04/06/09

FRENTE OESTE - Texto 14 - 7 MAIO 2009



Encontro internacional nos dias 15 e 16 de Maio

HISTÓRIA DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS


É o número XII do encontro anual de História Local, TURRES VETERAS, uma organização da Câmara Municipal de Torres Vedras em parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras de Lisboa e que conta com uma muito significativa lista de participantes, especialistas nesta área de estudos. As inscrições estão abertas no Arquivo Municipal, o que permitirá receber uma pasta de apoio mas as sessões são abertas ao público em geral.
Programa
15 de Maio
10.00 – Cerimónia de inauguração
10.30 – “Enfrentar as Linhas. Testemunhos franceses sobre uma barreira intransponível” António Ventura, Fac. Letras de Lisboa.
11.00 – “(Re)Construções da memória: as Linhas de Torres em narrativas britânicas” Maria Gabriela Gândara Terenas, Univ. Nova de Lisboa.
11.30 – “Writing Portugal: Robert Southey’s Peninsular Imagination, 1808-1814” Diego Saglia, Univ. Parma.
12.00 – Debate 13.00 – Almoço
15.00 – “O exército de Portugal: a presença francesa face às Linhas de Torres Vedras” Ana Cristina Clímaco, Univ. de Paris VII
15.30 – “Identidade das Linhas de Torres Vedras” Francisco de Sousa Lobo, Assoc. dos Amigos dos Castelos.
16.00 – “População e família em Torres Vedras durante a Guerra Peninsular: a freguesia de Santa Maria do Castelo” Venerando Aspra de Matos, Esc. Sec. Henriques Nogueira.
16.30 – Intervalo
17.00 – Debate
17.30 – “A construção das Linhas de Torres Vedras” André V. Melícias, Museu Municipal do Cadaval
18.00 – “Produtos e preços em Torres Vedras durante a Guerra Peninsular” Henrique Vieira, Esc. Sec. Tomás Cabreira.
18.30 – “Chegaram os franceses: a chegada de Junot e o impacto da 1ª Invasão francesa na Beira Baixa” Nuno Pousinho, Agrup. Escolas J.N.C.Sobral
19.00 – “Da foz do Mondego a Torres Vedras, passando por Mesão Frio, Olhão e Évora” Manuel do Amaral, Instit. Superior de Novas Profissões.
19.30 - Debate
16 de Maio
09.00 – Visita: Linhas de Torres Vedras 13.00 – Almoço
15.00 – “Massena’s french army before the Lines of Torres Vedras, 1810-1811” Donald D. Horword, Florida State University.
15.30 – “El Coronel Sir Robert Wilson en Portugal através de su correspondencia(1808-1809”) Alicia Laspra, Univers. de Oviedo
16.00 – Debate 16.30 – Intervalo
17.00 – “O fim do sonho ibérico de Napoleão” António Pedro Vicente, Univ. Nova de Lisboa
17.30 – “La estrategia napoleónica y las ciudades sitiadas” Antonio Moliner Prada, Univ. Autonoma de Barcelona
18.00 – Debate
18.30 – Encerramento. Lançamento das “Actas – Turres Veteras XI: História da Guerra Peninsular”

20/05/09

BADALADAS - Texto 30 - 15 MAIO 2009





ALMEIDA E BUÇACO: NOTAS DE VIAGEM

Manuela Catarino

Ao despontar da manhã, o céu confirma as previsões meteorológicas e anuncia os primeiros dias radiosos de Maio. Abrem-se sorrisos na perspectiva de um início de viagem agradável, que se vai confirmando com o galgar da distância, estrada fora. Embaladas, pela cadência da condução segura, as pálpebras fecham-se, por momentos, esquecendo a paisagem que corre do outro lado do vidro. Quando se reabrem, na primeira paragem, a perspectiva de um rápido e energético cafezinho permite constatar que não foi um sonho: o sol brilha. Eis a primavera …
De regresso ao alcatrão, que a velocidade engole, vai-se sobrepondo a paisagem em mutação. A caminho de uma Beira interior, de feições bem marcadas pela pedra que se modela ao vento, às chuvas dos dias invernosos, e pela vegetação que vai ganhando coloridos primaveris, os olhos habituam-se a descobrir permanências e mudanças. Não se encontram grandes aglomerados populacionais e, de quando em vez, os pardieiros, ermos, em ruínas, pontuam o espaço outrora habitado. Nos céus, as asas de uma ave de rapina espraiam-se pelo azul sem nuvens. Sobre uma torre, aninham-se cegonhas. Manchas acastanhadas de bovinos jovens preguiçam por entre ervas que guardam os restos da fresca madrugada. Sucedem-se as placas de toponímia, e as peculiaridades de cada paisagem ressaltam no nome escolhido para designar o espaço em que se vive e as
águas que nele serpenteiam.



Sinal do progresso dos tempos, o viaduto transpõe distâncias e quase esconde a velha ponte. Uma paragem. Pelo caminho, ornado de vivos tons florísticos, despontam tufos de rosmaninho. Na ponte sobre o rio Côa, apenas se distinguem os murmúrios da água corrente. Poluída, é certo, mas longe do vermelho intenso que terá conhecido após os primeiros combates que ali ocorreram na terceira invasão francesa. Memória gravada em pedra, ali permanece em nome de sonhos, vidas, feitos militares, medos e perdas, que à escala humana não têm nação nem bandeira.
Recordados os episódios históricos, de novo à estrada, e “com alma até Almeida”!!!!!! A impressão que se tem quando se entra a porta de S. Francisco é esmagadora. A abóbada que se ergue sobre as cabeças dos transeuntes é sólida e transmite confiança, tanta quanto a necessidade de defesa contra os ataques dos invasores que teria de suportar. E, ao entrarmos no perímetro amuralhado e circularmos pelo antigo caminho de Ronda sentimo-nos atraídos pela magnífica paisagem envolvente, sem contudo podermos despegar os olhos daquela imensa conjugação de traveses, parapeitos, baluartes, revelins, trincheiras, guaritas, redutos e mais elementos necessários à arte militar que ainda ali se apresentam. Quase nos esquecemos que foi esta praça-forte a sentinela raiana que enfrentou invasões, exigindo-se-lhe o maior dos sacrifícios: deter por todo o tempo possível os exércitos de Massena, com ordens de entrar em Portugal e dominar Lisboa definitivamente. Só a violenta explosão, que no dia 26 de Agosto de 1810, deixou marcas indeléveis na memória, e nas pedras do castelo velho, acabou por lhe ditar a trágica rendição.
E o cair da tarde prenuncia-se nas sombras que se adensam. Altaneira, a cidade da Guarda, surge ante nossos olhos numa mistura de lenda e modernidade. É a serra que se impõe. Ares frios e secos, bons para um sono reparador.

Manhã soalheira e nós em direcção ao Buçaco. Imaginamos o calvário da marcha de milhares de homens a caminho da batalha. Há 200 anos eles passaram por aqui, por caminhos velhos e pedregosos, ravinas e outeiros, sempre a marchar, à fome e ao frio, sem saberem o seu destino. Mas o nosso autocarro é de turismo cultural, ironia tremenda da História. Queremos evocar, homenagear, reconhecer aqueles heróis. Apenas se fala de generais – Crowfurd, Wellesley, Massena, Ney, Reinier, Junot – mas o sangue que correu em 1810 era de milhares de anónimos, franceses obrigados a atacarem, portugueses e ingleses obrigados a defenderem. Ali está o Moinho de Moura, nas faldas do Buçaco, inscrição atestando ter sido ali o Posto de Comando de Massena.







Mais adiante o Moinho de Sula, posto de comando do inglês Crowfurd, que já se batera, semanas antes, na Ponte do Côa com a sua Divisão Ligeira. E a tradição do moleiro que teimou em subir para desfraldar as velas, pois para ele não havia feriados mesmo que fosse dia de batalha a sério. E chegamos ao Obelisco comemorativo da batalha. Dominando a paisagem, grito de pedra a lembrar aos viajantes o sofrimento inaudito de milhares de homens que ali morreram. O Museu Militar mostra fardas, armas, mapas, gravuras. Porque é preciso manter viva a memória.
Alonga-se a vista na panorâmica soberba da Cruz Alta. Fim, quase, de viagem. Início de uma descida ao coração verde da mata. Veredas, folhas, troncos, cenóbios desabitados. A comunhão com a mãe-natureza. Em nome de todos os deuses. Em memória de todos os homens.


03/05/09

GOYA: o horror da guerra...


"Os Fuzilamentos de Madrid"




"A carga dos mamelucos"


Goya deixou a memória dos acontecimentos de 2 e 3 de Maio de 1808, em Madrid, quando a população se revoltou contra as tropas napoleónicas. A repressão foi terrível. Ficaram os relatos escritos e estes quadros de Goya, hoje no Museu do Prado. De grandes dimensões, vistos por milhares de pessoas, em impressionante silêncio...

