24/10/08

Texto 20( Jornal "BADALADAS", 24 / 10 / 2008 )



A CONSPIRAÇÃO DO PORTO [ 2ª parte ]


João Flores Cunha



No artigo anterior vimos como o Comandante da 2ª Invasão Francesa, Gen. Soult, acalentava o sonho de vir a ser rei da Lusitânia Setentrional, sonho que não era partilhado por alguns dos seus oficiais, entre os quais estava o cor. Donnadieu. Estabeleceu-se então uma aliança táctica entre este oficial e algumas personalidades importantes do exército aliado. (Nota da Coordenação)

O coronel Donnadieu explica então ao capitão português João Viana os passos da revolta: a necessidade dos revoltosos na colaboração inicial do exército anglo-luso; a prisão de Soult; a retirada imediata para Espanha dos franceses; a proclamação contra o Imperador; a adesão dos generais Sant-Cyr e Victor;. a entrega ao general Moreau, exilado na América, do comando de todo o exército francês.
Viana decide contactar o exército aliado. Com o pretexto de ir buscar a família que diz saber refugiada a dezoito léguas do Porto, consegue um salvo-conduto que lhe permite atravessar as linhas. Dirige-se a Coimbra onde o brigadeiro António Marcelino da Vitória lhe dá um passaporte a fim de o “livrar da ferocidade das ordenanças” de forma a poder chegar a Tomar, onde Beresford o recebe. Contudo, este não se entusiasma com o relato e aconselha o português a regressar ao Porto e voltar com um emissário dos oficiais franceses, com o qual pudesse entender-se. No entanto, dá-lhe por assistente o tenente-coronel Douglas que o acompanha até ao quartel do coronel Trant nas margens do Vouga. Viana transmite a Donnadieu as ocorrências e os conjurados nomeiam o capitão Jacques Constantin d`Argenton do 18º de dragões como emissário. Viana e d`Argenton encontram Douglas perto de Ovar, que os leva até Beresford. Desta feita, o general inglês tem como sério o relato de d´Argenton, mas diz-se sem autoridade para tomar qualquer iniciativa, encaminhando-os para Arthur Welesley que, entretanto, tinha chegado a Lisboa e assumira o comando do exército, instalando o seu quartel-general no palácio do Calhariz.
Wellington, na sua correspondência, relata a entrevista tida com o capitão d` Argenton, nela vislumbrando que o exército francês se dividia em dois campos: um propunha-se combater Soult pondo em execução o projecto da revolta desde que os ingleses o auxiliassem; o outro, composto pelos amigos de Bonaparte, pretendia impedir que o marechal se proclamasse Rei de Portugal. Não se comprometendo, Wellesley diz precisar de tempo para consultar o seu governo, mas que isso não o impediria de marchar para o norte e em breve estar frente ao exército francês.
O capitão francês e João Viana têm uma segunda reunião com Wellington já em Coimbra. Quando regressa só, ao Porto, d`Argenton encontra casualmente um seu antigo comandante, o general Lefèbre, que diz dirigir-se para a divisão Mermet. D`Argenton aconselha-o a não o fazer pois seria preso pelas avançadas inglesas e, julgando-o um dos conjurados, põe-no ao corrente das suas actividades. Lefrèbre denuncia a conspiração a Soult. Este, já conhecedor da movimentação dos ingleses, não dá muita importância ao relato do general e limita-se a mandar prender d`Argenton.
Quarenta e quatro dias depois de entrar no Porto, os franceses abandonam a cidade.
Em Penafiel, onde bivacou, Soult mandou interrogar d`Argenton, que denuncia alguns camaradas e é condenado ao fuzilamento. O coronel Laffite comandante do seu regimento, receoso de novas denúncias, pois era um dos conjurados que não havia ainda sido denunciado, facilita-lhe a fuga. O capitão d`Argenton refugia-se no meio dos ingleses seguindo depois para Inglaterra. Daí, ou por ver-se abandonado pelos ingleses, ou por remorsos, passa para França. É capturado e julgado em Vincennes, indicando o nome do português João Ferreira Viana como conjurado. Ouve, novamente, a sentença da sua condenação à morte e, desta vez, é fuzilado em Grenelle.
Os coronéis Donnadieu e Laffite são mais felizes escapando ao pelotão de fuzilamento pois Fouché, o eterno conspirador, intercede por eles.
João Ferreira Viana é promovido de capitão de ordenanças a capitão de linha tendo sido colocado às ordens do brigadeiro Francisco Colman. Como a de muitos dos verdadeiros patriotas, a memória deste enigmático herói desfez-se no tempo. Ele próprio diz na sua “Relação dos serviços que a Sua Majestade Fidelíssima fez o capitão de infantaria de linha e ajudante de ordens do Govêrno das Armas do Porto. João Ferreira Viana”: “Pela minha parte tenho conservado tanta cautela, que jamais deixei penetrar o segredo desta importante obra; nem mesmo depois, sabendo que alguns escritores produziam a história das campanhas de Portugal, me atrevo a esclarecê-los e por isso ignorarão esta circunstância.”

22/10/08

BIBLIOGRAFIA DA GUERRA PENINSULAR




Desde ontem há um novo livro sobre as Linhas de Torres Vedras.

Lê-se no Prefácio, escrito pelo Prof. António Pedro Vicente, um dos maiores especialistas da História Guerra Peninsular e que foi o orientador do Mestrado:


«O estudo sobre as Linhas de Torres Vedras que André Melícias nos apresenta e que constitui a sua tese de Mestrado deve assinalar-se como uma investigação valiosa. Efectivamente, para além da escassez bibliográfica no âmbito da historiografia nacional relativa a esse monumento militar, o facto de em breve se comemorarem os dois séculos da sua construção mais enriquece a temática escolhida»



Ficha técnica:


As Linhas de Torres Vedras:construção e impactos locais, André Filipe Vítor Melícias, ed. conjunta de Câmara Municipal de Torres Vedras e Livrododia Editores, Torres Vedras, 2008.

18/10/08

NOVO LIVRO SOBRE AS LINHAS DE TORRES




As Linhas de Torres Vedras: Construção e Impactos Locais


Segunda-Feira, 20 Outubro 2008, 19 H.


Auditório do Edifício Paços do Concelho em Torres Vedras



As Linhas de Torres Vedras: Construção e Impactos Locais
é o título do livro da autoria de André Filipe Vítor Melícias que será lançado no próximo dia 20 de Outubro, pelas 19h00, no Auditório do Edifício dos Paços do Concelho.Este livro é uma co-edição da Câmara Municipal de Torres Vedras e da Livraria Livrododia.
O Memorando de Wellington para Fletcher, de 20 de Outubro de 1809, mandava reconhecer o terreno e fortificar os pontos mais convenientes e defensáveis, visando a construção de um conjunto de fortificações construídas secretamente, a partir do final de Outubro de 1809, que viria a chamar-se de Linhas de Torres Vedras.
A um ano do ducentésimo aniversário deste documento, é lançado o livro As Linhas de Torres Vedras: Construção e Impactos Locais, um estudo fundamental para a compreensão do pensamento estratégico-militar, assim como dos diferentes projectos de construção deste sistema defensivo, determinante na defesa de Portugal frente à terceira invasão..
No Edifício Paços do Concelho de Torres Vedras» Praça do Município, na Zona Histórica
[Tel.: 261 334 040/ 261 320 739. ]

Texto 19 ( Jornal "BADALADAS", 10 / 10 / 2008 )



A CONSPIRAÇÃO DO PORTO [ 1 ]

