Rafael Salinas Calado foi o primeiro director do Museu Municipal de Torres Vedras, por ele instalado numa sala - que já não existe - anexa da Igreja de S. Pedro.
Do seu livro MEMÓRIAS DUM FERRO-VELHO ( Portugália Editora, Lisboa, s/d, mas com a data de 1947 no preâmbulo do autor) transcrevemos todo o artigo referente à história da aquisição do histórico bufete onde, em 22 de Agosto de 1808, foi assinado o armistício que pôs fim aos confrontos militares da 1ª invasão francesa:
«Se um objecto ou um móvel estão ligados à tradição comprovada de um facto histórico, isto é, a um acontecimento da história nacional, e se esse acontecimento foi uma batalha travada e ganha pela independência da Pátria, esse objecto ou esse móvel são peças históricas de primeira grandeza.
Está nesse caso o Bufete de Maceira, cuja existência muita gente desconhece, não obstante
ter sido trazido a Lisboa nas comemorações centenárias de 1940 e exposto, bem em
destaque, num dos magníficos pavilhões de Belém.
Lá o fui encontrar, e embevecido contemplei esse velho amigo, que, por minha exclusiva
Intervenção, entrou no p¬trimónio nacional, quando o adquiri, para o então formoso Museu Municipal de Torres Vedras, instalado numa das salas mais graciosas do estilo português do século XVIII: a da Irmandade dos Clérigos Pobres anexa à Matriz de São Pedro.
Esta sala, quadrada, era do tipo perfeito da mais pura elegância setecentista; forrada dum alto silhar de belos azulejos, tinha tecto de maceira todo debruado de florões dourados, e como cúpula, os painéis dos quatro evangelistas, da autoria de Bernardo António de Oliveira Goes, filho do ericeirense António de Goes, pintor que trabalhou na opulência joanina de Mafra.
Ali, num dia feliz para a história da arte em Torres Vedras, instalei amorosamente o seu Museu Municipal em 1928. Esta sala não existe já, sacrificada aos arranjos urbanistas da importantíssima vila estremenha, ou ao restauro da velha Matriz de São Pedro, coeva da fundação de Portugal.
O Museu, hoje dirigido pelo meu sucessor Dr. Aurélio Belo, notável arqueólogo e numismata, está certamente em melhores mãos que as minhas, mas pobremente instalado numas divisões escassas da velha e outrora rica Misericórdia local.
Lá se encontra o bufete histórico que me dita estas impressões consagradoras e saudosas.
Quem supuser que os sentimentos de afectividade se podem somente dedicar a seres vivos, engana-se redondamente; eu amo e venero o precioso móvel histórico que contemplei tantas e tantas vezes, sozinho, fechado no Museu, e que eu vi sempre aureolado da sua glória incontroversa.
Depois, cabe-me uma honra que não declino: a de ter conseguido que o seu proprietário de então, José da Cunha Santos Bernardes, casado com uma ilustre senhora, descendente dos Morgados da Maceira e Moita Longa, cedesse, a rogos meus, a sua propriedade ao Museu Municipal a troco de outro bufete «exactamente igual».
Com que alvoroço, medindo bem o alcance transcendente da troca e autorizado, previamente, pela digna Câmara, eu gastei dos fundos do Museu o conto e tal, orçamentado para mandar fazer um bufete exacta e rigorosamente igual ao bufete histórico, no feitio, nas dimensões e até na madeira.
Assim foi construída a mesa de pés e travessas torneados em contas, com a sua travessa suplementar ao meio, sobre dois pés rasteiros, e, como o outro, uni pouco sobre o quadrado, com as gavetas e tremidos também iguais.
Deve a História de Portugal aos dignos proprietários de então o melhor reconhecimento pelos sentimentos de desinteresse material de que deram a prova realíssima, em prol da sua orgulhosa terra natal de Torres Vedras.
O valor do elegantíssimo móvel é extraordinário.