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 13 - 30 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE



MULHERES NO EXÉRCITO FRANCÊS

Pedro Fiéis


As cantinières (numa tradução livre – aguadeiras), eram mulheres francesas a quem os regimentos davam uma autorização para a venda de comida e bebida, para além daquilo que eram as rações atribuídas a cada soldado. Tinham como única obrigação a de serem casadas com soldados do dito regimento.
A sua principal função era vender álcool, geralmente brandy de várias qualidades, que guardavam nos seus cantis pintados de azul, branco e vermelho e presos em bandoleira por uma correia de couro, onde estavam pendurados os copos de cobre ou latão, em que serviam a bebida. Também efectuavam outros serviços, como cozinhar, lavar e coser a roupa, recolher água e lenha para as fogueiras.
Não menos importante era o facto de constituírem uma muito necessária companhia feminina durante os longos meses das campanhas. Um dos mais famosos generais napoleónicos, Lasalle, chegou a dedicar-lhes uma canção nas vésperas da batalha de Marengo. Mas se por acaso se tornassem demasiado desordeiras, uma ordem do dia permitiria que os soldados pudessem pilhar os seus bens.
Muitas serviam até 30 anos no exército e se o respectivo marido fosse morto em combate, casavam com outro soldado para poderem manter a posição. Sobreviviam do salário do homem e dos ganhos com as vendas, mas os preços que podiam praticar eram obrigatoriamente baixos, sob pena de confiscação dos bens e não podiam vender a civis ou membros de outro regimento.
Não deixavam, elas próprias, de serem civis no exército e não tendo direito a uniforme, o garbo pessoal de cada mulher fazia com que envergassem uma mistura de vestidos de camponesa, com casacas militares e por vezes, o chamado bonet de police – o chapéu militar para ser usado nas folgas.
Os filhos surgiam naturalmente, os quais acompanhavam as mães durante as campanhas. Existem relatos de mulheres que seguiam os seus maridos no cativeiro, como foi o caso dos que foram aprisionados na ilha de Cabrera, em Espanha. Afinal, até na derrota sofriam as mesmas agruras, com os roubos, os ferimentos e as doenças, agravados pelas violações.
A sua coragem ficou demonstrada em diversos episódios, quando em plena batalha e a receberem fogo inimigo, corriam as fileiras dando de beber aos homens, carregando os mosquetes e não poucas vezes disparando-os. Há relatos de mulheres que chegaram a transportar os seus maridos feridos em grandes distâncias até chegarem a um hospital ou encontrarem uma ambulância.
Em 1807, na primeira invasão francesa, há testemunho de algumas que acompanharam os maridos na penosa marcha através de Espanha até à fronteira portuguesa.

21/04/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 12 - 23 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE




Monumento em memória de Jacinto Correia,
frente ao topo sul do Convento de Mafra

JACINTO CORREIA,
UM HERÓI POPULAR DE MAFRA


Tenente-coronel Abílio Pires Lousada



Fronteira de Segura - Beira Baixa, 20 de Novembro de 1807. À frente de um exército de 26500 homens, o general francês Andoche Junot invadiu Portugal para conquistar Portugal.

Lisboa, 30 de Novembro de 1807. Junot entra, com o seu exército, em Lisboa.

Lugar de Atouguia, Gorcinhos – Mafra, finais de Janeiro de 1808. Ao final da manhã, o jornaleiro Jacinto Correia, habitante da área, de 46 anos, casado e com filhos, dirige-se, como habitualmente, para casa com o produto do seu trabalho. No caminho, é abordado bruscamente por dois soldados franceses que o pretendem roubar. Jacinto Correia não teme e não cede, segue-se uma violenta luta entre os três homens. O jornaleiro saloio, homem de rija têmpera e habituado ao trabalho duro do campo, habilmente e com raiva, brande a foice roçadora e golpeia mortalmente os dois soldados que o atacaram.
Em pouco tempo, uma força militar francesa detém Jacinto Correia, que é presente a tribunal e julgado num Conselho de Guerra.
Apesar de algumas autoridades locais tentarem o perdão do jornaleiro, o Tribunal empurrou o processo para uma incriminação do réu, que impunha punir exemplarmente.
Em determinada altura do julgamento, porque o jornaleiro apresentava uma atitude de serenidade e desafio, foi-lhe perguntado por Loison, comandante militar francês da região, “se o arrependimento já tinha exercido algum efeito no seu espírito”. A resposta, tão convicta como desconcertante, “se todos os Portugueses fossem como eu, não ficaria um francês vivo”, enraiveceu Loison.
Jacinto Correia foi condenado à morte e fuzilado no campo da Alameda, no topo sul do Convento de Mafra, a 25 de Janeiro de 1808.
Tratou-se de um acto heróico, que correu célere de boca em boca. Junot, temendo que a atitude patriótica do «mafrense» estimulasse ânimos e ódios para provocações futuras, publicou uma semana depois a notícia da execução de Jacinto Correia:

«Um dos vossos compatriotas, Jacinto Correia, convencido de um grande crime, foi condenado á morte; Esta severidade das leis assegura a tranquilidade pública de que dependem as vossas vidas e propriedades» (Gazeta de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1808)

14/04/09

POSTO DE SINAIS DA SERRA DO SOCORRO


O Posto de Sinais da Serra do Socorro (Mafra, freg. Enxara do Bispo)
Para proteger Lisboa da 3.ª Invasão Francesa, as forças anglo-lusas estabeleceram, em torno da capital do reino, um sistema defensivo estruturado que incluía duas linhas defensivas que ligavam o Oceano Atlântico ao Rio Tejo: as Linhas de Torres.Paralelamente à construção de fortes e redutos, o exército anglo-luso previu a instalação de um sistema de comunicações para a transmissão de ordens e informações. A Serra do Socorro constituía o ponto central a partir do qual era efectuada a comunicação com os sete fortes onde estavam colocados mastros de sinais. Com base na documentação histórica e nas evidências arqueológicas, efectuou-se o projecto (pioneiro) de reconstituição do telégrafo da Serra do Socorro.
Comunicar em tempo de guerra:
Será recriada a ocupação militar que a Serra do Socorro registou durante a 3.ª Invasão Francesa, através de uma encenação junto ao telégrafo.Duzentos anos volvidos, podemos reviver o quotidiano da época e compreender como funcionava este sistema telegráfico que permitia passar uma mensagem até Lisboa em poucos minutos!
As actividades de recreação poderão ser canceladas caso se verifiquem condições meteorológicas desfavoráveis.
A par com a Recriação Histórica têm, igualmente, lugar visitas guiadas no dia 5 de Setembro, às 15h00 e 16h00 (início das visitas).
A entrada é livre, mediante marcação prévia através do telef.: 261 819 711

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 11 - 16 ABRIL 2009 FrenteOeste






Aguarela grisaille, Luís António Xavier: «La Veritable entrée des protecteurs en Lisbonne le 30 Novembre de 1807». Lisboa, MC. PIN. 284


A PRIMEIRA INVASÃO FRANCESA


Joaquim Moedas Duarte

Estava-se em 1807. Napoleão varria a Europa central com a política do ferro e do fogo. Nada parecia resistir. Mas faltava-lhe aniquilar a Inglaterra. Esta, acantonada na ilha e dominadora dos mares, não se dobrava e tinha em Portugal um ancoradouro fiel.
Dominada a Espanha, o reduto português parecia alvo fácil. Escrevinha-se em Fontainebleau o tratado que retalha Portugal: uma parte para a Espanha, a outra para a França. Em Novembro deste ano, um exército de 25 000 homens põe-se em marcha, atravessa a Espanha e irrompe pela Beira, sob o comando de Andoche Junot, general de Napoleão, que havia estado em Portugal, três anos antes, como embaixador. Tem como objectivos a chegada em triunfo a Lisboa e a prisão da família real portuguesa. Mas uma barreira formidável se lhe opõe: não de exércitos mas de tempestades torrenciais que inundam os poucos caminhos que por aqui havia e transformam a marcha do seu exército numa espantosa calamidade humana. Soldados – homens! – arrastam-se, devoram o que encontram, matam, saqueiam, sobrevivem na lama, no frio, no dilúvio. Raul Brandão, no livro El-Rei Junot, descreve com pinceladas impressionantes este drama que envolve invasores e invadidos.
Que fazem os chefes portugueses? Organizam a defesa? Uma testemunha da época diz que teriam bastado mil espingardas para deter Junot. Mas nem uma se lhe opôs. Ouro e pedras preciosas foram enviados em desespero para comprar a benevolência de Napoleão. De nada serviram. Diplomatas atormentados fingiam aos franceses que estavam contra os ingleses, imploravam aos ingleses que os defendessem dos franceses. Uma decisão é tomada, a conselho da Inglaterra: transferir a família real para o Brasil, então colónia portuguesa, garantindo a continuidade da soberania. Com o Regente D. João (futuro rei D. João VI), sua mãe D. Maria I e seus filhos, fogem cerca de 15 000 pessoas, a elite do país: nobres, clérigos, juízes, militares, comerciantes, políticos, e mais as respectivas mulheres, e os servos, os criados, as bagagens. Indiferentes ao desespero do povo, safavam a pele. Tudo o que navegava foi tomado de assalto por esta horda amedrontada que uma aberta de temporal amainado permitiu sair do Tejo, direcção do Brasil. Junot e os 1 500 homens que sobraram da marcha forçada falharam a captura real por uma tira de horas. Foi nos dias finais de Novembro de 1807.

