
15/03/09
RECRIAÇÃO HISTÓRICA - Invasões Francesas no concelho de Pombal

13/03/09
FORTE DO ALQUEIDÃO - SOBRAL DE MONTE AGRAÇO
Um dos fossos
Este é um dos fortes mais importantes da primeira linhas das LINHAS DE TORRES VEDRAS. Situado num ponto muito elevado, em contacto visual directo com a Serra do Socorro, onde se articulavam os sinais de comunicação para a zona de Torres Vedras e litoral.
07/03/09
IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - V 5 MARÇO 2009 - FRENTE OESTE
Olivença, Igreja de Santa Maria Madalena, estilo manuelino.
Portal manuelino, Paços do Concelho - OlivençaE A PERDA DE OLIVENÇA
Joaquim Moedas Duarte
As fronteiras de Portugal foram definidas no reinado de D. Dinis, em 1297, através do Tratado de Alcanises, firmado com Castela. Durante 504 anos mantiveram-se inalteradas até que, pela chamada Guerra das Laranjas, Olivença foi anexada pelos espanhóis.
Recuemos a 1801. A França e a Inglaterra defrontavam-se em terra e no mar, arrastando outros países pelo jogo das alianças e dos interesses de cada um. A Espanha, com um contencioso antigo em relação à Inglaterra, alia-se à França de Napoleão. Portugal, refém e beneficiário da velha aliança anglo-lusa, não tem por onde fugir. Manuel Godoy, a quem o rei Carlos IV de Espanha dera o título de Príncipe da Paz e fizera primeiro-ministro, entendeu-se com Napoleão para a partilha de Portugal. O que estava em causa? Napoleão via-nos como base de operações terrestres e ancoradouro seguro para os navios ingleses. Daí a exigência clara de que os nossos portos fossem fechados ao velho aliado. Por outro lado, na América do Sul as fronteiras do território português do Brasil eram há muito disputadas: a norte pelos franceses que queriam alargar a Guiana Francesa; a sul pelos espanhóis, por causa da colónia de Sacramento e das margens do rio da Prata, onde hoje é a Argentina.
Portugal não tinha argumentos de força para impor os seus direitos. O exército era reduzido, desorganizado e mal armado. O seu chefe máximo, o duque de Lafões, já octogenário, era incompetente, tal como os generais de que dispunha. As fortificações fronteiriças estavam em mau estado. Quando os espanhóis concentraram 40 a 50 mil homens no outro lado da fronteira, Portugal, que só dispunha de cerca de 12000, entrou num desesperado e inábil jogo diplomático cuja estratégia era apenas a de ganhar tempo, esperando um milagre. Ele não veio e os espanhóis passaram à acção em Março de 1801. Ocuparam Olivença, Juromenha, Campo Maior, Arronches, Portalegre e Castelo de Vide, sem que os portugueses opusessem resistência. Só Elvas não se rendeu, mas ficou isolada e sitiada sem qualquer influência no desfecho final. Quando a paz foi assinada pelo Tratado de Badajoz, em Junho daquele ano, Portugal teve de aceitar a perda de Olivença. Mais tarde, em 1815, no rescaldo da queda de Napoleão, o Congresso de Viena reconheceu a Portugal o direito de recuperar a sua posse mas a Espanha nunca acatou esta decisão.
Porquê a designação de “guerra das laranjas”? Conta-se que Godoy, já em Portugal à frente das tropas invasoras, mandou cortar um galho de laranjeira carregado de frutos e enviou-o como símbolo da sua conquista à rainha Maria Luísa, com quem vinha mantendo uma relação menos formal e mais íntima…
No dizer de António Ventura, historiador especializado no estudo desta época, “a Guerra das Laranjas foi uma espécie de primeira fase tímida e minimalista daquilo que seria a grande confrontação de 1807-1814, a Guerra Peninsular”.
01/03/09
Texto nº 27 ( Jornal BADALADAS, 26 / 02 / 2009 )
HISTORIADOR DAS INVASÕES FRANCESAS (1)
Há duas obras de importância capital para o estudo das Invasões Francesas: uma delas já foi objecto de artigos anteriores – a História Geral da Invasão dos Franceses... da autoria de José Acúrsio das Neves; a outra é a História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal, da autoria de Simão José da Luz Soriano. Em qualquer estudo sobre o período em questão, são sempre utilizadas e referenciadas pela extensão informativa e documental que veiculam.
O AUTOR
S. J. Luz Soriano (1802-1891) foi educado na Casa Pia que, devido às suas capacidades intelectuais, lhe custeou a frequência da Universidade de Coimbra. Liberal convicto, Soriano exilou-se em 1828, depois do malogro do liberalismo. Fez parte do exército liberal que, primeiro, se apoderou da ilha Terceira, depois desembarcou no Mindelo em 1832, combateu e derrotou o miguelismo e instaurou o regime liberal no país em 1834.
Voltou à universidade, formando-se em Medicina, e iniciou a actividade política co-mo colaborador de Sá da Bandeira (uma das mais prestigiadas figuras do liberalismo) na Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar. Foi defensor da colonização de Angola, província de que foi deputado, e membro do Conselho Ultramarino.
Como historiador, para além da obra mencionada, escreveu entre outras a História do Cerco do Porto (1849), a História do Reinado de D. José e da Administração do Marquês de Pombal (1867) e a Vida do Marquês Sá da Bandeira (1888); publicou ainda uma autobiografia, Revelações da minha vida…, em 1860.
A HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL...
O título da obra é tão extenso quanto a própria obra, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal compreendendo a história diplomática, militar e política deste reino desde 1777 até 1834. É constituída por 19 volumes, sendo 7 deles, do 4.º ao 10.º (cerca de 5000 páginas!), directamente dedicados às invasões francesas e guerra peninsular. A monumentalidade e a exaustividade, juntamente com uma exposição pouco metódica, uma escrita seca e longos excursos introdutórios, são as suas características externas mais evidentes.
Embora indique o ano de 1777 (subida de D. Maria I ao trono) como início da obra, antecede-o de uma vasta introdução de 200 páginas com uma síntese da história de Portugal, e refere aspectos do reinado de D. José e da actuação do Marquês de Pombal, pois «o reinado de D. José foi seguramente o do primeiro germen das referidas ideias (liberais) entre nós, pois que as reformas ou medidas decretadas pelo... ministro (Marquês de Pombal)... foram... do mais alto e rasgado progresso social...»; ou, como diz de outro modo, «O Marquês de Pombal abate com a clava da sua omnipotência as classes da nobreza e do clero, dando consideração às mais inferiores e desprezadas, medidas estas que o apresentam como altamente revolucionário, com relação ao tempo em que viveu».
A obra resultou de uma encomenda estatal e teve como objectivo concreto a elaboração de um panorama global e unitário da história do período em questão, até ai divulgada em obras mais ou menos parcelares. Esta necessidade de uma obra unitária entrosa-se quer com o papel que era atribuído à história na formação do homem liberal, quer com a necessidade de justificar e defender historicamente a inevitabilidade do próprio movimento liberal – tem pois uma evidente função ideológica.
Luz Soriano, para a sua elaboração, consultou não só as obras publicadas no seu tempo sobre os temas tratados, como teve acesso livre aos arquivos dos diversos ministérios. Reuniu assim uma massa de dados, informações, interpretações e documentos absolutamente inultrapassável e que faz dela uma obra de consulta obrigatória para o estudo do período que vai do reinado de D. José até ao estabelecimento do liberalismo, «seguramente a época mais importante da nossa história pátria, por ser o da maior ilustração e civilização, a da nossa diplomacia moderna, e a das nossas guerras externas e civis, a par da do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal».
(Continua em próximo artigo)
IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - IV 26 Fev 2009 - FRENTE OESTE
Batalha de Trafalgar - W. TurnerTEMPESTADE NO HORIZONTE
A execução de Luís XVI pelos revolucionários franceses em Janeiro de 1793 fez estremecer as monarquias da Europa, levando-as a reagir. Durante 25 anos, este continente vai ser varrido pela guerra: de um lado a França, mobilizada segundo o novo conceito de “nação em armas”, chefiada pelo maior cabo-de-guerra dos tempos modernos, Napoleão; do outro, as grandes monarquias – Áustria, Prússia, Rússia, Suécia… - lideradas pela Inglaterra.
As duas maiores nações da Europa vão defrontar-se ao longo de um processo de afirmação imperial: a Inglaterra procurando o domínio das rotas comerciais marítimas e das colónias produtoras de matéria-prima para as suas indústrias; a França querendo impor os ideais revolucionários contra os decadentes regimes absolutistas. Entre uma e outra não era possível a coexistência pacífica. Napoleão encara seriamente a hipótese de invadir a grande ilha britânica, o que o leva a aliar-se à Espanha, inimiga secular da Inglaterra e senhora de uma forte Armada. O confronto decisivo deu-se em Outubro de 1805, junto ao Cabo Trafalgar, onde a armada franco-espanhola foi completamente desbaratada pela frota inglesa comandada pelo Almirante Nelson.