É tempo de dizer em que consiste a historicidade incontroversa e rica do seu passado.
Em 21 de Agosto de 1908 engalanou-se a pequena povoação do Vimeiro, ao norte de Torres Vedras, no concelho da Lourinhã, limítrofe e vizinha pertissima da povoação de Maceira, do concelho torreense.
O rei D. Manuel II, generais, ministros e oficiais de alta patente, deslocaram-se ao histórico local a inaugurar o obelisco comemorativo da Batalha do Vimeiro, travada e ganha exactamente cem anos antes.
Do solar dos Morgados da Maceira foi para o local um móvel pedido para esse fim: o Bufete Histórico da Maceira.
Sobre ele foi assinado o auto de inauguração do obelisco, e um nobre inglês alto e decorativo na sua farda imponente, vindo expressamente de Inglaterra, assinou esse auto também.
Esse oficial, neto do Marquês de Torres Vedras, Sir Arthur Wellesley, usava o mesmo título do seu famoso antepassado, o glorioso Duque de Wellington.
Porque foi pedido e deslocado para ali esse bufete?
Porque exactamente cem anos atrás, o General Kellerman, delegado de Jean Andoche Junot, o primeiro invasor francês de Portugal a seguir ao Tratado de Fontainebleau, de 27 de Outubro de 1807, assinou sobre essa mesa gloriosa o «arrangement avec armistice» de que fala Foy, ditado por Sir Arthur Wellesley, como representante das forças vitoriosas anglo-lusas.
Tem, pois, um transcendente valor histórico o precioso móvel a que os jornais de 1908 se referiram com largueza.
Deve ter orgulho nele Portugal, Torres Vedras e, especialmente, a nossa nobre e digna aliada Inglaterra.
Quando, uma vez, acompanhado pelo erudito General Teixeira Botelho, o grande político inglês Lloyd George visitou as linhas gloriosas de Torres Vedras, acedeu à minha solicitação para visitar o Museu Municipal.
Eu convoquei à pressa alguns antigos combatentes da grande guerra de 1914-18, e com eles aguardei a visita do antigo primeiro-ministro britânico.
Este mostrou-se muito sensível a essa atenção, tendo cumprimentado efusivamente os antigos combatentes, abrindo um largo sorriso, que os seus olhos dum azul carregado mais avivavam ainda, e, quando lhe mostrei o bufete e pedi ao General Teixeira Botelho que lhe explicasse a glória que lhe competia pela sua história, Lloyd George, como que deslumbrado, abraçou-o.
Estou a ver a sua bela cabeça de neve, quase encostada ao tampo do móvel precioso.
Ele é, na parte histórica, a peça mais rica do pequeno Museu Municipal de Torres Vedras, onde procurei coleccionar também armas, balas e documentos referentes às Guerras Peninsulares.
Em Inglaterra dão, justificadamente, um grande apreço a tudo quanto diz respeito ao seu passado histórico, como pode ler-se no ofício que adiante transcrevemos, referente também às Guerras Peninsulares.
Em 1938, ofereci ao Royal Military College, de Sandhurst, um saquinho de damasco vermelho, contendo doze balas encontradas nos campos de batalha de Vimeiro e uma fotografia do Bufete Histórico. Levou-me a fazer a oferta àquele instituto britânico o facto de ter sido um professor dele, Charles Walker Robison, que escreveu um trabalho sintético, mas magnífico, sobre a Guerra da Península, trabalho que foi traduzido para português pelo Major de Artilharia Matias Nunes.
Em 2 de Maio do mesmo ano, recebi o ofício seguinte que me foi enviado gentilissimamente pela Embaixada Britânica em Portugal, que se tinha dignado fazer chegar ao Royai College a minha oferta:
2nd May, 1938.
«Sir
It was with the greatest pleasure that I received your most generous gift of twelve bullets which were found on the battlefield of Vimeiro. This gift has been placed in the Museum of the College where it will always be of the greatest interest to ali Officers, Cadets who serve here. I would like on behalf of the Officers, Cadets and myself to offer you our most sincere thanks for your historical gift.
