Mostrar mensagens com a etiqueta Terceira Invasão Francesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Terceira Invasão Francesa. Mostrar todas as mensagens

12/11/11

DOIS ARTIGOS NA WIKIPÉDIA

 
Podemos encontrar uma descrição histórica fidedigna e bem fundamentada nestes artigos da wikipédia,  - enriquecidos com gravuras, esquemas e mapas, - da autoria do nosso associado Manuel Gouveia Mourão:




Origem do mapa AQUI

1811 foi o ano da retirada das tropas francesas, comandadas por Massena.

Recordemos a cronologia da 3ª Invasão:
1810-06-24 Combate do Côa

1810-08-15 Início do Cerco de Almeida

1810-08-28 Capitulação de Almeida

1810-09-27 Batalha do Buçaco

1810-10-11 Os franceses param frente às Linhas de Torres Vedras

1810-11-15 Retirada para a região Leiria - Rio Maior – Santarém – Tomar

 1811-03-04 Início da retirada francesa da região Leiria - Rio Maior – Santarém – Tomar

1811-03-11 Combate de Pombal

1811-03-12 Combate da Redinha

1811-03-14 Combate de Condeixa

1811-03-15 Combate de Foz do Arouca

1811-03-18 Combate de Ponte de Murcela

1811-03-29 Combate da Guarda

1811-04-03 Combate do Sabugal

1811-05-03 a 05 Batalha de Fuentes de Oñoro

1811-04-07 Início do cerco de Almeida pelas tropas anglo-lusas

1811-05-10/11 Fuga da guarnição francesa de Almeida

12/11/10


RESPOSTA A UM LEITOR



Respondemos ao Pedro que nos deixou um comentário com algumas perguntas (não temos o seu mail para contacto mais personalizado).
Resposta breve e sucinta, ao correr da pena, ao mesmo tempo que lhe agradecemos o interesse e as palavras amáveis.

1.      O que o povo comia por trás das Linhas:

Não há uma gastronomia especial das invasões francesas. O povo comia o que sempre comeu: mal!
E comia o que era mais fácil de arranjar: pão e alguma pouca carne ( aves de capoeira, pombos, mais raramente o porco, a ovelha...). O feijão, quando havia, ou o chícharo, uma espécie de leguminosa que se dá nas terras mais pobres das serras. Fruta, era a que apanhava aqui ou ali. Voltou-se a comer o biscoito, que era um pão cozido duas vezes, o que permitia a sua conservação por mais tempo. Ficava rijo como pedra, mas amolecia-se com água ou vinho.
Muita gente morreu de fome nesta época.
O problema das subsistências é tratado em diversa bibliografia que pode encontrar na coluna esquerda deste blogue. Nomeadamente o recentemente publicado livro de Cristina Clímaco, assim como o de André Milícias, "As Linhas de Torres Vedras - Construção e impactos locais".
Mas sublinhamos: tal problema deve ser analisado na globalidade, não há uma “gastronomia por trás das Linhas de Torres Vedras". A subsistência era uma questão que dizia respeito aos exércitos em presença e às populações, era um problema transversal.

(Observação: alguns concelhos da nossa região lançaram a ideia de uma gastronomia das invasões, inventando pratos com nomes um pouco ridículos até. Que nós conheçamos, não há suporte documental para estas invenções, que tiveram sobretudo uma inocente motivação turística...)

2.      Quanto à relação entre a terceira invasão e a queda de Napoleão:

As coisas têm de ser vistas numa perspectiva europeia. E nessa perspectiva, a terceira invasão não teve a projecção que nós, portugueses, lhe damos. Ela foi determinante para nós e para o resto da Península mas não para Napoleão. Para este, a terceira invasão foi um episódio dentro de um mais vasto teatro de guerra que ficou conhecido para os franceses como "Guerra de Espanha". Napoleão nunca percebeu a especificidade do terreno português. Para ele era apenas uma questão de competência dos seus generais para dominarem o cais marítimo que era Portugal, de grande importância estratégica para os ingleses. E ele censurou-os pela sua inabilidade em resolverem o problema português…