A partir daqui o teatro de guerra passa para o solo europeu. Portugal era uma nação periférica e de pouca influência internacional mas o seu território, tanto no continente como no ultramar, ganhou uma importância estratégica decisiva na luta entre as grandes nações rivais. Portugal viu-se entalado entre a espada francesa que nos considerava um protectorado inglês, e a parede inglesa que invocava a velha aliança para fazer dos nossos territórios a base das suas operações militares. Sem exército organizado e com um príncipe regente – D. João - sem estatura política, Portugal fica reduzido a jogar o seu destino no volátil tabuleiro diplomático. Proclamando-se neutral, alia-se em segredo ora a um ora a outro dos blocos inimigos. Esgota o tesouro em pagamentos, indemnizações, acções de aliciamento. Tenta ganhar tempo, esperando que deus ou a sorte levem para bem longe a tempestade que carrega o horizonte.
J. Moedas Duarte
IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - III - FRENTE OESTE 19 Fev 2009
Antecedentes da Guerra Peninsular
Em França, durante o período da Convenção (1792-1795) o apelo à participação popular para viver os acontecimentos que estavam a mudar o seu quotidiano foi recebido com entusiasmo. Proliferam os símbolos que todo o patriota se orgulha de ostentar: o “barrete frígio”, o “vestuário”, as “rosetas” tricolores que se afirmam nas lapelas e chapéus…
De entre os novos símbolos, um dos mais famosos, “a árvore da Liberdade” ou “Maio da Liberdade” readapta o uso de plantar, durante a noite, em frente da casa de uma namorada, de um vizinho ou de um inimigo uma árvore, o tradicional “Maio”. Deste costume, que coincidia com o início da Primavera e, amorosa ou cruelmente, traduzia em laços, fitas, objectos, papéis escritos, as mensagens, os dizeres, as injúrias, que de viva voz não havia coragem para assumir, irão os patriotas reavivar o fervor popular. Por toda a França se passaram a realizar as “festas cívicas”, plantando árvores nas vilas e cidades com fitas, laços, rosetas tricolores e palavras de incentivo e louvor aos actos e personagens da Revolução, mas também de verdadeiras ameaças aos seus opositores.
O processo revolucionário continua a sua marcha. Ao terminar funções, a Convenção aprova uma nova Constituição em 1795 sob o lema “ liberdade, igualdade, propriedade” dando início a uma nova etapa da Revolução Francesa – o Directório. Na guerra que a França sustenta na Europa começa a ganhar proeminência o nome de um general – Bonaparte.
O alastramento das ideias revolucionárias começou a ser objecto de preocupação por parte das monarquias absolutas logo a partir de 1793, e principalmente após a condenação à morte de Luís XVI. Pode-se, assim, compreender a acção do Intendente Geral da Polícia, Pina Manique, que tenta travar a todos os níveis a introdução em Portugal dos costumes, modas, opiniões, obras literárias ou quaisquer outras formas de contacto com as “perigosas” ideias. A França é, apesar de tudo, a grande referência cultural da época. Para alguns, muito poucos, espíritos iluminados que se reúnem em tertúlias e cafés, as ideias de igualdade e liberdade são objecto de discussão e defesa acalorada mas não põem em causa a ordem instituída.
Não será, portanto, de estranhar que esses homens ditos “afrancesados” associem a entrada na cidade de Lisboa, das tropas comandadas por Junot, ao sopro dos desejados ventos de Liberdade!
Manuela Catarino
25/02/09
IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - II 12 Fev 2009 - FRENTE OESTE

A tomada da Bastilha a 14 de Julho de 1789, hoje solenizada no feriado nacional dos Franceses, tornou-se o símbolo maior da Revolução. O povo de Paris, amotinado, assaltou lojas de armas e atacou e tomou a principal prisão do Estado onde supunha encontrar mais armamento. Pelas funções que desempenhava, a Bastilha constituía a imagem da repressão e injustiça do poder absoluto, pelo que a sua queda se revestiu de um enorme simbolismo para os revolucionários.
Mas após esse momento de vitória, os parisienses, revoltados e armados, continuaram o processo insurreccional. Apoderaram-se das instituições administrativas e organizaram uma milícia própria e patriótica – a Guarda Nacional – que passou a envergar uma farda tricolor: vermelho e azul do brasão armorial da cidade, e branco dos Bourbons, a dinastia reinante. Seria esta a força militar em que se apoiariam os interesses revolucionários enquanto na cidade ganhava forma a Comuna de Paris e em outras cidades, por toda a França, os acontecimentos se precipitavam. A Revolução estava em marcha.
Enquanto o ambiente revolucionário ia crescendo não era unânime o sentir social – para uns, o clima era de entusiasmo, para outros, reinava o medo e a instabilidade. Foi durante esse período conturbado que a Assembleia Nacional Constituinte, desenvolvendo uma intensa actividade legislativa, pôs cobro à ordem político-social vigente – a do Antigo Regime – e fundou um novo quadro politico-institucional e uma nova ordem social, a do Liberalismo.
Da Assembleia Constituinte procederá o documento que mais repercussão irá ter na História humana: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada a 26 de Agosto de 1789. Destinada a servir de preâmbulo à futura Constituição francesa, os seus princípios fundamentais não se dirigiam unicamente aos franceses, podendo ser aplicados a qualquer regime político. Documento que define um novo conceito de Homem e de Cidadão, nele se consubstancia o primado dos direitos individuais e da Liberdade.
Estas mudanças revolucionárias fizeram estremecer toda a Europa e a Guerra Peninsular foi uma das suas consequências.
Manuela Catarino

24/02/09
Texto nº 26 ( Jornal "BADALADAS", 13 / 02 / 2009)
REVOLTAS POPULARES NO ALGARVE CONTRA OS FRANCESES DE JUNOT
Henrique Vieira*
Junot ocupou Portugal a partir de finais de Novembro de 1807. Os actos que se seguiram foram os do ocupante que procura neutralizar qualquer possibilidade de revolta: desarmamento geral, imposição da lei marcial com julgamentos sumários que espalham terror, lançamento de pesados impostos. Junot fixou o quartel-general em Lisboa mas as tropas francesas e espanholas espalharam-se pelos principais pontos do país. O Algarve foi inicialmente ocupado pelo general espanhol Campigny mas, depois de um desentendimento com os franceses, são estes que vêm a fixar-se em Faro, sob o comando do general Maurin.
Nos primeiros dias de Março de 1808, este general lança um tributo mensal de 1.200$000 reis, a ser pago pelas comarcas de Faro, Tavira e Lagos, para o chamado prato do governador (para o sustento da sua casa e estado), para além de outros impostos diversos. Tudo o que era ouro e prata das igrejas passou para as mãos dos franceses, sob o pretexto que eram mais úteis no fabrico de moedas de ouro e prata do que no sítio onde estavam. Destes actos ainda hoje os mais antigos utilizam as expressões “Roubar à grande e à francesa” e “Tens mais artes que os Bonapartes”.
Entretanto em Espanha, a 2 de Maio, inicia-se a sublevação contra a ocupação napoleónica e a 26 processa-se a Revolta da Andaluzia estabelecendo-se, em Sevilha, uma Suprema Junta de Governo que, a 6 de Junho, declara guerra à França, em nome de Fernando VII, Rei de Espanha. Em Julho os franceses, até aí invencíveis, sofrem uma grande derrota em Bailén, Espanha. As notícias destes acontecimentos chegam rapidamente ao Algarve. Junot ordena a Maurin que concentre os seus homens nas fortalezas do Guadiana, pelo que passam a ser pequenos os contingentes franceses que ficam nas cidades e fortalezas de defesa da costa. Por esta altura a armada inglesa mantém uma vigilância permanente nas costas algarvias e nas da Andaluzia, dificultando ao máximo o abastecimento dos franceses. O povo, insofrido com a ocupação, esperava apenas um rastilho para incendiar a revolta. Ele surge quando, em 12 de Junho se iniciam os preparativos para a festa de Santo António, em Olhão. João da Rosa, ao armar o andor para colocar o Santo, “olhando para as armas reais que estão na dita capela e se achavam tapadas e pregadas com um painel da Senhora da Conceição, pô-las a público, sem olhar a mais nada e somente confiado em Deus”. No dia 13 quando os marítimos se dirigiam para a festa e vendo tal acto, foram para a praia e embandeiraram todas as embarcações com a bandeira portuguesa e lançaram vivas ao Príncipe Regente e à Liberdade.
Quatro dias depois o tenente – coronel José Lopes de Sousa, governador da praça de Vila Real de Santo António, que estava em Olhão há dois meses, ao dirigir-se com a sua família para a missa do Corpo de Deus, reparou que alguns marítimos tentavam ler um edital que estava fixado à porta da igreja, no qual Junot incentivava os portugueses a aliarem-se aos franceses contra os espanhóis revoltosos. Lopes de Sousa rasga o cartaz e diz: -”Já não merecemos o nome de portugueses e já não há homens do mar como os antigos!” ao que respondem os presentes que “eram homens como os seus antecessores, fiéis e leais a Sua Majestade, por quem estavam prontos a derramar a última pinga de sangue (…). Logo, sem mais demora, correu cada um quanto mais podia a rasgar os editais; subindo à torre puseram-se a tocar a rebate e todos a uma voz puseram-se a clamar: Viva Sua Majestade e o Príncipe Regente, Nosso Senhor, Dom João de Portugal; Viva toda a Família Real; Vivam todos os nossos governos portugueses que foram fiéis ao nosso amado Príncipe; morra toda a nação francesa”.
