
Claro que anuimos de bom grado e sentimo-nos honrados com esta iniciativa.
Aqui fica a imagem da primeira página do Boletim mais recente.
Para saber mais sobre esta Associação cultural:

Em 28 de Novembro foi editado pelo Badaladas um Suplemento de 4 páginas, de que se reproduz a primeira, em fotografia. (Aguardamos a digitalização para reprodução mais fiel).Transcrição:
A publicação deste Suplemento, da responsabilidade da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, está integrada na evocação do Bicentenário das Invasões Francesas, a decorrer entre os anos de 2007 e 2010. Esta iniciativa, que se inscreve num dos objectivos centrais da ADDPCTV – dar a conhecer o património histórico de Torres Vedras – só é possível com a colaboração da Direcção e da Administração do jornal Badaladas, uma e outra bem cientes do papel imprescindível da imprensa regional na preservação da memória colectiva.
A DIRECÇÃO DA ADDPCTV
Tores Vedras e a Primeira Invasão (1807-1808)
(Venerando de Matos)
As tropas de Junot cruzaram a fronteira portuguesa em 19 de Novembro de 1807, entrando em Lisboa no dia 30, três dias depois da família real ter saído a caminho do Brasil.
Segundo Madeira Torres, “Torres Vedras (...) foi a primeira em participar da consternação e saudade (…) pela ausencia do nosso adorado Principe”.
No dia 6 de Dezembro os torrienses “foram constrangidos a franquear quarteis, e munições de bôcca para a tropa de mais de duas brigadas” comandadas pelo Brigadeiro Charlot até à chegada do General Loison, nos dias seguintes. “No dia 8 do mesmo mez adiantou-se para a Praça de Peniche o General de Brigada Thomiers com dois batalhões, e passados alguns dias retrocederam dois para Mafra, onde Loison estabeleceo ordinariamente o seu Quartel General”
Permaneceram em T. Vedras “ os dois Batalhões dos regimentos 12 e 15 de infantaria ligeira”, que eram compostos por cerca de tres mil homens, sob o comando do Brigadeiro Charlot.
“Nos primeiros dias padeceo esta Villa não só os gravissimos incommodos do alojamento, mas quasi todo o pêso das requisições para a inteira subsistencia da tropa”
A moderação do brigadeiro Charlot foi muito elogiada pelo ilustre pároco torriense, até porque “contribuio ella para nunca se interromperem as funcções do Culto, nem mesmo a do Natal, e para se fazerem com boa ordem, e até com esplendor”.
Com a proximidade da Primavera o mesmo brigadeiro aliviou a vila “d’algum pêzo de tropa, mandando destacar duas Companhias para a Lourinhã, e duas para o logar do Turcifal”.
Em finais de Maio “levantou-se o quartel do General Charlot”, partindo com o Batalhão do regimento 12 “para a frustrada expedição do Douro e Porto, commandado por Loison. Pelo mesmo tempo se transferio o Batalhão do Regimento 15 para Mafra, e veio para aqui um dos alojados na Praça de Peniche, de que era Commandante o Major Bertrand, o qual apenas se demorou um dia. Desde então ficou esta Villa alleviada de tropa effectiva; mas não deixou de ser frequentada, e incommodada por alguns destacamentos, pelo transito dos Officiaes do Estado Maior, e tambem de varios corpos do Exercito.”[1]
Até Junho de 1808 as revoltas contra o invasor foram esporádicas e localizadas, não se conhecendo nenhuma neste concelho.
A mais importante, nas proximidades de Torres Vedras, foi a revolta das Caldas da Rainha, iniciada em 27 de Janeiro de 1808 e rapidamente esmagada pelas divisões de Thomiers e Loison, tendo, para esse efeito, a divisão deste último atravessado Torres Vedras.
Foi a partir da Espanha que a revolta popular contra o invasor ganhou contornos de grande insurreição, iniciada no célebre “2 de Maio”, contaminando Portugal onde, a 4 de Junho, se registaram os primeiros motins que tiveram lugar em Chaves.