13/04/09

Texto nº 29 (Jornal BADALADAS, 24 Abril 2009)

UM CORRESPONDENTE DE GUERRA NA SEGUNDA INVASÃO FRANCESA




Pedro Fiéis



Talvez sejam tão antigos como a própria guerra, mas é geralmente aceite que na moderna concepção da palavra, o primeiro correspondente de guerra terá sido Henry Crabb Robinson, um inglês que em 1800 tinha viajado para o território da actual Alemanha, onde fez os estudos universitários e onde terá contactado com alguns dos maiores vultos da cultura do seu tempo, casos de Schiller e Goethe, entre outros.
O seu conhecimento do terreno e domínio da língua constituíram então factores cruciais para que o jornal londrino “The Times” o contratasse para escrever crónicas sobre a guerra que Napoleão conduzia e cujos sucessos sobressaltavam os seus ávidos leitores.
Esta primeira experiência não é muito profícua, quer porque os escritos não tinham grande mérito, quer pela sua irregularidade e por se basearem muito no ouvi dizer. As distâncias ainda eram nesta época uma barreira difícil de vencer, pelo que as novas sobre as batalhas chegavam muito depois de as mesmas terem ocorrido e novos acontecimentos as terem tornado redundantes.
De qualquer modo, o progressivamente maior envolvimento britânico na Península em finais de 1808 convence os responsáveis pelo “Times” da necessidade de ter alguém perto do cenário do conflito e com acesso aos meios navais que transportavam a normal correspondência do exército, encurtando deste modo as ditas distâncias.
O escolhido vai ser então Robinson, principalmente pela sua experiência anterior, embarcando para a Coruña onde chega no dia 28 de Julho de 1808, 5 dias depois de ter deixado Inglaterra. Assumindo agora também de forma mais séria o seu papel, mantém uma correspondência regular com o jornal, muito embora o que escrevia ainda se baseasse nos relatos dos soldados feridos que iam chegando.
O facto de não acompanhar de perto as tropas não lhe permitia seguir todos os acontecimentos. Apesar disso, as informações que fazia chegar eram preciosas, por anteriormente se ter de esperar que esses mesmos soldados escrevessem para casa nas raras pausas que eram concedidas, não contando com a demora do correio. Tudo isto muda a partir do dia 11 de Janeiro de 1809 com a chegada das tropas sob comando de sir John Moore, em retirada diante das tropas francesas desde Salamanca.
Como não tinham chegado os navios de transporte, Moore foi forçado a tomar posições defensivas e aguardar a sua chegada. O seu oponente, Soult, chegou pouco depois e no dia 15 lança os primeiros ataques. A este desenrolar dos acontecimentos assistiu este correspondente desde o primeiro momento, e nesse dia, ao regressar ao hotel, encontrou a sala de refeições vazia e nenhum oficial por perto.
Ao sair para a rua foi informado da aproximação do inimigo e, ao longe, já se conseguia ouvir o troar dos canhões. Robinson foi imediatamente para as alturas que rodeiam a cidade, embora ainda longe da acção, assistiu ao desenrolar da batalha, observando compatriotas seus a serem feridos e mesmo mortos, reportando ainda sobre os prisioneiros franceses que eram escoltados para a zona do porto.
Foram umas horas únicas e que não mais repetiu, dado que ainda no final do referido dia 15 embarca de volta a Inglaterra e não mais escreve sobre a guerra, até porque no “Times” não se lhe reconheceram grandes dotes para a escrita e como a campanha terminara após o embarque da tropa inglesa, não lhe fazem nova proposta de trabalho.

Notas Finais: Henry Crabb Robinson não mais vai escrever para jornais, preferindo dedicar-se à advocacia até ao final da sua vida. O general Moore morre devido a ferimentos sofridos durante a batalha, deixando campo aberto ao regresso triunfal de Wellesley.

10/04/09

TURRES VETERAS XII

HISTÓRIA DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS

Dias 15 e 16 de Maio de 2009








Participação sujeita a Inscrição € 10 www.arquivo@cm-tvedras.pt arquivo@cm-tvedras.pt telef. 261320736

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO X - 9 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE

Portinari: Chegada de D. João VI a S. Salvador


A Corte portuguesa no Brasil

Maria Guilhermina Pacheco


A família real vai permanecer no Brasil de 1808 a 1821. Esta deslocação foi provocada pela conjuntura europeia durante o período napoleónico e vai influenciar o processo de independência da colónia brasileira.
Devido à aproximação das tropas francesas de Lisboa, o príncipe regente D. João, com o apoio da esquadra inglesa, transfere o governo e a corte para o Brasil. Chega aí em Janeiro de 1808, instalando-se dois meses depois no Rio de Janeiro. A vida na colónia vai começar a mudar.
Logo que se instala a corte, o príncipe regente empenha-se nas tarefas de organização do Estado, nomeando o governo e promovendo a estruturação das instituições administrativas, políticas e judiciais, num território que até aí era uma colónia e agora funcionava como a sede da monarquia.
Assim, a instalação dos órgãos administrativos do Império foram integrados na própria estrutura colonial sem haver corte no normal funcionamento das instituições. Foi criado o Conselho de Estado, o Conselho Militar e o da Fazenda, a Mesa do Desembargo do Paço e a da Consciência e Ordens. No sector da Justiça, foi criada a Casa da Suplicação, como tribunal superior e de última instância, no sector militar, a Academia Militar e da Marinha e o Hospital e o Arquivo Militar. No âmbito da administração municipal, a Intendência Geral da Polícia, contribuindo para o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro.
As medidas de carácter administrativo-jurídico visavam as várias capitanias e comarcas do território brasileiro contribuindo para a expansão da agricultura, o desenvolvimento do comércio interno e melhoria da rede viária, facilitando a penetração em zonas menos conhecidas do território. Houve uma política de expansão territorial, a norte e a sul do Brasil: exemplo disso, a invasão da Guiana Francesa em 1809; ou, dois anos depois, o cerco de Montevideu por forças navais portuguesas, e ocupação da Banda Oriental (actual Uruguai), território integrante do antigo Vice-Reinado do Prata.
Mas as mudanças mais emblemáticas foram; em 1º lugar a abertura dos portos brasileiros, “aos navios de todas as nações amigas”; permitindo a entrada de mercadorias de qualquer proveniência, acabando com o sistema do “pacto colonial”, em vigor desde a época pombalina. Portugal deixava de ter direito ao monopólio da exploração dos produtos coloniais brasileiros. Em 1810 assina-se os tratados de Comércio e Amizade e de Aliança e Navegação, que asseguravam aos Britânicos o acesso preferencial dos seus produtos.
A data de 1808 representa, na opinião do historiador Kenneth Maxwell, “uma verdadeira linha divisória, tanto na história de Portugal como na do Brasil.”
Em 1815 o Brasil é elevado à condição de Reino Unido. Era a garantia para a monarquia portuguesa estar formalmente representada no Congresso de Viena, que reorganiza o mapa político da Europa após a derrota de Napoleão.


IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO IX - 2 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE





NAPOLEÃO


José Travanca Rodrigues


Quando começa o novo século, todas as ambições lhe são possíveis. Tem, ao virar dessa página do tempo, 31 anos. Nascera em 1769, na Córsega, meio italiano, meio francês. Carreira militar meteórica – general em 1793 – participou activamente nas vicissitudes da grande revolução iniciada na França em 1789. A carreira de Napoleão acompanhou os espasmos políticos que dilaceraram a França nesses anos. Sagaz e maleável, sabendo colher as oportunidades, passou praticamente incólume a tempestade da Convenção (chegou a ser preso por amigo dos jacobinos, em 1794), soube adaptar-se em crescendo aos novos tempos, muito próprios afinal aos seus projectos. Dois anos bastaram para chegar à fama europeia: em 1796, consumadas as suas primeiras vitórias militares em terras italianas, proclamava: “Povos da Itália! O exército francês vem quebrar as vossas grilhetas. O povo francês é o amigo de todos os povos. Para nunca mais os tiranos que vos têm subjugado!”
São estas as tintas políticas de que se cobre o manto “libertador” de Napoleão, génio da guerra. Doravante, ele torna-se o pesadelo das velhas monarquias europeias. Naqueles reinos ainda absolutistas, socialmente de matriz feudal, Napoleão passa a ser visto como o portador temido da “desordem”, do “caos”, da “impiedade”, enfim. Personificação do Anti-Cristo.
Internamente, a carreira de Napoleão foi fulgurante. Em 1802, torna-se cônsul vitalício. Em 1804 é coroado imperador dos franceses, com a caução do Papa Pio VII. Depois das turbulências do processo revolucionário, a figura de Napoleão emergia como a de um tipo novo de líder político. Incorporando certos conceitos e ideias liberais, atraía largas franjas da burguesia e boa parte da aristocracia se lhe rendia. Muitas desconfianças se desvaneciam para quem via no imperador o instrumento da normalização e da afirmação da França no quadro europeu.

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO VIII - 26 MARÇO 2009 - FRENTE OESTE

“Bonaparte louco de raiva ou mais navios, colónias e comércio” – Água-forte gravada por I. Cruikshand, 1808, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga




QUE NOME DAR A ESTA GUERRA?


Carlos Guardado da Silva


Comemorando-se o bicentenário da «Guerra Peninsular», os historiadores reflectem sobre este conflito que teve uma dimensão internacional, e que se desenvolveu no contexto das «Guerras Napoleónicas», protagonizadas por França e Inglaterra, as maiores potências, em finais do século XVIII e inícios do século XIX. Dentro da estratégia hegemónica de Napoleão Bonaparte, o domínio da Península Ibérica era fundamental para travar o forte poder marítimo inglês no Atlântico, assim como nos portos comerciais do Mediterrâneo. Pois quem dominava economicamente, tinha igualmente a supremacia política na Europa.
O período (1807-1814) acabou por ser conhecido por três designações: «Guerra Peninsular», a mais generalizada, sobretudo no mundo anglo-saxónico, mas também em Portugal; «Guerra de la Independencia», em Espanha; e «Invasões Francesas» (em número de três ou quatro, se considerarmos, neste caso, a Guerra das Laranjas, em 1801) ou Napoleónicas. Deste modo, a denominação inglesa e portuguesa de «Guerra Peninsular» tem sobretudo em conta a realidade geográfica do conflito, sublinhando o apoio fundamental do exército inglês chefiado por Arthur Wellesley, mais tarde duque de Wellington, para a vitória, quer em Portugal, quer em Espanha.
Geograficamente, a Guerra Peninsular abrangeu toda a Península Ibérica, França com os seus aliados e vassalos, e Inglaterra. Mas este conflito teve uma dimensão europeia e atlântica, enquanto parte das Guerras Napoleónicas, travadas sobretudo entre França e Grã-Bretanha pela hegemonia no continente europeu.
Assim, as designações «Guerras Napoleónicas», «Guerra Peninsular» e «Guerra de la Independência» ou «Invasões Francesas» expressam diferentes dimensões do conflito – europeia, peninsular e nacional – que, apesar das características comuns, teve processos distintos em Portugal e em Espanha.








IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO VII 19 MARÇO 2009 FRENTE OESTE




A PRIMEIRA OBRA HISTÓRICA SOBRE A INVASÃO DOS FRANCESES


José N R Ermitão



A História Geral da Invasão dos Franceses e da Restauração deste Reino, sendo a primeira obra histórica publicada sobre a 1ª invasão francesa e o levantamento popular contra o invasor, continua a ser ainda hoje de importância fundamental para o estudo do tema – pela sua abrangência, conteúdo pormenorizado e informações veiculadas. A gravura mostra a capa da última edição, de 2008.
É seu autor José Acúrsio das Neves (1766-1834), magistrado, alto funcionário ad-ministrativo e económico do Estado, defensor acérrimo da industrialização do país e crítico dos efeitos dos Descobrimentos (“enquanto as nossas armas... nos davam um império absoluto sobre... os mares... os campos de Portugal ficavam desertos e as fábricas ao abandono”). Politicamente era um conservador, defensor do absolutismo real e contra to-das as ideias liberais.
Perante as invasões vai revelar-se um activo patriota, usando a pena para escrever manifestos de resistência contra o inimigo e de acusação contra os que se acobardavam perante Napoleão, o tirano, o usurpador. São exemplo desses escritos: Manifesto da razão contra as usurpações francesas, A voz do patriotismo na Restauração de Portugal e Espanha, Reflexões sobre a invasão dos franceses em Portugal, A salvação da Pátria – Proclamação aos portugueses e outros. Alguns foram traduzidos e divulgados em Espanha, em luta contra os exércitos franceses.
Sob a forma de livro histórico, A História Geral... é também um manifesto patriótico, de denúncia anti-napoleónica e de exaltação da resistência dos portugueses que ousaram revoltar-se e restaurar a soberania nacional, primeiro sozinhos e depois ajudados pelos ingleses. E o autor destaca que quem teve o papel determinante no levantamento nacional contra os franceses foi o povo: “este primeiro brado ou saiu imediatamente do povo nas terras onde a rebelião principiou sem chefes, ou foi preparada pelo povo... (cuja) fermentação visível animou esses chefes, nas terras onde os houve, a levantarem a voz”.
A edição mais recente desta obra é de Maio de 2008, Edições Afrontamento, Colecção Biblioteca das Ciências Sociais, Porto. 558 pgs, com uma breve “Nota Bio-Bibliográfica”

09/04/09

VISITA GUIADA AOS LOCAIS DA 3ª INVASÃO FRANCESA

(Clicar para aumentar)



Estão abertas as inscrições para esta VIAGEM / VISITA GUIADA. Parece-nos uma boa sugestão para dois dias de Primavera...

29/03/09

O PORTO E AS INVASÕES FRANCESAS

O Jornal "Público" e a Câmara Municipal do Porto iniciaram no dia 27 deste mês a publicação de uma obra notável: O PORTO E AS INVASÕES FRANCESAS. Em quatro volumes, publicados às sextas-feiras, passará a ser, sem dúvida, uma obra de referência para o conhecimento histórico desta época. Trata-se de um conjunto de estudos realizados por especialistas, abarcando os mais diversos aspectos da abordagem histórica.
Neste primeiro volume encontramos os seguintes estudos:
"Antecedentes das Invasões Francesas", Luís Oliveira Ramos.
"A Segunda Invasão Francesa...", José Manuel Sardica.
"Portugal e a Diplomacia Europeia nas vésperas das Invasões Francesas...", Fernanda Paula Maia.
"A Duquesa de Abrantes e Portugal...", Marie-Hélène Piwnik.
"Milícias e Ordenanças no Norte de Portugal...", Cor. Nuno Lemos Pires.
"As Chefias Militares Portuguesas durante a Primeira e a Segunda Invasões Francesas", Maria da Conceição M Pereira.
"A Arte da Guerra no tempo de Napoleão", Cor. David Martelo.
"Os Mapas da Segunda Invasão francesa", João Carlos Garcia.
" A Defesa de Braga na Segunda Invasão Francesa...", Manuel Braga da Cruz.
Na capa deste primeiro volume vem reproduzida uma parte de um ex-voto da Irmandade das Almas, na Igreja de São José das Taipas, no Porto, que representa o Desastre da Ponte das Barcas.

A este propósito, reproduzimos a notícia sobre esta efeméride que lemos há pouco no jornal O SOL:

MONUMENTO EVOCATIVO DA PONTE DAS BARCAS


O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, inaugura hoje [29 de Março] o monumento evocativo da Ponte das Barcas, da autoria do arquitecto Souto Moura, no local onde a velha ponte de situava, a poucos metros da actual ponte Luís I.

A peça, feita em aço corten, simboliza a ligação entre as duas margens, visto que do lado de Gaia ficará instalada uma estrutura metálica semelhante.
A inauguração do monumento está integrada nas cerimónias de evocação dos 200 anos de um dos episódios mais terríveis da história da cidade do Porto: o desastre da Ponte das Barcas, que terá provocado a morte a mais de quatro mil pessoas, afogadas nas águas do Rio Douro.
O episódio, recordado numa "alminha" instalada numa parede da Ribeira do Porto, ocorreu em 29 de Março de 1809, na sequência da conquista da cidade pelo general Soult, nas segundas Invasões Francesas.
Tomada de pânico face ao avanço das tropas vindas do Norte, a população tentou fugir para o lado de Gaia, onde já se tinha refugiado no dia anterior o bispo do Porto.
Acontece então a catástrofe, por motivos que variam segundo os relatos: uns dizem que a ponte, constituída por 20 barcaças ligadas por cabos de aço, não aguentou a pressão e desfez-se, provocando a queda no rio da multidão.
Outra versão refere que do lado de Gaia alguém abriu um alçapão na ponte, para impedir que os franceses a atravessassem, que "engoliu" os que seguiam à frente na fuga, empurrados para a morte pelos que lhes seguiam a peugada.
Duzentos anos depois, o episódio será então assinalado com a inauguração do monumento, onde o Presidente da República colocará uma coroa de flores, seguindo-se um desfile das forças em parada.
À tarde, o chefe de Estado assistirá ainda na Sé do Porto a uma missa onde será interpretado um Requiem à memória de Camões composto por João Domingos Bomtempo, contemporâneo da catástrofe. (Jornal O SOL)
Para saber mais:
Desastre da Ponte das Barcas

23/03/09

Texto nº 28 (Jornal BADALADAS, 20 / 03 / 2009)


SIMÃO JOSÉ DA LUZ SORIANO,

HISTORIADOR DAS INVASÕES FRANCESAS (2)