A partir daqui desenrolam-se múltiplos confrontos. Os franceses estão agora perante uma população exaltada e disposta a tudo para recuperar a liberdade. Olhão, mas também Faro, Tavira e Vila Real de Santo António, entre outras localidades, sem qualquer apoio militar, desgastam a tropa francesa com acções constantes de guerrilha, infligindo baixas entre os soldados inimigos. Um barco de Olhão, com 17 tripulantes, mete-se ao mar e leva ao Príncipe Regente no Brasil, novas do Algarve em armas. Acto heróico que ainda hoje se evoca no nome de Vila de Olhão da Restauração concedido pelo Príncipe.
Por todo o lado os franceses não mais terão descanso até serem obrigados a abandonarem o país, após a Convenção de Sintra, em finais de Agosto de 1808.
* Professor
06/02/09
Texto nº 25 ( Jornal "BADALADAS", 30 / 01 / 2009)
CONTINUAR A MANTER VIVA A MEMÓRIA
J. Moedas Duarte
Faz agora um ano que se iniciou esta rubrica dedicada ao Bicentenário das Invasões Francesas. Foi referido na altura que não se trata de um revolver inútil no passado mas sim de manter viva a memória de um conjunto de acontecimentos ocorridos entre 1807 e 1810, na perspectiva de que o conhecimento da História é um factor necessário para o entendimento do presente. “Uma sociedade sem memória é um ser errático e vazio” – escrevia-se no primeiro texto desta rubrica.
Sabemos que esta iniciativa da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, em colaboração com o jornal Badaladas, tem tido bom acolhimento. Até já recebemos várias sugestões para que estes textos venham a ser compilados numa futura publicação, hipótese a ponderar oportunamente. É nossa intenção continuar a publicar estes artigos duas vezes por mês, até ao final do próximo ano, cobrindo assim todo o período das comemorações.
Para os leitores que estão a coleccionar estes textos de divulgação e respondendo a uma sugestão que nos foi apresentada, publicamos hoje a sua lista completa.
1
25-01-08
Manter viva a memória
J. Moedas Duarte
2
15-02-08
Guerra Peninsular
Carlos Guardado
3
29-02-08
Napoleão
J. Travanca Rodrigues
4
14-03-08
França e Inglaterra em confronto
J. Travanca Rodrigues
5
28-03-08
Guerra Peninsular: Porque é que Portugal se viu envolvido
J. Moedas Duarte
6
11-04-08
A 1ª Invasão Francesa
Graça Mira
7
25-04-08
A 2ª Invasão Francesa
Mª Guilhermina Pacheco
8
09-05-08
A 3ª Invasão Francesa
Manuela Catarino
9
23-05-08
Jacinto Correia, um herói popular
Major Abílio Lousada
10
13-06-08
“Brilos”: um enigma histórico
Pedro Fiéis
11
27-06-08
A batalha de Dois Portos
Venerando A de Matos
11-07-08
Programa da Visita Guiada à Roliça e Vimeiro
12
18-07-08
A batalha da Roliça
Pedro Fiéis
13
25-07-08
O príncipe Regente D. João comunica a passagem da família real para o Brasil
José Ermitão
14
01-08-08
Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Franceses
Pedro Fiéis
15
15-08-08
Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Ingleses
Pedro Fiéis
16
22-08-08
A batalha do Vimeiro
Pedro Fiéis
17
12-09-08
As denúncias contra os partidários dos franceses
José Ermitão
18
26-09-08
As aguadeiras do exército francês
Pedro Fiéis
19
10-10-08
A conspiração do Porto [1]
João Flores Cunha
20
24-10-08
A conspiração do Porto [2]
João Flores Cunha
21
14-11-08
Manifesto de declaração de guerra à França
José Ermitão
28-11-08
1º Suplemento “Bicentenário Inv. Francesas”
Vários
22
12-12-08
A Comemoração do 1º centenário da Guerra Peninsular
Célia Reis
23
02-01-09
Marrocos e a 1ª Invasão Francesa
José Ermitão
24
16-01-09
História e Literatura de ficção. As Aventuras de Richard Sharpe, um herói no tempo das guerras napoleónicas
Manuela Catarino
COMISSÃO MUNICIPAL
Entretanto a Câmara Municipal de Torres Vedras deliberou constituir uma Comissão Municipal para a Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras ( CM200anos), cuja missão é a de propor e executar um programa comemorativo de âmbito concelhio, a ter lugar entre finais de 2009 e 2010. Esta Comissão tem uma componente executiva, da qual fazem parte quadros humanos do Município e elementos da comunidade local convidados para o efeito; e uma componente consultiva, para a qual estão a ser convidadas as associações culturais, os agrupamentos de escolas e as Juntas de Freguesia.
Por último recordamos que foi criado um blogue na Internet onde são publicados os textos desta rubrica, bem como informações e bibliografia sobre o tema da Guerra Peninsular. Endereço:
http://linhasdetorres.blogspot.com/
NÃO PARAR...
05/02/09
IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - I / 5 Fev 2009 - FRENTE OESTE
Comemoramos agora os 200 anos destes acontecimentos. Não se trata de festejar mas sim de evocar, guardar bem viva a memória de um tempo em que Portugal foi invadido três vezes, a Coroa real e as suas elites embarcaram para o Brasil (em fuga ou obedecendo a um desígnio estratégico?) e ao povo foi pedido que sofresse e resistisse. Foi o tempo das Invasões Francesas, também conhecido por Guerra Peninsular, no início do século XIX. Recordemos sucintamente:
Andoche Junot, no Outono de 1807, atravessa a Espanha, entra pela Beira Baixa com um exército de 25000 homens e tenta chegar a Lisboa para aprisionar a família real portuguesa. Quase consegue: dois dias antes o Príncipe Regente D. João, a família e cerca de 15000 pessoas em pânico haviam embarcado para o Brasil. Em 1809 dá-se a segunda invasão, comandada pelo general Soult que entra por Trás-os-Montes com o objectivo de ocupar o Porto e descer depois à conquista de Lisboa. Enfrenta uma resistência desorganizada mas tenaz, e é obrigado a retirar. Um ano depois é Massena que comanda a terceira invasão mas encontra no seu caminho as Linhas de Torres Vedras, uma formidável obra de engenharia militar. Não consegue passar em direcção a Lisboa e retira, perseguido pelas forças luso-britânicas comandadas pelo general inglês Arthur Wellesley, duque de Wellington.
Estes acontecimentos marcaram todo o século XIX português e moldaram a nossa contemporaneidade. E porque é necessário alimentar e manter a nossa memória colectiva, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, no âmbito da sua missão e em colaboração com o Frente Oeste, vai publicar semanalmente neste espaço a rubrica IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR, com o objectivo de divulgar alguns conhecimentos sobre esta época tão marcante da nossa História.
J. Moedas Duarte
16/01/09
Texto nº 24 ( Jornal "BADALADAS", 16 / 01 / 2009 )
História e Literatura de Ficção
As Aventuras de Richard Sharpe, um herói no tempo das Guerras Napoleónicas
Manuela Catarino *
Quando se percorrem as páginas de suplementos literários ou se espreitam os escaparates das livrarias confronta-se o passante e possível leitor com a possibilidade de realizar diversas viagens entre tempos, espaços e vivências muito diferentes, através de uma intriga sedutora, movimentada, recheada de personagens entre o real e o imaginário. Capas apelativas, títulos engenhosos, dão forma a um género literário que, nos dias de hoje, ganhou novo fôlego: o romance histórico.
Herdeiro dos tão apreciados “contadores de estórias” que tanto marcaram a tradição oral, o romance histórico ganha mais intensidade quando se fixa no suporte papel e nas páginas que enforma. Os heróis, as paisagens, os costumes, as marcas de um quotidiano diferente são pretextos para incursões em temáticas que podem ir da política à arte, da religião à guerra, da mentalidade à música, mas deixando sempre ao leitor a perspectiva de , se o desejar, retomar a dimensão “real” dos factos que “reconstitui”.
Cabem nesta acepção os volumes que a Planeta Editora tem vindo a publicar sob o título As Aventuras de Richard Sharpe da autoria do escritor de origem britânica Bernard Cornwell, cujo cenário se desenrola nos campos de batalha peninsulares do século XIX. Neles encontramos os momentos decisivos das lutas entre as forças napoleónicas e a resistência organizada nos reinos de Portugal e Espanha, desde a Galiza a Talavera, da destruição de Almeida à batalha do Buçaco, para apenas referirmos alguns exemplos.
Não será difícil acompanhar as peripécias do tenente Sharpe e dos seus companheiros de luta em cada página que o autor tão vivamente nos apresenta. Emboscamo-nos, subimos os íngremes penhascos, acompanhamos o movimento das forças adversárias, atentos ao mínimo pormenor. Assistimos ao desespero das populações civis na iminência da destruição das suas casas, dos parcos bens que possuem, da perda da própria vida.
Mas também participamos de momentos ironicamente perfeitos como aquele que a imaginação do autor nos propicia no episódio que situa em 1809, no salão de recepções da ala oeste do Palácio das Carrancas, junto ao Douro, enquanto as forças de Sir Arthur Wellesley instaladas nas ruas de Vila Nova de Gaia disparavam os canhões por sobre o rio e os franceses se acantonavam na cidade do Porto – […] Um francês alentado, com um bigode enorme, entrara na sala. Trazia um avental manchado de sangue, com uma medonha faca de trinchar á cintura.