Segundo Madeira Torres: “principiaram a chegar” (a Torres Vedras) “ as noticias de que a expedição do general Loison se tinha malogrado, e que as provincias do Norte se davam as mãos para destruir o intruzo governo, e proclamar o nosso legitimo Soberano; soube-se depois, que este heroico enthusiasmo já chegava á Cidade de Leiria, e que bem depressa as outras Povoações da Extremadura, (…). Esperava-se com impaciencia a aproximação do exercito Nacional, auxiliado com o socorro que se dizia chegado d’Inglaterra, mas a demora, e a incerteza das noticias concorriam para a geral anciedade”.[2]
A 2 de Agosto Junot tomou conhecimentodo desembarque britânico em Lavos.
Rápidamente procurou reunir as suas tropas, então dispersas a tentar travar as revoltas populares que se espalhavam por várias regiões do país.
Loison, com uma divisão de 6000 homens no Alentejo, foi mandado retirar para Abrantes e daí avançar sobre Tomar.
Delaborde, por sua vez foi mandado de Lisboa a caminho da Batalha e Alcobaça. Uma parte destas forças, comandadas por Thomiers, atravessou Torres Vedras. Foram estas forças que se defrontaram com os ingleses na batalha da Roliça, em 17 de Agosto, ao mesmo tempo que os ingleses entravam em Alcobaça, cortando as comunicações entre Delaborde e Loison.
Mais uma vez Torres Vedras viveu estes acontecimentos à distância, sabendo-se “da batalha da Roliça (...) pelos que se retiravam feridos do Exército, e por alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia”.
Por sua vez, Delaborde aproveitou-se “da noite para largar de todo o campo”, e tomar “a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça. Em quanto o Corpo principal seguia, não deixavam de passar pela Villa em toda a noite soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo”.[3]
Tomando conhecimento da Batalha da Roliça, Junot decide abandonar a capital, determinando “fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras”.[4]
Em Torres Vedras, quando“se pensava, que no seguinte dia 18 d’Agosto entraria o Exercito alliado (…), aconteceo ao contrario espalhar-se o susto, e perturbação, pela noticia de que vinha proximo todo o Exercito Francez”, sob o comando de Junot, “e que com rigorosas ordens se mandavam apromptar quarteis, viveres, e forragens. (…). Este General entrou com o seu Estado-Maior pelas tres horas da tarde do indicado dia 18, rodeado dos Generaes quasi todos, e de uma forte escolta de cavallaria, a qual se dividio, e occupou logo as entradas da Villa, não se permittindo a sahida d’alguem, sem guia ou passaporte do Commandante da Praça, (…). Sómente os Officiaes do Estado-Maior tiveram alojamentos, porque os dos corpos ficaram com os mesmos sobre os campos visinhos. Concorreram aqui muitos individuos não militares, uns por empregados, e unidos ao Exercito nas suas diversas repartições, e outros meramente por buscarem o seu abrigo, receosos de serem sacrificados ao seu furor nas pequenas povoações. Ainda que nos armazens existissem alguns sobrecellentes do antigo fornecimento, nada eram para supprir ás urgencias de um Exercito, que se computava em 20$000 sem contar os seus aggregados: por isso foram indispensaveis as requisições violentas para a entrega dos generos necessarios; as quaes para mais prompto effeito se faziam por pregões, ameaçando-se os habitantes que se subtrahissem, com as penas de morte, e do incendio das suas casas, que seriam examinadas”. [5]
Vindo de Rio Maior, atravessando a região com dificuldade, a coluna comandada por Thiébault chega a Torres Vedras no dia 20, embora de forma dispersa.
Nessa data estavam concentradas em Torres Vedras todas as forças sob comando de Junot, num total de 13 mil homens;
Às duas horas da tarde desse dia Junot, inicia a ofensiva, para tentar chegar ao lugar de desembarque das tropas inglesas, em Porto Novo. Ao anoitecer ordena que as suas tropas estacionem junto a Vila Facaia, para descansarem.
No início da madrugada do dia 21 reinicia-se o avanço das suas tropas ao encontro do exército inglês, no lugar do Vimeiro.