JOSÉ NR ERMITÃO

1.
No anterior artigo referi que dos 19 volumes que compõem a História da Guerra Civil... sete (do 4.º ao 10.º volumes) são dedicados às invasões francesas e guerra pe-ninsular. No entanto, os 3 primeiros são também importantes pois neles são descritas as movimentações diplomáticas e militares do país no quadro da situação político-militar eu-ropeia resultante da Revolução Francesa e que desembocaram na 1.ª invasão.
Neles critica quer o oportunismo da Inglaterra, que tanto invoca a aliança com Portugal como a seguir o despreza, segundo os seus interesses, quer a incapacidade do regime absolutista e a sua subserviência para com aquele país. Sobre o governo diz «(os povos estavam) magoados de verem conduzir a nação de ruína em ruína, sacrificada aos caprichos de um governo despótico, ordinariamente inepto e corrupto»; sobre o príncipe regente, futuro João VI, chama-lhe «frouxo e irresoluto», «inexperiente e incapaz de to-mar por si uma resolução... a sua natural irresolução era acompanhada de muita dissimulação... bem longe de promover a união ministerial o regente adoptou o sistema oposto».
As relações com os ingleses e os seus actos são em geral assim referidos: «... sua subserviência (do governo português) para com o inglês e humilhações e vexames por que este o fez passar»; «...má disposição do governo inglês em nos auxiliar»; «duro abandono em que a Inglaterra deixou ficar este reino em tão triste conjuntura...» Enfim, se os franceses eram rapaces, a perfídia inglesa não lhes era inferior, nem a rapacidade britânica sobre a Madeira e a Índia portuguesa foi menor...
Sobre a ida para o Brasil da família real e governo tem uma posição muito crítica: «A família real..., desejando evitar o golpe que tão seriamente a ameaçava, procurou precipitada abandonar a foz do Tejo; e como porta que abriu para novas, mais pesadas e duradouras desgraças, a nação viu... que o governo, em vez de se abrigar a qualquer ilha do Atlântico, se tinha deixado arrastar pelos insidiosos conselhos ingleses, indo transformar os sertões do Brasil em largos campos de ruína para este reino...». Note-se o anti-inglesismo do autor, que não perde uma oportunidade para o afirmar.
2.
O 4.º, 5.º e 6.º volumes incidem sobre as Invasões e os acontecimentos que lhes são consequentes ou coetâneos; o 7.º e 8.º volumes referem a continuação da guerra mas no quadro hispânico; o 9.º e 10.º contêm o conjunto de documentos de suporte dos volumes anteriores.
Apesar de caracterizar a presença francesa em termos de violência, pilhagem, roubo, tirania e perda da independência nacional e de assinalar bem a revolta popular contra ela, vê também as consequências positivas da sua presença, na perspectiva da afirmação das ideias liberais: «Foi então que as armas do imperador dos franceses nos trouxeram os verdadeiros e mais profundos germens das novas e liberais doutrinas, li-gando os naturais do país em associações secretas e políticas, que pouco a pouco se foram ramificando e estendendo entre as pessoas de maior reputação e mérito nas superiores classes da sociedade, particularmente entre militares».
3.
Os movimentos de sublevação popular, que formam juntas governativas locais e restauram a soberania nacional por todo o Norte e Sul do país, são descritos com pormenor, como também as suas debilidades: a desunião entre as diferentes juntas, a falta de comunicação entre elas, a sua fraqueza militar e os tumultos populares, sobretudo no Norte, que num caso ou outro põem em causa a estrutura socio-política vigente. A par da violência repressiva de Loison refere também a capacidade da guerrilha, em Mesão Frio, que o acossa e obriga a retroceder. Escreve: «... a nação portuguesa... não hesitou em prontamente se levantar contra o jugo estrangeiro com tal união e força... e tão feliz êxito que restituiu Portugal à sua antiga independência... (mas) não seria fácil alcançá-lo... se não tivesse sido precedida da insurreição espanhola e sobretudo apoiada pelos ingleses... vindo (estes) a identificar com a nossa, a defesa da sua mesma causa».

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - VI 12 Março 2009 FRENTE OESTE


O príncipe regente passando revista às tropas -Domingos António Sequeira, 1803 - Palácio Nacional de Queluz





FIGURAS HISTÓRICAS

D. JOÃO VI

Maria Guilhermina Pacheco

Filho segundo da rainha D. Maria I e de D. Pedro III, não se encontrava na linha directa ao trono, mas a ocorrência da morte do príncipe herdeiro D. José, garantiu a sua sucessão.
Casou em 1785, com D. Carlota Joaquina, filha do rei de Espanha, Carlos IV, tendo tido nove filhos, destacando-se D. Pedro, D. Isabel e D. Miguel.
A sua mãe, D. Maria I, enlouqueceu, e, em 1792, teve que assegurar o governo do reino, o que se veio a prolongar até 1799. Mas, como a rainha não mostrava melhoras, iniciou-se, a partir daquela data a regência de direito, que se prolongará até 1816, quando por morte da rainha-mãe, é aclamado rei, coM a idade de quarenta e nove anos, na cidade do Rio de Janeiro, para onde a corte portuguesa se deslocara, em 1807, devido à primeira invasão francesa.
O período da regência de D. João é contemporâneo de profundas transformações na vida política da Europa, a Revolução Francesa e as suas consequências, que se fazem sentir também, em Portugal.
Em catadupa, os acontecimentos vão-se sucedendo; Bloqueio Continental, o Tratado de Fontainebleau, as Invasões Francesas, a fuga para o Brasil (elevado a reino em 1815), as conspirações liberais de 1817 (em Portugal e no Brasil), a Revolução Liberal de 1820 e, o posterior regresso da família real e a independência do Brasil. É o declinar de uma época e o nascer de outra, que se opõe à anterior, com novas regras, política, económica, social e culturalmente.
O rei, “testemunha e agente dessa transformação, que não havia sido fadado pela natureza nem com grandes recursos intelectuais nem com vontade firme e esclarecida, que poderia fazer ao longo de toda a sua vida de governante, além de procurar impossíveis equilíbrios, inviáveis mediações entre a rotina e a inovação?” …” tíbio, infeliz e bom, o rei, aos baldões dos acontecimentos, encarnou um período calamitoso da história pátria, em cujos transes se forjou o dealbar do Portugal contemporâneo” (Joel Serrão, D. João VI, in Dicionário de História de Portugal, III volume, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1975)
No entanto, actualmente, tem havido a tendência para uma reabilitação da figura de D. João VI, apresentando-o como um estadista aberto aos problemas da sua época, e lutando por uma política de neutralidade portuguesa, e de equilíbrio, entre a França revolucionária e o imperialismo inglês. •

15/03/09

RECRIAÇÃO HISTÓRICA - Invasões Francesas no concelho de Pombal

Um conjunto de actividades evocativas das Invasões Francesas têm lugar nos dias 14 e 15 de Março em Pombal e na Freguesia da Redinha. O programa completo pode ser visto AQUI (clicar).


Por trás destas iniciativas está Mário Lino (clicar), natural de Pombal, Director do Museu do Ciclismo nas Caldas da Rainha, onde reside, e coleccionador/estudioso da nossa História, . Estamos a contar com ele para valorizar, igualmente, as comemorações da Guerra Peninsular em Torres Vedras.

13/03/09

FORTE DO ALQUEIDÃO - SOBRAL DE MONTE AGRAÇO

Estrada militar



Um dos fossos
Outro aspecto



Paredes de protecção






Este é um dos fortes mais importantes da primeira linhas das LINHAS DE TORRES VEDRAS. Situado num ponto muito elevado, em contacto visual directo com a Serra do Socorro, onde se articulavam os sinais de comunicação para a zona de Torres Vedras e litoral.
Foi recentemente desmatado, deixando à vista todo o sistema de fossos e travezes.
Como chegar lá: no Sobral de Monte Agraço, tomar a estrada para Bucelas. Depois de S. Quintino há uma zona de curvas e, cerca de dois Km à frente, há o desvio à direita, com a indicação de Forte de Alqueidão. A estrada é de terra batida e tem indicações com tabuletas de madeira. Quando se encontra a estrada militar, deixa-se o carro e sobem-se cerca de 150 metros até ao Forte. O panorama é soberbo. Vale a pena!
No cimo, junto ao talefe, foi construído há anos uma plataforma de betão que é, quanto a nós, um atentado ao património que deveria ser resolvido com a demolição pura e simples.
Para quem venha de Bucelas, passa a Arranhó e anda uns cinco Km até encontrar o desvio à esquerda para o Forte.
Para saber mais: AQUI. (Lá se vê a polémica plataforma de betão...)

07/03/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - V 5 MARÇO 2009 - FRENTE OESTE




Olivença, Igreja de Santa Maria Madalena, estilo manuelino.




Portal manuelino, Paços do Concelho - Olivença







A “GUERRA DAS LARANJAS”

E A PERDA DE OLIVENÇA



Joaquim Moedas Duarte

As fronteiras de Portugal foram definidas no reinado de D. Dinis, em 1297, através do Tratado de Alcanises, firmado com Castela. Durante 504 anos mantiveram-se inalteradas até que, pela chamada Guerra das Laranjas, Olivença foi anexada pelos espanhóis.
Recuemos a 1801. A França e a Inglaterra defrontavam-se em terra e no mar, arrastando outros países pelo jogo das alianças e dos interesses de cada um. A Espanha, com um contencioso antigo em relação à Inglaterra, alia-se à França de Napoleão. Portugal, refém e beneficiário da velha aliança anglo-lusa, não tem por onde fugir. Manuel Godoy, a quem o rei Carlos IV de Espanha dera o título de Príncipe da Paz e fizera primeiro-ministro, entendeu-se com Napoleão para a partilha de Portugal. O que estava em causa? Napoleão via-nos como base de operações terrestres e ancoradouro seguro para os navios ingleses. Daí a exigência clara de que os nossos portos fossem fechados ao velho aliado. Por outro lado, na América do Sul as fronteiras do território português do Brasil eram há muito disputadas: a norte pelos franceses que queriam alargar a Guiana Francesa; a sul pelos espanhóis, por causa da colónia de Sacramento e das margens do rio da Prata, onde hoje é a Argentina.
Portugal não tinha argumentos de força para impor os seus direitos. O exército era reduzido, desorganizado e mal armado. O seu chefe máximo, o duque de Lafões, já octogenário, era incompetente, tal como os generais de que dispunha. As fortificações fronteiriças estavam em mau estado. Quando os espanhóis concentraram 40 a 50 mil homens no outro lado da fronteira, Portugal, que só dispunha de cerca de 12000, entrou num desesperado e inábil jogo diplomático cuja estratégia era apenas a de ganhar tempo, esperando um milagre. Ele não veio e os espanhóis passaram à acção em Março de 1801. Ocuparam Olivença, Juromenha, Campo Maior, Arronches, Portalegre e Castelo de Vide, sem que os portugueses opusessem resistência. Só Elvas não se rendeu, mas ficou isolada e sitiada sem qualquer influência no desfecho final. Quando a paz foi assinada pelo Tratado de Badajoz, em Junho daquele ano, Portugal teve de aceitar a perda de Olivença. Mais tarde, em 1815, no rescaldo da queda de Napoleão, o Congresso de Viena reconheceu a Portugal o direito de recuperar a sua posse mas a Espanha nunca acatou esta decisão.
Porquê a designação de “guerra das laranjas”? Conta-se que Godoy, já em Portugal à frente das tropas invasoras, mandou cortar um galho de laranjeira carregado de frutos e enviou-o como símbolo da sua conquista à rainha Maria Luísa, com quem vinha mantendo uma relação menos formal e mais íntima…
No dizer de António Ventura, historiador especializado no estudo desta época, “a Guerra das Laranjas foi uma espécie de primeira fase tímida e minimalista daquilo que seria a grande confrontação de 1807-1814, a Guerra Peninsular”.