-Mandou-me chamar, meu Marechal? – disse ele, soando a contrariado.
- Mandei, pois.- Soult empurrou a cadeira para trás, esfregando as mãos. –Temos de pensar no jantar, sargento Deron! Vou ter dezasseis talheres e quero saber o que é que sugere?
- Eu tenho enguias.
- Enguias! – exclamou Soult, todo contente. – Recheadas com pescada em molho de manteiga e cogumelos ?Excelente.
- Eu vou cortá-las em filetes - disse, casmurro, o sargento Deron -, fritá-las em salsa e servi-las com um molho de vinho tinto. E, para entrada, tenho borrego, um borrego muito bom.
- Muito bem! Eu gosto de borrego – disse Soult. – Não pode fazer um molho de alcaparras?
- Um molho de alcaparras? – Deron parecia desolado. – O vinagre ia afogar o borrego – disse ele, indignado – e, trata-se de borrego muito bom, tenro e gordo.
- Podia ser um molho de alcaparras muito leve, talvez? – sugeriu Soult.
O som das armas aumentou para uma fúria repentina, fazendo estremecer as janelas e entrechocarem-se os pingentes de cristal dos dois candelabros suspensos sobre a comprida mesa, mas tanto o marechal como o cozinheiro ignoraram o barulho.
- O que eu posso fazer – disse Deron, num tom que sugeria que a discussão terminava ali – é cozinhar o borrego em gordura de pato.
-Muito bem! – disse Soult.
-E guarnecê-lo com cebolinhas, presunto e uns cogumelos.
Um oficial com um ar exausto, a suar, a cara vermelha do calor do dia, entrou na sala.
-Meu Marechal!
- Um momento – disse Soult, franzindo o sobrolho, e tornando a olhar para Deron. – Cebolas, presunto e uns cogumelos? – repetiu ele. – Mas talvez pudéssemos juntar umas tiras de toucinho, nosso Sargento? O toucinho vai tão bem com o borrego! […][1]
Sabe-se o destino de Soult na sequência das manobras militares que levaram à sua derrota e consequente saída de Portugal . Quanto a Sharpe prosseguirá as suas aventuras…
* Professora, Mestre e Investigadora
[1] Bernard Cornwell, Sharpe e a Campanha de Wellington. Norte de Portugal, Maio, 1809, Planeta Editora, 2004, p.205.
07/01/09
INTERCÂMBIO

Claro que anuimos de bom grado e sentimo-nos honrados com esta iniciativa.
Aqui fica a imagem da primeira página do Boletim mais recente.
Para saber mais sobre esta Associação cultural:
01/01/09
Texto nº 23 ( Jornal "BADALADAS", 2 / 1 / 2009 )
MARROCOS E A 1ª INVASÃO FRANCESA
José NR Ermitão
Com o abandono, em 1769, da última cidade marroquina ocupada pelos portugueses – Mazagão – criaram-se as condições para o estabelecimento de boas relações políticas e comerciais com o reino de Marrocos. Em 1774 foi assinado um tratado de paz entre os dois reinos e desde esse momento até 1807 o bom relacionamento e amizade entre os dois países não deixou de se aprofundar. Inclusivamente, em 1780, parte do tesouro do sultão marroquino esteve à guarda da casa da moeda portuguesa.
Quando a corte do sultão tomou conhecimento da 1ª invasão francesa e da passagem da família real para o Brasil, o primeiro ministro marroquino, Mohamed Salavis, escreveu ao cônsul português, Jorge Colaço, uma carta em que exprime os sentimentos que os factos lhe causaram. Transcrevo-a parcialmente:
(...) Recebi a vossa carta e, inclusa nela, a que o Vosso Príncipe... dirigiu ao Imperador, meu Senhor. (...) consta que o Vosso Príncipe se retirou para os seus estados do Brasil... o que nos tem causado um vivo desgosto e maior sentimento por se ver obri-gado a deixar o lugar da sua... residência; mas por outra parte estimamos a real resolu-ção que tomou, pois vai ser soberano independente nos seus vastos estados, o que é melhor do que ficar e ser governado por outrem, muito mais por aqueles que não têm religião nem boa-fé. Pelo que respeita à carta... sobre a exportação de trigo e gado, devo dizer-vos que como a cidade de Lisboa e o reino de Portugal se acham ocupados por aquele inimigo, ficou infrutífera até... ficar o governo restituído aos Portugueses que... governem em nome... do Vosso Príncipe. Neste caso tudo o que pedireis vos será conce-dido com maior abundância do que tem sido concedido até agora... 11 de Dezembro de 1807.”
Também o Sultão, Muley Slimane, escreveu ao Príncipe Regente, em meados de Janeiro de 1808, a carta de pesar que se transcreve parcialmente:
(...) Sabei que Nós encarecidamente perguntamos pela Vossa Alta Pessoa e pelo estado e mais disposições em que Vos achais. Tanto que nos chegou a notícia da vossa saída... para os vossos estados do Brasil, ficámos pesarosos e em grande cuidado...; porém, quando soubemos os motivos que vos obrigaram a agir daquela maneira, nos ale-gramos muito pela vossa ida, conservando deste modo a vossa alta dignidade e poder...
Já ordenámos ao vosso embaixador Jorge Colaço que escrevesse aos Governadores que deixastes no vosso reino... que... nós lhe assistiremos em tudo aquilo que preci-sarem dos nossos estados... enquanto neles permanecer a vossa autoridade...
Após ter tomado conhecimento da restauração do governo legítimo, o Sultão escreveu ao cônsul, a 26 de Dezembro de 1808, uma carta manifestando alegria pela «restauração do vosso país, voltando o domínio deste para o vosso legítimo Soberano» e autorizando a carga de 20 mil fangas de trigo «sem direitos, como um auxílio gratuito ao vosso país... e de 2000 bois pagando 5 duros por cabeça»; e a 28 de Dezembro, escreveu aos Governadores portugueses uma carta em que afirma «damos as devidas graças e louvores ao Deus Excelso que se dignou livrar o vosso país das garras de um pérfido inimigo para o restituir ao seu legítimo Príncipe» e repete a oferta e venda referidas na carta ao cônsul «como sinal da nossa gratidão... e favoráveis disposições para convosco».
Em suma, a posição da corte de Marrocos não se ficou só por declarações abstractas de solidariedade e amizade política. Para além da oferta de trigo e da venda de bois em condições excepcionais, chegou inclusivamente a prometer à Junta Governativa do Algarve (formada após a expulsão dos franceses daquela província) um empréstimo de 200 000 cruzados para acudir às despesas da guerra – promessa que não foi concretizada porque os franceses foram entretanto expulsos e o empréstimo já não foi necessário.
Que fique pois devidamente registado o comportamento exemplarmente solidário, em palavras e actos, do reino de Marrocos para com o nosso país no período particular-mente difícil que então estava a atravessar.
(Fonte: José Acúrsio das Neves, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino; Porto, 2008.)
26/12/08
Texto nº 22 ( Jornal "BADALADAS", 12 / 12 / 2008 )
Célia Reis *
As comemorações do primeiro centenário da Guerra Peninsular inscreveram-se num movimento memorativo que vinha já do século precedente e que procurava realçar a recordação dos grandes feitos, individuais ou colectivos, num percurso que se queria que conduzisse a uma tomada de posição patriótica.
Neste contexto progressivo, o momento vivido em 1908 acentuava a necessidade de uma tomada de posição unificadora, compreendida pelos organizadores das comemorações, dada a crise existente, que assumira maior expressão no Regicídio e na subida ao trono de D. Manuel II.
A iniciativa da comemoração da guerra peninsular iniciara-se na Revista Militar, para depois se alargar a uma dimensão maior, que acabou por se concretizar através de uma Comissão nomeada por portaria de Maio de 1908. Foi assim que, numa estratégia mais alargada, Torres Vedras e o Vimeiro foram dos primeiros palcos em que se comemoraram os actos relativos às invasões francesas.
No dia 21 de Agosto de 1908 passou um século da batalha do Vimeiro, facto marcante para o términus da invasão comandada por Junot. Nessa data chegaram a Torres Vedras, vindos de comboio, o rei D. Manuel II, seu tio, infante D. Afonso, o Presidente do Conselho e os Ministros da Guerra, dos Estrangeiros e das Obras Públicas, entre outros elementos políticos e militares. À sua espera estavam as autoridades civis, militares e religiosas locais, incluindo os administradores de Torres Vedras e Lourinhã.
Entre músicas que tocavam no coreto, o rei seguiu de automóvel a «grande velocidade», no meio de algumas censuras da oposição, porque não se deixou ver por quem o esperava, nem sequer pelas damas que estavam à janela.
No Vimeiro repetiu-se a recepção pelas autoridades, fazendo-se as apresentações num pavilhão aí montado. Depois foi inaugurado o monumento assinalando a batalha que aí tivera lugar cem anos antes, sendo o auto assinado na barraca aí armada, na mesma mesa onde, em 1808, se tinham firmado os preliminares da paz. Entre os vários discursos ouviu-se o rei, relembrando os grandiosos feitos pela independência portuguesa e recorrendo a Os Lusíadas para mostrar a sua vontade de ser «rei de tal gente» colocando-se sempre ao lado da mesma. Estavam também formados os representantes dos corpos militares que tinham tomado parte na batalha: Artilharia 4, Cavalaria 6, infantaria 12, 21 e 24.Rodevavam-nos muita população desejosa de ver o rei, que, agora, se aproximou dos populares, no meio de grande contentamento.