A queda de Napoleão em 1815 tem de ser vista à luz da evolução da situação política em França durante os anos do Império e dentro do contexto de alianças entre os diversos países europeus. A terceira invasão de Portugal foi um insucesso importante, sem dúvida, mas não determinante. A invasão da Rússia em 1812 e a desastrosa retirada durante o temível inverno, fugindo à perseguição de uma nação desesperada ( retratada no grande livro de Tolstoi, "Guerra e Paz"), essa sim, terá sido decisiva para o que se seguiu.
São contos largos que nos levariam muito longe…

24/08/10

BADALADAS - Texto 55 - 27 AGOSTO 2010




 
FAZ HOJE 200 ANOS
ALMEIDA RENDE-SE À TRAGÉDIA


 

Joaquim Moedas Duarte


 
Almeida foi sempre a praça-forte mais avançada na resistência aos invasores. Na raia beirã, fronteira leste com Espanha, por aqui fazia entrada quem vinha sem licença e à força. Os anais históricos lembram as correrias bélicas da primeira dinastia, as investidas castelhanas na crise da independência dos finais do século XIV, a Guerra da Restauração trezentos anos depois, os cercos da Guerra da Sucessão já no XVIII - embates permanentes da teimosia espanhola contra o irredutível vizinho. Entrado o século XIX, o velho baluarte tinha ainda uma dura prova a cumprir. Foi quando o exército napoleónico, comandado por Massena, irrompeu por ali, disposto a vergar finalmente a velha Lusitânia com uma terceira invasão.

Estava-se em Julho de 1810. O Grande Exército francês, composto por três Corpos num total de cerca de 65 000 homens, estava prestes a invadir Portugal. Mas foi necessário, primeiro, cercar e dominar Ciudad Rodrigo, para garantir as linhas de abastecimento e comunicação com França. Feito isso, aí temos o invasor a derramar-se pelas serranias raianas, ciente da necessidade de dominar a grande praça-forte de Almeida, fortaleza de grossos muros em forma de estrela, que dispunha de 5 000 homens e de um poderoso equipamento de 98 peças de artilharia. Era seu comandante o brigadeiro inglês Guilherme Cox, tendo como subalternos alguns oficiais portugueses.
Depois do primeiro embate junto à ponte do rio Côa, em que o general inglês Craufurd a custo salvou a sua Divisão Ligeira, mas com pesadíssimas baixas, (ver nosso artigo neste jornal, em 22 /01/2010), as operações militares vão centrar-se em redor de Almeida.
Os preparativos para o cerco foram demorados. Os terrenos eram rochosos para trincheiras, e impraticáveis as vias de acesso aos trens de artilharia. Nestes trabalhos demoraram os franceses mais de quinze dias. As tropas anglo-lusas não estavam muito longe dali mas o prudente general inglês que as comandava – Arthur Wellesley – optara pela estratégia de não dar combate directo, fiado na capacidade de resistência da praça-forte e receoso da força inimiga em campo aberto.
A história do cerco está feita e não cabe aqui deter-nos em pormenores. (1)
Recordemos apenas que Massena escolhe o dia 15 de Agosto, aniversário de Napoleão, para iniciar o ataque mas os bombardeamentos sucessivos não vergam a valentia dos sitiados. Sucedem-se dias e noites de pesadelo. Atacar, atacar sem piedade. Resistir, resistir até poder. O drama, porém, estava guardado para um acontecimento inesperado. Foi no dia 26 de Agosto de 1810. O paiol da pólvora, no castelo de Almeida, bem no interior da povoação-fortaleza, foi deixado aberto enquanto se procedia ao transporte dos barris. Estranha e nunca bem explicada imprudência. Relata o narrador das “Memórias”:

