasões Francesas, também conhecido por Guerra Peninsular, no início do século XIX. Recordemos sucintamente:
Andoche Junot, no Outono de 1807, atravessa a Espanha, entra pela Beira Baixa com um exército de 25000 homens e tenta chegar a Lisboa para aprisionar a família real portuguesa. Quase consegue: dois dias antes o Príncipe Regente D. João, a família e cerca de 15000 pessoas em pânico haviam embarcado para o Brasil. Em 1809 dá-se a segunda invasão, comandada pelo general Soult que entra por Trás-os-Montes com o objectivo de ocupar o Porto e descer depois à conquista de Lisboa. Enfrenta uma resistência desorganizada mas tenaz, e é obrigado a retirar. Um ano depois é Massena que comanda a terceira invasão mas encontra no seu caminho as Linhas de Torres Vedras, uma formidável obra de engenharia militar. Não consegue passar em direcção a Lisboa e retira, perseguido pelas forças luso-britânicas comandadas pelo general inglês Arthur Wellesley, duque de Wellington.
Estes acontecimentos marcaram todo o século XIX português e moldaram a nossa contemporaneidade. E porque é necessário alimentar e manter a nossa memória colectiva, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, no âmbito da sua missão e em colaboração com o Frente Oeste, vai publicar semanalmente neste espaço a rubrica IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR, com o objectivo de divulgar alguns conhecimentos sobre esta época tão marcante da nossa História.

J. Moedas Duarte

26/12/08

Texto nº 22 ( Jornal "BADALADAS", 12 / 12 / 2008 )



A COMEMORAÇÃO DO PRIMEIRO CENTENÁRIO DA GUERRA PENINSULAR



Célia Reis *


As comemorações do primeiro centenário da Guerra Peninsular inscreveram-se num movimento memorativo que vinha já do século precedente e que procurava realçar a recordação dos grandes feitos, individuais ou colectivos, num percurso que se queria que conduzisse a uma tomada de posição patriótica.
Neste contexto progressivo, o momento vivido em 1908 acentuava a necessidade de uma tomada de posição unificadora, compreendida pelos organizadores das comemorações, dada a crise existente, que assumira maior expressão no Regicídio e na subida ao trono de D. Manuel II.
A iniciativa da comemoração da guerra peninsular iniciara-se na Revista Militar, para depois se alargar a uma dimensão maior, que acabou por se concretizar através de uma Comissão nomeada por portaria de Maio de 1908. Foi assim que, numa estratégia mais alargada, Torres Vedras e o Vimeiro foram dos primeiros palcos em que se comemoraram os actos relativos às invasões francesas.
No dia 21 de Agosto de 1908 passou um século da batalha do Vimeiro, facto marcante para o términus da invasão comandada por Junot. Nessa data chegaram a Torres Vedras, vindos de comboio, o rei D. Manuel II, seu tio, infante D. Afonso, o Presidente do Conselho e os Ministros da Guerra, dos Estrangeiros e das Obras Públicas, entre outros elementos políticos e militares. À sua espera estavam as autoridades civis, militares e religiosas locais, incluindo os administradores de Torres Vedras e Lourinhã.
Entre músicas que tocavam no coreto, o rei seguiu de automóvel a «grande velocidade», no meio de algumas censuras da oposição, porque não se deixou ver por quem o esperava, nem sequer pelas damas que estavam à janela.
No Vimeiro repetiu-se a recepção pelas autoridades, fazendo-se as apresentações num pavilhão aí montado. Depois foi inaugurado o monumento assinalando a batalha que aí tivera lugar cem anos antes, sendo o auto assinado na barraca aí armada, na mesma mesa onde, em 1808, se tinham firmado os preliminares da paz. Entre os vários discursos ouviu-se o rei, relembrando os grandiosos feitos pela independência portuguesa e recorrendo a Os Lusíadas para mostrar a sua vontade de ser «rei de tal gente» colocando-se sempre ao lado da mesma. Estavam também formados os representantes dos corpos militares que tinham tomado parte na batalha: Artilharia 4, Cavalaria 6, infantaria 12, 21 e 24.Rodevavam-nos muita população desejosa de ver o rei, que, agora, se aproximou dos populares, no meio de grande contentamento.
O regresso a Torres Vedras fez-se novamente de automóvel, levantando nuvens de pó que ia pousando sobre a comitiva.
Na vila, o almoço foi servido no Casino, na Rua Paiva de Andrade, ao som da música. Depois de novos discursos, o monarca, no meio de numerosa multidão, dirigiu-se à Câmara Municipal, onde ouviu a saudação do respectivo presidente, cónego António Francisco da Silva.
O passo seguinte foi a deslocação, a pé, à igreja da Graça, enquanto as músicas tocavam e a população continuava a encher as ruas. No templo recebeu os cumprimentos dos padres dos estabelecimentos do Barro e de Varatojo, das irmandades, etc.
Daqui partiu para os Cucos, para visitar as termas, regressando a Lisboa pouco depois das 16 horas, no comboio[1].
Posteriormente, as comemorações continuaram, relembrando outros actos relativos às invasões francesas. Assim sucedeu, por exemplo, no dia 15 de Setembro, em Lisboa, recordando a retirada das tropas de Junot com o lançamento da primeira pedra do monumento relativo a estes acontecimentos. O rei esteve igualmente presente.
Posteriormente, até 1914, assistiu-se a numerosos actos disseminados pelo país, nas terras que pretenderam associa-se aos eventos, assim como à inauguração de outros monumentos e à edição de medalhas, postais, gravuras, etc. Em 1910 distinguiram-se ainda a realização de duas exposições em Lisboa, uma bibliográfica (para a qual o rei também contribuiu com alguns livros da sua biblioteca) e outra histórica.
Saliente-se que, relativamente aos acontecimentos que tiveram lugar em Torres Vedras e no Vimeiro no dia 21 de Agosto de 1908, um torriense coevo organizou uma álbum com todos os elementos que recolheu, como fotografias, recortes de jornais, etc., o qual ofereceu à Câmara Municipal e se encontra na Biblioteca Municipal.