O regresso a Torres Vedras fez-se novamente de automóvel, levantando nuvens de pó que ia pousando sobre a comitiva.
Na vila, o almoço foi servido no Casino, na Rua Paiva de Andrade, ao som da música. Depois de novos discursos, o monarca, no meio de numerosa multidão, dirigiu-se à Câmara Municipal, onde ouviu a saudação do respectivo presidente, cónego António Francisco da Silva.
O passo seguinte foi a deslocação, a pé, à igreja da Graça, enquanto as músicas tocavam e a população continuava a encher as ruas. No templo recebeu os cumprimentos dos padres dos estabelecimentos do Barro e de Varatojo, das irmandades, etc.
Daqui partiu para os Cucos, para visitar as termas, regressando a Lisboa pouco depois das 16 horas, no comboio[1].
Posteriormente, as comemorações continuaram, relembrando outros actos relativos às invasões francesas. Assim sucedeu, por exemplo, no dia 15 de Setembro, em Lisboa, recordando a retirada das tropas de Junot com o lançamento da primeira pedra do monumento relativo a estes acontecimentos. O rei esteve igualmente presente.
Posteriormente, até 1914, assistiu-se a numerosos actos disseminados pelo país, nas terras que pretenderam associa-se aos eventos, assim como à inauguração de outros monumentos e à edição de medalhas, postais, gravuras, etc. Em 1910 distinguiram-se ainda a realização de duas exposições em Lisboa, uma bibliográfica (para a qual o rei também contribuiu com alguns livros da sua biblioteca) e outra histórica.
Saliente-se que, relativamente aos acontecimentos que tiveram lugar em Torres Vedras e no Vimeiro no dia 21 de Agosto de 1908, um torriense coevo organizou uma álbum com todos os elementos que recolheu, como fotografias, recortes de jornais, etc., o qual ofereceu à Câmara Municipal e se encontra na Biblioteca Municipal.
* Professora e investigadora de História Local
[1][1] Alguns dos elementos relativos a esta presença régia podem ser encontrados no Museu Leonel Trindade, em Torres Vedras.
SUPLEMENTO no jornal Badaladas
Em 28 de Novembro foi editado pelo Badaladas um Suplemento de 4 páginas, de que se reproduz a primeira, em fotografia. (Aguardamos a digitalização para reprodução mais fiel).Transcrição:
A publicação deste Suplemento, da responsabilidade da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, está integrada na evocação do Bicentenário das Invasões Francesas, a decorrer entre os anos de 2007 e 2010. Esta iniciativa, que se inscreve num dos objectivos centrais da ADDPCTV – dar a conhecer o património histórico de Torres Vedras – só é possível com a colaboração da Direcção e da Administração do jornal Badaladas, uma e outra bem cientes do papel imprescindível da imprensa regional na preservação da memória colectiva.
A DIRECÇÃO DA ADDPCTV
Tores Vedras e a Primeira Invasão (1807-1808)
(Venerando de Matos)
As tropas de Junot cruzaram a fronteira portuguesa em 19 de Novembro de 1807, entrando em Lisboa no dia 30, três dias depois da família real ter saído a caminho do Brasil.
Segundo Madeira Torres, “Torres Vedras (...) foi a primeira em participar da consternação e saudade (…) pela ausencia do nosso adorado Principe”.
No dia 6 de Dezembro os torrienses “foram constrangidos a franquear quarteis, e munições de bôcca para a tropa de mais de duas brigadas” comandadas pelo Brigadeiro Charlot até à chegada do General Loison, nos dias seguintes. “No dia 8 do mesmo mez adiantou-se para a Praça de Peniche o General de Brigada Thomiers com dois batalhões, e passados alguns dias retrocederam dois para Mafra, onde Loison estabeleceo ordinariamente o seu Quartel General”
Permaneceram em T. Vedras “ os dois Batalhões dos regimentos 12 e 15 de infantaria ligeira”, que eram compostos por cerca de tres mil homens, sob o comando do Brigadeiro Charlot.
“Nos primeiros dias padeceo esta Villa não só os gravissimos incommodos do alojamento, mas quasi todo o pêso das requisições para a inteira subsistencia da tropa”
A moderação do brigadeiro Charlot foi muito elogiada pelo ilustre pároco torriense, até porque “contribuio ella para nunca se interromperem as funcções do Culto, nem mesmo a do Natal, e para se fazerem com boa ordem, e até com esplendor”.
Com a proximidade da Primavera o mesmo brigadeiro aliviou a vila “d’algum pêzo de tropa, mandando destacar duas Companhias para a Lourinhã, e duas para o logar do Turcifal”.
Em finais de Maio “levantou-se o quartel do General Charlot”, partindo com o Batalhão do regimento 12 “para a frustrada expedição do Douro e Porto, commandado por Loison. Pelo mesmo tempo se transferio o Batalhão do Regimento 15 para Mafra, e veio para aqui um dos alojados na Praça de Peniche, de que era Commandante o Major Bertrand, o qual apenas se demorou um dia. Desde então ficou esta Villa alleviada de tropa effectiva; mas não deixou de ser frequentada, e incommodada por alguns destacamentos, pelo transito dos Officiaes do Estado Maior, e tambem de varios corpos do Exercito.”[1]
Até Junho de 1808 as revoltas contra o invasor foram esporádicas e localizadas, não se conhecendo nenhuma neste concelho.
A mais importante, nas proximidades de Torres Vedras, foi a revolta das Caldas da Rainha, iniciada em 27 de Janeiro de 1808 e rapidamente esmagada pelas divisões de Thomiers e Loison, tendo, para esse efeito, a divisão deste último atravessado Torres Vedras.
Foi a partir da Espanha que a revolta popular contra o invasor ganhou contornos de grande insurreição, iniciada no célebre “2 de Maio”, contaminando Portugal onde, a 4 de Junho, se registaram os primeiros motins que tiveram lugar em Chaves.
Segundo Madeira Torres: “principiaram a chegar” (a Torres Vedras) “ as noticias de que a expedição do general Loison se tinha malogrado, e que as provincias do Norte se davam as mãos para destruir o intruzo governo, e proclamar o nosso legitimo Soberano; soube-se depois, que este heroico enthusiasmo já chegava á Cidade de Leiria, e que bem depressa as outras Povoações da Extremadura, (…). Esperava-se com impaciencia a aproximação do exercito Nacional, auxiliado com o socorro que se dizia chegado d’Inglaterra, mas a demora, e a incerteza das noticias concorriam para a geral anciedade”.[2]
A 2 de Agosto Junot tomou conhecimentodo desembarque britânico em Lavos.
Rápidamente procurou reunir as suas tropas, então dispersas a tentar travar as revoltas populares que se espalhavam por várias regiões do país.
Loison, com uma divisão de 6000 homens no Alentejo, foi mandado retirar para Abrantes e daí avançar sobre Tomar.
Delaborde, por sua vez foi mandado de Lisboa a caminho da Batalha e Alcobaça. Uma parte destas forças, comandadas por Thomiers, atravessou Torres Vedras. Foram estas forças que se defrontaram com os ingleses na batalha da Roliça, em 17 de Agosto, ao mesmo tempo que os ingleses entravam em Alcobaça, cortando as comunicações entre Delaborde e Loison.
Mais uma vez Torres Vedras viveu estes acontecimentos à distância, sabendo-se “da batalha da Roliça (...) pelos que se retiravam feridos do Exército, e por alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia”.
Por sua vez, Delaborde aproveitou-se “da noite para largar de todo o campo”, e tomar “a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça. Em quanto o Corpo principal seguia, não deixavam de passar pela Villa em toda a noite soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo”.[3]
Tomando conhecimento da Batalha da Roliça, Junot decide abandonar a capital, determinando “fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras”.[4]
Em Torres Vedras, quando“se pensava, que no seguinte dia 18 d’Agosto entraria o Exercito alliado (…), aconteceo ao contrario espalhar-se o susto, e perturbação, pela noticia de que vinha proximo todo o Exercito Francez”, sob o comando de Junot, “e que com rigorosas ordens se mandavam apromptar quarteis, viveres, e forragens. (…). Este General entrou com o seu Estado-Maior pelas tres horas da tarde do indicado dia 18, rodeado dos Generaes quasi todos, e de uma forte escolta de cavallaria, a qual se dividio, e occupou logo as entradas da Villa, não se permittindo a sahida d’alguem, sem guia ou passaporte do Commandante da Praça, (…). Sómente os Officiaes do Estado-Maior tiveram alojamentos, porque os dos corpos ficaram com os mesmos sobre os campos visinhos. Concorreram aqui muitos individuos não militares, uns por empregados, e unidos ao Exercito nas suas diversas repartições, e outros meramente por buscarem o seu abrigo, receosos de serem sacrificados ao seu furor nas pequenas povoações. Ainda que nos armazens existissem alguns sobrecellentes do antigo fornecimento, nada eram para supprir ás urgencias de um Exercito, que se computava em 20$000 sem contar os seus aggregados: por isso foram indispensaveis as requisições violentas para a entrega dos generos necessarios; as quaes para mais prompto effeito se faziam por pregões, ameaçando-se os habitantes que se subtrahissem, com as penas de morte, e do incendio das suas casas, que seriam examinadas”. [5]
Vindo de Rio Maior, atravessando a região com dificuldade, a coluna comandada por Thiébault chega a Torres Vedras no dia 20, embora de forma dispersa.