Às sete da tarde ouviu-se uma tremenda explosão. Duas bombas lançadas pela bataria n.° 4 tinham atingido o grande armazém do castelo, que continha 75 000 quilogramas de pólvora. Foi como uma erupção vulcânica; o terrapleno das muralhas adjacentes abriu fendas; muitos canhões saltaram das suas posições e caíram no fosso; grande parte das casas ficou destruída, sepultando 500 homens nos escombros. Che­garam a cair destroços nas nossas trincheiras, ferindo alguns homens. As fortificações da frente de ataque, porém, ficaram intactas, e só a cortina do castelo sofreu danos. Os soldados da guarnição que escaparam ao desastre corriam entre as ruínas como perdidos, e um violento incêndio vinha aumentar o horror da sua situação. O governa­dor mandou tocar a reunir e dirigiu-se à muralha, onde chegou fogo por suas próprias mãos às poucas peças que ainda lá se encontravam. As nossas batarias de morteiros e obuses bombardearam durante toda a noite.”

Foi este trágico acontecimento que quebrou a resistência de Almeida. Depois de novo ataque francês, a praça-forte capitulou em 27 de Agosto – faz hoje 200 anos! Estava aberto aos invasores o caminho para Celorico e Viseu.
Saldo terrível: calculam-se as baixas em 600 mortos e 3 400 feridos entre os sitiados e cerca de 60 mortos e 320 feridos entre os franceses.
Por que razão Wellington não socorreu Almeida? Os estrategas militares ainda hoje discutem a opção do general inglês. Os factos, contudo, parecem desmentir a acusação de fraqueza que lhe é feita por alguns. Wellington jogava pela certa e não arriscava a sobrevivência do exército inglês, mesmo que isso significasse sacrifícios acrescidos para a população portuguesa. Um mês depois, no Buçaco, provou a justeza das suas escolhas. De mais, ele sabia o que Massena ignorava: mais a sul esperavam-no as formidáveis Linhas de defesa de Torres Vedras.

(1)
Memórias de Massena, General Koch, Livros Horizonte, Lisboa, 2007
Guerra Peninsular – Novas Interpretações, Vários, Inst. Def. Nacional, Tribuna, Lisboa , 2005

04/07/10

BADALADAS - TEXTO 51 - 2 JULHO 2010

Le Moniteur, jornal fundado em Paris em 1789 e que se publicou até 1901. Durante muito tempo foi o órgão oficial do governo francês com o título principal de Gazette Nationale. O sub-título Le Moniteur passou a principal em 1 Janeiro de 1811.


DESINFORMAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA




José NR Ermitão

O Le Moniteur foi o jornal oficial do governo francês durante o período revolucionário e napoleónico; transmitia notícias controladas pelo governo, boletins militares, declarações oficiais e textos de propaganda política. Apresentava também artigos culturais e tinha grande divulgação em França e na Europa.

Como a informação do Moniteur era completamente controlada pelo poder napo-leónico, podemo-nos interrogar sobre que notícias teriam os franceses acerca da invasão de Portugal pelo exército comandado por Massena. A resposta é simples: poucas, atrasadas e mentirosas.

Antes da 3ª invasão, o jornal transcreve declarações ameaçadoras de Napoleão indicando claramente os seus intentos. Nelas afirma que “Antes de um ano, os Ingleses, por muitos esforços que façam, serão expulsos da Península, e a águia imperial flutuará sobre as fortalezas de Lisboa...” (27/9/1809); que Wellington, general incompetente, terá o mesmo destino de outros generais ingleses derrotados (9/10/1809); e que “Ape-nas eu transponha os Pirenéus, o leopardo (a Inglaterra) assustado fugirá em direcção ao Oceano para evitar a vergonha, a derrota e a morte” (4/12/1809).

Com a invasão em curso, as primeiras notícias aparecidas no Moniteur, a 29/11/ 1810 (já quinze dias depois dos franceses terem abandonado as Linhas de Torres), são sobre a batalha do Buçaco e comunicam que “o ataque no Buçaco não foi senão um falso ataque... a fim de cobrir o movimento de flanco que tinha sido decidido para tornear as montanhas...” Como é evidente, nada disto é verdadeiro: o ataque francês no Buçaco não foi falso e foi rechaçado pelos luso-ingleses; e o movimento de flanco dos franceses foi posterior à sua derrota. Ou seja, o jornal transforma em manobra de diversão vitoriosa uma derrota que custou aos franceses milhares de mortos e de feridos.