* Professora e investigadora de História Local

[1][1] Alguns dos elementos relativos a esta presença régia podem ser encontrados no Museu Leonel Trindade, em Torres Vedras.

Texto 21 ( Jornal "BADALADAS", 14 / 11 / 2008 )



MANIFESTO DE DECLARAÇÃO DE GUERRA À FRANÇA

José NR Ermitão

No dia 1 de Maio de 1808, cerca de sete semanas depois da Corte se ter estabelecido no Rio de Janeiro, o Príncipe Regente assinou um Manifesto constituído pela exposição e justificação (perante as potências europeias, os portugueses e «a mais remota posteridade») da conduta política e diplomática de Portugal relativamente à França e por uma declaração formal de guerra a este país.
Com este Manifesto, a Coroa Portuguesa pretendia esclarecer «a pureza da sua conduta» e o princípio adoptado de «evitar uma inútil efusão de sangue dos seus povos». E demonstrar que, perante os acontecimentos revolucionários passados em França e perante Napoleão, «
procurou sempre guardar a mais perfeita neutralidade».
A demonstração procede por via da exposição do historial das relações entre Portugal e a França, com a denúncia da permanente má fé do lado francês, indo até ao desrespeito do Tratado de 1804 pelo qual reconhecia a nossa neutralidade. Acusação de má fé extensiva à Espanha por ter feito «causa comum com a França».
Em contrapartida, o Manifesto refere a sinceridade do comportamento português e a exemplaridade das relações luso-britânicas, a disponibilidade do nosso tradicional aliado em compreender a nossa posição e em socorrer-nos nos momentos difíceis. De permeio vai tecendo críticas à incapacidade da Europa em perceber os desígnios expansionistas de Napoleão e em unir-se contra ele:
«A Europa devia... prever que a sua escravidão desde Lisboa a Petersburgo estava decidida no Gabinete das Tulherias e que era preciso fazer causa comum para destruir o Colosso...».
O Manifesto descreve depois em pormenor quer as exigências e ameaças com que o governo napoleónico pressionou o nosso país para o fazer aderir ao Bloqueio Continental e declarar guerra à Inglaterra, quer as tentativas feitas pela Coroa no sentido de um acordo para manter a neutralidade – o que Napoleão recusa.
Perante a ameaça de invasão militar, a Coroa acaba por ceder às exigências francesas (fecho dos portos aos navios ingleses) na ideia de que «a França, tendo conseguido essencialmente tudo o que tinha pretendido, não teria lugar de exigir mais coisa alguma». Mas Napoleão, desrespeitando a boa fé portuguesa e violando todas as regras de conduta entre os governos, invade Portugal «sem nenhuma declaração preliminar (de guerra)». Para salvaguardar a sua integridade, a Família Real não teve outra alternativa senão passar ao Brasil.
No final, considerando o indigno procedimento do imperador francês, a «usurpação de Portugal e a assolação e saque que ali se pratica», a abolição de governo instituído e dos direitos da Coroa, a imposição de uma pesada contribuição a um país «que não opôs resistência alguma à entrada das tropas francesas e que por isso não podia considerar-se em estado de guerra» – o Príncipe Regente faz a seguinte declaração:
«S.A.R.[Sua Alteza Real] rompe toda a comunicação com a França;... e autoriza os seus vassalos a fazer a guerra por terra e mar aos vassalos do imperador dos franceses.
S.A.R declara nulos e de nenhum efeito todos os tratados que o imperador dos franceses o obrigou a assinar... pois ele os infringiu e nunca os respeitou.
S.A.R não deporá jamais as armas senão de acordo com o seu antigo e fiel aliado, S. M.[Sua Magestade] Britânica; (...)».

SIGNIFICADO DO MANIFESTO

Este Manifesto – um documento de auto justificação da posição de Portugal e um violento libelo acusatório contra a França – tem um significado importante: a Coroa Portuguesa define de forma clara, ao declarar a guerra à França, a sua situação no concerto das nações no quadro das lutas europeias, posicionando-se irreversivelmente ao lado da Inglaterra. Outra coisa não seria de esperar depois da Convenção secreta de Londres, do apoio dado pelo governo londrino à transferência da Corte portuguesa para o Brasil e da invasão e ocupação do país pelos franceses.
O Manifesto será seguido, a 10 de Junho, de um decreto declarando a guerra a Napoleão e autorizando o apresamento dos bens dos franceses; mas já antes, a 22 de Março, era ordenada a conquista da Guiana Francesa, a norte do Brasil, a efectuar com o apoio inglês.