Nessa data estavam concentradas em Torres Vedras todas as forças sob comando de Junot, num total de 13 mil homens;
Às duas horas da tarde desse dia Junot, inicia a ofensiva, para tentar chegar ao lugar de desembarque das tropas inglesas, em Porto Novo. Ao anoitecer ordena que as suas tropas estacionem junto a Vila Facaia, para descansarem.
No início da madrugada do dia 21 reinicia-se o avanço das suas tropas ao encontro do exército inglês, no lugar do Vimeiro.
A Batalha do Vimeiro foi seguida à distância pela população de Torres Vedras: “pelas 9 horas da manhãa começou a ouvir-se o estrondo d’Artilharia: no primeiro tempo do combate vieram noticias agradaveis aos Francezes: mas não tardou muito, que lhes chegassem outras, com que se mostraram descontentes, (…); enfim correram os boatos d’uma derrota completa, que se viam verificados pelos estragos, e até depois pela propria confissão, dos que se recolhiam do campo. A tropa entrou de noite,” (em Torres Vedras) “ e buscou acampar-se, como antes de ir para a batalha. No dia seguinte viam-se companhias commandadas por um cabo d’esquadra (tal havia sido a carnagem na officialidade): e todo o grande trem d’Artilharia reduzido a tres carretas. Apezar de ser tão vizivel, e avultado o destroço, ainda Junot se occupava com a impostura de fazer illuminar a Villa em aplauso da victoria (…).”
Na manhã do dia 22 Junot chamou “ao seu quartel os Generaes, e lhe propoz pedir capitulação, o que foi adoptado (...)”.[6]
Ficou encarregue de negociar com os ingleses o general Kellerman, partindo para o quartel general do exercito inglês sob pretexto de conferenciar relativamente aos prisioneiros e aos feridos, mas com plenos poderes para propôr um armistício:“Emquanto Kellermann ia desempenhar-se de tão importante missão, as tropas francêsas abandonavam Torres Vedras”.[7]
Kellerman chegou ao Vimeiro por volta do meio-dia do dia 22.No acordo de suspensão de armas ficou decidido que o rio Sizandro formasse “a linha de demarcação entre os dois exércitos” e que Torres Vedras fosse território neutral.[8]
Após a assinatura deste primeiro acordo “o Exercito Inglez se adiantou para as alturas d’aquem Amial (fixando os Generaes os seus quarteis n’esse logar, e ainda mais no do Ramalhal), começou a ser innundada de gente annexa ao Exercito, recebida com vivissimo enthusiasmo, e prazer; e apezar da supposta neutralidade, houve sem demora [em Torres Vedras] sinceras e voluntarias demonstrações de contentamento pela victoria e communicação dos allidos. As auctoridades da Villa foram logo comprimentar os Generaes Inglezes, e de todas as visinhanças concorriam numerosos ranchos de pessoas, até do sexo feminino a observar o campo da batalha, o admiravel espectaculo do Comboio estacionado defronte do Porto Novo, e a brilhante linha e revista do Exercito alliado”.[9]
No dia 24 chegavam a Porto Novo as tropas de John Moore, fundeando no dia seguinte, desembarque que se fez com grande dificuldade, levando cinco dias, afogando-se muitos marinheiros e soldados.
Registando-se algumas divergências na execução do acordo entre as duas partes, temendo-se o reacender do conflito, deram-se ordens “ás tropas de Moore para irem ocupar Torres Vedras, emquanto que os restantes corpos, sob o commando de Wellesley, deixando sobre a sua esquerda a estrada do Ramalhal a Bucellas, iriam tornear a posição de cabeça de Montachique, e o corpo do general Bernardim Freire, avançaria para ir ocupar Mafra.
“De facto, o exercito inglês adiantou-se um pouco, indo estabelecer-se nos logares do Sarge, de Paul e Torres. As tropas portuguesas vieram estabelecer-se na Encarnação (Lobagueira)”.
O tratado final só foi assinado definitivamente a 30 de Agosto e “ratificado por Dalrymple no dia 31 no seu quartel general de Torres Vedras”. Foi este acordo que passou à história, erradamente, como “Convenção de Sintra”, “pois não foi tratada, nem assignada” nesta vila. “Foi comtudo de Cintra que, com a data de 1 de setembro, Dalrymple enviou ao seu governo uma carta com a copia da convenção (...)”, daí a confusão histórica.[10]
Finalmente, no dia 15 de Setembro, o exército de Junot deixou Portugal.
Um pouco por todo o reino festejou-se a restauração do reino. Em Torres Vedras “foram grandes as demonstrações d’alegria pela gloriosa restauração do Reino em 1808. Logo no mez de Setembro do dicto anno os seus habitantes a festejaram com muitos dias de luminarias, e em seguida a Camara fez celebrar uma solemne Festividade em acção de graças na Matriz de Sanctiago, com mais tres dias de luminarias, prestito pelas ruas com o seu Estandarte (que já dias antes se tinha arvorado nos Paços do Concelho) dando vivas a S.A.R. o Principe Regente”.[11]
Torres Vedras, apesar de carregar em poucos dias “o pêso de tres Exercitos (…) e apezar dos estragos causados nos fructos, que ainda se recolhiam, e estavam pendentes, tal é a fertilidade do terreno, e tal foi a particular abundancia d’aquelle anno”, conseguiu suprir “ao fornecimento da tropa”, sem “padeceram falta” os seus habitantes.[12]
NOTAS
[1]Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.164 a 171
[2] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 171
[3] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819, pp. 171-172
[4] Victoriano J. Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp. 112-113
[5] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp. 172-173
[6] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p.174).
[7] Victoriano J.Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, p.139
[8] O documento do armistício do Vimeiro foi publicado por José Acúrsio das Neves, no tomo V da sua História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino, pp.433 a 435 da reedição dessa obra pelas Edições Afrontamento,s/d
[9] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.175-176
[10] Victoriano J.Cesar, Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143
[11] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), nota (a) dos Editores, p. 177
[12] Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.175-176
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CURIOSIDADES HSITÓRICAS RELACIONADOS COM AS GUERRAS NAPOLEÓNICAS.
(Pedro Fiéis)
O açúcar chegava ao mercado francês proveniente das suas colónias nas Caraíbas e na América do Sul. A importância crescente deste produto, nomeadamente na conservação dos alimentos que as tropas consumiam, ditaram o aumento da procura, mas o prolongado bloqueio marítimo por parte da Inglaterra fez com que fosse um bem escasso.
Havia que encontrar uma solução alternativa e esta estava nos trabalhos realizados no século XVIII por um alemão, Marggraf, que com um seu discípulo descobriu o processo que permitia a extracção do açúcar das beterrabas. Em 1811 Napoleão ordena então o cultivo de 80.000 hectares e incentiva a criação de escolas e fábricas para poder melhorar um processo que era caro e lento.
Os frutos desta iniciativa vieram logo no ano seguinte, atribuindo-se a Legião de Honra a Benjamin Delessert, pelos avanços técnicos que registou e que tornaram finalmente a produção viável. Em 1814 já existiam 40 fábricas em França, mas também em território da actual Bélgica, Áustria e Alemanha.
Com o fim do conflito veio também o declínio desta indústria, pois o açúcar de cana inundou novamente os mercados e a preço muito mais baixo
A varíola era em séculos passados uma epidemia terrível que todos os anos reclamavam milhares de vítimas e marcava para sempre os que lhe sobreviviam. Em desespero para se encontrar uma cura, vários foram os métodos utilizados, oriundos de todos os pontos do planeta, mas sem grandes resultados.
Até que apareceu Edward Jenner, um inglês, que na sua juventude tinha sido submetido a sangrias, purgativos e dietas muito estranhas como forma de combater a doença, a que se juntava uma inoculação na qual se utilizavam as pústulas de alguém infectado.
Convencido de que este não era o caminho a seguir, dedicou-se ao estudo da medicina e reparou que o gado tinha sintomas semelhantes que se contagiavam aos humanos, mas cujas lesões que provocavam desapareciam espontaneamente e traziam consigo a imunidade contra a varíola.
Durante 20 anos recolheu dados, até que em 1796 realizou a primeira experiência com sucesso absoluto. Apesar de tudo, muitos foram os entraves e preconceitos que teve de enfrentar. A ajuda acaba por vir do inimigo existente do outro lado do canal, já que Napoleão segue o seu processo e manda vacinar todo o exército, tornando-o imune, algo crucial para quem queria conquistar a Europa.
Jenner acaba por ter o reconhecimento merecido e em duas ocasiões diferentes (1802 e 1807) recebe prémios monetários do parlamento inglês. É um dos heróis do seu tempo.
Uma disputa gastronómica subsiste nos dias de hoje entre portugueses e espanhóis, referente à origem da “Perdiz à Alcântara”. Não me vou debruçar sobre o que dizem os espanhóis, pois faltam-lhes muitos factos concretos, que sobram no nosso caso.
Assim no Convento do Sacramento em Alcântara, como em muitos outros, existiam grandes receituários, onde estavam compilados anos de sabedoria gastronómica. Ávido dos tesouros que a Igreja possuía, o general Junot encarregou logo membros do seu staff de descobrirem o que de mais precioso existia, não descurando nada, nem mesmo as bibliotecas, onde se sabia estarem obras com incrustações de pedras preciosas.