It is yet another instance of the friendship that has always existed between your distinguished country and ours.
May I finish with offering most respectfully my best wishes for the continued prosperity of Portugal. I have the honour to be, Sir.. .
a) Eastwood, Major General
Command Royal Military College»
Pelos termos de efusivo agradecimento deste penhorante ofício, se infere bem o apreço que em Inglaterra dispensaram à modesta oferta.
Outra peça consagradora, mas esta ao gosto popular, quo a família Moura Borges guardava avaramente, deu entrada também no Museu, por solicitação minha, oferecida nobremente pela referida família: a tabuleta de A dos Cunhados.
Descrevi-a na encantadora revista literária Feira da Ladra a pág. 114 do segundo volume. É uma grossa tábua de pinho, de o,m03 de espessura, o,'"6o de alto e o,m30 de largo, pintada de branco numa das faces, tendo uma faixa larga de negro enquadrando os seguintes versos ingénuos e frementes de patriotismo:
NESTE LVGAR DOS CV-
CNADOS COM GRANDE
PRAZER E GOSTO FOI O PRÍN
CIPE ACLAMADO EM
19 D AGOSTO
1808 ERA
O ANO QVE CORIA
SACODIOCE O JVGO
FRANCES RESTAV
ROVSE A MONAR
QVIA
A tabuleta apresenta os dois orifícios com que fora pregada na praça onde se fazem as transacções do peixe, da praia do Porto Novo, no lugar de «A dos Cunhados».
Depois, o primeiro proprietário da tabuleta, o Capitão Luís Paulo Cosme, que providencialmente a recolheu, utilizava-a, cedendo-a ao sapateiro que lhe ia a casa consertar o calçado para a numerosa família, e a madeira acusa bem o uso inglório que dela faziam.
Lá figurava sobre o Bufete Histórico, com as suas maiúsculas a apagarem-se, delidas pelo tempo, e não ficava mal junto da sua glória, como regozijada expressão popular de orgulho e de alegria pela derrota das opressivas águias de Napoleão e mormente pela vitória de Portugal.»
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23/03/10
A CAVALO PELAS LINHAS
Venerando de Matos, incansável investigador da nossa História Local e sempre atento ao que por cá se vai passando, deixou estes apontamentos no seu VEDROGRAFIAS. Pela sua actualidade e importância aqui o transcrevemos com a devida vénia e agradecimento.
De notar que inclui a reportagem publicada hoje no jornal PÚBLICO.
Chamamos ainda a atenção para o endereço da organização responsável por este Raid. Vale a pena visitar: http://www.linesoftorresvedras.com/
Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.
O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:
"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão
Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo.
Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.
É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.
São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.
As invasões francesas
Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.
Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.
Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.
Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...
A história a cavalo
Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."
Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."
O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.
Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.
É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"
Uma guerra moderna
"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."
A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."
Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.
É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.
Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."
Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".
30/10/09
BADALADAS - TEXTO 40 - 30 OUTUBRO 2009
LINHAS DE TORRES VEDRAS
A DECISÃO DO DUQUE DE WELLINGTON EM 1809
VENERANDO DE MATOS
Em Outubro de 1809, estando o exército anglo-luso acantonado nas margens do Guadiana, Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, deslocou-se a Lisboa e, na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, percorreu durante alguns dias os terrenos a norte de Lisboa, deixando instruções para este último, num documento datado de 20 de Outubro de 1809, que ficou conhecido pelo “Memorando Fletcher”.
Do seu conteúdo, entre outras coisas, constava o seguinte:
“O grande objectivo em Portugal é a posse de Lisboa e do rio Tejo e todas as medidas terão de ser dirigidas com este objecto em vista. Existe um outro, ligado igualmente com este primeiro objectivo para o qual devemos também prestar atenção, e que é o embarque das tropas britânicas em caso de revés.