19/08/08

Texto 15 ( Jornal "BADALADAS", 15 / 08 / 2008 )

DOUTRINAS MILITARES EM CONFRONTO NA GUERRA PENINSULAR:

OS INGLESES


Pedro Fiéis *


Do lado inglês temos uma perspectiva totalmente diferente, forjada principalmente à custa das duras lições apreendidas na Guerra de Independência dos E.U.A. e que perspectivam algo que entendemos como um exército moderno.
Por outras palavras, não existe um recrutamento obrigatório, mas sim o profissionalismo. Nas palavras de sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, o pior da sociedade inglesa alistava-se, mas sob o enquadramento de um regimento operava-se uma enorme transformação. A vida militar era dura, mas oferecia alguns privilégios como o salário regular, mais os prémios por vitórias alcançadas, para além de os soldados poderem ter consigo as suas mulheres e de as primeiras escolas públicas terem surgido nos regimentos.


Um treino longo e rigoroso fazia destes homens uma máquina disciplinada, capaz de manobrar mesmo nas mais difíceis circunstâncias, algo que os franceses não faziam. Depois era igualmente dado um grande ênfase ao poder de fogo. A India Pattern, o mosquete mais utilizado na Península, tinha um calibre de 19.3mm, por oposição ao mosquete Charleville francês, com um calibre de 17.5mm.


A organização das tropas era em tudo semelhante à francesa, a diferença residia apenas no seu uso em batalha. Foi com as milícias dos E.U.A., que os ingleses aprenderam aquela que viria a ser a sua táctica mais bem sucedida durante toda a Guerra Peninsular, a da contra encosta. Ou seja, no topo das colinas colocavam apenas as unidades de infantaria ligeira, mantendo os restantes regimentos formados em linha protegidos na referida contra encosta.


No momento certo, estes homens colocavam-se no topo e disparavam 3 salvas em 1 minuto, mais do que suficientes para travar qualquer avanço. Compensavam deste modo a fraca precisão de tiro dos mosquetes, algo de que o Board of Ordnance (organismo que tutelava o fabrico das armas) tinha plena consciência quando encomendou a “Baker”, uma arma que veio introduzir o conceito de espingarda.


Ao seu menor tamanho aliava um cano estriado que lhe conferia a tão necessária precisão. A sua fama deve-se igualmente a novas unidades designadas por Riflemans, derivação de Rifle, que a utilizavam em exclusivo e que em batalha actuavam como os Voltigeurs franceses, mas com a vantagem de serem muito mais precisos nos seus tiros, conseguindo muitas vezes eliminar os oficiais inimigos.


A surpresa final reservada para os franceses, consistia numa nova munição utilizada pela artilharia, a granada Shrapnel, nome do seu inventor, que a criou para que a artilharia se pudesse defender da cavalaria, mas que em muito ultrapassou este propósito. Consistia numa esfera oca, cheia de pólvora e balas, na qual se introduzia um rastilho. A perícia do artilheiro em calcular distâncias era fundamental, pois tudo bem feito a bala explodiria ainda em voo com um efeito de cone. As colunas francesas, na batalha do Vimeiro, foram as primeiras a experimentar o seu terrível efeito.


Quanto aos abastecimentos, Wellesley dava-lhes a maior importância pois sabia, tal como Napoleão, que os homens necessitavam de uma boa alimentação para continuarem a lutar. A diferença residia no facto de o primeiro continuar a depender das linhas de comunicação para os obter, mantendo por isso oficiais do comissariado junto do seu Estado-maior e junto dos regimentos, para que nada faltasse.


Na Primeira Invasão, por exemplo, a esquadra fornecia os viveres, estabelecendo-se pontos onde eram criados depósitos que supriam as necessidades por 3 dias. A aquisição de outros bens junto da população, deveria ser paga no acto, sob penas severas em caso de incumprimento.

* Professor e Investigador de História

NOTA DA COORDENAÇÃO:

Este artigo completa o da passada semana, que se havia debruçado sobre a organização militar dos franceses.
Recordamos que estes escritos têm como objectivo divulgar conhecimentos sobre a Guerra Peninsular. Não são trabalhos de investigação ou de abordagem exaustiva dos temas. Os nossos leitores que quiserem aprofundar as questões tratadas poderão encontrar bibliografia abundante nas livrarias. No nosso blogue LINHAS DE TORRES procuramos divulgar a que vai sendo publicada e que chega ao nosso conhecimento.


03/08/08

VISITA GUIADA AOS CAMPOS DE BATALHA

Uma breve nota para esta actividade que decorreu no dia 19 de Julho p.p.
Trinta e cinco pessoas calcorrearam os caminhos da Roliça e do Vimeiro, com o excelente guia que é Pedro Fiéis, investigador de História, especialista da Guerra Peninsular.
Não havia sinais de guerra, claro. Mas lá estavam os lugares onde tantos homens se defrontaram até à morte. Paisagens de grande beleza que acentuam o absurdo do confronto armado. Só um grande silêncio de dorida memória pode erguer-se como tributo de homenagem a tantos heróis anónimos que regaram de sangue aqueles sítios.