No dia seguinte (30/11) o jornal torna a noticiar sobre a invasão e nos seguintes termos: “Os Ingleses tinham a sua direita em Alhandra, sobre o Tejo, a sua esquerda, perto da embocadura do Lisandro; ocupavam uma posição com dez léguas de extensão sobre uma linha de colinas entrincheiradas; (Massena) fez o que pôde para levar os Ingleses à luta; mas foi-lhe impossível travar uma batalha com um inimigo extremamente prudente e que não queria combater... resguardado... por trás de trincheiras cheias de artilharia e inexpugnáveis.»

Desta vez o jornal foi fiel à verdade, pois refere a inexpugnabilidade das Linhas, a incapacidade de Massena em as tomar e a extrema prudência de Wellington. Mas as mentiras são imediatas quando comunica “Que os regimentos e os soldados franceses recebiam diariamente a sua provisão de pão e biscoito, que se tinham organizado inúmeros armazéns de cereais e que nada havia a temer quanto a subsistências...” – ou seja, exactamente o contrário do que estava a acontecer, com a fome a morder severamente o exército de Massena.

Em 26 de Fevereiro de 1811, uma semana antes da retirada definitiva dos franceses, ainda adiantava o Moniteur que “...o dia em que o exército inglês (derrotado) embarcar, será um dia de festa...” E assim o jornal iludia os franceses falando-lhe em vitórias futuras que, como sabemos, nunca aconteceram.

Mas o cúmulo da mentira aparece no dia seguinte, 27 de Fevereiro, quando comunica “que o marechal... (Massena) tinha julgado conveniente fazer um movimento; que tinha feito chegar a sua direita até ao mar e a sua esquerda até ao Zêzere e que o seu quartel-general estava em Pombal; que os diferentes corpos de tropas a soldo da Inglaterra tinham sido derrotadas; que colunas (francesas) tinham percorrido Portugal por todo o lado e conseguido a submissão... de várias regiões.”

De facto Massena fez um movimento, de recuo; mas nem os ingleses foram derrotados nem os franceses dominaram outras parcelas do território para além das que ocupavam militar e fugazmente, nem nunca o seu quartel-general esteve em Pombal, salvo por momentos e já no movimento de retirada definitiva.

Os franceses não eram informados, mas sim desinformados. Definitivamente, numa guerra, as grandes vítimas são sempre as pessoas e a verdade!



[Publicado no Badaladas em 2 JULHO 2010]

16/06/10

BADALADAS - TEXTO 50 - 11 JUNHO 2010


Le maréchal Masséna (1758-1817)



CENAS DA 3ª INVASÃO

 NOVA CARTA DE WELLINGTON A MASSENA 

José NR Ermitão         

Conforme referi no artigo anterior Massena respondeu a Wellington numa carta datada de 14 de Setembro. Nela, afirma que não pode considerar como soldados um bando de camponeses sem uniforme e que praticam assassinatos; considera que Wellington se contradiz ao reclamar, por um lado, respeito pelas leis da guerra e, por outro, ao obrigar os portugueses a destruir as suas propriedades e outros bens e a fugir diante dos franceses. E acusa Wellington de violar expressamente as leis da guerra por desrespeitar os termos da capitulação de Almeida, segundo as quais os milicianos postos em liberdade pelos franceses não deviam retomar o serviço militar.