João Flores Cunha



Foram de grande violência os primeiros dias da Primavera de 1809 na cidade do Porto. Enquanto o exército do duque da Dalmácia, marechal Nicolas Soult, se aproximava da cidade, uma turba, incitada pelo sargento-mor Raimundo José Pinheiro, perseguia os suspeitos de afrancesados, a quem, aos gritos de jacobinos e traidores, acusavam de todas as desgraças que aconteciam no Reino, chacinando aqueles que encontravam, como aconteceu ao general Bernardim Freire, ao brigadeiro Luís de Oliveira e ao tenente-coronel João Cunha entre outros.
Na manhã do dia 29 de Março as divisões Merle, Mermet e Delaborde rompiam as defesas, compostas por quarenta e sete bastiões servidos por dois mil homens e duzentas bocas de fogo. A população, buscando refugio na margem sul do Douro, corria em pânico na direcção da ponte das barcas que ligava a Ribeira ao cais de Gaia. A cavalaria portuguesa debandava perseguida pelos dragões franceses, atropelando a mole humana que fugia. A confusão era enorme. A estreita ponte não suportou o peso da multidão. Quatro mil fugitivos encontraram a morte nas águas do Douro.
O marechal Soult, instalado no palácio das Carrancas, preocupava-se em normalizar a vida na cidade e em conquistar a confiança dos seus cidadãos mais importantes entre os quais se encontrava o capitão de ordenanças do partido do Porto João Ferreira Viana, filho de um abastado comerciante, feito prisioneiro aquando da conquista da cidade.
A ambição do duque da Dalmácia levara-o a sonhar que poderia vir a ser rei da Lusitânia Setentrional, uma das três regiões em que Portugal era dividido pelo tratado de Fontainebleau, região que compreendia o Douro, o Minho e Trás-os-Montes. Para isso, era necessário ter os “fazedores de opinião” do seu lado. O seu “marketing” político foi posto a funcionar e, passava pela romagem ao Senhor Jesus de Matosinhos, onde se “ajoelhou, benzeu-se e rezou e ofereceu uma lâmpada de prata e o compromisso de custear o óleo para que se mantivesse sempre acesa e dobrou a côngrua do padre e o ordenado do sacristão”, ao fazer-se vitoriar no teatro de S. João como Sua Majestade rei Nicolau I, à criação dum jornal, “O Diário do Porto”, em cujas páginas se noticiavam todos os seus passos e onde os protegidos lhe iam preparando o caminho.
O seu chefe do estado maior, general Ricard, após a noite do teatro de S. João, enviou uma nota ao governador militar do Porto, general Quesnel na qual se dizia que as populações deveriam prestar homenagem ao vencedor e que as instruções deveriam ser transmitidas aos outros comandantes que se encontravam aquartelados nas diversas cidades do Norte. A primeira deputação a ser recebida no paço das Carrancas, onde estavam presentes todos os generais do exército invasor, foi a de Braga, liderada pelo corregedor António Mesquita e composta por trinta e seis elementos. Seguiram-se as de Barcelos, Viana do Castelo, Ovar, Vila do Conde, Póvoa do Varzim e, por fim, a do Porto, chefiada pelo desembargador Almeida Correia, teve honras de beija-mão: “Cada um dos membros da deputação teve a honra de beijar a mão de S. Ex.ª” – (Diário do Porto, de 29 de Abril de 1809). O teor dos pedidos das deputações era praticamente o mesmo: os Braganças tinham abandonado o país, o trono de Portugal estava vago, era pois forçoso, para interesse do reino que Napoleão indicasse um rei para Portugal e, que melhor rei haveria do que o duque da Dalmácia?
Ora, se a ambição do marechal era chalaceada pela soldadesca em alegre estribilho cantado pelos bivaques - “Oh!Oh!Lá!Lá! Le roi Nicolas!” -, o mesmo não acontecia entre muitos oficiais que viam na atitude do seu comandante um despropósito.
Na casa do pai do capitão de ordenanças do Porto, João Viana, haviam-se aboletado diversos oficiais franceses, entre os quais o coronel Donnadieu do 47º de infantaria. Este oficial, que se atrasara na carreira por haver participado na conjura de Rennes, em 1802, ao lado dos generais Bernadotte e Moreau contra Bonaparte, não via com bons olhos a transformação da República em Império e os títulos de nobreza que os seus antigos camaradas iam adquirindo. Donnadieu reunia um grupo de descontentes e numa dessas reuniões pôs João Viana ao corrente dos seus projectos e convidou-o a ajudá-los, pois necessitavam de alguém de confiança que encetasse conversações com o comando em chefe do exército anglo-luso.
O capitão português, vendo nesta conjura oportunidade para o país mais rapidamente se livrar do jugo do invasor, adere à proposta do coronel Donnadieu.

Veremos no que consistia o plano da sedição e como terminou.

25/09/08

Texto 18 ( Jornal "BADALADAS", 26 / 09 / 2008 )



AS AGUADEIRAS DO EXÉRCITO FRANCÊS


Pedro Fiéis*

As cantinières (numa tradução livre – aguadeiras), eram mulheres francesas a quem os regimentos davam uma autorização para a venda de comida e bebida, para além daquilo que eram as rações atribuídas a cada soldado. Tinham como única obrigação a de serem casadas com soldados do dito regimento.
O termo Cantinière veio substituir as Blanchisseuses, que em 1793 poderiam ascender a 4 por batalhão e as Vivandières, cujo número era aprovado pelo comandante de divisão. Quando foi proclamado o Império (1804) já os dois últimos tinham caído em desuso e cada mulher usava uma medalha indicativa da sua posição e que lhes concedia o direito a serem tratadas nos hospitais militares em tempo de guerra.
A sua função primordial era a de vender álcool, geralmente brandy de várias qualidades, que guardavam nos seus cantis (tonnelet) pintados de azul, branco e vermelho e presos em bandoleira por uma correia de couro, onde estavam pendurados os copos de cobre ou latão, em que serviam a bebida. Também efectuavam outros serviços, como cozinhar, lavar e coser a roupa, recolher lenha para as fogueiras e água. Se a oportunidade se deparasse, visitavam as aldeias próximas com o propósito de se abastecerem de víveres e se o produto fosse roubado, melhor, assim só tinham lucro nesta actividade.
Claro que não menos importante era o facto de constituírem uma muito necessária companhia feminina durante os longos meses das campanhas. Um dos mais famosos generais napoleónicos, Lasalle, chegou a dedicar-lhes uma canção nas vésperas da batalha de Marengo. Mas se por acaso se tornassem demasiado desordeiras, uma ordem do dia permitiria que os soldados pudessem pilhar os seus bens.
Muitas serviam até 30 anos no exército e se o respectivo marido fosse morto em combate, casavam com outro soldado para poderem manter a posição. Sobreviviam do salário do homem e dos ganhos com as vendas, mas os preços que podiam praticar eram obrigatoriamente baixos, sob pena de confiscação dos bens e não podiam vender a civis ou membros de outro regimento.
Não deixavam, elas próprias, de serem civis no exército e não tendo direito a uniforme, o garbo pessoal de cada mulher fazia com que envergassem uma mistura de vestidos de camponesa, com casacas militares e por vezes, o chamado bonet de police – o chapéu militar para ser usado nas folgas. Nas pilhagens, o que viesse para às mãos e servisse, era sempre bem-vindo.
Os filhos surgiam naturalmente, numa época em que não se conheciam contraceptivos, e na maioria das vezes acompanhavam as mães durante as campanhas. Existem relatos de mulheres que acompanharam os seus maridos no cativeiro, como foi o caso dos que foram aprisionados na ilha de Cabrera, em Espanha. Afinal, até na derrota sofriam as mesmas agruras, com os roubos, os ferimentos e as doenças, agravados pelas violações.
Apesar disso a sua coragem ficou demonstrada em diversos episódios, quando em plena batalha e a receberem fogo inimigo, corriam as fileiras dando de beber aos homens, carregando os mosquetes e não poucas vezes disparando-os. Ficaram-nos relatos de mulheres que chegaram a transportar os seus maridos feridos em grandes distâncias até chegarem a um hospital ou encontrarem uma ambulância.
Em 1807, na primeira invasão francesa, temos algumas a acompanharem os maridos na penosa marcha através de Espanha até à fronteira portuguesa e nesta altura era-lhes igualmente permitido trocar as mulas em que habitualmente viajavam, por carroças, compradas ou pilhadas, tanto fazia, integrando as outras carroças do regimento e estando sujeitas à autoridade do chefe da coluna.
Uma cantinière bem fornecida poderia ter consigo queijos, enchidos de várias espécies, salsichas, açúcar, tabaco, café, etc. Se possuísse para além disso uma tenda ampla, torná-la-ia no centro de recriação. Algo que na campanha referida só foi possível de efectuar já em Portugal, dada a falta de tudo na marcha até Lisboa.


* Professor e Investigador de História

Texto 17 ( Jornal "BADALADAS", 12 / 09 / 2008 )


AS DENÚNCIAS CONTRA OS PARTIDÁRIOS DOS FRANCESES

José NR Ermitão *

João Pinto de Carvalho (1858-1936) foi jornalista e autor de obras na área da olissipografia (estudos sobre Lisboa) e da etnografia. Em 1898/9 publicou “Lisboa d’outros tempos”, em 2 volumes, o 1.º intitulado Figuras e Cenas Antigas, o 2.º, Os Cafés – em que reúne artigos publicados em diversos jornais da época. Tinop (o seu pseudónimo) revela-se um vivo memorialista de factos, instituições e personagens das gerações anteriores à sua e com as quais ainda conviveu. Em 1903, publicou a “História do Fado”.
De Os Cafés transcrevo um texto que dá conta das denúncias e perseguições contra reais ou supostos partidários dos franceses em Lisboa, movimento que atravessou todo o país logo após a saída de Junot e incitada pelo próprio governo. E também um outro, de denúncia do oportunismo de alguns desses patriotas...

(As denúncias)

«Estas denúncias recebiam incitamento de um decreto que a regência fez publicar em 20 de Março de 1809, pelo qual autorizava a denúncia... de todos os sequazes dos franceses ou traidores à pátria, proibindo, todavia, o infamar qualquer pessoa com semelhante epíteto.
As denúncias choveram e quase se converteu em balda a acusação por espionagem e jacobinice. (...) Os comerciantes franceses... estavam naturalmente indicados como suspeitos. Mas não eram só eles. A lista dos portugueses e italianos marcados com o ferrete do jacobinismo era longa... (e cita pessoas das mais diversas profissões).
Indicavam mais como jacobinos, um marceneiro de S. Francisco, que fora muito de Lagarde (1) e em cuja casa estavam armas escondidas...; o Jacob Dorham, encarregado de negócios da Holanda, «que em todo o tempo tem sido o coriféu dos espias franceses»... (e continua a lista); o Cosmelli que, certa ocasião, estava a rir com um indivíduo por ter visto sair do Largo do Quintela o general inglês na sua carruagem, acompanhado de cinco guardas a cavalo. Indicavam também a casa da R. da Graça, 97, 1.º, em que se juntavam oficiais do 1.º batalhão nacional do paço da rainha... os quais todos faziam crítica, em verso e em prosa, dos actos governativos.
Muitos franceses, negociantes aqui estabelecidos, iam meter-se voluntariamente na cadeia para escapar às fúrias populares, como sucedeu ao livreiro Orcel. Outros viram as suas casas salteadas (sic) a pretexto de buscas, como aconteceu à de Jácome Ratton... em Alcochete.
Muitas dessas denúncias faziam-se por vingança, interesse cúpido, ou por despeito mal refreado.
Muitos foram expulsos do nosso país. Entre eles figuravam o barão de Serrabord... que usava de vários segredos de medicina; Henrique Solage, que fora mestre de música de diversos regimentos portugueses; Jacques Lebon, mestre de florete do príncipe regente... e Frederico Joly, guarda-livros dos Ratton.
A polícia tinha conhecimento de que havia ainda bastantes franceses escondidos. Em casa dos Ratton estavam dois que eram empregados em fabricar napoleões (2) no tempo do intruso governo.
Criaram-se então (1810) os bilhetes de residência. Dizia o intendente que este processo não devia chocar a nação, e parecia-lhe que lorde Wellington e o ministro britânico (embaixador) achariam justa uma medida que tendia a combater a trama do inimigo.»