Seja por esta via ou tendo sido ofertada pelos monges, o certo é que a sua esposa divulga muitas das receitas nos salões da capital francesa. Algumas alterações são depois introduzidas, para satisfazer o gosto francês e à marinada com vinho do Porto acrescentam-se trufas e paté de pato.
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(Pedro Fiéis)
1807:
Julho
9 – Tratado de Tilsit.
Setembro
15 – Junot chega a Bayonne para comandar o Primeiro Corpo de Observação da Gironda, futuro Armée du Portugal.
Outubro
22 – Convenção secreta assinada entre Portugal e Inglaterra.
27 – Tratado de Fontainebleau
Novembro
16 – A embocadura do Tejo é bloqueada por uma frota inglesa.
19 – Primeiras tropas francesas passam a fronteira em Segura.
27 – Embarque da família real no cais de Belém.
30 – Entrada de Junot em Lisboa
Dezembro
4 – Decreto de confisco dos bens dos ingleses e proibição de armas de fogo.
6 – Dois batalhões franceses chegam a Torres Vedras.
13 – O Porto é ocupado pelo general Taranco.
17 – Decreto de Berlim que confirma e agrava o Bloqueio Continental.
22 – São dissolvidos a maioria dos regimentos portugueses.
1808:
Janeiro
10 de Janeiro – A primeira família real europeia, a portuguesa, passa a linha do equador.
27 de Janeiro – Motim nas Caldas da Rainha.
Fevereiro
1 – Junot assume o título de Governador de Portugal.
9 – Fuzilamentos dos condenados das Caldas.
13 – Morre o Cardeal Patriarca de Lisboa.
Março
7– Chegada de D. João ao Rio de Janeiro.
19 – Motim de Aranjuez, prisão de Godoy.
23 – Joachim Murat entra em Madrid com 30.000 franceses.
Abril
14 – Napoleão em Bayonne.
22 – Ataque inglês ao Bergantim Gaivota.
26 – Deputação portuguesa é recebida por Napoleão.
Maio
1 – Erupção vulcânica em S. Jorge, Açores.
2 – Revolta de Madrid.
5 – Carlos IV e seu filho Fernando abdicam em favor de José Bonaparte, revolta geral em Espanha.
Junho
7 – Ballesta retira do Porto, primeira tentativa falhada de revolta.
16 – Revolta de Olhão, a primeira a aclamar o Príncipe Regente.
18 – Proclama-se no Porto a Junta Provisional de Supremo Governo.
17 – Loison sai de Almeida em direcção ao Porto.
21 – Patriotas forçam ao recuo dos franceses em Mesão Frio.
Julho
5 – Margaron reprime a revolta de Leiria.
22 – Rendição do Segundo Corpo da Gironda sob comando de Dupont em Bailén.
29 – Combates de Évora que terminam com a pilhagem dessa cidade por Loison.
Agosto
15 – Escaramuça de Brilos.
17 – Combates da Roliça.
19 – Junot chega a Torres Vedras.
21 – Batalha do Vimeiro.
22 – Preliminares do Armistício.
30 – Assinatura da Convenção, dita de Sintra, no palácio de Queluz.
Setembro
15 – Embarque das últimas tropas francesas em Lisboa.
25 – Junta de Aranjuez centraliza a revolta espanhola.
26 – Junta do Porto suspende actividade reconhecendo conselho de regência de Lisboa.
Outubro
8 – A guarnição francesa de Almeida embarca no Porto.
29 – Napoleão sai de Paris em direcção a Espanha.
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LIVROS

NAPOLEÃO E PORTUGAL
Nicole Gotteri
Ed. Teorema, Lisboa, 2006
A invasão de Portugal, em 1807, corresponde a um momento decisivo da guerra entre a França e a Inglaterra. A maioria dos livros que abordam este acontecimento incide sobretudo nas operações militares. Este livro, na tradição das grandes obras de história diplomática, procura compreendê-lo no contexto geopolítico da época. A autora, doutorada em História, é arquivista-paleógrafa, antigo membro da escola Francesa de Roma.
1808
Laurentino Gomes
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008
Sub.título: “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.
O autor, jornalista brasileiro e investigador, coligiu dados durante dez anos para fazer esta obra de divulgação histórica.

HISTÓRIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCESES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINOJosé Acúrsio das Neves
Edições Afrontamento, Porto, 2008
Trata-se da reedição de uma obra clássica, que há muito estava esgotada, sobre a primeira invasão francesa, e cuja primeira edição data de 1810 /11.O autor, contemporâneo dos acontecimentos, era formado em Leis pela Universidade de Coimbra e exerceu funções de juiz nos Açores. Mais tarde ocupou cargos de gestão económica e foi de deputado, dedicando-se simultaneamente à investigação história.
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CARTA DE UM SOLDADO INGLÊS A WELLINGTON,
ESCRITA NO VIMEIRO EM 21 DE AGOSTO DE 2008
(Poema evocativo, Luís Filipe Rodrigues)
Bem sabemos como a raposa te quis devorar, como
esse Junot pensava entrincheirar-te entre o descampado
e as águas do Atlântico. Nenhum dos teus cavalos
te foi infiel, nem os soldados infantes ou artilheiros,
nem os paisanos, todos foram dique e seta
e canhoneira a suster a turba napoleónica. Enquanto
essa chusma galgava penhascos e ribeiros em solo português
sempre com o mesmo intento: destruir para intimidar,
sendo cada aldeia livrée aux flammes em sentença sumária,
tu, meu amado Duque, de fronte alteada e viseira pronta,
ao lançares o brado inicial ficávamos um só na mesma saga,
um nó na mesma dança.
Vim para visitar os sítios em que outrora juntos lutámos
por esta terra derradeira. De sabre em punho vi desbaratar
quem te viesse ao caminho e foram dezenas entre o planalto
e o vale. Eu tinha vinte anos e lembravas-me Ulisses
ou Alexandre, por combateres o bom combate como disse
Paulo em seu ocaso, por servires quem sempre te serviu,
este que reclina a cabeça e pede mais um pouco de lembrança.
As ruas do Vimeiro nesse tempo não eram ruas mas caminhos
para o mar. Esse mar aqui tão perto não era Egeu
mas Porto Novo de barcas prontas para nos livrar
do Loison, o touro desembolado que atacava cegamente
o povo simples e ordeiro.
A nosso lado o aldeão manejava tão habilmente a foice
e os trilhos do monte como a espada, perdendo-se
em benquerenças para nos salvar. Nessa manhã de vinte e um
não fosse ele estancar-me o sangue da perna com garrote
de serapilheira e dar-me a beber a água do seu pote
não estaria aqui hoje. Não fosse ele a carregar as munições,
a procurar cereal e víveres, a dizer aqui há uma fonte
por esse carreiro uma gruta onde descansar da tormenta
não estaria aqui a evocar tais escaramuças,
com os cavalos e os granadeiros franceses em fuga
antes do pôr do sol. Oxalá tua voz e as investidas de corcel
ainda possam abrir uma brecha em qualquer parte do mundo.
Vim para visitar o que outros antes visitaram, ouvir falar
das mesmas águas em que as fragatas e os navios de carga
caminharam e depois arfantes no porto de desembarque,
das encostas e vales onde as forças aliadas acamparam
e montaram guarda. Venho sem um nó na garganta,
o que escrevo não é por mim mas por seres um
guevara de antigamente. Por ti vou em frente
na dor e no combate, que o corpo sofrido há tanto
da memória destes sítios se desvaneceu.
O que escrevo é para imaginar ver-te aqui onde estou
atravessando a ponte do alcabrichel na Maceira
e sentir ainda a pele colada às casas do tempo em que
eu de carabina ao peito na linha da frente a um passo dos teus olhos
tão diferentes de olhos tantos meu general e tua guarda
no sopé do outeiro entre os arbustos do cabeço
atacando à queima-roupa recuando ripostando assestando
à esquerda e à direita os regimentos de Delaborde
a salvas de mosquete e disparos de sharpnell
foi uma manhã de fogo e pânico e manobras de artilharia
até os flancos dos franceses arquearem na encosta
de ambos os lados cada um à espera do mesmo final
mais mortos que vivos após a peleja que nunca tal se viu
de manhã e ao anoitecer, tu a subir o monte escarpado
com a arma e a vitória que era tua e nossa.
Isto dura há dois séculos, contigo sempre por companhia.
Foi a sorte que nos uniu nesta embrulhada. O que vejo agora
é chama bruxuleante, paisagem que esmorece ao lembrar
o desenlace cruel ao fim da tarde.
Isto dura há dois séculos. Sendo horas para o fim do guerrear.
Nada se perdeu dentro de mim. Nem um só verso,
nem a cinza no peito, nem o que sofri para chegar até aqui,
às sete da manhã dezoito mil desde a costa
e por todas as colinas sobranceiras, armados de carabinas
granadas e cavalaria, contra os catorze mil franceses
golfando poeira e ruína. Estou aqui a tempo e a destempo
para saudar teu nome e teu morrer em cada coração que morria.