Mapa da Batalha da Roliça

Mapa da Batalha do Vimeiro


Moinho de Brilos, Bairro de Nº Srª da Luz, (Óbidos). Terá sido aqui que se deu o primeiro confronto entre ingleses e franceses na Guerra Peninsular



Roliça. Zona do primeiro ataque inglês às posições francesas



O professor Pedro Fiéis explica

Alto do Picoto, na Columbeira, perto da Roliça. Segundo ataque às posições francesas


Memorial ao Coronel Lake, comandante do 29º regimento inglês, morto na batalha da Roliça. Edificado, anos mais tarde, por antigos companheiros de armas que re-visitaram o lugar da batalha. Ainda hoje lá está, no meio dos campos...



Monumento comemorativo da batalha do Vimeiro, erigido naquele lugar aquando do centenário, em 1908

Aspecto actual da casa onde foi assinado o primeiro documento do armistício, no Vimeiro, e que, depois de ratificado, ficou conhecido por Convenção de Sintra



Fotos (C) Vedra

Texto 14 ( Jornal "BADALADAS", 01 / 08 / 2008 )






DOUTRINAS MILITARES EM CONFRONTO

OS FRANCESES


Pedro Fiéis*



Durante a Guerra Peninsular, acima dos dois exércitos em confronto – o francês e o inglês - estão duas muito distintas doutrinas de guerra.
Em França, a derrota na Guerra dos Sete Anos vai provocar um forte abalo em todas as estruturas militares e levar ao aparecimento de grandes estrategas que vão revolucionar a forma de combater no século XIX.
Guibert defendia a ideia que nação hegemónica seria aquela que possuísse um exército de conscrição nacional, organizado em divisões autónomas, o que lhe garantiria a mobilidade. Boucert pega nesta ideia e vai mais longe defendendo que a dispersão seguida de uma rápida concentração surpreenderia o inimigo. Por sua vez, Gribevaul com os irmãos Du Teil, são fundamentais para o progresso registado na artilharia.
Napoleão Bonaparte pega em todas estas teorias, aprofunda-as e testa-as com sucesso nos mais diversos campos de batalha europeus. Mais do que divisões, ele criou os Corpos, que agrupavam várias divisões e que congregavam infantaria, cavalaria e artilharia.
Com várias frentes de batalha ao longo de sucessivos anos, Napoleão sabia que o treino que os recrutas recebiam era básico, mas desta limitação fez a sua força, dizendo mesmo aos seus generais que os mosquetes não eram a melhor arma do soldado, mas sim as suas botas.
Por outras palavras, a rapidez com que movimentava o exército surpreendia o inimigo. O facto de ter, por exemplo, 3 Corpos dispersos numa frente de 200 km, para dias depois os ter concentrados numa frente de apenas 50 km, confundia o seu opositor, garantindo-lhe superioridade no campo de batalha, num local que na maior parte das vezes era escolhido por ele.
As forças francesas organizavam-se do seguinte modo: a infantaria dividia-se em ligeira e pesada. A primeira era a mais móvel, capaz de actuar de forma dispersa, reagrupando-se rapidamente quando tal fosse necessário e englobava os Voltigeurs, atiradores de elite. A segunda era a infantaria de manobra, a espinha dorsal do exército. Num ataque napoleónico típico, uma cortina de Voltigeurs fustigava as linhas inimigas e protegia o avanço das colunas de infantaria, que ofereciam assim uma frente reduzida ao fogo contrário.
Para a cavalaria, que tradicionalmente era utilizada para reconhecimento e para dar a estocada final no inimigo, estava reservado agora um novo papel, o de romper com as linhas inimigas. Dividia-se para isso em pesada, com os Cuirassiers, por exemplo, que protegidos por couraças conseguiam ser devastadores em batalha. E a ligeira, Chasseurs à Cheval e Dragons, entre outros, os últimos também treinados para desmontar e lutar como infantaria.
Finalmente a artilharia, com o denominado sistema Gribevaul. Para além das pesadas armas de cerco, contava ainda com canhões de tiro directo e morteiros, para o tiro em arco capaz de ultrapassar obstáculos. Existiam ainda peças que dado o seu menor calibre seguiam a infantaria no seu avanço, em muito contribuindo para aumentar o poder de fogo.
A mobilidade não poderia no entanto ser atingida se o exército estivesse dependente das longas e lentas linhas de abastecimento. Por isso, cada Corpo dependia de si próprio para o respectivo abastecimento, papel que em marcha era normalmente atribuído à cavalaria. Para além disso os soldados recebiam treino específico no que concerne ao cultivo de cereais e ao fabrico do pão.
Estas características aqui resumidas explicam a superioridade militar francesa nos campos de batalha da Europa no início do século XIX.
* Professor, Investigador de História

29/07/08

Texto 13 ( Jornal "BADALADAS", 25 / 07 / 2008 )

Príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI)



O príncipe regente D.João comunica a passagem da família real para o Brasil

JOSÉ NR ERMITÃO *

No dia 24 de Novembro de 1807, com o exército francês já próximo de Abrantes
e com o conhecimento do teor do Tratado de Fontainebleau – segundo o qual a
Casa de Bragança deixava de reinar e o país seria dividido em três partes – O
Conselho de Estado reúne e delibera «acelerar o embarque... da Real Família para
o Brasil». D. João, pelo decreto que se transcreve, comunica o facto ao país, nomeia
uma Junta Governativa, assina um conjunto de instruções (uma delas recomendando
que o exército francês seja bem recebido) e deseja felicidades aos
portugueses.
Do decreto são apresentados unicamente os trechos mais relevantes; parágrafos,
grafia e pontuação actualizadas.