(e o oportunismo)

«Passado um ano já havia alguns patriotas que se aproveitavam da estada de Massena em Santarém para ganharem dinheiro com os franceses. Os catraeiros (3) saíam de Lisboa com géneros que fingiam levar para os aliados. Escondiam-se nos esteiros e sinuosidades do Tejo e, pela madrugada, chegavam a Santarém, onde os vendiam por bom preço... Os moços de transporte das brigadas portuguesas também traficavam com o inimigo, atravessando para esse fim os postos avançados nos sítios mais próprios. E foi assim que o tenente-coronel Raimundo José Pinheiro conseguiu entrar naquela cidade, acompanhado de um desses moços, sob pretexto de vender chocolate.»

(1) General nomeado por Junot para responsável da polícia.
(2) Moeda francesa com a efígie de Napoleão.
(3) Tripulantes de catraias, pequenos barcos de proa dupla.


* Professor e Investigador de História

NOTA DA COORDENAÇÃO

As Invasões Francesas deixaram marcas duradoiras na sociedade portuguesa. É o que se evidencia no texto que hoje publicamos, o primeiro de outros que nos dão conta do modo como essas marcas se repercutiram no tempo.

19/08/08

Texto 16 ( Jornal "BADALADAS", 22 / 08 / 2008 )

A BATALHA DO VIMEIRO

PEDRO FIÉIS *






( Desenho do livro de João Pedro Tormenta e Pedro Fiéis )



Após a vitória na Roliça, Sir Arthur Wellesley recebe correspondência de Londres, que lhe dava conta do envio de novos reforços para as suas forças. A sua primeira prioridade passa então a ser a procura de um local adequado para o desembarque. Também soube da iminente chegada do general Burrard e do general Dalrymple, que o substituiriam no comando.

Os guias portugueses que trazia consigo e os conselhos oriundos da frota que o acompanhava ao largo, levam-no a optar pelo Porto Novo, uma baía feita pelo homem na foz do rio Alcabrichel, nunca acabada, mas que poderia fornecer alguma segurança num momento crítico para qualquer exército, como o é a protecção de um desembarque. O relevo em redor também facilitava a defesa, tendo Wellesley disposto a tropa desde a costa até à ponte de Maceira e ainda na colina sobranceira ao Vimeiro, que constituiria o seu flanco.

Entretanto em Torres Vedras, onde estabelecera o quartel-general e para onde ordenara a concentração de todas as forças francesas disponíveis (cerca de 14.000 homens), o general Junot toma conhecimento do desembarque que estava a ocorrer poucos quilómetros ao Norte e após reunião do conselho de guerra decide um ataque surpresa.

Embora tivesse assumido posições defensivas em redor da Vila, Junot sabia que estava por agora impedido de receber quaisquer reforços e por isso um ataque tinha de ser efectuado enquanto os números entre as duas forças estavam equilibrados. Às 4 horas da tarde do dia 20, os franceses começam a marcha, saindo de Torres pela estrada do Vale de Canas – Vila Facaia. Estrada em péssimo estado que dificulta e atrasa a marcha dos franceses.

As patrulhas inglesas é que aproveitaram este imenso ruído, intensificado pela passagem de uma velha ponte de madeira sobre o rio Alcabrichel, na zona de Paio Correia. Alertados, souberam exactamente qual a direcção do ataque, reportando isso mesmo para o general Wellesley, que modifica o seu dispositivo, reforçando a colina do Vimeiro e deslocando forças para o Alto da Ventosa.

Junot tinha consigo tropas bastante cansadas, e num movimento de última hora, decide-se a trocar a divisão Delaborde que avançava na sua direita, pela divisão Loison, que avançava em direcção ao Vimeiro. Ambas estavam bastante desgastadas por combates recentes, mais ainda a primeira que a 17 travara a Batalha da Roliça. Apesar disso não hesita.

Os generais Travot, Charlot e Tomières encabeçaram o ataque de três colunas em direcção à colina do Vimeiro. Solignac avançaria por Toledo em direcção à Ventosa, numa tentativa de contornar o dispositivo inglês e Brennier iria mais ainda pela ala direita seguindo pela estrada da Lourinhã até virar para Pregança.

Á sua frente, dispersa no terreno, estava a infantaria ligeira inglesa e os Riflemans, que os Voltigeurs franceses não conseguiram expulsar das suas posições. Só com a chegada das colunas é que retiraram. De súbito, no topo da colina surgiram as linhas inglesas que a uma distância de 20 passos dispararam um fogo mortal, coadjuvado pela chuva de balas proporcionada pelas granadas Shrapnel, acabando com este ataque em pouco mais de meia hora.

Desorganizadas, as colunas francesas fogem em pânico e Junot vendo o que estava a acontecer ordena o avanço de metade da reserva de granadeiros, as suas melhores unidades que, comandadas pelo coronel Saint-Claire, passam pela debandada do primeiro ataque e são fustigados pela artilharia inimiga. Sobem apesar disso a encosta, mas são recebidos por um fogo mortal dos regimentos nº 9, 50 e 97, formados em linha. Os granadeiros sofrem perdas enormes, num local ainda hoje conhecido como “Lagoa de Sangue” e param subitamente. Momento aproveitado pelos ingleses para carregaram. Com a moral já muito afectada, os franceses retiram.

O regimento 50 persegue-os até alguma distância e o general Kellerman, reparando que pode aproveitar esta brecha, ordena à restante reserva de granadeiros do coronel Marasin, um ataque nessa direcção. 1000 homens conseguem deste modo chegar a uma estrada desprotegida, já não existente nos dias de hoje e que conduzia directamente ao centro da aldeia do Vimeiro, junto à Igreja Matriz.

Inicialmente são coroados de sucesso. No entanto, Wellesley ordenara a Acland para colocar a sua recém desembarcada brigada em reserva na aldeia, com o objectivo de só a envolver nos combates em caso de extrema necessidade. Os franceses nada sabiam disto, pelo que foram surpreendidos por um devastador fogo de flanco. Na sua frente tinham ainda os homens de Anstruther protegidos pelo muro que rodeava a igreja.

Os granadeiros, fazendo jus à sua fama, investem corajosamente e inicia-se um sangrento combate à baioneta, mas como no seu avanço não foram acompanhados por outras forças, correm agora o perigo de se verem cercados. Kellerman e Marasin têm assim de retirar pelo mesmo caminho, já ladeado por Fane e Acland que conseguem aprisionar muitos inimigos. Todos os ataques ao Vimeiro haviam falhado e os franceses estavam nesta parte do campo de batalha em fuga.

Solignac neste meio-termo, já a ouvir o ruído da refrega próxima, consegue chegar perto da Ventosa, onde é igualmente recebido pelas linhas inglesas dos generais Ferguson, Nightingale e Bowes que impedem a sua progressão. Apanhado de surpresa, ferido na retirada, perde ainda toda a sua artilharia. Só a chegada de Brennier o salva, recuperando-se os prisioneiros e o material bélico.

Todas as forças francesas participantes na Batalha, derrotadas, estavam agora em fuga desorganizada de volta a Torres Vedras.

*Professor e investigador de História

Texto 15 ( Jornal "BADALADAS", 15 / 08 / 2008 )

DOUTRINAS MILITARES EM CONFRONTO NA GUERRA PENINSULAR:

OS INGLESES


Pedro Fiéis *


Do lado inglês temos uma perspectiva totalmente diferente, forjada principalmente à custa das duras lições apreendidas na Guerra de Independência dos E.U.A. e que perspectivam algo que entendemos como um exército moderno.
Por outras palavras, não existe um recrutamento obrigatório, mas sim o profissionalismo. Nas palavras de sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, o pior da sociedade inglesa alistava-se, mas sob o enquadramento de um regimento operava-se uma enorme transformação. A vida militar era dura, mas oferecia alguns privilégios como o salário regular, mais os prémios por vitórias alcançadas, para além de os soldados poderem ter consigo as suas mulheres e de as primeiras escolas públicas terem surgido nos regimentos.


Um treino longo e rigoroso fazia destes homens uma máquina disciplinada, capaz de manobrar mesmo nas mais difíceis circunstâncias, algo que os franceses não faziam. Depois era igualmente dado um grande ênfase ao poder de fogo. A India Pattern, o mosquete mais utilizado na Península, tinha um calibre de 19.3mm, por oposição ao mosquete Charleville francês, com um calibre de 17.5mm.


A organização das tropas era em tudo semelhante à francesa, a diferença residia apenas no seu uso em batalha. Foi com as milícias dos E.U.A., que os ingleses aprenderam aquela que viria a ser a sua táctica mais bem sucedida durante toda a Guerra Peninsular, a da contra encosta. Ou seja, no topo das colinas colocavam apenas as unidades de infantaria ligeira, mantendo os restantes regimentos formados em linha protegidos na referida contra encosta.


No momento certo, estes homens colocavam-se no topo e disparavam 3 salvas em 1 minuto, mais do que suficientes para travar qualquer avanço. Compensavam deste modo a fraca precisão de tiro dos mosquetes, algo de que o Board of Ordnance (organismo que tutelava o fabrico das armas) tinha plena consciência quando encomendou a “Baker”, uma arma que veio introduzir o conceito de espingarda.