A Batalha do Vimeiro foi seguida à distância pela população de Torres Vedras: “pelas 9 horas da manhãa começou a ouvir-se o estrondo d’Artilharia: no primeiro tempo do combate vieram noticias agradaveis aos Francezes: mas não tardou muito, que lhes chegassem outras, com que se mostraram descontentes, (…); enfim correram os boatos d’uma derrota completa, que se viam verificados pelos estragos, e até depois pela propria confissão, dos que se recolhiam do campo. A tropa entrou de noite,” (em Torres Vedras) “ e buscou acampar-se, como antes de ir para a batalha. No dia seguinte viam-se companhias commandadas por um cabo d’esquadra (tal havia sido a carnagem na officialidade): e todo o grande trem d’Artilharia reduzido a tres carretas. Apezar de ser tão vizivel, e avultado o destroço, ainda Junot se occupava com a impostura de fazer illuminar a Villa em aplauso da victoria (…).”
Na manhã do dia 22 Junot chamou “ao seu quartel os Generaes, e lhe propoz pedir capitulação, o que foi adoptado (...)”.[6]
Ficou encarregue de negociar com os ingleses o general Kellerman, partindo para o quartel general do exercito inglês sob pretexto de conferenciar relativamente aos prisioneiros e aos feridos, mas com plenos poderes para propôr um armistício:“Emquanto Kellermann ia desempenhar-se de tão importante missão, as tropas francêsas abandonavam Torres Vedras”.[7]
Kellerman chegou ao Vimeiro por volta do meio-dia do dia 22.No acordo de suspensão de armas ficou decidido que o rio Sizandro formasse “a linha de demarcação entre os dois exércitos” e que Torres Vedras fosse território neutral.[8]
Após a assinatura deste primeiro acordo “o Exercito Inglez se adiantou para as alturas d’aquem Amial (fixando os Generaes os seus quarteis n’esse logar, e ainda mais no do Ramalhal), começou a ser innundada de gente annexa ao Exercito, recebida com vivissimo enthusiasmo, e prazer; e apezar da supposta neutralidade, houve sem demora [em Torres Vedras] sinceras e voluntarias demonstrações de contentamento pela victoria e communicação dos allidos. As auctoridades da Villa foram logo comprimentar os Generaes Inglezes, e de todas as visinhanças concorriam numerosos ranchos de pessoas, até do sexo feminino a observar o campo da batalha, o admiravel espectaculo do Comboio estacionado defronte do Porto Novo, e a brilhante linha e revista do Exercito alliado”.[9]
No dia 24 chegavam a Porto Novo as tropas de John Moore, fundeando no dia seguinte, desembarque que se fez com grande dificuldade, levando cinco dias, afogando-se muitos marinheiros e soldados.
Registando-se algumas divergências na execução do acordo entre as duas partes, temendo-se o reacender do conflito, deram-se ordens “ás tropas de Moore para irem ocupar Torres Vedras, emquanto que os restantes corpos, sob o commando de Wellesley, deixando sobre a sua esquerda a estrada do Ramalhal a Bucellas, iriam tornear a posição de cabeça de Montachique, e o corpo do general Bernardim Freire, avançaria para ir ocupar Mafra.
“De facto, o exercito inglês adiantou-se um pouco, indo estabelecer-se nos logares do Sarge, de Paul e Torres. As tropas portuguesas vieram estabelecer-se na Encarnação (Lobagueira)”.
O tratado final só foi assinado definitivamente a 30 de Agosto e “ratificado por Dalrymple no dia 31 no seu quartel general de Torres Vedras”. Foi este acordo que passou à história, erradamente, como “Convenção de Sintra”, “pois não foi tratada, nem assignada” nesta vila. “Foi comtudo de Cintra que, com a data de 1 de setembro, Dalrymple enviou ao seu governo uma carta com a copia da convenção (...)”, daí a confusão histórica.[10]
Finalmente, no dia 15 de Setembro, o exército de Junot deixou Portugal.