REAL DECRETO DE 26 DE NOVEMBRO DE 1807

Tendo procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade de que
até agora têm gozado os meus fiéis e amados vassalos, e apesar de ter exaurido o
meu real erário e de todos os mais sacrifícios a que me tenho sujeitado, chegando ao
excesso de fechar os portos dos meus reinos aos vassalos do meu antigo e leal aliado
o rei da Grã Bretanha, expondo o comércio dos meus vassalos à ruína e a sofrer por
este motivo grave prejuízo nos rendimentos da minha coroa, vejo que pelo interior do
meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei de Itália, a quem eu me
tinha unido no continente na persuasão de não ser mais inquietado, e que as mesmas
se dirigem a esta capital.
Querendo eu evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma
defesa que seria mais nociva que proveitosa, servindo só para derramar sangue em
prejuízo da humanidade e capaz de acender mais a dissenção de umas tropas que
têm transitado pelo reino com o anúncio e promessa de não cometerem a menor
hostilidade; e conhecendo igualmente que elas se dirigem contra a Minha Real
Pessoa, e que os meus leais vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu
destes reinos, tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a
Rainha Minha Senhora e Mãe e com toda a Real Família para os estados da América
e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até à paz geral.
E considerando mais quanto convém deixar o governo destes reinos naquela ordem
que cumpre ao bem deles e de meus povos, como coisa a que tão essencialmente
estou obrigado, tendo nisto todas as considerações que em tal caso me são
presentes, sou servido nomear para na minha ausência governarem e regerem estes
meus reinos (
seguem-se os governadores: marquês de Abrantes, Francisco Menezes,
Principal Castro, Melo Breyner, Francisco de Noronha e outros)...Tenho por certo
que meus reinos e povos serão governados e regidos por maneira que a minha consciência
seja desencarregada e eles, Governadores, cumpram inteiramente a sua
obrigação, enquanto Deus permitir que eu esteja ausente desta capital... na conformidade
das Instruções que serão com este decreto por mim assinadas.
(Local, data
e assinatura.)

(Seguem-se as Instruções, constituídas por generalidades sobre a administração
imparcial da Justiça, guarda dos privilégios concedidos, modo de tomada de decisões,
nomeação de pessoas adequadas para os cargos de letras, oficiais da justiça,
fazenda e exército; e pela instrução específica que se segue).

(Os governadores) Procurarão quanto for possível, conservar em paz este reino;
e que as tropas do imperador dos franceses e rei de Itália sejam bem aquarteladas e
assistidas de tudo o que lhes for preciso enquanto se detiverem neste reino, evitando
todo e qualquer insulto que se possa perpetrar e castigando-o rigorosamente quando
aconteça; conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com o exército
das nações com os quais nos achamos unidos no continente.
(...) Confio muito... que meus povos não sofrerão incómodo na minha ausência; e
que, permitindo Deus volte a estes meus reinos com brevidade, encontre todos
contentes e satisfeitos, reinando entre eles a boa ordem e tranquilidade que deve
haver entre vassalos que tão dignos se têm feito do meu paternal cuidado. Palácio de
Nossa Senhora da Ajuda em 26 de Novembro de 1807.
Com a assinatura do Príncipe
Regente.

* Professor
Nota da Coordenação:
Os textos que aqui vimos publicando não obedecem necessariamente
a uma ordem cronológica. Eles resultam da abordagem pessoal e da disponibilidade
dos nossos colaboradores, a partir da imensa bibliografia existente sobre a
Guerra Peninsular. São olhares parcelares e dispersos que, no final da série, em 2010, e
depois de ordenados por temas e datas, poderão constituir a base de um livro que ficará
como testemunho da nossa evocação histórica do Bicentenário das Invasões Francesas.

15/05/08

TURRES VETERAS - História da Guerra Peninsular


(Clicar para aumentar)


A falta que o scaner faz! Por isso ainda não colocámos aqui o cartaz - belíssimo! - e o programa da 12ª edição do Encontro de História Local TURRES VETERAS, a realizar dias 16 e 17 de Maio no Auditório dos Paços do Concelho, em Torres Vedras

O tema: HISTÓRIA DA GUERRA PENINSULAR.

A partir de outra fonte aqui ficam o programa e o cartaz.






25/03/08

Texto 5 ( Jornal "BADALADAS", 28/03/2008 )

GUERRA PENINSULAR:
Porque é que Portugal se viu envolvido?