Ao seu menor tamanho aliava um cano estriado que lhe conferia a tão necessária precisão. A sua fama deve-se igualmente a novas unidades designadas por Riflemans, derivação de Rifle, que a utilizavam em exclusivo e que em batalha actuavam como os Voltigeurs franceses, mas com a vantagem de serem muito mais precisos nos seus tiros, conseguindo muitas vezes eliminar os oficiais inimigos.


A surpresa final reservada para os franceses, consistia numa nova munição utilizada pela artilharia, a granada Shrapnel, nome do seu inventor, que a criou para que a artilharia se pudesse defender da cavalaria, mas que em muito ultrapassou este propósito. Consistia numa esfera oca, cheia de pólvora e balas, na qual se introduzia um rastilho. A perícia do artilheiro em calcular distâncias era fundamental, pois tudo bem feito a bala explodiria ainda em voo com um efeito de cone. As colunas francesas, na batalha do Vimeiro, foram as primeiras a experimentar o seu terrível efeito.


Quanto aos abastecimentos, Wellesley dava-lhes a maior importância pois sabia, tal como Napoleão, que os homens necessitavam de uma boa alimentação para continuarem a lutar. A diferença residia no facto de o primeiro continuar a depender das linhas de comunicação para os obter, mantendo por isso oficiais do comissariado junto do seu Estado-maior e junto dos regimentos, para que nada faltasse.


Na Primeira Invasão, por exemplo, a esquadra fornecia os viveres, estabelecendo-se pontos onde eram criados depósitos que supriam as necessidades por 3 dias. A aquisição de outros bens junto da população, deveria ser paga no acto, sob penas severas em caso de incumprimento.

* Professor e Investigador de História

NOTA DA COORDENAÇÃO:

Este artigo completa o da passada semana, que se havia debruçado sobre a organização militar dos franceses.
Recordamos que estes escritos têm como objectivo divulgar conhecimentos sobre a Guerra Peninsular. Não são trabalhos de investigação ou de abordagem exaustiva dos temas. Os nossos leitores que quiserem aprofundar as questões tratadas poderão encontrar bibliografia abundante nas livrarias. No nosso blogue LINHAS DE TORRES procuramos divulgar a que vai sendo publicada e que chega ao nosso conhecimento.


03/08/08

VISITA GUIADA AOS CAMPOS DE BATALHA

Uma breve nota para esta actividade que decorreu no dia 19 de Julho p.p.
Trinta e cinco pessoas calcorrearam os caminhos da Roliça e do Vimeiro, com o excelente guia que é Pedro Fiéis, investigador de História, especialista da Guerra Peninsular.
Não havia sinais de guerra, claro. Mas lá estavam os lugares onde tantos homens se defrontaram até à morte. Paisagens de grande beleza que acentuam o absurdo do confronto armado. Só um grande silêncio de dorida memória pode erguer-se como tributo de homenagem a tantos heróis anónimos que regaram de sangue aqueles sítios.



Mapa da Batalha da Roliça

Mapa da Batalha do Vimeiro


Moinho de Brilos, Bairro de Nº Srª da Luz, (Óbidos). Terá sido aqui que se deu o primeiro confronto entre ingleses e franceses na Guerra Peninsular



Roliça. Zona do primeiro ataque inglês às posições francesas



O professor Pedro Fiéis explica

Alto do Picoto, na Columbeira, perto da Roliça. Segundo ataque às posições francesas


Memorial ao Coronel Lake, comandante do 29º regimento inglês, morto na batalha da Roliça. Edificado, anos mais tarde, por antigos companheiros de armas que re-visitaram o lugar da batalha. Ainda hoje lá está, no meio dos campos...



Monumento comemorativo da batalha do Vimeiro, erigido naquele lugar aquando do centenário, em 1908

Aspecto actual da casa onde foi assinado o primeiro documento do armistício, no Vimeiro, e que, depois de ratificado, ficou conhecido por Convenção de Sintra



Fotos (C) Vedra

BATALHA DO VIMEIRO

Folheto sobre as comemorações do Bicentenário da Batalha do Vimeiro, organizadas pelo Concelho da Lourinhã e pela Junta de Freguesia do Vimeiro:













Texto 14 ( Jornal "BADALADAS", 01 / 08 / 2008 )






DOUTRINAS MILITARES EM CONFRONTO

OS FRANCESES


Pedro Fiéis*



Durante a Guerra Peninsular, acima dos dois exércitos em confronto – o francês e o inglês - estão duas muito distintas doutrinas de guerra.
Em França, a derrota na Guerra dos Sete Anos vai provocar um forte abalo em todas as estruturas militares e levar ao aparecimento de grandes estrategas que vão revolucionar a forma de combater no século XIX.
Guibert defendia a ideia que nação hegemónica seria aquela que possuísse um exército de conscrição nacional, organizado em divisões autónomas, o que lhe garantiria a mobilidade. Boucert pega nesta ideia e vai mais longe defendendo que a dispersão seguida de uma rápida concentração surpreenderia o inimigo. Por sua vez, Gribevaul com os irmãos Du Teil, são fundamentais para o progresso registado na artilharia.
Napoleão Bonaparte pega em todas estas teorias, aprofunda-as e testa-as com sucesso nos mais diversos campos de batalha europeus. Mais do que divisões, ele criou os Corpos, que agrupavam várias divisões e que congregavam infantaria, cavalaria e artilharia.
Com várias frentes de batalha ao longo de sucessivos anos, Napoleão sabia que o treino que os recrutas recebiam era básico, mas desta limitação fez a sua força, dizendo mesmo aos seus generais que os mosquetes não eram a melhor arma do soldado, mas sim as suas botas.
Por outras palavras, a rapidez com que movimentava o exército surpreendia o inimigo. O facto de ter, por exemplo, 3 Corpos dispersos numa frente de 200 km, para dias depois os ter concentrados numa frente de apenas 50 km, confundia o seu opositor, garantindo-lhe superioridade no campo de batalha, num local que na maior parte das vezes era escolhido por ele.
As forças francesas organizavam-se do seguinte modo: a infantaria dividia-se em ligeira e pesada. A primeira era a mais móvel, capaz de actuar de forma dispersa, reagrupando-se rapidamente quando tal fosse necessário e englobava os Voltigeurs, atiradores de elite. A segunda era a infantaria de manobra, a espinha dorsal do exército. Num ataque napoleónico típico, uma cortina de Voltigeurs fustigava as linhas inimigas e protegia o avanço das colunas de infantaria, que ofereciam assim uma frente reduzida ao fogo contrário.
Para a cavalaria, que tradicionalmente era utilizada para reconhecimento e para dar a estocada final no inimigo, estava reservado agora um novo papel, o de romper com as linhas inimigas. Dividia-se para isso em pesada, com os Cuirassiers, por exemplo, que protegidos por couraças conseguiam ser devastadores em batalha. E a ligeira, Chasseurs à Cheval e Dragons, entre outros, os últimos também treinados para desmontar e lutar como infantaria.
Finalmente a artilharia, com o denominado sistema Gribevaul. Para além das pesadas armas de cerco, contava ainda com canhões de tiro directo e morteiros, para o tiro em arco capaz de ultrapassar obstáculos. Existiam ainda peças que dado o seu menor calibre seguiam a infantaria no seu avanço, em muito contribuindo para aumentar o poder de fogo.
A mobilidade não poderia no entanto ser atingida se o exército estivesse dependente das longas e lentas linhas de abastecimento. Por isso, cada Corpo dependia de si próprio para o respectivo abastecimento, papel que em marcha era normalmente atribuído à cavalaria. Para além disso os soldados recebiam treino específico no que concerne ao cultivo de cereais e ao fabrico do pão.
Estas características aqui resumidas explicam a superioridade militar francesa nos campos de batalha da Europa no início do século XIX.
* Professor, Investigador de História

29/07/08

Texto 13 ( Jornal "BADALADAS", 25 / 07 / 2008 )

Príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI)



O príncipe regente D.João comunica a passagem da família real para o Brasil

JOSÉ NR ERMITÃO *

No dia 24 de Novembro de 1807, com o exército francês já próximo de Abrantes
e com o conhecimento do teor do Tratado de Fontainebleau – segundo o qual a
Casa de Bragança deixava de reinar e o país seria dividido em três partes – O
Conselho de Estado reúne e delibera «acelerar o embarque... da Real Família para
o Brasil». D. João, pelo decreto que se transcreve, comunica o facto ao país, nomeia
uma Junta Governativa, assina um conjunto de instruções (uma delas recomendando
que o exército francês seja bem recebido) e deseja felicidades aos
portugueses.
Do decreto são apresentados unicamente os trechos mais relevantes; parágrafos,
grafia e pontuação actualizadas.

REAL DECRETO DE 26 DE NOVEMBRO DE 1807

Tendo procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade de que
até agora têm gozado os meus fiéis e amados vassalos, e apesar de ter exaurido o
meu real erário e de todos os mais sacrifícios a que me tenho sujeitado, chegando ao
excesso de fechar os portos dos meus reinos aos vassalos do meu antigo e leal aliado
o rei da Grã Bretanha, expondo o comércio dos meus vassalos à ruína e a sofrer por
este motivo grave prejuízo nos rendimentos da minha coroa, vejo que pelo interior do
meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei de Itália, a quem eu me
tinha unido no continente na persuasão de não ser mais inquietado, e que as mesmas
se dirigem a esta capital.
Querendo eu evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma
defesa que seria mais nociva que proveitosa, servindo só para derramar sangue em
prejuízo da humanidade e capaz de acender mais a dissenção de umas tropas que
têm transitado pelo reino com o anúncio e promessa de não cometerem a menor
hostilidade; e conhecendo igualmente que elas se dirigem contra a Minha Real
Pessoa, e que os meus leais vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu
destes reinos, tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a
Rainha Minha Senhora e Mãe e com toda a Real Família para os estados da América
e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até à paz geral.
E considerando mais quanto convém deixar o governo destes reinos naquela ordem
que cumpre ao bem deles e de meus povos, como coisa a que tão essencialmente
estou obrigado, tendo nisto todas as considerações que em tal caso me são
presentes, sou servido nomear para na minha ausência governarem e regerem estes
meus reinos (
seguem-se os governadores: marquês de Abrantes, Francisco Menezes,
Principal Castro, Melo Breyner, Francisco de Noronha e outros)...Tenho por certo
que meus reinos e povos serão governados e regidos por maneira que a minha consciência
seja desencarregada e eles, Governadores, cumpram inteiramente a sua
obrigação, enquanto Deus permitir que eu esteja ausente desta capital... na conformidade
das Instruções que serão com este decreto por mim assinadas.
(Local, data
e assinatura.)

