08/08/09

BADALADAS - TEXTO 35 - 7 AGO 2009

A 2ª INVASÃO FRANCESA (3)

ÀS ARMAS, PORTUGUESES, ÀS ARMAS!


JOSÉ NR ERMITÃO


No artigo anterior referi que os Governadores do Reino, perante a possibilidade de uma nova invasão, emitem nos dias 9 e 11 de Dezembro de 1808 duas proclamações declarando o levantamento em armas de toda a nação contra os franceses. Porque terá sido a única vez na nossa história que proclamações destas foram feitas – a nação estava em perigo! – Transcrevo-as parcialmente (grafia actualizada).

Proclamação de 9/12/1808:

“ (...) portugueses, não basta ter uma vez vencido; é necessário para conservar a Liberdade opor uma barreira irresistível aos novos esforços do insaciável Napoleão... (...)
Às armas, portugueses, às armas! A necessidade exige que a massa da nação em-punhe as armas; e todas as armas na mão robusta de um defensor da Pátria são instrumentos decisivos da vitória. O governo vigia sobre a subsistência dos exércitos; e onde não chegam os recursos ordinários das rendas públicas suprem os donativos dos vassalos... (...) A Inglaterra, a generosa Inglaterra... nos vem dar o exemplo que devemos imitar. (...) E nós, mais do que ela interessados na defesa da nossa independência, ficaremos agora numa mole e insensível apatia? (...)
Portugueses, contra um inimigo poderoso e vigilante não deve haver descuido. Se não quereis ser vis escravos, se não quereis ver ultrajada a santa religião, vilipendiada a vossa honra, insultadas as vossas mulheres, trespassados das baionetas os vossos inocentes filhos e aniquilada para sempre a glória de Portugal, corramos todos a afrontar-nos com o inimigo comum, unamos as nossas armas às dos honrados espanhóis e às dos intrépidos ingleses... A Nação que quer ser livre nenhuma força a pode tornar escrava. Uma Nação levantada em massa tem uma força irresistível. (...).”

Proclamação de 11/12/1808
“ (...) que toda a Nação Portuguesa se arme pelo modo que a cada um for possível: que todos os homens, sem excepção de pessoa ou classe, tenham uma espingarda ou pique com ponta de ferro... e (se arme) de todas as demais armas que as suas possibilidades permitirem. Que todas as cidades, vilas e povoações consideráveis se fortifiquem tapando as entradas e ruas principais com dois, três ou mais traveses para que, reunindo-se aos seus habitantes todos os moradores dos lugares, aldeias e casais vizinhos, se defendam ali vigorosamente quando o inimigo se apresente; (...)
Que todas as Câmaras... remetam no espaço de oito dias... (ao) Governador de Armas da respectiva província, uma relação das pessoas que... forem mais capazes para as comandar... que todos os Generais encarregados dos Governos das Armas (regiões militares)... examinem o estado das Companhias, nomeiem para oficiais delas... (quem) julgarem mais dignas e capazes..; (...)
Que todas as Companhias se reúnam nas suas povoações todos os domingos e dias santos para se exercitaram no exercício das armas que tiverem e nas evoluções militares, compreendendo todos os homens de quinze até sessenta anos. (...)”

E termina ordenando a pena de morte a quem se recusar à defesa do país ou auxilie o inimigo, e o arrasamento das povoações que não se defendam ou colaborem com o inimigo.
Como também foi referido no anterior artigo, a situação do exército era péssima. E a correspondência do general Bernardim Freire, tanto revela essa situação como a vontade popular em resistir e em se defender: “De toda a parte se queixam de falta de munições e de meios de defesa... (...) entretanto o que dá muitas esperanças é o muito que os povos parecem animados a defender a nossa causa”; “a cada passo me lastimo do estado em que se acha a nossa tropa, armada... com chuços e espingardas sem baionetas...sem oficiais capazes de as comandar”. Mas “anima muito observar a boa vontade que o povo em geral mostra em se defender e que resiste a todas as privações...”.
Faltam armas, munições e organização, haverá mesmo momentos de anarquia que inutilizam o valor da intervenção popular – mas é com um exército onde o elemento popular (milícias e ordenanças), militarmente enquadrado, supera a tropa regular que se vai organizar a tenaz e vitoriosa resistência contra os invasores.


05/08/09

FRENTE OESTE - TEXTO 24 - 16 JUL 2009




CENA HISTÓRICA COM TOQUE DE AQUILINO

João Flores Cunha

As Guerras Napoleónicas deixaram marcas profundas na sociedade portuguesa. Ao longo do século XIX, e até hoje, elas repercutem-se sem cessar quer na memória popular quer na História e na Literatura. Este fenómeno não é único em Portugal. Não só na Inglaterra e em França, mas também em muitos outros países, há uma imensa biblioteca que se debruça sobre esta época, mostrando expressivamente que ela é a porta da modernidade política, social e cultural europeia.
Registamos hoje um apontamento de um nosso leitor e colaborador, sempre atento e oportuno, que no-lo enviou como exemplo desta realidade.