Joaquim Moedas Duarte*

Quando a cabeça de Luís XVI rolou no cadafalso em 21 de Janeiro de 1793, as monarquias absolutas da Europa estremeceram.Com a abolição do poder absoluto do rei e a afirmação da soberania popular desabava o “antigo regime” e a ordem estabelecida. Perante o perigo, as monarquias coligaram-se. Uma luta gigantesca irá sacudir a Europa durante cerca de 25 anos: de um lado a França que, lutando desesperadamente contra o cerco, acaba por aclamar um Imperador, Napoleão, ela que decapitara um rei; do outro as grandes nações – Áustria, Prússia, Rússia, Suécia… – lideradas pela Inglaterra. A Espanha oscila entre os dois, entregue ao calculismo dos seus governantes. É neste vendaval político e militar que Portugal vai ser arrastado, sem possibilidade de fuga.

Nação periférica, Portugal tinha uma enorme importância estratégica devido à situação geográfica e ao império colonial. Se no conserto diplomático os nossos embaixadores pouco contavam e até eram ignorados, as consequências económicas das nossas opções políticas eram cuidadosamente contabilizadas pelos governos beligerantes. Como resultado, a diplomacia portuguesa especializou-se em jogos de equilíbrio, procurando agradar a todos e tentando manter-se oficialmente neutral, embora aliando-se em segredo ora a uns ora a outros. Os cofres da coroa rapidamente foram esvaziados em pagamentos, indemnizações, tentativas de apaziguamento, que não tiveram outro efeito senão pôr-nos mal com deus e com o diabo. Que fazer?

Logo em 1801 a Espanha, que se aliara à França, invade Portugal na intenção clara de nos anexar. Com um exército desorganizado e sem chefes à altura, o país é humilhado e só obtém a paz à custa do território de Olivença e do pagamento de uma quantia exorbitante. Invocando uma secular aliança, os nossos governantes procuram ajuda junto da Inglaterra. Mas esta, que faz? Esperançada em que Portugal desapareça como nação, apressa-se a ocupar os nossos territórios coloniais, bem como a Madeira, só os abandonando quando verifica que a nossa extinção fora adiada.
A aliança anglo-lusa era um enorme equívoco e só viria a falar-se dela quando a Inglaterra viu vantagens nisso. O que aconteceu quando Napoleão decidiu enfrentar a nação rival e provocou a declaração de guerra entre as duas nações em 1803. Portugal ficou entre dois fogos. Para a França nós éramos um protectorado inglês e mais tarde ou mais cedo teria de ocupar o nosso território como forma de enfraquecer a Inglaterra. Para esta, nós devíamos ser fiéis à velha aliança para que os nossos portos e colónias continuassem abertos ao seu serviço. No meio, a nossa diplomacia empenhava-se em garantir a impossível neutralidade.

A Inglaterra tinha um enorme poderio naval, condição necessária à sua sobrevivência. Napoleão sabia que, para a vencer, teria de a enfrentar no mar. Para isso garantiu a aliança da Espanha que lhe facultou uma poderosa armada. O embate deu-se em Outubro de 1805 junto do cabo Trafalgar, no sul da Espanha. A armada franco-espanhola foi desbaratada e Napoleão teve de reconhecer a impossibilidade de invadir a Inglaterra por mar. Restava-lhe a via terrestre e esta passava por Portugal, base de apoio da nação inglesa que ele jurara aniquilar.
O confronto França/Inglaterra agravou-se de novo em 1806. Respondendo a uma política naval hostil da parte da Inglaterra, Napoleão decreta o “Bloqueio Continental”. Esta medida, imposta a todos os países europeus que tivessem litoral, destinava-se a fechar os portos aos navios ingleses, impossibilitando-lhes o comércio e a circulação de pessoas e bens. Portugal ficou mais uma vez entalado entre a espada e a parede, debatendo-se durante meses entre a fidelidade aos ingleses que tão necessários eram para a manutenção das nossas colónias e a inevitabilidade de ceder a uma parte das exigências francesas para evitar a invasão.

Napoleão tratou de garantir a aliança com o governo espanhol, necessária para a passagem do seu exército em direcção a Portugal. Por seu turno, os espanhóis, sempre dispostos a retomar o sonho de anexarem o nosso território, dispuseram-se ao conluio. O resultado foi o Tratado de Fontainebleau, assinado pela Espanha e pela França em Outubro de 1807. Nele se estabelecia que Portugal seria dividido em três lotes. O primeiro, a norte, que se chamaria Lusitânia, seria dado ao rei da Etrúria, como compensação de guerra; o segundo, abrangendo o Alentejo e Algarve, seria para o governante espanhol D. Manuel de Godoy, que ficaria com o título de príncipe dos Algarves. O terceiro lote, com Trás-os-Montes, Beira e Estremadura, ficaria para a França, numa situação a definir mais tarde. As ilhas e colónias portuguesas seriam igualmente divididas entre a França e a Espanha.

Está prestes a iniciar-se a primeira invasão francesa.