01/03/09

Texto nº 27 ( Jornal BADALADAS, 26 / 02 / 2009 )

SIMÃO JOSÉ DA LUZ SORIANO,
HISTORIADOR DAS INVASÕES FRANCESAS (1)

José NR Ermitão

Há duas obras de importância capital para o estudo das Invasões Francesas: uma delas já foi objecto de artigos anteriores – a História Geral da Invasão dos Franceses... da autoria de José Acúrsio das Neves; a outra é a História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal, da autoria de Simão José da Luz Soriano. Em qualquer estudo sobre o período em questão, são sempre utilizadas e referenciadas pela extensão informativa e documental que veiculam.

O AUTOR
S. J. Luz Soriano (1802-1891) foi educado na Casa Pia que, devido às suas capacidades intelectuais, lhe custeou a frequência da Universidade de Coimbra. Liberal convicto, Soriano exilou-se em 1828, depois do malogro do liberalismo. Fez parte do exército liberal que, primeiro, se apoderou da ilha Terceira, depois desembarcou no Mindelo em 1832, combateu e derrotou o miguelismo e instaurou o regime liberal no país em 1834.
Voltou à universidade, formando-se em Medicina, e iniciou a actividade política co-mo colaborador de Sá da Bandeira (uma das mais prestigiadas figuras do liberalismo) na Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar. Foi defensor da colonização de Angola, província de que foi deputado, e membro do Conselho Ultramarino.
Como historiador, para além da obra mencionada, escreveu entre outras a História do Cerco do Porto (1849), a História do Reinado de D. José e da Administração do Marquês de Pombal (1867) e a Vida do Marquês Sá da Bandeira (1888); publicou ainda uma autobiografia, Revelações da minha vida…, em 1860.

A HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL...
O título da obra é tão extenso quanto a própria obra, História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal compreendendo a história diplomática, militar e política deste reino desde 1777 até 1834. É constituída por 19 volumes, sendo 7 deles, do 4.º ao 10.º (cerca de 5000 páginas!), directamente dedicados às invasões francesas e guerra peninsular. A monumentalidade e a exaustividade, juntamente com uma exposição pouco metódica, uma escrita seca e longos excursos introdutórios, são as suas características externas mais evidentes.
Embora indique o ano de 1777 (subida de D. Maria I ao trono) como início da obra, antecede-o de uma vasta introdução de 200 páginas com uma síntese da história de Portugal, e refere aspectos do reinado de D. José e da actuação do Marquês de Pombal, pois «o reinado de D. José foi seguramente o do primeiro germen das referidas ideias (liberais) entre nós, pois que as reformas ou medidas decretadas pelo... ministro (Marquês de Pombal)... foram... do mais alto e rasgado progresso social...»; ou, como diz de outro modo, «O Marquês de Pombal abate com a clava da sua omnipotência as classes da nobreza e do clero, dando consideração às mais inferiores e desprezadas, medidas estas que o apresentam como altamente revolucionário, com relação ao tempo em que viveu».
A obra resultou de uma encomenda estatal e teve como objectivo concreto a elaboração de um panorama global e unitário da história do período em questão, até ai divulgada em obras mais ou menos parcelares. Esta necessidade de uma obra unitária entrosa-se quer com o papel que era atribuído à história na formação do homem liberal, quer com a necessidade de justificar e defender historicamente a inevitabilidade do próprio movimento liberal – tem pois uma evidente função ideológica.
Luz Soriano, para a sua elaboração, consultou não só as obras publicadas no seu tempo sobre os temas tratados, como teve acesso livre aos arquivos dos diversos ministérios. Reuniu assim uma massa de dados, informações, interpretações e documentos absolutamente inultrapassável e que faz dela uma obra de consulta obrigatória para o estudo do período que vai do reinado de D. José até ao estabelecimento do liberalismo, «seguramente a época mais importante da nossa história pátria, por ser o da maior ilustração e civilização, a da nossa diplomacia moderna, e a das nossas guerras externas e civis, a par da do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal».

(Continua em próximo artigo)




IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - IV 26 Fev 2009 - FRENTE OESTE






Batalha de Trafalgar - W. Turner





TEMPESTADE NO HORIZONTE

PORTUGAL ENTRE A FRANÇA E A INGLATERRA

A execução de Luís XVI pelos revolucionários franceses em Janeiro de 1793 fez estremecer as monarquias da Europa, levando-as a reagir. Durante 25 anos, este continente vai ser varrido pela guerra: de um lado a França, mobilizada segundo o novo conceito de “nação em armas”, chefiada pelo maior cabo-de-guerra dos tempos modernos, Napoleão; do outro, as grandes monarquias – Áustria, Prússia, Rússia, Suécia… - lideradas pela Inglaterra.
As duas maiores nações da Europa vão defrontar-se ao longo de um processo de afirmação imperial: a Inglaterra procurando o domínio das rotas comerciais marítimas e das colónias produtoras de matéria-prima para as suas indústrias; a França querendo impor os ideais revolucionários contra os decadentes regimes absolutistas. Entre uma e outra não era possível a coexistência pacífica. Napoleão encara seriamente a hipótese de invadir a grande ilha britânica, o que o leva a aliar-se à Espanha, inimiga secular da Inglaterra e senhora de uma forte Armada. O confronto decisivo deu-se em Outubro de 1805, junto ao Cabo Trafalgar, onde a armada franco-espanhola foi completamente desbaratada pela frota inglesa comandada pelo Almirante Nelson.
A partir daqui o teatro de guerra passa para o solo europeu. Portugal era uma nação periférica e de pouca influência internacional mas o seu território, tanto no continente como no ultramar, ganhou uma importância estratégica decisiva na luta entre as grandes nações rivais. Portugal viu-se entalado entre a espada francesa que nos considerava um protectorado inglês, e a parede inglesa que invocava a velha aliança para fazer dos nossos territórios a base das suas operações militares. Sem exército organizado e com um príncipe regente – D. João - sem estatura política, Portugal fica reduzido a jogar o seu destino no volátil tabuleiro diplomático. Proclamando-se neutral, alia-se em segredo ora a um ora a outro dos blocos inimigos. Esgota o tesouro em pagamentos, indemnizações, acções de aliciamento. Tenta ganhar tempo, esperando que deus ou a sorte levem para bem longe a tempestade que carrega o horizonte.

J. Moedas Duarte

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - III - FRENTE OESTE 19 Fev 2009


Grupo de patriotas planta um "Maio da Liberdade". Gravura francesa, finais séc. XVIII


VENTOS DE LIBERDADE
Antecedentes da Guerra Peninsular

Em França, durante o período da Convenção (1792-1795) o apelo à participação popular para viver os acontecimentos que estavam a mudar o seu quotidiano foi recebido com entusiasmo. Proliferam os símbolos que todo o patriota se orgulha de ostentar: o “barrete frígio”, o “vestuário”, as “rosetas” tricolores que se afirmam nas lapelas e chapéus…
De entre os novos símbolos, um dos mais famosos, “a árvore da Liberdade” ou “Maio da Liberdade” readapta o uso de plantar, durante a noite, em frente da casa de uma namorada, de um vizinho ou de um inimigo uma árvore, o tradicional “Maio”. Deste costume, que coincidia com o início da Primavera e, amorosa ou cruelmente, traduzia em laços, fitas, objectos, papéis escritos, as mensagens, os dizeres, as injúrias, que de viva voz não havia coragem para assumir, irão os patriotas reavivar o fervor popular. Por toda a França se passaram a realizar as “festas cívicas”, plantando árvores nas vilas e cidades com fitas, laços, rosetas tricolores e palavras de incentivo e louvor aos actos e personagens da Revolução, mas também de verdadeiras ameaças aos seus opositores.
O processo revolucionário continua a sua marcha. Ao terminar funções, a Convenção aprova uma nova Constituição em 1795 sob o lema “ liberdade, igualdade, propriedade” dando início a uma nova etapa da Revolução Francesa – o Directório. Na guerra que a França sustenta na Europa começa a ganhar proeminência o nome de um general – Bonaparte.
O alastramento das ideias revolucionárias começou a ser objecto de preocupação por parte das monarquias absolutas logo a partir de 1793, e principalmente após a condenação à morte de Luís XVI. Pode-se, assim, compreender a acção do Intendente Geral da Polícia, Pina Manique, que tenta travar a todos os níveis a introdução em Portugal dos costumes, modas, opiniões, obras literárias ou quaisquer outras formas de contacto com as “perigosas” ideias. A França é, apesar de tudo, a grande referência cultural da época. Para alguns, muito poucos, espíritos iluminados que se reúnem em tertúlias e cafés, as ideias de igualdade e liberdade são objecto de discussão e defesa acalorada mas não põem em causa a ordem instituída.
Não será, portanto, de estranhar que esses homens ditos “afrancesados” associem a entrada na cidade de Lisboa, das tropas comandadas por Junot, ao sopro dos desejados ventos de Liberdade!