Um pouco por todo o reino festejou-se a restauração do reino. Em Torres Vedras “foram grandes as demonstrações d’alegria pela gloriosa restauração do Reino em 1808. Logo no mez de Setembro do dicto anno os seus habitantes a festejaram com muitos dias de luminarias, e em seguida a Camara fez celebrar uma solemne Festividade em acção de graças na Matriz de Sanctiago, com mais tres dias de luminarias, prestito pelas ruas com o seu Estandarte (que já dias antes se tinha arvorado nos Paços do Concelho) dando vivas a S.A.R. o Principe Regente”.[11]
Torres Vedras, apesar de carregar em poucos dias “o pêso de tres Exercitos (…) e apezar dos estragos causados nos fructos, que ainda se recolhiam, e estavam pendentes, tal é a fertilidade do terreno, e tal foi a particular abundancia d’aquelle anno”, conseguiu suprir “ao fornecimento da tropa”, sem “padeceram falta” os seus habitantes.[12]
NOTAS
[1]Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.164 a 171
[2] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 171
[3] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819, pp. 171-172
[4] Victoriano J. Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp. 112-113
[5] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp. 172-173
[6] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p.174).
[7] Victoriano J.Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, p.139
[8] O documento do armistício do Vimeiro foi publicado por José Acúrsio das Neves, no tomo V da sua História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino, pp.433 a 435 da reedição dessa obra pelas Edições Afrontamento,s/d
[9] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.175-176
[10] Victoriano J.Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143
[11] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), nota (a) dos Editores, p. 177
[12] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.175-176
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CURIOSIDADES HSITÓRICAS RELACIONADOS COM AS GUERRAS NAPOLEÓNICAS.
(Pedro Fiéis)
O açúcar chegava ao mercado francês proveniente das suas colónias nas Caraíbas e na América do Sul. A importância crescente deste produto, nomeadamente na conservação dos alimentos que as tropas consumiam, ditaram o aumento da procura, mas o prolongado bloqueio marítimo por parte da Inglaterra fez com que fosse um bem escasso.
Havia que encontrar uma solução alternativa e esta estava nos trabalhos realizados no século XVIII por um alemão, Marggraf, que com um seu discípulo descobriu o processo que permitia a extracção do açúcar das beterrabas. Em 1811 Napoleão ordena então o cultivo de 80.000 hectares e incentiva a criação de escolas e fábricas para poder melhorar um processo que era caro e lento.
Os frutos desta iniciativa vieram logo no ano seguinte, atribuindo-se a Legião de Honra a Benjamin Delessert, pelos avanços técnicos que registou e que tornaram finalmente a produção viável. Em 1814 já existiam 40 fábricas em França, mas também em território da actual Bélgica, Áustria e Alemanha.
Com o fim do conflito veio também o declínio desta indústria, pois o açúcar de cana inundou novamente os mercados e a preço muito mais baixo
A varíola era em séculos passados uma epidemia terrível que todos os anos reclamavam milhares de vítimas e marcava para sempre os que lhe sobreviviam. Em desespero para se encontrar uma cura, vários foram os métodos utilizados, oriundos de todos os pontos do planeta, mas sem grandes resultados.
Até que apareceu Edward Jenner, um inglês, que na sua juventude tinha sido submetido a sangrias, purgativos e dietas muito estranhas como forma de combater a doença, a que se juntava uma inoculação na qual se utilizavam as pústulas de alguém infectado.
Convencido de que este não era o caminho a seguir, dedicou-se ao estudo da medicina e reparou que o gado tinha sintomas semelhantes que se contagiavam aos humanos, mas cujas lesões que provocavam desapareciam espontaneamente e traziam consigo a imunidade contra a varíola.
Durante 20 anos recolheu dados, até que em 1796 realizou a primeira experiência com sucesso absoluto. Apesar de tudo, muitos foram os entraves e preconceitos que teve de enfrentar. A ajuda acaba por vir do inimigo existente do outro lado do canal, já que Napoleão segue o seu processo e manda vacinar todo o exército, tornando-o imune, algo crucial para quem queria conquistar a Europa.