(Seguem-se as Instruções, constituídas por generalidades sobre a administração
imparcial da Justiça, guarda dos privilégios concedidos, modo de tomada de decisões,
nomeação de pessoas adequadas para os cargos de letras, oficiais da justiça,
fazenda e exército; e pela instrução específica que se segue).

(Os governadores) Procurarão quanto for possível, conservar em paz este reino;
e que as tropas do imperador dos franceses e rei de Itália sejam bem aquarteladas e
assistidas de tudo o que lhes for preciso enquanto se detiverem neste reino, evitando
todo e qualquer insulto que se possa perpetrar e castigando-o rigorosamente quando
aconteça; conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com o exército
das nações com os quais nos achamos unidos no continente.
(...) Confio muito... que meus povos não sofrerão incómodo na minha ausência; e
que, permitindo Deus volte a estes meus reinos com brevidade, encontre todos
contentes e satisfeitos, reinando entre eles a boa ordem e tranquilidade que deve
haver entre vassalos que tão dignos se têm feito do meu paternal cuidado. Palácio de
Nossa Senhora da Ajuda em 26 de Novembro de 1807.
Com a assinatura do Príncipe
Regente.

* Professor
Nota da Coordenação:
Os textos que aqui vimos publicando não obedecem necessariamente
a uma ordem cronológica. Eles resultam da abordagem pessoal e da disponibilidade
dos nossos colaboradores, a partir da imensa bibliografia existente sobre a
Guerra Peninsular. São olhares parcelares e dispersos que, no final da série, em 2010, e
depois de ordenados por temas e datas, poderão constituir a base de um livro que ficará
como testemunho da nossa evocação histórica do Bicentenário das Invasões Francesas.

Texto 12 ( Jornal "BADALADAS", 18 / 07 / 2008 )

Batalha da Roliça


Campo de batalha da Roliça, primeiro recontro


Alto do Picoto, lugar do segundo recontro da batalha da Roliça




A Batalha da Roliça


Pedro Fiéis *


Rapidamente chegaram a Lisboa notícias de um desembarque de tropa inglesa, ocorrido em Lavos entre 1 e 8 de Agosto de 1808. O Estado-maior francês sabia igualmente que esta força marchava rapidamente em direcção a Lisboa, cujo porto era fundamental para ambas as partes e com grande parte do território em revolta contra a ocupação, o general Junot chamou a si todas as divisões que enviara em “acções de policiamento” e nomeadamente a divisão de Loison que se encontrava no Alentejo.
Dispunha entretanto da divisão Delaborde, a mais completa e mais bem treinada do seu exército, que apesar de ter dispensado efectivos para as outras, ainda contava com pouco mais de 4.000 homens. Foi então a escolhida para observar os movimentos do inimigo e se possível de contê-los.
Delaborde avança até Alcobaça onde lhe mostram o campo de batalha de Aljubarrota, julgado por ele como ineficaz para a guerra do século XIX, por isso retrocede para uma zona que já observara e que os mapas recolhidos pelo coronel Vincent lhe diziam ser perfeita para o que tinha em mente. Neste meio-termo as nuvens de pó levantadas pelos seus homens eram claramente visíveis para os ingleses, que apenas algumas horas depois entraram em Alcobaça. A presença francesa só confirmava os relatos que o general Wellesley já havia recebido e por isso resolve tomar precauções, enviando à frente do seu exército os regimentos de infantaria ligeira, com a missão de observarem.
No dia 15 de Agosto de 1808, estes homens encontram pela primeira vez os franceses em Brilos, mas só dois dias depois, na madrugada do dia 17, é que do alto do Moinho do Facho, em Óbidos, Wellesley observa uma linha francesa disposta numa colina perto da aldeia da Roliça.
Rapidamente organiza um plano de batalha que envolveria uma manobra em tenaz. Assim, pela direita (em direcção a Sul) avançaria o coronel Trant com cerca de 2.000 soldados portugueses, entre infantaria e cavalaria; pela direita os generais Ferguson e Bowes com duas brigadas e um reforço de artilharia, pois temia-se a aproximação por esse flanco do general Loison. Os restantes homens (3 brigadas) seguiam ao centro sob o comando do próprio Wellesley.
Os movimentos são lentos, pois o centro deveria dar tempo aos flancos para se aproximarem, o espectáculo proporcionado então é amplamente descrito pelos atónitos franceses, que mesmo assim aguentam firme e com os primeiros tiros iniciam uma retirada já prevista, uma vez que não era aqui que Delaborde queria resistir. Batalhão após batalhão recua até aos Altos da Columbeira, protegendo-se mutuamente até chegaram ao que era e é uma verdadeira fortaleza natural. Como resultado disto, Wellesley perdeu toda a manhã.
Delaborde contava poder aguentar esta segunda posição até à chegada de Loison, cuja divisão seria fundamental para equilibrar os números, afinal tinha pela frente cerca de 14.000 ingleses e com uma boa coordenação poderia mesmo pensar em derrotar o inimigo.
Já Wellesley teve de repetir toda a manobra inicial, os regimentos do centro receberam ordens para que apenas as companhias ligeiras entrassem em acção, mas o 29º era comandado pelo coronel George Lake, homem desejoso de notoriedade e crente na superioridade da baioneta sobre a bala, colocou todos os seus homens em linha e avançou por uma das ravinas acima. Por ter encontrado um terreno mais favorável, o 29º fora o primeiro a chegar ao sopé da Columbeira e sem apoio os homens carregaram e ainda chegaram bem perto do topo, só um rápido contra ataque comandado pelo general Brennier pôs cobro a este avanço, do qual resultaram cerca de 50 mortos entre os quais se encontrava o próprio Lake e muitos feridos e prisioneiros.
Perante isto Wellesley ordenou um avanço geral, acometendo os ingleses por todos os locais humanamente possíveis de serem escalados. Delaborde entretanto desesperava pela chegada de Loison o que não viria a concretizar-se e via-se novamente na iminência de ser cercado.
Pelo final da tarde a tropa inglesa do centro conseguiu finalmente chegar perto do topo, numa zona mais larga e plana, onde formaram as suas linhas e os franceses já não tinham capacidade para se lhes oporem. Como os flancos também já se aproximavam, Delaborde mais uma vez ordenou a retirada, a cavalaria protegia a infantaria e até chegarem à aldeia da Azambujeira dos Carros, tudo correu pelo melhor.
Depois centenas de homens a confluírem para as ruas estreitas geraram um grande engarrafamento, muito ampliado pelo pânico gerado pela aproximação do inimigo e a retirada organizada era agora uma debandada.
Wellesley pára a perseguição poucos quilómetros depois, ainda receava a aproximação de Loison e ordena a preparação da primeira refeição quente do dia.


* Historiador torriense, co-autor do livro “A Primeira Invasão Francesa”.


15/07/08

PASSEIO CULTURAL


ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO
PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS


19 Julho 2008
(Sábado)

VISITA AOS CAMPOS DE BATALHA
DA ROLIÇA E DO VIMEIRO


Foi em Agosto de 2008, faz agora 200 anos. Sabe o local exacto destas batalhas? Sabe o que aconteceu realmente?
Tem agora uma oportunidade de conhecer.
Dois especialistas - Pedro Fiéis e João Pedro Tormenta, autores de um livro sobre a 1ª Invasão Francesa - vão guiar-nos aos lugares exactos, explicando o que se passou.

PROGRAMA

9.00 H – Concentração junto ao Museu Municipal de Torres Vedras

Parte da manhã: Visita à Roliça e Alto do Picoto, posições francesas. Evocação dos acontecimentos de 17 de Agosto de 1808.