          Wellington respondeu a Massena, a 24 de Setembro, numa carta contundente e sarcástica, que transcrevo parcialmente:

          “Senhor Marechal (...)
          Aquilo a que o Sr. chama “camponeses sem uniforme”, “assassinos e salteadores de estradas” são a Ordenança deste país... corpo militar comandado por oficiais e submetidos às leis militares. Parece que o Sr. exige que eles tenham de usar uniforme militar para poderem gozar dos direitos da guerra; mas o Sr. mesmo deve lembrar-se de quanto aumentou a glória do exército francês ao comandar soldados sem uniforme (1).
          O Sr. queixa-se da conduta da Ordenança de Nave de Haver para com o coronel Pavetti. A questão é somente saber se um país invadido por um formidável inimigo tem o direito de se defender por todos os meios ao seu alcance. Se este direito existe, justifica-se que Portugal utilize a Ordenança, um corpo militar reconhecido e organizado segundo as antigas leis do país. Asseguro a V. Ex. que a Ordenança de Nave de Haver tratou bem o coronel Pavetti e que teria sido punida se o tivesse maltratado. Assim, eu desejava não ter sabido que... a casa do capitão-mor foi incendiada e que alguns soldados da sua companhia foram fuzilados por terem cumprido o dever para com o seu país.
          Sinto muito que V. Ex. sofra alguns inconvenientes pessoais pelo facto de os portugueses abandonarem os lares à aproximação do exército francês. É meu dever fazer retirar todos os que não dispõem de meios para se defenderem; e observo-lhe que as ordens dadas nesse sentido quase que não foram necessárias. Porque aqueles que se lembravam da invasão do país em 1807, da usurpação do governo do seu Príncipe... dificilmente podiam achar a conduta dos soldados do exército francês... para com as suas propriedades, para com as suas mulheres e para com eles próprios, de acordo com as proclamações de V Ex (2).
          Não é pois de espantar que eles abandonem os seus lares voluntariamente, queimando e destruindo tudo o que não podem levar; e não tenho que apresentar... desculpas pelo encorajamento que lhes dou, a não ser pelos inconvenientes pessoais que po-dem causar a V. Ex.
V. Ex. foi mal informado sobre a questão da milícia que fazia parte da guarnição de Almeida. Antes de se queixar sobre a infracção dos termos da capitulação de Almeida, V. Ex. deveria lembrar-se que ela foi violada logo após ter sido assinada. V. Ex. comprometeu-se a que os oficiais e soldados da Milícia voltassem às suas casas; e apesar deste compromisso, o Sr. reteve 7 oficiais e 200 soldados de cada regimento para fazer deles um corpo de pioneiros. A capitulação de Almeida está assim anulada... Mas posso assegurar-lhe que nenhum dos soldados da Milícia de Almeida se encontra em serviço.”
Massena recebeu a carta, ressentiu-se do teor do seu primeiro parágrafo (segundo as suas “Memórias”), mas não respondeu, terminando assim a correspondência entre ambos. A 3ª invasão iria ser mesmo caracterizada, por parte dos franceses, por ter aspectos de guerra de extermínio, bem sofrido por parte da população portuguesa, so-bretudo como resposta à política de terra queimada levada a efeito por Wellington.
______________
(1) Wellington, ofensivo, referia-se ao facto de Massena, em 1793 e 1794, ter comandado vitoriosamente tropas francesas de aspecto miserável e desprovidas de uniforme...
(2) Referência à proclamação de Massena dirigida aos portugueses, na qual afirma que os vem proteger e garantir-lhes a prosperidade, sendo seu objectivo único expulsar os ingleses...
         

BADALADAS - Texto 49 - 7 MAIO 2010


BARTOLOZZI, Francesco, 1728-1815

Lord Wellington, terror hostium Lusitaniae... [Visual gráfico / Pelegrini pinxit ; F. Bartolozzi sculp. de idade 83 annos em Lx.ª, em 1810. - [Lisboa? : s.n., 1810]. - 1 gravura : água-forte e ponteado, p&b http://purl.pt/6163 - Biblioteca Nacional Digital






CENAS DA 3ª INVASÃO

UMA CARTA DE WEELLINGTON A MASSENA

jOSÉ NR ERMITÃO

No início da 3ª invasão francesa, dias antes da capitulação da praça de Almeida (27 de Agosto de 1810), um grupo de militares franceses, composto pelo coronel Pavetti, 2 oficiais e uma dúzia de soldados, entraram em Portugal em missão de reconhe-cimento; ao regressarem a Espanha, foram surpreendidos por uma noite escura e tempestuosa e perderam o caminho. Encontraram um pastor português que se propôs guiá-los; mas es-te, manhoso e incapaz de resistir à animosidade contra os invasores, em lugar de os conduzir ao destino, levou-os à povoação de Nave de Haver (situada a sul de Almeida) e entregou-os à Ordenança. Os franceses resistiram, houve mortos, mas o coronel Pavetti foi aprisionado pelo capitão da ordenança, que o entregou a Wellington.