Jenner acaba por ter o reconhecimento merecido e em duas ocasiões diferentes (1802 e 1807) recebe prémios monetários do parlamento inglês. É um dos heróis do seu tempo.
Uma disputa gastronómica subsiste nos dias de hoje entre portugueses e espanhóis, referente à origem da “Perdiz à Alcântara”. Não me vou debruçar sobre o que dizem os espanhóis, pois faltam-lhes muitos factos concretos, que sobram no nosso caso.
Assim no Convento do Sacramento em Alcântara, como em muitos outros, existiam grandes receituários, onde estavam compilados anos de sabedoria gastronómica. Ávido dos tesouros que a Igreja possuía, o general Junot encarregou logo membros do seu staff de descobrirem o que de mais precioso existia, não descurando nada, nem mesmo as bibliotecas, onde se sabia estarem obras com incrustações de pedras preciosas.
Seja por esta via ou tendo sido ofertada pelos monges, o certo é que a sua esposa divulga muitas das receitas nos salões da capital francesa. Algumas alterações são depois introduzidas, para satisfazer o gosto francês e à marinada com vinho do Porto acrescentam-se trufas e paté de pato.
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LIVROS

NAPOLEÃO E PORTUGAL
Nicole Gotteri
Ed. Teorema, Lisboa, 2006
A invasão de Portugal, em 1807, corresponde a um momento decisivo da guerra entre a França e a Inglaterra. A maioria dos livros que abordam este acontecimento incide sobretudo nas operações militares. Este livro, na tradição das grandes obras de história diplomática, procura compreendê-lo no contexto geopolítico da época. A autora, doutorada em História, é arquivista-paleógrafa, antigo membro da escola Francesa de Roma.
1808
Laurentino Gomes
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008
Sub.título: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.
O autor, jornalista brasileiro e investigador, coligiu dados durante dez anos para fazer esta obra de divulgação histórica.

HISTÓRIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCESES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINOJosé Acúrsio das Neves
Edições Afrontamento, Porto, 2008
Trata-se da reedição de uma obra clássica, que há muito estava esgotada, sobre a primeira invasão francesa, e cuja primeira edição data de 1810 /11.O autor, contemporâneo dos acontecimentos, era formado em Leis pela Universidade de Coimbra e exerceu funções de juiz nos Açores. Mais tarde ocupou cargos de gestão económica e foi de deputado, dedicando-se simultaneamente à investigação história.
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FICHA TÉCNICA:
Coordenação de Joaquim Moedas Duarte
Colaboradores:
José N R Ermitão
Pedro Fiéis
Venerando de Matos
Organização gráfica:
José Pedro Sobreiro
Execução gráfica:
Carlos Ferreira

A BATALHA DO VIMEIRO
PEDRO FIÉIS *
( Desenho do livro de João Pedro Tormenta e Pedro Fiéis )
DOUTRINAS MILITARES EM CONFRONTO NA GUERRA PENINSULAR:
OS INGLESES
Pedro Fiéis *
Do lado inglês temos uma perspectiva totalmente diferente, forjada principalmente à custa das duras lições apreendidas na Guerra de Independência dos E.U.A. e que perspectivam algo que entendemos como um exército moderno.
Por outras palavras, não existe um recrutamento obrigatório, mas sim o profissionalismo. Nas palavras de sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, o pior da sociedade inglesa alistava-se, mas sob o enquadramento de um regimento operava-se uma enorme transformação. A vida militar era dura, mas oferecia alguns privilégios como o salário regular, mais os prémios por vitórias alcançadas, para além de os soldados poderem ter consigo as suas mulheres e de as primeiras escolas públicas terem surgido nos regimentos.
Um treino longo e rigoroso fazia destes homens uma máquina disciplinada, capaz de manobrar mesmo nas mais difíceis circunstâncias, algo que os franceses não faziam. Depois era igualmente dado um grande ênfase ao poder de fogo. A India Pattern, o mosquete mais utilizado na Península, tinha um calibre de 19.3mm, por oposição ao mosquete Charleville francês, com um calibre de 17.5mm.