ALMOÇO no restaurante O BRAGA, no Vimeiro

Parte da tarde: Visita aos lugares dos acontecimentos de 21 de Agosto de 1808, no Vimeiro

18.30 H – Chegada a Torres Vedras

Preço por pessoa: 25 € (inclui transporte, almoço e guias, com documentação)


Inscrições (limitadas a 50 pessoas): até 15 de Julho, para
J. Moedas Duarte: 962 435 928 Carlos Ferreira: 968 049 918

02/07/08

Texto 11 ( Jornal "BADALADAS", 27 / 06 / 2008




A Batalha de Dois Portos

Venerando Aspra de Matos *

No dia 9 de Outubro de 1810 o exército aliado chegava às Linhas de Torres. Com a chuva caída no dia 7 ou 8, conforme as fontes, encheu-se rapidamente o lado direito do rio Sizandro “tornando-se pelo lado de Torres Vedras n’um formidavel obstaculo defensivo sobre o flanco esquerdo da citada linha, não lhe restando então em toda ella, desde o Oceano até ao Tejo, mais do que um intervallo de duas leguas e meia, (…) não fortificado, ao sul do valle de Runa, entre a villa de Torres Vedras e Monte Agraço”[1].
Entretanto, fustigadas pelo mau tempo, as tropas francesas iam-se aproximando lentamente das Linhas, cuja existência só ficaram a conhecer no dia 11.
No dia 12 marchou a vanguarda do exercito francês para Vila Franca de Xira, “tomando lá as posições que julgou convenientes, distribuindo as tropas pela dita villa, por Povos e Castanheira (…)”, conquistando o Sobral.”Para alem de Runa, a serra do Barregudo e os fortes que se tinham levantado em Torres Vedras não permittiam ao marechal Massena movimento algum de flanco por aquelle lado, não lhe restando portanto mais que a possibilidade de dispor as suas tropas entre Villa Franca e o Sobral (…)”. O “oitavo corpo, cuja frente se achava para diante do Sobral”, ocupou as “menores alturas da citada serra do Barregudo, e” guarneceu “as duas margens do rio Sizandro até “ Dois Portos “sobre a estrada de Runa”.[2]
É na sequência deste posicionamento que tem lugar, em 13 de Outubro, a chamada “batalha de Dois Portos”.
O combate foi travado entre as tropas de um dos postos avançados das Linhas Torres Vedras, e uma “considerável força inimiga”, que, na tarde do dia 13, avançando sobre o mesmo posto, provocou a batalha. Nela participaram, pela parte aliada, duas companhias do regimento n.ºs 11 e 23.[3] Sabe-se que a posição definida para esses regimentos era, respectivamente, a Portela e a Patameira, entre as posições da Ribaldeira e do Sobral.[4]
O registo dessa batalha deve-se à memória anónima de um oficial português que a ela assistiu:
“ (…) fomos de madrugada formar para o outro lado da ponte de Dois Portos, a qual, assim como outra que ha do lado direito, estão já minadas para saltarem em caso de necessidade. Sendo já dia claro [13 de Outubro] retirámo-nos para os quarteis. Pelas duas horas da tarde, tendo-se percebido já que os francezes tentavam algum reconhecimento pelo lado do Sobral, para onde tinhamos as nossas avançadas, principiou-se a ouvir fogo, entre elles e uma avançada ingleza que havia á nossa esquerda: viu-se que um forte corpo de tropas francezas,tomava uma altura junto a um moinho. (…) A poucos minutos principiou o fogo com os nossos, pois que os estrangeiros [ingleses] se tinham retirado; e tanto valor mostravam as nossas tropas, que obrigaram os francezes a desistir da tentativa depois de bem destroçados. (…) Tivemos a sensivel perda do coronel Harvey commandante da brigada, que na acção ficou ferido, a ponto de lhe ser necessario ir tratar de si com todo o cuidado. (…) À noite tornou o inimigo para as suas antigas guardas; nós não baixámos: fizemos saltar as pontes.”.[5]
No dia seguinte ainda se registaram alguns recontros esporádicos à volta do Sobral, chegando nesse mesmo dia o grosso do exército francês.
Depressa os franceses se aperceberam da impossibilidade de se movimentarem mais para sul, lutando desesperadamente contra a falta de mantimentos.
Rotos, esfomeados, acossados pela guerrilha, os franceses comandados por Massena iniciaram a 15 de Novembro a retirada da frente das Linhas de Torres.


* Professor

NOTAS:

[1] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 217-218
[2] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 236 e 237
[3] Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238
[4] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222
[5] do diário de um oficial do exército português, iniciado a 31 de Outubro de 1807 e citado por Claudio de Chaby nos Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.245-246

15/06/08

Texto 10 ( Jornal "BADALADAS", 13 / 06 / 2008 )

“Brilos”: um enigma histórico.


Pedro Fiéis *

O primeiro confronto entre ingleses e franceses no que ficou conhecido como Guerra Peninsular, ocorre em território português, mas a sua localização exacta esteve desde sempre envolta em algum mistério, decorrente do nome dado à escaramuça – “Brilos”.
Surgiram em dois séculos de História as mais variadas teorias sobre o local, umas mais fundamentadas do que outras, tendo a maioria apenas um aspecto em comum: a existência de um moinho. Recapitule-se entretanto o desenrolar dos acontecimentos, para uma melhor compreensão do mesmo.
No dia 14 de Agosto de 1808, o exército anglo-português chega a Alcobaça onde pernoita. No dia seguinte, o general Wellesley, sabendo que os franceses se encontravam na zona das Caldas da Rainha, ordenou o avanço de duas companhias do 60º regimento e outras duas do 95º, unidades de atiradores de elite, que deveriam reconhecer o terreno.
Por seu turno o general Delaborde que comandava a primeira divisão do Armée du Portugal, enviada ao seu encontro, havia destacado seis companhias para um moinho numa elevação perto de um curso de água, com o objectivo de vigiar a estrada que ligava Caldas a Óbidos.
Os ingleses, apesar das ordens em contrário, entusiasmam-se ao conseguirem numa primeira fase surpreender o inimigo, forçando-o a recuar e iniciam uma perseguição que só termina junto às muralhas de Óbidos, quando outras companhias francesas se juntam à refrega, disparando um intenso fogo cruzado, que logo ali causa 27 mortos e feridos entre os ingleses, incluindo 2 oficiais. Só com a chegada da brigada do general Spencer é que finalmente os franceses abandonam a sua posição, terminando por esse dia os combates.
Para mais detalhes temos que consultar autores como Oman, por exemplo, que nos refere os 3 factores que devem orientar a busca: - Uma elevação com um moinho; - Uma linha de água, mas excluindo o Rio Real; - A existência de uma estrada real. Os autores portugueses da época seguem todos a descrição dos ingleses, não mudando sequer o nome, daí os mapas não ajudarem muito.
Apesar disso, pode-se excluir desde logo os moinhos mais próximos da vila de Óbidos, nomeadamente o do “Facho”, situado na ponta Sul da vila e o dos “Arrifes”, a Leste, apontado pela tradição popular como o palco dos eventos, mas longe da estrada e de um curso de água.
Uma Carta Topográfica do Reino de 1867 e o Atlas de James Wyld de 1840, são os elementos finais a consultar antes de uma ida ao terreno. No segundo documento, este primeiro confronto é colocado a meio caminho, entre as duas localidades já citadas e no primeiro podemos constatar a existência de uma estrada real que partindo por detrás do actual quartel militar, nas Caldas, segue em linha recta pelo vale e passa pelo Bairro de Nossa Senhora da Luz e pela Ermida de Santo Antão, desembocando junto às muralhas a Norte de Óbidos.
Esta é uma estrada que ainda existe nos nossos dias, seguindo um percurso paralelo à actual nacional e o Bairro é uma localidade muito antiga, na época pouco povoada, mas já contando com uma igreja, defronte da qual existe numa colina e perto de um curso de água, um moinho.
Reside então aqui a chave para a resolução do problema, uma vez que todos os factores já descritos se conjugam e se hoje em dia a vista se encontra um pouco obstruída, os habitantes locais mais idosos ainda se lembram de duas condicionantes muito importantes e que eram ainda uma realidade na primeira metade do século XX.
A primeira eram os pântanos que existiam na zona, ou seja, ninguém se aventurava para muito longe dos caminhos conhecidos e a segunda era a vista nítida para a saída Sul das Caldas da Rainha.
Por tudo isto o Bairro da Senhora da Luz configura-se como a hipótese mais provável para a localização de “Brilos”, evento de pouco relevo na época, mas de grande importância para quem hoje em dia estuda a época.


* Historiador torriense, co-autor do livro A Primeira Invasão Francesa – As Batalhas da Roliça e do Vimeiro, ed. Nova Galáxia, Caldas da Rainha, 2005

Nota da Coordenação: A História é feita de múltiplas abordagens. Para se perceberem os grandes acontecimentos, é necessário estudar os pequenos factos, por mais insignificantes que pareçam. Esta micro-história ocupa actualmente muitos historiadores porque ela permite esclarecer pormenores que se revelam, muitas vezes, como factores decisivos na evolução histórica.
O texto de hoje é um bom exemplo.

30/05/08

Texto 9 ( Jornal "BADALADAS", 23 / 05 / 2008 )

Memória de Jacinto Correia, erguida já este ano no jardim fronteiro à porta de armas da Escola Prática de Infantaria de Mafra


JACINTO CORREIA, UM HERÓI POPULAR




Major Abílio Pires Lousada *


Fronteira de Segura - Beira Baixa, 20 de Novembro de 1807. À frente de um exército de 26500 homens, o general francês Andoche Junot invadiu Portugal para conquistar Portugal.
Lisboa, 30 de Novembro de 1807. Junot entra, com o seu exército, em Lisboa, instala-se no palácio do barão de Quintela e assume a governação de Portugal em nome do imperador Napoleão Bonaparte. Um exercício de poder que se revelará despótico e instigará as populações à revolta.