“Qualquer que seja a época do ano em que o inimigo possa entrar em Portugal ele fará o seu ataque provavelmente por duas linhas distintas, uma a norte do Tejo e outra a sul; e o sistema de defesa adoptado terá que levar em conta este facto.
“(...) O objectivo dos aliados deverá ser o de obrigar o inimigo, tanto quanto possível a realizar o seu ataque com o corpo do exército concentrado: Eles deverão ficar em todas as posições que o terreno possa permitir, o tempo necessário para permitir que a população rural local evacue as vilas e aldeias levando consigo ou destruindo todos os meios de subsistência e meios de transporte que não forem necessários aos exércitos aliados; cada corpo do exército deve ter o cuidado de manter as suas comunicações com os outros e a sua distância relativa do lugar de junção”.
As intenções de Wellington, com essa recomendação, foram resumidas por Teixeira Botelho, na sua obra História Popular da Guerra da Península, (Porto, 1915), como a necessidade de “escolher uma posição suficientemente ampla para abrigar todas as tropas, quer da primeira, quer da segunda linha, das duas nações, que lhes permitisse ocupar uma situação vantajosa para cobrir Lisboa, sede dos recursos do país, e que não pudesse ser torneada nos seus flancos pelo inimigo, devendo ter uma comunicação segura com o mar, para permitir o embarque das tropas inglesas no caso de revezes sucessivos as obrigarem a esse extremo”.
Tomada a decisão, Wellington enviou uma carta para o Rio de Janeiro, dirigida ao príncipe regente onde explicava as suas razões no contexto da guerra peninsular que se iniciara um ano antes.
Uma interpretação mais recente (Gastão de Mello de Mattos, “Torres Vedras, Linhas de (1810)”, in Dicionário de História de Portugal, vol. VI, 2ª ed. , pp.180 a 182), questiona a opinião perfilhada pela “maior parte dos autores”, que defendiam “a opinião errada de serem as linhas de Torres Vedras destinadas a proteger Lisboa. Ora a verdade é que o fim das linhas que Wellington mandou levantar só subsidiariamente era esse. O seu projecto de campanha (...) era tornar praticamente impossível a vida de um exército invasor, destruindo ou transportando para outro ponto todas as produções utilizáveis do País. Assim a região escolhida pelos Franceses para seguirem a sua marcha em Portugal tornar-se-ia numa espécie de deserto, em que o invasor não poderia subsistir”. (...) O Governo Português procurou transportar para fora das suas residências os habitantes da zona em que operavam as tropas francesas, mas (...) a evacuação dessas regiões não foi total (…). Por outro lado, como as tropas inglesas tinham, em regra, mostrado fraca capacidade combativa no continente, Wellington procurava evitar uma acção que pudesse tornar-se geral, comprometendo a existência do seu exército, não só por motivos exclusivamente militares, mas também por causa da política interna da Inglaterra, onde existia um forte partido de oposição ao Governo e favorável à retirada das tropas expedicionárias para a sua Ilha.”.
Esta opinião é corroborada por Norris e Bremner na obra The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, tradução de Thomas Croft de Moura, afirmando que em “Outubro de 1809 o plano de Wellington tinha incluído não mais do que uma linha contínua de obras desde Alhandra, no Tejo, até à foz de S. Lourenço (agora chamado Safarujo), no Atântico, com certos redutos e acampamentos fortificados colocados em frente de Torres Vedras, Monte Agraço, Arruda e outros pontos. Não era intenção ocupar estes reductos permanentemente”, mas apenas “deter e estorvar o ataque do inimigo na linha principal na retaguarda”.
Seja como for, Fletcher, depois de receber aquelas ordens por escrito em 20 de Outubro, dirigiu o início da construção das linhas que se iniciaram em 3 de Novembro de 1809 pela construção dos fortes de S. Julião, Sobral e Torres Vedras.
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