Massena, comandante do exército invasor, perante as notícias do facto, considera-o praticado não por militares mas por assaltantes e assassinos; manda cercar Nave de Haver, ordena o fuzilamento dos soldados da ordenança e o incêndio da casa do respectivo capitão.

Wellington, ao tomar conhecimento da vingança brutal dos franceses, absoluta-mente contrária às leis da guerra, fica tão constrangido que decide escrever uma carta a Massena – uma carta em que explica a estrutura do exército português e solicita tratamento digno para os soldados da Ordenança, não deixando de antever o pior para os soldados franceses, caso Massena mantenha a ordem de fuzilamento dos soldados desta estrutura militar.

A carta é data de 9 de Setembro de 1810; transcrevo-a parcialmente:

“Senhor Marechal (...)


É preciso que saiba que todos os portugueses são obrigados, pelas antigas leis do país, a servir no Exército Regular ou na Milícia ou na Ordenança, e que todas estas tropas estão sujeitas às leis militares e sob ordens de oficiais generais portugueses*. A prova é que, apesar do que a Ordenança tem sofrido... por causa das ordens que o Sr. deu e da violação das leis da guerra sobre os seus soldados, eles obedecem às ordens que lhes foram dadas; e têm poupado a vida e tratado bem todos os prisioneiros que fazem. O coronel Pavetti, por quem o Sr. tanto se interessa, foi feito prisioneiro pela Ordenança, foi por ela bem tratado, tal como a sua escolta.


Como a Ordenança faz parte do exército português... peço-lhe que dê ordens para que os oficiais e soldados da Ordenança, quando feitos prisioneiros, possam usufruir, como os outros soldados do exército português, das leis da guerra.


Desde que assumi o comando das tropas neste país, tenho feito todos os possí-veis... para conduzir a guerra de um modo leal e para respeitar as leis da guerra... Mas se o exército francês continuar a fuzilar os soldados da Ordenança, certamente que não pode esperar que os soldados deste corpo e os outros soldados do exército português não façam o mesmo aos prisioneiros do exército francês. Não estará em meu poder protegê-los; e as ordens que o Senhor deu serão a causa das desgraças que os soldados franceses, ao caírem nas mãos das tropas portuguesas, vão sofrer.”

Nas suas “Memórias”, Massena comenta a carta e atitude de Wellington de forma absolutamente negativa: diz que a humanidade dos ingleses só se comovia quando estavam em causa os seus interesses, que Wellington estava a legitimar actos de assassínio e prisão indevida ao transformar camponeses/salteadores em militares e que, agindo assim, devia assumir a responsabilidade moral por transformar «uma guerra política em guerra de extermínio».

Em conformidade com estes raciocínios, Massena respondeu a Wellington, numa carta datada de 14 de Setembro e cujo conteúdo se pode deduzir das suas Memórias. No próximo artigo darei conta desta e da segunda carta que Wellington lhe escreveu.

___________

* Após a Restauração, em 1640, a defesa do reino assenta em 3 tipos de tropas com funções dife-rentes e que integram todos os homens válidos dos 15 aos 60 anos: o exército de 1ª linha, ou regular, defensivo e ofensivo, de carácter nacional; o exército auxiliar, chamado Milícias no reinado de D. Maria I, defensivo e de carácter regional; e as Ordenanças, chefiadas pelos capitães-mor, também defensivas mas de carácter mais local.