Lugar de Atouguia, Gorcinhos – Mafra, finais de Janeiro de 1808. Ao final da manhã, o jornaleiro Jacinto Correia, habitante da área, de 46 anos, casado e com filhos, dirige-se, como habitualmente, para casa com o produto do seu trabalho. No caminho, é abordado bruscamente por dois soldados franceses que o pretendem roubar. Jacinto Correia não teme e não cede, segue-se uma violenta luta entre os três homens. O jornaleiro saloio, homem de rija têmpera e habituado ao trabalho duro do campo, habilmente e com raiva, brande a foice roçadora que transporta e golpeia mortalmente os dois soldados que o atacaram.
Em pouco tempo, uma força militar francesa detém Jacinto Correia, que é presente a tribunal e julgado num Conselho de Guerra.
Apesar de algumas autoridades locais tentarem o perdão do jornaleiro, o Tribunal empurrou o processo para uma incriminação do réu, que impunha punir exemplarmente.
Em determinada altura do julgamento, porque o jornaleiro apresentava uma atitude de serenidade e desafio, foi-lhe perguntado por Loison, comandante militar francês da região, “se o arrependimento já tinha exercido algum efeito no seu espírito”. A resposta, tão convicta como desconcertante, “se todos os Portugueses fossem como eu, não ficaria um francês vivo”, enraiveceu Loison.
Jacinto Correia foi condenado à morte e fuzilado no campo da Alameda, no topo sul do Convento de Mafra, a 25 de Janeiro de 1808.
Tratou-se de um acto heróico, que correu célere de boca em boca. Junot, temendo que a atitude patriótica do «mafrense» estimulasse ânimos e ódios para provocações futuras, publicou uma semana depois a notícia da execução de Jacinto Correia:

«Um dos vossos compatriotas, Jacinto Correia, convencido de um grande crime, foi condenado á morte; Esta severidade das leis assegura a tranquilidade pública de que dependem as vossas vidas e propriedades»
Gazeta de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1808

Notícia viciada e ameaçadora. Jacinto Correia «convencido de um grande crime»? Executou-se um homem de bem para tranquilizar as pessoas? Não se falou do pacato e honesto trabalhador, do cidadão de fé que auxiliava os frades do Convento ou do homem de família; ignorou-se copiosamente que se limitara a defender-se, a si e aos seus bens e, sobretudo, escondeu-se que Jacinto Correia desafiara o Tribunal e exortara os seus concidadãos a serem como ele: “(…) nem um só francês ficaria vivo”.
Era um acto isolado, Junot e Loison sabiam-no bem, e o incidente ocorrera em legítima defesa. Pouco importava, e tanto bastava para fazer dele um exemplo de intimidação para quem não colaborasse ou se opusesse ocupação napoleónica.
Era um acto isolado, pensaram Junot e Loison. Sê-lo-ia, mas por pouco tempo, o exemplo de Jacinto Correia ficou e faria «escola» junto do povo.


Há precisamente 200 anos, Jacinto Correia pagou com a vida o protesto lavrado contra a extorsão e as humilhações praticadas pelos franceses[1]. “Cruzes canhoto que vais para o maneta” – alcunha de Loison - , mediante tais processos de administração da ordem social mais valia morrer afrontando do que viver na humilhação. Assim, apesar das boas intenções «justiceiras» de Junot, Mafra e Jacinto Correia não constituíram um sopro abafado de revolta, tornaram-se num grito popular que, em uníssono, tornou num tormento a presença em Portugal dos soldados do Imperador.
A revolta popular de 1808 foi, em certa medida, a revivescência do tempo da Reconquista, quando nos povoados se gritava “Mouros em terra, mouros em terra, habitantes às armas”, da crise de Aljubarrota, em que o povo alertava “o Mestre está em perigo, o Mestre está em perigo”, do 1º de Dezembro de 1640, quando o frei Heitor Pinto proclamava “E-rei Filipe bem me pode meter em Castela, mas Castela em mim é impossível”.


Em 1808, um cidadão de Mafra clamou que “se todos fossem como eu, nem um francês ficava vivo”. É com gente desta qualidade, o povo, que a Pátria Portuguesa acontece. A verdade é que o gentio luso, que somos todos nós, vela atento, nós os Jacintos Correia de ontem e de sempre.


* Professor de História Militar do Instituto de Estudos Superiores Militares


Notas:

[1] São vários os autores que lembram a heroicidade de Jacinto Correia, dando testemunho da importância que o episódio constituiu à época, a que nem os ingleses foram alheios:
- Guilherme José Ferreira de Assunção, À sombra do Convento, Mafra, Rolo e Filhos, 3ª Edição, 1978, pp. 17-18; - - Raul Brandão, ob. cit., p. 153 e pp. 205-206;
- Mário Domingues, Junot em Portugal, Lisboa, Romano Torres, 1972, p. 336;
- Fernando Pereira Marques, Exército e Sociedade em Portugal, no Declínio do Antigo Regime e Advento do Liberalismo, Lisboa, A Regra do Jogo, Janeiro de 1981;
- Robert Southey, History of the Peninsular War, 3º vol., London, John Murray, 1823-1832, citado por Maria Leonor Machado de Sousa, A Guerra Peninsular em Portugal. Relatos Britânicos, Casal de Cambres, Caleidoscópio, Outubro de 2007.


16/05/08

Batalha da Roliça

Um blog que evoca a Batalha da Roliça através de actividades diversas. Da música ao passeio pedestre, de fotografias a recortes de imprensa, recorda-se um dos acontecimentos mais importantes da 1ª Invasão Francesa...

Texto 8 (Jornal "BADALADAS", 09 / 05/ 2008 )

A 3ª Invasão Francesa e as Linhas de Torres Vedras


Manuela Catarino *

Na sequência da derrota das forças napoleónicas na Batalha do Douro (12 de Maio de 1809), prevendo nova invasão, as atenções de Sir Arthur Wellesley, concentraram-se em dois objectivos principais: garantir a segurança do embarque das forças britânicas, que se faria junto a Lisboa, e, por outro lado, delinear a sua defesa criando diversos pontos de bloqueio nos principais eixos de acesso à cidade.
As “poderosas linhas de alturas que se erguem na região de Torres Vedras”, bem como os estudos topográficos feitos por Neves Costa, suscitaram a Sir Arthur o Memorando de 21 pontos enviado para o Coronel Richard Fletcher onde apresentava, de forma pormenorizada, as obras a construir naquele espaço e que ficaram para sempre designadas por “Linhas de Torres Vedras”.

Durante um ano fizeram-se os trabalhos necessários, contando com cerca de cento e cinquenta mil camponeses, arregimentados na região, sob as ordens de dezoito oficiais e cento e cinquenta sargentos ingleses. No total, o custo da obra rondou as cem mil libras, preço bem inferior a qualquer outra semelhante, ainda que tenham sido construídas cinquenta milhas de fortificações, onde se destacavam cento e cinquenta e dois fortes com seiscentas peças de variado calibre.
A linha de redutos, mais próxima de Lisboa, destinava-se a proteger S. Julião da Barra, onde se efectuaria o embarque inglês, devidamente protegido por forças da retaguarda. A mais afastada principiava em Alhandra, junto ao rio Tejo, aproveitando as elevações do terreno, particularmente do Cabeço de Montachique, continuando depois em direcção a Arruda e Sobral de Monte Agraço, até se ligar aos fortes construídos junto à vila de Torres Vedras, onde se destacava o Forte de S.Vicente, prosseguindo com mais vinte e cinco redutos até à foz do rio Sizandro.

Estavam assim estrategicamente bloqueadas as entradas em Lisboa a qualquer força invasora que viesse do norte. E os franceses preparavam, de facto, nova invasão. O Marechal André Massena reuniu 65000 homens, contando ainda com apoio de forças espanholas, e iniciou a marcha em direcção à fronteira portuguesa. Por sua vez, Sir Arthur organizava as tropas anglo-lusas, em que se incorporavam 18000 ingleses e 14000 portugueses, preparando-se para enfrentar o inimigo, obrigando-o a “ atacar com as suas forças concentradas(…) permitindo assim que as populações evacuem cidades, vilas e aldeias (…)destruindo tudo no seu caminho.” Era a e estratégia de terra-queimada que obrigava a um êxodo das populações e à destruição de tudo quanto pudesse ser útil ao invasor, desde espaços construídos a alimentos e outras formas de subsistência…
Em Julho de 1810, Massena e os seus soldados entram em Portugal. Espera-os um “Exército de Linha” que repele todas as tentativas de avanço dos franceses na forte serrania do Buçaco. Entretanto Sir Arthur conclui os seus planos de defesa e aguarda a chegada dos franceses, retirando-se para as posições da primeira linha de Torres Vedras, onde estaciona a 10 de Outubro de 1810.
É o próprio Massena que faz o reconhecimento das linhas, a que chega no dia 15 de Outubro, e não terá gostado de encontrar algo que nenhum dos relatórios enviados pelo seu estado-maior lhe dera a conhecer. Também não terá contado com a rebelião que se instala entre os seus Generais mais próximos, agravada com novos desaires na zona do Sobral, o número de doentes que aumentava entre os seus homens, o peso da derrota no Buçaco. Massena terá sentido os indícios de uma nova situação desvantajosa, e as suas indecisões terão aumentado com a perspectiva de enfrentar quatro longos meses de Inverno, com a fome que começaria a grassar entre os soldados.

A situação não era fácil para as tropas aliadas, conforme nos demonstram os preciosos informes deixados por Manuel Agostinho de Madeira Torres ao salientar a intensidade da chuva que se abateu sobre a vila nos dias 7 e 8 daquele mês de Outubro. Foram enormes as perdas em vinho e azeite nos celeiros públicos e privados, a destruição das casas e cartórios públicos, bem como o saque das igrejas da vila e termo a que se veio juntar uma epidemia tão mortífera que houve necessidade de ampliar o espaço de cemitério junto à Igreja de S. Miguel para dar digna sepultura a quantos a peste matava.
A ameaça manteve-se durante semanas, com as tropas francesas nas suas posições até meados do mês de Novembro. Ao alvorecer do dia 15 foi notada uma estranha imobilidade das sentinelas francesas. Um reconhecimento mais próximo revelou o que se passava – eram bonecos de palha! Aproveitando a escuridão da noite, Massena havia retirado …

Mais uma vez, a estrela de Napoleão sofria um forte abalo no seu pretendido fulgor!


* Professora

15/05/08

TURRES VETERAS - História da Guerra Peninsular


(Clicar para aumentar)


A falta que o scaner faz! Por isso ainda não colocámos aqui o cartaz - belíssimo! - e o programa da 12ª edição do Encontro de História Local TURRES VETERAS, a realizar dias 16 e 17 de Maio no Auditório dos Paços do Concelho, em Torres Vedras

O tema: HISTÓRIA DA GUERRA PENINSULAR.