Manuela Catarino

25/02/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - II 12 Fev 2009 - FRENTE OESTE






INÍCIO DA REVOLUÇÃO FRANCESA

A tomada da Bastilha a 14 de Julho de 1789, hoje solenizada no feriado nacional dos Franceses, tornou-se o símbolo maior da Revolução. O povo de Paris, amotinado, assaltou lojas de armas e atacou e tomou a principal prisão do Estado onde supunha encontrar mais armamento. Pelas funções que desempenhava, a Bastilha constituía a imagem da repressão e injustiça do poder absoluto, pelo que a sua queda se revestiu de um enorme simbolismo para os revolucionários.
Mas após esse momento de vitória, os parisienses, revoltados e armados, continuaram o processo insurreccional. Apoderaram-se das instituições administrativas e organizaram uma milícia própria e patriótica – a Guarda Nacional – que passou a envergar uma farda tricolor: vermelho e azul do brasão armorial da cidade, e branco dos Bourbons, a dinastia reinante. Seria esta a força militar em que se apoiariam os interesses revolucionários enquanto na cidade ganhava forma a Comuna de Paris e em outras cidades, por toda a França, os acontecimentos se precipitavam. A Revolução estava em marcha.
Enquanto o ambiente revolucionário ia crescendo não era unânime o sentir social – para uns, o clima era de entusiasmo, para outros, reinava o medo e a instabilidade. Foi durante esse período conturbado que a Assembleia Nacional Constituinte, desenvolvendo uma intensa actividade legislativa, pôs cobro à ordem político-social vigente – a do Antigo Regime – e fundou um novo quadro politico-institucional e uma nova ordem social, a do Liberalismo.
Da Assembleia Constituinte procederá o documento que mais repercussão irá ter na História humana: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, promulgada a 26 de Agosto de 1789. Destinada a servir de preâmbulo à futura Constituição francesa, os seus princípios fundamentais não se dirigiam unicamente aos franceses, podendo ser aplicados a qualquer regime político. Documento que define um novo conceito de Homem e de Cidadão, nele se consubstancia o primado dos direitos individuais e da Liberdade.
Estas mudanças revolucionárias fizeram estremecer toda a Europa e a Guerra Peninsular foi uma das suas consequências.


Manuela Catarino

24/02/09

Texto nº 26 ( Jornal "BADALADAS", 13 / 02 / 2009)




REVOLTAS POPULARES NO ALGARVE CONTRA OS FRANCESES DE JUNOT

Henrique Vieira*

Junot ocupou Portugal a partir de finais de Novembro de 1807. Os actos que se seguiram foram os do ocupante que procura neutralizar qualquer possibilidade de revolta: desarmamento geral, imposição da lei marcial com julgamentos sumários que espalham terror, lançamento de pesados impostos. Junot fixou o quartel-general em Lisboa mas as tropas francesas e espanholas espalharam-se pelos principais pontos do país. O Algarve foi inicialmente ocupado pelo general espanhol Campigny mas, depois de um desentendimento com os franceses, são estes que vêm a fixar-se em Faro, sob o comando do general Maurin.
Nos primeiros dias de Março de 1808, este general lança um tributo mensal de 1.200$000 reis, a ser pago pelas comarcas de Faro, Tavira e Lagos, para o chamado prato do governador (para o sustento da sua casa e estado), para além de outros impostos diversos. Tudo o que era ouro e prata das igrejas passou para as mãos dos franceses, sob o pretexto que eram mais úteis no fabrico de moedas de ouro e prata do que no sítio onde estavam. Destes actos ainda hoje os mais antigos utilizam as expressões “Roubar à grande e à francesa” e “Tens mais artes que os Bonapartes”.

Entretanto em Espanha, a 2 de Maio, inicia-se a sublevação contra a ocupação napoleónica e a 26 processa-se a Revolta da Andaluzia estabelecendo-se, em Sevilha, uma Suprema Junta de Governo que, a 6 de Junho, declara guerra à França, em nome de Fernando VII, Rei de Espanha. Em Julho os franceses, até aí invencíveis, sofrem uma grande derrota em Bailén, Espanha. As notícias destes acontecimentos chegam rapidamente ao Algarve. Junot ordena a Maurin que concentre os seus homens nas fortalezas do Guadiana, pelo que passam a ser pequenos os contingentes franceses que ficam nas cidades e fortalezas de defesa da costa. Por esta altura a armada inglesa mantém uma vigilância permanente nas costas algarvias e nas da Andaluzia, dificultando ao máximo o abastecimento dos franceses. O povo, insofrido com a ocupação, esperava apenas um rastilho para incendiar a revolta. Ele surge quando, em 12 de Junho se iniciam os preparativos para a festa de Santo António, em Olhão. João da Rosa, ao armar o andor para colocar o Santo, “olhando para as armas reais que estão na dita capela e se achavam tapadas e pregadas com um painel da Senhora da Conceição, pô-las a público, sem olhar a mais nada e somente confiado em Deus”. No dia 13 quando os marítimos se dirigiam para a festa e vendo tal acto, foram para a praia e embandeiraram todas as embarcações com a bandeira portuguesa e lançaram vivas ao Príncipe Regente e à Liberdade.
Quatro dias depois o tenente – coronel José Lopes de Sousa, governador da praça de Vila Real de Santo António, que estava em Olhão há dois meses, ao dirigir-se com a sua família para a missa do Corpo de Deus, reparou que alguns marítimos tentavam ler um edital que estava fixado à porta da igreja, no qual Junot incentivava os portugueses a aliarem-se aos franceses contra os espanhóis revoltosos. Lopes de Sousa rasga o cartaz e diz: -”Já não merecemos o nome de portugueses e já não há homens do mar como os antigos!” ao que respondem os presentes que “eram homens como os seus antecessores, fiéis e leais a Sua Majestade, por quem estavam prontos a derramar a última pinga de sangue (…). Logo, sem mais demora, correu cada um quanto mais podia a rasgar os editais; subindo à torre puseram-se a tocar a rebate e todos a uma voz puseram-se a clamar: Viva Sua Majestade e o Príncipe Regente, Nosso Senhor, Dom João de Portugal; Viva toda a Família Real; Vivam todos os nossos governos portugueses que foram fiéis ao nosso amado Príncipe; morra toda a nação francesa”.

A partir daqui desenrolam-se múltiplos confrontos. Os franceses estão agora perante uma população exaltada e disposta a tudo para recuperar a liberdade. Olhão, mas também Faro, Tavira e Vila Real de Santo António, entre outras localidades, sem qualquer apoio militar, desgastam a tropa francesa com acções constantes de guerrilha, infligindo baixas entre os soldados inimigos. Um barco de Olhão, com 17 tripulantes, mete-se ao mar e leva ao Príncipe Regente no Brasil, novas do Algarve em armas. Acto heróico que ainda hoje se evoca no nome de Vila de Olhão da Restauração concedido pelo Príncipe.
Por todo o lado os franceses não mais terão descanso até serem obrigados a abandonarem o país, após a Convenção de Sintra, em finais de Agosto de 1808.

* Professor

06/02/09

Texto nº 25 ( Jornal "BADALADAS", 30 / 01 / 2009)



CONTINUAR A MANTER VIVA A MEMÓRIA


J. Moedas Duarte


Faz agora um ano que se iniciou esta rubrica dedicada ao Bicentenário das Invasões Francesas. Foi referido na altura que não se trata de um revolver inútil no passado mas sim de manter viva a memória de um conjunto de acontecimentos ocorridos entre 1807 e 1810, na perspectiva de que o conhecimento da História é um factor necessário para o entendimento do presente. “Uma sociedade sem memória é um ser errático e vazio” – escrevia-se no primeiro texto desta rubrica.
Sabemos que esta iniciativa da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, em colaboração com o jornal Badaladas, tem tido bom acolhimento. Até já recebemos várias sugestões para que estes textos venham a ser compilados numa futura publicação, hipótese a ponderar oportunamente. É nossa intenção continuar a publicar estes artigos duas vezes por mês, até ao final do próximo ano, cobrindo assim todo o período das comemorações.
Para os leitores que estão a coleccionar estes textos de divulgação e respondendo a uma sugestão que nos foi apresentada, publicamos hoje a sua lista completa.


1
25-01-08
Manter viva a memória
J. Moedas Duarte

2
15-02-08
Guerra Peninsular
Carlos Guardado
3
29-02-08
Napoleão
J. Travanca Rodrigues
4
14-03-08
França e Inglaterra em confronto
J. Travanca Rodrigues
5
28-03-08
Guerra Peninsular: Porque é que Portugal se viu envolvido
J. Moedas Duarte
6
11-04-08
A 1ª Invasão Francesa
Graça Mira
7
25-04-08
A 2ª Invasão Francesa
Mª Guilhermina Pacheco
8
09-05-08
A 3ª Invasão Francesa
Manuela Catarino
9
23-05-08
Jacinto Correia, um herói popular
Major Abílio Lousada
10
13-06-08
“Brilos”: um enigma histórico
Pedro Fiéis
11
27-06-08
A batalha de Dois Portos
Venerando A de Matos

11-07-08
Programa da Visita Guiada à Roliça e Vimeiro

12
18-07-08
A batalha da Roliça
Pedro Fiéis
13
25-07-08
O príncipe Regente D. João comunica a passagem da família real para o Brasil
José Ermitão
14
01-08-08
Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Franceses
Pedro Fiéis
15
15-08-08
Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Ingleses
Pedro Fiéis
16
22-08-08
A batalha do Vimeiro
Pedro Fiéis
17
12-09-08
As denúncias contra os partidários dos franceses
José Ermitão
18
26-09-08
As aguadeiras do exército francês
Pedro Fiéis
19
10-10-08
A conspiração do Porto [1]
João Flores Cunha
20
24-10-08
A conspiração do Porto [2]
João Flores Cunha
21
14-11-08
Manifesto de declaração de guerra à França
José Ermitão