* Professor

12/03/08

Texto 4 (Jornal "BADALADAS", 14/03/2008)

FRANÇA E INGLATERRA EM CONFRONTO

José Travanca Rodrigues *

O projecto napoleónico de afirmação da França, no quadro de uma nova Europa era insustentável, pela dimensão geográfica da empresa e pela multiplicidade dos adversários que tinha de enfrentar.
Não podia deixar de contar com a resistência dos principais estados europeus, que metodicamente contra ele se coligaram. Apesar disso, entre 1802 e 1807, venceu e “confederou” retalhos de uma Alemanha ainda frágil e em busca de um ideal nacional; subordinou um Império Austro-Húngaro vasto mas militarmente frágil; hegemonizou as partículas de que se fazia a Itália, perdida em quezílias internas; atraiu a Espanha a uma aliança anti-britânica e acabou por humilhá-la de modo insuportável para o brio espanhol. Tudo isto era muito, mas Napoleão sabia que os seus propósitos não ficariam completos, se não resolvesse os velhos diferendos que opunham a França à Grã Bretanha.
Os Ingleses eram o “génio funesto” da França.
Nos anos que se seguiram à revolução de 1789, a Inglaterra interviera nas sucessivas coligações anti-francesas. Os antagonismos entre as duas potências não eram problema apenas do espaço europeu. Havia entre elas uma longa querela pela partilha dos crescentes mercados coloniais. Em meados do século XVIII, a chamada Guerra dos 7 Anos (1756/1763) provara já que, só pela força, se dirimiriam os apetites dos contendores. Um breve parêntesis: o resultado de então foi premonitório - a Grã Bretanha passaria a ser a sede de uma nova “economia - mundo”, lugar que deixaria de ocupar apenas no dealbar do século XX, quando o eixo passou o Atlântico, para se fixar nos E.U.A..
Era no mar que Napoleão sabia que o seu inimigo irredutível teria de ser enfrentado, gorada a expectativa, ainda pensada, de uma invasão terrestre. Os resultados do confronto foram, desde logo, funestos para a França. Em Aboukir (1795), ao largo do Egipto, primeiro, e depois no cabo de Trafalgar (1805), não longe da costa algarvia, os Ingleses mostraram sobejamente de que lado estava a supremacia. (Porque será que a praça central de Londres se chama “Trafalgar Square” e no seu centro se ergue a estátua do almirante Horácio Nelson?). Era insuportável para os desígnios britânicos a limitação do seu acesso aos principais portos europeus. Para contrariar as aspirações francesas, os governos britânicos apoiam financeiramente os inimigos de França, sem terem se expor demasiado no plano propriamente militar – é a política resumida na frase: “poucas tropas mas muito dinheiro”.
Liberal, parlamentar e já dotada de uma economia estruturalmente capitalista, a monarquia inglesa teme a França napoleónica, mas espera a sua hora de plena acção. Parece entender que, por maior que seja o brilho das vitórias militares de Napoleão no continente, o ajuste de contas final terá de ser com ela. Reparando bem, a vitória maior de Napoleão terá sido a obtida em Austerlitz, em 1805; ora nesse mesmo ano, os Franceses sabiam já o que os esperaria do lado britânico, pois esse é também o ano de Trafalgar.
Em suma, a luta final teria de obrigar Napoleão a vergar a Grã-Bretanha por outros meios.
Meios que conduziram à intervenção napoleónica na Península Ibérica e às Invasões, cujo bicentenário nestes anos se rememoram. Aqui começaria a empalidecer o brilho, afinal efémero, do prodígio francês.
* Professor

Nota:

Este é já o 4º texto, aqui publicado, sobre o Bicentenário das Invasões Francesas. Tal como no princípio anunciámos (25/01/2008), prosseguiremos ao ritmo de dois artigos por mês. Para os leitores que queiram rever estes textos, e ter acesso a mais informações, foi criado na Internet o blogue LINHAS DE TORRES que pode ser acedido com este endereço:
http://linhasdetorres.blogspot.com/

06/03/08

Texto 2 ( Jornal "BADALADAS", 15 / 02 / 2008)


GUERRA PENINSULAR

Carlos Guardado da Silva *




Comemorando-se o bicentenário da «Guerra Peninsular», os historiadores reflectem sobre este conflito que teve uma dimensão internacional, e que se desenvolveu no contexto das «Guerras Napoleónicas», protagonizadas por França e Inglaterra, as maiores potências, em finais do século XVIII e inícios do século XIX. Dentro da estratégia hegemónica de Napoleão Bonaparte, o domínio da Península Ibérica era fundamental para travar o forte poder marítimo inglês no Atlântico, assim como nos portos comerciais do Mediterrâneo. Pois quem dominava economicamente, tinha igualmente a supremacia política na Europa.
O período (1807-1814) acabou por ser conhecido por três designações: «Guerra Peninsular», a mais generalizada, sobretudo no mundo anglo-saxónico, mas também em Portugal; «Guerra de la Independencia», em Espanha; e «Invasões Francesas» (em número de três ou quatro, se considerarmos, neste caso, a Guerra das Laranjas, em 1801) ou Napoleónicas, denominação aquela muito utilizada em Portugal, esta institucionalizada na Nova História Militar de Portugal.
Deste modo, a denominação inglesa e portuguesa de «Guerra Peninsular» tem sobretudo em conta a realidade geográfica do conflito, sublinhando o apoio fundamental do exército inglês chefiado por Arthur Wellesley, mais tarde duque de Wellington, para a vitória, quer em Portugal, quer em Espanha.
Todavia, a historiografia espanhola tem preferido designar o conflito por «Guerra de la Independencia», denominação coeva dos acontecimentos. De certo modo, ao preferir esta designação, a historiografia liberal espanhola deu-lhe um conteúdo romântico, sobrevalorizando a luta do povo espanhol contra o exército invasor de Napoleão, que procurava retirar àquele a independência do território e da sua pátria. Mas também é verdade que José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão, após as abdicações de Baiona, assumiu o trono em Espanha (1808-1813), pondo fim à sua independência, através de uma farsa aparentemente legal de transferência do poder, impondo uma dinastia francesa.
Mais a Norte, dado o desenvolvimento da consciência nacional da Catalunha, já no século XX, institucionalizou-se a denominação popular de «Guerra del Francés» face à «Guerra de la Independencia», permitindo distinguir com grande clareza a diversidade de conflitos que coexistiam então.