A partir de outra fonte aqui ficam o programa e o cartaz.






05/05/08

E já que estamos em maré de visitas, aqui fica a ligação para um outro espaço em que a autora evoca um dos acontecimentos mais trágicos da Guerra Peninsular.


O endereço:


http://umquartodefadas.blogspot.com/2008/05/os-fuzilamentos-do-3-de-maio-de-1808.html

VALE A PENA VISITAR !

Referimo-nos ao excelente blog publicado pela Escola Secundária José Saramago, de Mafra.
O endereço:

http://linhasdetorres.wordpress.com/

Repito: vale a pena lá ir! textos, imagens, fotografias, mapas...
Parabéns ao professor dinamizador e aos seus colaboradores!

27/04/08

Texto 7 (Jornal "BADALADAS", 25 / 04 / 2008 )


A 2ª Invasão Francesa

Maria Guilhermina Pacheco*


Napoleão Bonaparte, enquanto, prosseguia com a guerra em Portugal, forçou em Espanha, a abdicação do rei Carlos IV e do seu herdeiro D Fernando, em 1808, em Baionne, e colocou no trono espanhol o seu irmão José Bonaparte.
Perante isto, iniciou-se um movimento de revolta contra os franceses, que foi apoiado pelas tropas britânicas acantonadas no norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, os ingleses passam a fronteira no início de 1809, tendo sofrido uma derrota na Corunha, pelos franceses comandados pelo marechal Soult. Tiveram que se retirar, deixando o caminho aberto a Soult, que invade Portugal pela fronteira do Minho, em Março de 1809, avançando até à cidade do Porto, que foi ocupada a 24 desse mês, tendo fixado a fronteira no Douro. É desta altura que se dá o trágico episódio de 29 de Março, no rio Douro, com a fuga de pessoas pela ponte das Barcas, que não aguentou com o peso, tendo morrido à volta de 4.000. Em Maio, do mesmo ano, tropas Luso-Britânicas comandadas pelo General Arthur Wellesley e pelo Comandante-em-Chefe. Marechal William Carr Beresford, vencem a chamada batalha do Douro, reconquistam a cidade e a 29 de Maio expulsam os franceses, que se retiram para a Galiza.
Entretanto as tropas de Wellesley continuam para sul, e travam a batalha de Talavera, em Julho, já em território espanhol, tendo vencido, regressando depois a Portugal.
Esta Batalha indica o final desta segunda invasão, tendo sido concedido ao general Wellesley o título de Lorde Wellington.
Pode-se destacar pela sua importância estratégica a chamada escaramuça de Serém, concelho de Vouga, uma região de difícil acesso do rio Vouga e do rio Marnel, em que o capitão-mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço do marechal Soult , para sul, e, esperou pela chegada de tropas do Batalhão Académico, a que mais tarde se juntaram reforços , comandados por Wellesley. Em consequência, o exército de Soult não conseguiu atravessar o Vouga e, tiveram que se retirar para Norte.


Professora *





O DESASTRE DA PONTE DAS BARCAS


O Porto destaca-se como um centro importante de actividades económicas, desde os princípios da nacionalidade, articulado com o rio Douro, que o protegia, como linha defensiva e, mais tarde, como meio de circulação de pessoas e mercadorias. A travessia do rio, ao longo do tempo, foi sendo feita com a ajuda de barcos, jangadas e barcaças. Há várias referências a pontes construídas utilizando barcas.
A primeira ponte, com projecto de Carlos Amarante, construída para perdurar, foi inaugurada a 15 de Agosto de 1806.Era constituída por 20 barcas ligadas por cabos de aço, podendo abrir em 2 partes para a passagem do tráfego fluvial. Foi nela que se deu o trágico acidente de 29 de Março de 1809.em que milhares de pessoas morreram afogadas. Fugindo às tropas francesas, precipitaram-se para a ponte, que não aguentou com o peso e cedeu. Quem vinha atrás, não se apercebendo do abismo, empurrou para a morte os que estavam mais adiante.
A Ponte das Barcas foi reconstruída, acabando por ser substituída pela Ponte Pênsil em 1843.
Actualmente, continua a reverenciar-se a memória destas vítimas da segunda invasão francesa com a colocação de flores e velas junto da lápide às “Alminhas da Ponte”, erigida no local do desastre.

12/04/08

Texto 6 ( Jornal "BADALADAS", 11/04/2008 )

A 1ª Invasão Francesa

Graça Andrade Mira *

A 17 de Outubro de 1807 (dez dias antes da assinatura do Tratado de Fontainebleau), Napoleão ordenou ao general Andoche Junot que entrasse em Espanha com 25 000 homens, onde se lhe reuniriam as tropas espanholas para proceder à invasão de Portugal. A 19 de Novembro Junot cruza a fronteira, chegando a Castelo Branco em lastimáveis condições de abastecimento, pelo que saqueia a cidade e toda a Beira Baixa.
A notícia da presença dos franceses em Abrantes fez apressar o embarque da família real, com destino ao Brasil. Antes porém, D. João nomeou um Conselho de Regência composto por nove personalidades representativas da nobreza, clero e magistratura e mandou afixar editais nos quais aconselhava o povo a receber os franceses como amigos, para evitar represálias.
A 29 de Novembro, Junot é saudado em Sacavém por uma delegação (constituída por personalidades ligadas à Regência, à Academia das Ciências e à Maçonaria Portuguesa) que lhe pede protecção. No dia seguinte, Junot entra em Lisboa acompanhado por uma escolta militar da Guarda Real da Polícia.
É pois, sob o lema da “protecção” que as tropas napoleónicas e espanholas invadem Portugal, ultrajado pela “maligna influência inglesa”, no dizer de Junot e em pouco tempo, todo o país se encontrava ocupado por cerca de 50 000 soldados que se espalharam por toda a nação, confiscando, pilhando, roubando, matando e prendendo a seu bel-prazer.
Torres Vedras sofreu desde logo os incómodos do alojamento e de quase todo o peso das requisições para a subsistência das tropas estacionadas não só na então Vila (cerca de 3 mil homens), como em Mafra e Peniche. O trato moderado e parcimonioso do Brigadeiro Charlot (comandante das tropas francesas) contribuiu para que Torres Vedras pudesse ter negado qualquer obséquio público ao intruso governo francês e mantivesse os cultos religiosos, inclusive o Natal.
Durante a primeira invasão, as estruturas administrativas judiciais e fiscais do Estado absoluto não sofreram qualquer alteração. Este modelo de funcionamento colaboracionista generalizou-se a quase todas as instituições, de que não foi excepção a Igreja, a qual teve uma função primordial na criação de um clima popular mais ordeiro. O púlpito foi usado para serenar o povo.
Foi nesse estado geral de “afrancesamento das instituições” que o País viveu entre 30 de Novembro de 1807 e 1 de Fevereiro de 1808, data em que Junot extingue o Conselho de Regência e proclama oficialmente a destituição da Casa Real de Bragança, numa clara violação do Tratado de Fontainebleau.
A partir de então todos os decretos, cartas e alvarás passam a ser assinados em nome de «S. M. o Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno».
O exército português foi parcialmente dissolvido e transformado numa “Legião Lusitana”, que seguiu para Espanha e depois para França e outras partes da Europa a lutar por Napoleão.
Como consequência do imposto extraordinário de 100 milhões de francos, ordenado por Napoleão, Junot lança sobre o reino uma contribuição de 40 milhões de cruzados. À Junta do Comércio são cobrados 6 milhões. O ouro e a prata das igrejas começam a ser recolhidos. Da Comarca de Torres Vedras, “a dita prata e ouro, reduzida a dinheiro somava a enorme quantia de 35 000$600 rs”. Na chamada contribuição de guerra exigida à classe comercial, “coube a este Concelho a quantia de três contos de reis e à Comarca oito contos”.
As insurreições sucedem-se de Norte a Sul do país e a pedido da Junta do Porto, o general Artur Wellesley acorre em auxílio dos portugueses, vindo a travar a 17 de Agosto, com Delaborde, o combate da Roliça-Columbeira do qual saiu vencedor e no dia 21 a batalha do Vimeiro, perdida pelo próprio Junot.
Iniciaram-se então as negociações para a rendição dos Franceses e a sua saída de Portugal, cujos termos se fixaram na chamada Convenção de Sintra.
A este propósito refira-se que, faz parte do espólio do Museu Municipal Leonel Trindade o “Bufete da Maceira”, em que foi negociado o armistício que pôs fim à 1ª Invasão Francesa.
O local, ou locais de assinatura deste documento têm levantado alguma controvérsia, surgindo inclusive questões relativamente à sua denominação. No entanto, se pretendermos denominá-la pelos locais onde foi assinada, a exemplo de outros tratados similares, a denominação mais indicada seria a de Convenção de Torres Vedras/Lisboa, uma vez que, este documento foi o tema de uma reunião do Estado Maior inglês, em Torres Vedras, no dia 28 de Agosto de 1808, onde foi validado, saindo daqui o documento que foi assinado por Junot no dia 30 de Agosto, em Lisboa.
Em Setembro, os Franceses embarcavam com destino a França, levando consigo a maior parte da pilhagem que ainda hoje se pode encontrar em museus e bibliotecas francesas.

* Professora


Todos os artigos já publicados nesta rubrica podem ser lidos em:
http://linhasdetorres.blogspot.com/

25/03/08

Um SITE a visitar

É um espaço muito interessante, a explorar com proveito.

Chama-se Linhas de Torres Vedras. Basta clicar AQUI