A organização das tropas era em tudo semelhante à francesa, a diferença residia apenas no seu uso em batalha. Foi com as milícias dos E.U.A., que os ingleses aprenderam aquela que viria a ser a sua táctica mais bem sucedida durante toda a Guerra Peninsular, a da contra encosta. Ou seja, no topo das colinas colocavam apenas as unidades de infantaria ligeira, mantendo os restantes regimentos formados em linha protegidos na referida contra encosta.
No momento certo, estes homens colocavam-se no topo e disparavam 3 salvas em 1 minuto, mais do que suficientes para travar qualquer avanço. Compensavam deste modo a fraca precisão de tiro dos mosquetes, algo de que o Board of Ordnance (organismo que tutelava o fabrico das armas) tinha plena consciência quando encomendou a “Baker”, uma arma que veio introduzir o conceito de espingarda.
Ao seu menor tamanho aliava um cano estriado que lhe conferia a tão necessária precisão. A sua fama deve-se igualmente a novas unidades designadas por Riflemans, derivação de Rifle, que a utilizavam em exclusivo e que em batalha actuavam como os Voltigeurs franceses, mas com a vantagem de serem muito mais precisos nos seus tiros, conseguindo muitas vezes eliminar os oficiais inimigos.
A surpresa final reservada para os franceses, consistia numa nova munição utilizada pela artilharia, a granada Shrapnel, nome do seu inventor, que a criou para que a artilharia se pudesse defender da cavalaria, mas que em muito ultrapassou este propósito. Consistia numa esfera oca, cheia de pólvora e balas, na qual se introduzia um rastilho. A perícia do artilheiro em calcular distâncias era fundamental, pois tudo bem feito a bala explodiria ainda em voo com um efeito de cone. As colunas francesas, na batalha do Vimeiro, foram as primeiras a experimentar o seu terrível efeito.
Quanto aos abastecimentos, Wellesley dava-lhes a maior importância pois sabia, tal como Napoleão, que os homens necessitavam de uma boa alimentação para continuarem a lutar. A diferença residia no facto de o primeiro continuar a depender das linhas de comunicação para os obter, mantendo por isso oficiais do comissariado junto do seu Estado-maior e junto dos regimentos, para que nada faltasse.
Na Primeira Invasão, por exemplo, a esquadra fornecia os viveres, estabelecendo-se pontos onde eram criados depósitos que supriam as necessidades por 3 dias. A aquisição de outros bens junto da população, deveria ser paga no acto, sob penas severas em caso de incumprimento.
* Professor e Investigador de História
NOTA DA COORDENAÇÃO:
Este artigo completa o da passada semana, que se havia debruçado sobre a organização militar dos franceses.
Recordamos que estes escritos têm como objectivo divulgar conhecimentos sobre a Guerra Peninsular. Não são trabalhos de investigação ou de abordagem exaustiva dos temas. Os nossos leitores que quiserem aprofundar as questões tratadas poderão encontrar bibliografia abundante nas livrarias. No nosso blogue LINHAS DE TORRES procuramos divulgar a que vai sendo publicada e que chega ao nosso conhecimento.
Mapa da Batalha da Roliça
Mapa da Batalha do Vimeiro
Moinho de Brilos, Bairro de Nº Srª da Luz, (Óbidos). Terá sido aqui que se deu o primeiro confronto entre ingleses e franceses na Guerra Peninsular
Roliça. Zona do primeiro ataque inglês às posições francesas
O professor Pedro Fiéis explica
Alto do Picoto, na Columbeira, perto da Roliça. Segundo ataque às posições francesas
Memorial ao Coronel Lake, comandante do 29º regimento inglês, morto na batalha da Roliça. Edificado, anos mais tarde, por antigos companheiros de armas que re-visitaram o lugar da batalha. Ainda hoje lá está, no meio dos campos...

Monumento comemorativo da batalha do Vimeiro, erigido naquele lugar aquando do centenário, em 1908

Aspecto actual da casa onde foi assinado o primeiro documento do armistício, no Vimeiro, e que, depois de ratificado, ficou conhecido por Convenção de Sintra
Fotos (C) Vedra