Geograficamente, a Guerra Peninsular abrangeu toda a Península Ibérica, França com os seus aliados e vassalos, e Inglaterra. Mas este conflito teve uma dimensão europeia e atlântica, enquanto parte das Guerras Napoleónicas, travadas sobretudo entre França e Grã-Bretanha pela hegemonia no continente europeu.
Assim, as designações «Guerras Napoleónicas», «Guerra Peninsular» e «Guerra de la Independência» ou «Invasões Francesas» expressam diferentes dimensões do conflito – europeia, peninsular e nacional – que, apesar das características comuns, teve processos distintos em Portugal e em Espanha. Foi uma guerra que uniu Inglaterra e os até então (2 de Maio de 1808) inimigos - Portugal e Espanha - contra França. Todavia, a comummente designada 1.ª Invasão de Portugal (1807) foi uma invasão franco-espanhola, como se tratou, em 1801, de uma invasão espanhola, conduzida por Manuel Godoy, ainda que integrada no contexto recuado da Guerra Peninsular.

* Director do Arquivo Municipal de Torres Vedras

Texto 1 ( Jornal "BADALADAS", 25 / 01 / 2008)

MANTER VIVA A MEMÓRIA

Joaquim Moedas Duarte *

De 2007 a 2010 comemoram-se os duzentos anos das Invasões Francesas. É um acontecimento histórico muito referido mas talvez pouco conhecido. No suceder das gerações que gradualmente se afastam e se desinteressam do que as antecedentes viveram, compete aos cultores da História – investigadores, professores… – trazer à memória colectiva o que o tempo vai apagando.

A região Oeste teve papel importante nestes acontecimentos. É legítimo que dela se espere um contributo significativo para a sua divulgação. Isso acontecerá de modos diversos. Os seis municípios em cujo território foram construídas as Linhas de Torres – Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira - já se uniram na “Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres”, cuja apresentação decorreu no passado dia 20 de Novembro, no Museu Militar de Lisboa. Estão a ser organizadas muitas iniciativas com a finalidade de preservar lugares e lembrar acontecimentos. Em Torres Vedras, por exemplo, decorrerá em 16 e 17 de Maio o encontro de História Local TURRES VETERAS XI, dedicado ao tema das Guerra Peninsulares.
Para quem ainda pense que a História é um revolver inútil do passado, ocupação de ratos de biblioteca ou de amantes de velharias, convém lembrar que o seu estudo e divulgação são absolutamente necessários para entender o presente. Não se trata de remexer em feridas mas de cuidar das cicatrizes que ficaram e que fazem parte da nossa identidade colectiva Uma sociedade sem memória é um ser errático e vazio.

O jornal Badaladas não podia alhear-se deste movimento. Por isso, um grupo de pessoas, ligadas ao estudo e ensino da História, uniu-se num projecto comum: a publicação, durante os anos de 2008, 2009 e 2010, de uma rubrica bimensal sobre o tema das Invasões Francesas. Não se propõem fazer investigação de ponta, trazer novos dados, publicar documentos inéditos ou defender interpretações controversas. Pretendem simplesmente DIVULGAR História. Avivar na memória colectiva das gentes do Oeste tudo o que diga respeito às Invasões Francesas, através de artigos feitos a partir da bibliografia existente ou, eventualmente, de outras fontes menos conhecidas. O estilo de abordagem terá em conta a heterogeneidade do público leitor e o suporte escrito em que se publica: um jornal!

A série terá início no próximo dia 14 de Fevereiro. Num primeiro artigo será abordada a definição do conceito tradicional de “invasões francesas” em articulação com o de “guerra peninsular” ou “guerra da independência”. Os artigos seguintes abordarão o contexto internacional e nacional em que se inserem estes acontecimentos, bem como a sua descrição sucinta. A partir daí, os textos terão um carácter mais livre, sem plano prévio de organização, permitindo ao leitor a partilha de conhecimentos em áreas tão diversas como: armamento, batalhas, documentos diplomáticos, episódios, tácticas de guerra, figuras, vestígios monumentais, reflexos na Literatura, etc

Ao propor e realizar esta iniciativa, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV) procura pôr em prática uma das suas orientações de trabalho: congregar vontades para a realização do objectivo comum de defender e divulgar o nosso património histórico.
Manifestamos ao jornal Badaladas que tão bem acolheu esta proposta e aos nossos consócios e amigos que prontamente aceitaram participar nela, o nosso profundo reconhecimento. Em nosso nome e dos leitores a quem servimos.

* Professor