28-11-08
1º Suplemento “Bicentenário Inv. Francesas”
Vários
22
12-12-08
A Comemoração do 1º centenário da Guerra Peninsular
Célia Reis
23
02-01-09
Marrocos e a 1ª Invasão Francesa
José Ermitão
24
16-01-09
História e Literatura de ficção. As Aventuras de Richard Sharpe, um herói no tempo das guerras napoleónicas
Manuela Catarino


COMISSÃO MUNICIPAL

Entretanto a Câmara Municipal de Torres Vedras deliberou constituir uma Comissão Municipal para a Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras ( CM200anos), cuja missão é a de propor e executar um programa comemorativo de âmbito concelhio, a ter lugar entre finais de 2009 e 2010. Esta Comissão tem uma componente executiva, da qual fazem parte quadros humanos do Município e elementos da comunidade local convidados para o efeito; e uma componente consultiva, para a qual estão a ser convidadas as associações culturais, os agrupamentos de escolas e as Juntas de Freguesia.
Por último recordamos que foi criado um blogue na Internet onde são publicados os textos desta rubrica, bem como informações e bibliografia sobre o tema da Guerra Peninsular. Endereço:
http://linhasdetorres.blogspot.com/

NÃO PARAR...

Iniciámos no dia 5 de Fevereiro uma nova rubrica no outro jornal regional de Torres Vedras, o FRENTE OESTE.
Tem o título de IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR.
Pretendemos publicar semanalmente uma imagem da Guerra Peninsular, acompanhada de um texto que a complete ou explique. A intenção, mais uma vez, é DIVULGAR conhecimentos sobre esta época histórica.
Julgamos que será possível, assim, pôr à disposição dos leitores em geral e também dos alunos das nossas escolas, alguns materiais interessantes que lhes possam ser úteis.
Na sua utilização apenas pedimos que identifiquem a origem (http://linhasdetorres.blogspot.com) e, caso venha indicado no texto, o autor.

05/02/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - I / 5 Fev 2009 - FRENTE OESTE




GUARDAR BEM VIVA A MEMÓRIA


Entre o Campo Grande e o início da Avenida da República, em Lisboa, ergue-se o monumento aos heróis da Guerra Peninsular, inaugurado em 1933. A ideia da sua construção nasceu em 1908, na comemoração do 1º centenário daquela guerra. Os autores, o arquitecto Francisco Ferreira e o escultor José de Oliveira Ferreira, procuraram exprimir, no estilo da época, a gratidão para com o povo e os militares portugueses que enfrentaram os poderosos exércitos napoleónicos.
Comemoramos agora os 200 anos destes acontecimentos. Não se trata de festejar mas sim de evocar, guardar bem viva a memória de um tempo em que Portugal foi invadido três vezes, a Coroa real e as suas elites embarcaram para o Brasil (em fuga ou obedecendo a um desígnio estratégico?) e ao povo foi pedido que sofresse e resistisse. Foi o tempo das Invasões Francesas, também conhecido por Guerra Peninsular, no início do século XIX. Recordemos sucintamente:
Andoche Junot, no Outono de 1807, atravessa a Espanha, entra pela Beira Baixa com um exército de 25000 homens e tenta chegar a Lisboa para aprisionar a família real portuguesa. Quase consegue: dois dias antes o Príncipe Regente D. João, a família e cerca de 15000 pessoas em pânico haviam embarcado para o Brasil. Em 1809 dá-se a segunda invasão, comandada pelo general Soult que entra por Trás-os-Montes com o objectivo de ocupar o Porto e descer depois à conquista de Lisboa. Enfrenta uma resistência desorganizada mas tenaz, e é obrigado a retirar. Um ano depois é Massena que comanda a terceira invasão mas encontra no seu caminho as Linhas de Torres Vedras, uma formidável obra de engenharia militar. Não consegue passar em direcção a Lisboa e retira, perseguido pelas forças luso-britânicas comandadas pelo general inglês Arthur Wellesley, duque de Wellington.
Estes acontecimentos marcaram todo o século XIX português e moldaram a nossa contemporaneidade. E porque é necessário alimentar e manter a nossa memória colectiva, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, no âmbito da sua missão e em colaboração com o Frente Oeste, vai publicar semanalmente neste espaço a rubrica IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR, com o objectivo de divulgar alguns conhecimentos sobre esta época tão marcante da nossa História.

J. Moedas Duarte

16/01/09

Texto nº 24 ( Jornal "BADALADAS", 16 / 01 / 2009 )

História e Literatura de Ficção

As Aventuras de Richard Sharpe, um herói no tempo das Guerras Napoleónicas



Manuela Catarino *

Quando se percorrem as páginas de suplementos literários ou se espreitam os escaparates das livrarias confronta-se o passante e possível leitor com a possibilidade de realizar diversas viagens entre tempos, espaços e vivências muito diferentes, através de uma intriga sedutora, movimentada, recheada de personagens entre o real e o imaginário. Capas apelativas, títulos engenhosos, dão forma a um género literário que, nos dias de hoje, ganhou novo fôlego: o romance histórico.
Herdeiro dos tão apreciados “contadores de estórias” que tanto marcaram a tradição oral, o romance histórico ganha mais intensidade quando se fixa no suporte papel e nas páginas que enforma. Os heróis, as paisagens, os costumes, as marcas de um quotidiano diferente são pretextos para incursões em temáticas que podem ir da política à arte, da religião à guerra, da mentalidade à música, mas deixando sempre ao leitor a perspectiva de , se o desejar, retomar a dimensão “real” dos factos que “reconstitui”.
Cabem nesta acepção os volumes que a Planeta Editora tem vindo a publicar sob o título As Aventuras de Richard Sharpe da autoria do escritor de origem britânica Bernard Cornwell, cujo cenário se desenrola nos campos de batalha peninsulares do século XIX. Neles encontramos os momentos decisivos das lutas entre as forças napoleónicas e a resistência organizada nos reinos de Portugal e Espanha, desde a Galiza a Talavera, da destruição de Almeida à batalha do Buçaco, para apenas referirmos alguns exemplos.
Não será difícil acompanhar as peripécias do tenente Sharpe e dos seus companheiros de luta em cada página que o autor tão vivamente nos apresenta. Emboscamo-nos, subimos os íngremes penhascos, acompanhamos o movimento das forças adversárias, atentos ao mínimo pormenor. Assistimos ao desespero das populações civis na iminência da destruição das suas casas, dos parcos bens que possuem, da perda da própria vida.
Mas também participamos de momentos ironicamente perfeitos como aquele que a imaginação do autor nos propicia no episódio que situa em 1809, no salão de recepções da ala oeste do Palácio das Carrancas, junto ao Douro, enquanto as forças de Sir Arthur Wellesley instaladas nas ruas de Vila Nova de Gaia disparavam os canhões por sobre o rio e os franceses se acantonavam na cidade do Porto – […] Um francês alentado, com um bigode enorme, entrara na sala. Trazia um avental manchado de sangue, com uma medonha faca de trinchar á cintura.
-Mandou-me chamar, meu Marechal? – disse ele, soando a contrariado.
- Mandei, pois.- Soult empurrou a cadeira para trás, esfregando as mãos. –Temos de pensar no jantar, sargento Deron! Vou ter dezasseis talheres e quero saber o que é que sugere?
- Eu tenho enguias.
- Enguias! – exclamou Soult, todo contente. – Recheadas com pescada em molho de manteiga e cogumelos ?Excelente.
- Eu vou cortá-las em filetes - disse, casmurro, o sargento Deron -, fritá-las em salsa e servi-las com um molho de vinho tinto. E, para entrada, tenho borrego, um borrego muito bom.
- Muito bem! Eu gosto de borrego – disse Soult. – Não pode fazer um molho de alcaparras?
- Um molho de alcaparras? – Deron parecia desolado. – O vinagre ia afogar o borrego – disse ele, indignado – e, trata-se de borrego muito bom, tenro e gordo.
- Podia ser um molho de alcaparras muito leve, talvez? – sugeriu Soult.
O som das armas aumentou para uma fúria repentina, fazendo estremecer as janelas e entrechocarem-se os pingentes de cristal dos dois candelabros suspensos sobre a comprida mesa, mas tanto o marechal como o cozinheiro ignoraram o barulho.
- O que eu posso fazer – disse Deron, num tom que sugeria que a discussão terminava ali – é cozinhar o borrego em gordura de pato.
-Muito bem! – disse Soult.
-E guarnecê-lo com cebolinhas, presunto e uns cogumelos.
Um oficial com um ar exausto, a suar, a cara vermelha do calor do dia, entrou na sala.
-Meu Marechal!
- Um momento – disse Soult, franzindo o sobrolho, e tornando a olhar para Deron. – Cebolas, presunto e uns cogumelos? – repetiu ele. – Mas talvez pudéssemos juntar umas tiras de toucinho, nosso Sargento? O toucinho vai tão bem com o borrego! […]
[1]
Sabe-se o destino de Soult na sequência das manobras militares que levaram à sua derrota e consequente saída de Portugal . Quanto a Sharpe prosseguirá as suas aventuras…


* Professora, Mestre e Investigadora

[1] Bernard Cornwell, Sharpe e a Campanha de Wellington. Norte de Portugal, Maio, 1809, Planeta Editora, 2004, p.205.