FICHA TÉCNICA:
Coordenação de Joaquim Moedas Duarte
Colaboradores:
José N R Ermitão
Pedro Fiéis
Venerando de Matos
Organização gráfica:
José Pedro Sobreiro
Execução gráfica:
Carlos Ferreira
Texto 21 ( Jornal "BADALADAS", 14 / 11 / 2008 )
MANIFESTO DE DECLARAÇÃO DE GUERRA À FRANÇA
José NR Ermitão
No dia 1 de Maio de 1808, cerca de sete semanas depois da Corte se ter estabelecido no Rio de Janeiro, o Príncipe Regente assinou um Manifesto constituído pela exposição e justificação (perante as potências europeias, os portugueses e «a mais remota posteridade») da conduta política e diplomática de Portugal relativamente à França e por uma declaração formal de guerra a este país.
Com este Manifesto, a Coroa Portuguesa pretendia esclarecer «a pureza da sua conduta» e o princípio adoptado de «evitar uma inútil efusão de sangue dos seus povos». E demonstrar que, perante os acontecimentos revolucionários passados em França e perante Napoleão, «procurou sempre guardar a mais perfeita neutralidade».
A demonstração procede por via da exposição do historial das relações entre Portugal e a França, com a denúncia da permanente má fé do lado francês, indo até ao desrespeito do Tratado de 1804 pelo qual reconhecia a nossa neutralidade. Acusação de má fé extensiva à Espanha por ter feito «causa comum com a França».
Em contrapartida, o Manifesto refere a sinceridade do comportamento português e a exemplaridade das relações luso-britânicas, a disponibilidade do nosso tradicional aliado em compreender a nossa posição e em socorrer-nos nos momentos difíceis. De permeio vai tecendo críticas à incapacidade da Europa em perceber os desígnios expansionistas de Napoleão e em unir-se contra ele: «A Europa devia... prever que a sua escravidão desde Lisboa a Petersburgo estava decidida no Gabinete das Tulherias e que era preciso fazer causa comum para destruir o Colosso...».
O Manifesto descreve depois em pormenor quer as exigências e ameaças com que o governo napoleónico pressionou o nosso país para o fazer aderir ao Bloqueio Continental e declarar guerra à Inglaterra, quer as tentativas feitas pela Coroa no sentido de um acordo para manter a neutralidade – o que Napoleão recusa.
Perante a ameaça de invasão militar, a Coroa acaba por ceder às exigências francesas (fecho dos portos aos navios ingleses) na ideia de que «a França, tendo conseguido essencialmente tudo o que tinha pretendido, não teria lugar de exigir mais coisa alguma». Mas Napoleão, desrespeitando a boa fé portuguesa e violando todas as regras de conduta entre os governos, invade Portugal «sem nenhuma declaração preliminar (de guerra)». Para salvaguardar a sua integridade, a Família Real não teve outra alternativa senão passar ao Brasil.
No final, considerando o indigno procedimento do imperador francês, a «usurpação de Portugal e a assolação e saque que ali se pratica», a abolição de governo instituído e dos direitos da Coroa, a imposição de uma pesada contribuição a um país «que não opôs resistência alguma à entrada das tropas francesas e que por isso não podia considerar-se em estado de guerra» – o Príncipe Regente faz a seguinte declaração:
«S.A.R.[Sua Alteza Real] rompe toda a comunicação com a França;... e autoriza os seus vassalos a fazer a guerra por terra e mar aos vassalos do imperador dos franceses.
S.A.R declara nulos e de nenhum efeito todos os tratados que o imperador dos franceses o obrigou a assinar... pois ele os infringiu e nunca os respeitou.
S.A.R não deporá jamais as armas senão de acordo com o seu antigo e fiel aliado, S. M.[Sua Magestade] Britânica; (...)».
SIGNIFICADO DO MANIFESTO
Este Manifesto – um documento de auto justificação da posição de Portugal e um violento libelo acusatório contra a França – tem um significado importante: a Coroa Portuguesa define de forma clara, ao declarar a guerra à França, a sua situação no concerto das nações no quadro das lutas europeias, posicionando-se irreversivelmente ao lado da Inglaterra. Outra coisa não seria de esperar depois da Convenção secreta de Londres, do apoio dado pelo governo londrino à transferência da Corte portuguesa para o Brasil e da invasão e ocupação do país pelos franceses.
O Manifesto será seguido, a 10 de Junho, de um decreto declarando a guerra a Napoleão e autorizando o apresamento dos bens dos franceses; mas já antes, a 22 de Março, era ordenada a conquista da Guiana Francesa, a norte do Brasil, a efectuar com o apoio inglês.
24/10/08
Texto 20( Jornal "BADALADAS", 24 / 10 / 2008 )
A CONSPIRAÇÃO DO PORTO [ 2ª parte ]
João Flores Cunha
No artigo anterior vimos como o Comandante da 2ª Invasão Francesa, Gen. Soult, acalentava o sonho de vir a ser rei da Lusitânia Setentrional, sonho que não era partilhado por alguns dos seus oficiais, entre os quais estava o cor. Donnadieu. Estabeleceu-se então uma aliança táctica entre este oficial e algumas personalidades importantes do exército aliado. (Nota da Coordenação)
O coronel Donnadieu explica então ao capitão português João Viana os passos da revolta: a necessidade dos revoltosos na colaboração inicial do exército anglo-luso; a prisão de Soult; a retirada imediata para Espanha dos franceses; a proclamação contra o Imperador; a adesão dos generais Sant-Cyr e Victor;. a entrega ao general Moreau, exilado na América, do comando de todo o exército francês.
Viana decide contactar o exército aliado. Com o pretexto de ir buscar a família que diz saber refugiada a dezoito léguas do Porto, consegue um salvo-conduto que lhe permite atravessar as linhas. Dirige-se a Coimbra onde o brigadeiro António Marcelino da Vitória lhe dá um passaporte a fim de o “livrar da ferocidade das ordenanças” de forma a poder chegar a Tomar, onde Beresford o recebe. Contudo, este não se entusiasma com o relato e aconselha o português a regressar ao Porto e voltar com um emissário dos oficiais franceses, com o qual pudesse entender-se. No entanto, dá-lhe por assistente o tenente-coronel Douglas que o acompanha até ao quartel do coronel Trant nas margens do Vouga. Viana transmite a Donnadieu as ocorrências e os conjurados nomeiam o capitão Jacques Constantin d`Argenton do 18º de dragões como emissário. Viana e d`Argenton encontram Douglas perto de Ovar, que os leva até Beresford. Desta feita, o general inglês tem como sério o relato de d´Argenton, mas diz-se sem autoridade para tomar qualquer iniciativa, encaminhando-os para Arthur Welesley que, entretanto, tinha chegado a Lisboa e assumira o comando do exército, instalando o seu quartel-general no palácio do Calhariz.
Wellington, na sua correspondência, relata a entrevista tida com o capitão d` Argenton, nela vislumbrando que o exército francês se dividia em dois campos: um propunha-se combater Soult pondo em execução o projecto da revolta desde que os ingleses o auxiliassem; o outro, composto pelos amigos de Bonaparte, pretendia impedir que o marechal se proclamasse Rei de Portugal. Não se comprometendo, Wellesley diz precisar de tempo para consultar o seu governo, mas que isso não o impediria de marchar para o norte e em breve estar frente ao exército francês.
O capitão francês e João Viana têm uma segunda reunião com Wellington já em Coimbra. Quando regressa só, ao Porto, d`Argenton encontra casualmente um seu antigo comandante, o general Lefèbre, que diz dirigir-se para a divisão Mermet. D`Argenton aconselha-o a não o fazer pois seria preso pelas avançadas inglesas e, julgando-o um dos conjurados, põe-no ao corrente das suas actividades. Lefrèbre denuncia a conspiração a Soult. Este, já conhecedor da movimentação dos ingleses, não dá muita importância ao relato do general e limita-se a mandar prender d`Argenton.
Quarenta e quatro dias depois de entrar no Porto, os franceses abandonam a cidade.
Em Penafiel, onde bivacou, Soult mandou interrogar d`Argenton, que denuncia alguns camaradas e é condenado ao fuzilamento. O coronel Laffite comandante do seu regimento, receoso de novas denúncias, pois era um dos conjurados que não havia ainda sido denunciado, facilita-lhe a fuga. O capitão d`Argenton refugia-se no meio dos ingleses seguindo depois para Inglaterra. Daí, ou por ver-se abandonado pelos ingleses, ou por remorsos, passa para França. É capturado e julgado em Vincennes, indicando o nome do português João Ferreira Viana como conjurado. Ouve, novamente, a sentença da sua condenação à morte e, desta vez, é fuzilado em Grenelle.
Os coronéis Donnadieu e Laffite são mais felizes escapando ao pelotão de fuzilamento pois Fouché, o eterno conspirador, intercede por eles.
João Ferreira Viana é promovido de capitão de ordenanças a capitão de linha tendo sido colocado às ordens do brigadeiro Francisco Colman. Como a de muitos dos verdadeiros patriotas, a memória deste enigmático herói desfez-se no tempo. Ele próprio diz na sua “Relação dos serviços que a Sua Majestade Fidelíssima fez o capitão de infantaria de linha e ajudante de ordens do Govêrno das Armas do Porto. João Ferreira Viana”: “Pela minha parte tenho conservado tanta cautela, que jamais deixei penetrar o segredo desta importante obra; nem mesmo depois, sabendo que alguns escritores produziam a história das campanhas de Portugal, me atrevo a esclarecê-los e por isso ignorarão esta circunstância.”