15/01/10

BADALADAS - TEXTO Nº 45 - 22 JANEIRO 2010


A BATALHA DO CÔA

J. Moedas Duarte

Em Julho de 1809 Napoleão, vitorioso em Essling e Wagram, dominava a Áustria, a Prússia e tinha a Rússia sobre controlo. Considerou que estava na altura de se voltar para a Península Ibérica onde a aliança Luso-Britânica mantinha um foco de resistência. Ponderou vir, ele próprio, resolver o problema militar mas acabou por entregar a um dos seus mais eficientes generais, André Massena ( 1758-1817),  o comando do denominado “Exército de Portugal”, criado em 17 de Abril de 1810. Massena, gasto por muitas batalhas, aceitou contrariado esta missão e mais contrariado ficou com a atitude dos generais seus subordinados, invejosos por se sentirem preteridos. Para muitos autores, estas desconfianças mútuas explicam parte do fracasso de Massena nesta campanha militar.
A primeira acção dos franceses foi contra Ciudad Rodrigo, já muito próximo da fronteira portuguesa. Durante setenta e dois dias esta cidade resistiu heroicamente ao cerco mas acabou por se render face à superioridade do inimigo. Ultrapassado o obstáculo, Massena entra em Portugal em meados de Julho e prepara-se para neutralizar Almeida de modo a garantir linhas de abastecimento com a Espanha, dominada pelos franceses. Não tinha muita pressa pois recebera instruções de Napoleão para que a campanha em Portugal se desencadeasse em Setembro, «depois do tempo quente e sobretudo depois das colheitas». Wellington, ciente da sua inferioridade numérica - o exército francês tinha cerca de 65 000 homens – não acorrera em auxílio de Ciudad Rodrigo e evita agora o confronto directo. Conta com a capacidade de resistência da vila fortificada de Almeida, uma praça-forte construída em forma de estrela, segundo o modelo idealizado dois séculos antes pelo engenheiro francês Vauban, de modo a neutralizar os efeitos da artilharia atacante e a aumentar a capacidade da artilharia defensiva. A estratégia de Wellington assentava em três princípios: desertificação do território, com destruição dos víveres que não pudessem ser transportados para Sul pelo êxodo das populações; acção de guerrilha das milícias e ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas formadas por camponeses mas enquadradas por oficiais britânicos; e manobras no terreno, do exército luso-britânico de primeira linha, de forma habilidosa, de modo a encontrar um lugar propício ao embate, em condições de superioridade táctica - o que veio a suceder no Buçaco, em 27 de Setembro. Subjacente a estes princípios estava o segredo das Linhas de Torres Vedras, em construção acelerada mas ainda incompletas. Era vital, por isso, atrasar o mais possível a marcha de Massena sobre Lisboa.


Ponte sobre o Côa





Memorial aos combatentes do Côa


O primeiro grande embate entre invasores e defensores estava reservado para as margens do Rio Côa, perto de Almeida. Deu-se entre uma parte do exército francês, comandada pelo general Ney e a Divisão Ligeira Luso-Britânica comandada pelo general Craufurd. Os testemunhos da época dão-nos conta de um embate terrível, em que as forças aliadas estiveram a ponto de serem completamente aniquiladas pela superioridade numérica do inimigo. Tudo se passou em redor de uma ponte granítica sobre o Côa, que ainda hoje podemos visitar, poucos quilómetros antes de Almeida, na qual foi construído um singelo memorial a recordar as centenas de combatentes que ali perderam a vida. Contrariando ordens do sempre prudente e astucioso duque de Wellington, Craufurd não se limitou a pequenas acções de reconhecimento e diversão táctica. Decidiu enfrentar os franceses, apesar de manobrar em terreno acidentado e declivoso. Só a valentia desesperada dos seus soldados e oficiais subalternos impediu o desastre total, conseguindo a retirada pela ponte para a margem oposta, em sucessivos combates de enorme violência.
O confronto seguinte vai dar-se em Almeida. Dele falaremos em próximo artigo.

09/04/09

VISITA GUIADA AOS LOCAIS DA 3ª INVASÃO FRANCESA

(Clicar para aumentar)



Estão abertas as inscrições para esta VIAGEM / VISITA GUIADA. Parece-nos uma boa sugestão para dois dias de Primavera...