Aquilino Ribeiro (1885/1963) num dos seus últimos grandes romances, A Casa Grande de Romarigães (1957), uma crónica romanceada através de nove gerações de um morgadio do Alto Minho, dá-nos a conhecer, quer o modo de vida e as relações inter-sociais coevas, quer episódios da nossa história com relevância local. Como não podia deixar de ser, num dos capítulos deste livro são descritos alguns episódios da segunda invasão francesa, dos quais transcrevemos este:
"Soult era, por temperamento ou cálculo, mais moderado que os outros marechais de França que comandaram as tropas de invasão e procurou reprimir as suas feras.
Chegou mesmo, à semelhança das abelhas que batem as asas à porta do apiário, a dar lugar com suas anaçadas atitudes a que um hausto de refrigério aliviasse em seus transes a terra acalcanhada. Dado o seu génio clemente e generoso, o melhor era a gente entregar-lhe corpos e almas. E uma embaixada dos 36 maiores do Distrito, tonsurados e bacharéis, banqueiros e industriais, foi ao Porto dizer-lhe:
- O nosso rei fugiu para o Brasil e é um covarde, um traste, um biltre indignamente ungido de Deus; é provável que nas âmbulas só houvesse azeite rançoso. Ninguém lhe tinha respeito, a mulher fartou-se de lhe sujar as barbas. Arranje-nos outro, Mossiú, que nós aceitamo-lo. Mas arranje-no-lo depressa, que isto de povo sem um reizinho é como cego sem bordão. E aqui para nós: bem empregado pontapé que Mossiú Junot lhe deu na bunda! Agora diga-nos: Quando é que nos arranja um sucessor...?! Nós não podemos passar sem rei, não podemos, venha ele donde vier, de casa ou de fora, feito ao torno ou filho duma saca de maganas. Tome nota, Mossiú...
O duque da Dalmácia viu-lhes os rostos contorcionados pela angústia e o olhar dúbio; ouviu suas palavras pressurosas a jurar pelo pai, pela mãe, por Cristo - e avaliou à justa do que valia aquela delegação de carneiros. Teve dó, teve nojo?! Limitou-se a despedi-los com irónica amenidade e duas palavras de falso agradecimento, em nome do Imperador."


FRENTE OESTE - TEXTO 23 - 9 JUL 2009


DUQUE DE WELLINGTON


Maria Guilhermina Pacheco




Artur Wellesley, nasceu em Dublin a 1 de Maio de 1769, seguiu a carreira militar, tendo frequentado o colégio de Eton, ausentou-se de Inglaterra com a família, recebendo parte da sua formação em França. Em 1786 estava de regresso assentando praça no 75º regimento.
Tem um papel muito activo em combates e acontecimentos, relacionados com a defesa da Grã-Bretanha na política internacional, destacando-se a sua participação na luta contra o bloqueio continental, contabilizando êxitos militares que lhe proporcionarão o desenvolvimento de uma carreira que o celebrará.
Em 1807, seguiu com a expedição que bombardeará Copenhaga, iniciando a reacção Inglesa ao bloqueio, mas será na Península Ibérica que a sua acção contra os franceses vai somar êxitos, ficando ligado à História dos países peninsulares.
Desembarca na Figueira da Foz, em 1808, vencendo as tropas de Junot, em Roliça e Vimeiro, assinando posteriormente a Convenção de Sintra, que pelas facilidades de retirada dadas aos franceses, foi muito contestada, mas Wellesley, sai ilibado, em tribunal militar, desta responsabilidade.
Regressa à Península somando êxitos, em Espanha, a vitória de Talavera (1809) e a de Vitória (1813), em Portugal a do Buçaco (1810), expulsando os franceses com o apoio das linhas defensivas de Torres Vedras.
Mas o auge da sua carreira militar foi conseguido com a derrota imposta às tropas de Napoleão Bonaparte em Waterloo, em 1815, contribuindo para o afastamento definitivo daquele, da cena política europeia.
Ser-lhe-ão atribuídos títulos de Conde de Vimeiro, Marquês de Torres Vedras e Duque de Vitória, o cargo de Marechal e o título de Primeiro Duque de Wellington.
As vitórias militares de Wellington, o “duque de ferro”, nas guerras napoleónicas favoreceram a sua ascensão a altos cargos do governo britânico. Foi nomeado comandante-chefe do exército britânico, 1827, desempenha um papel de destaque no partido conservador, e ocupa o cargo de primeiro-ministro entre 1828-30, ficando o seu governo ligado à publicação da lei de tolerância para com os católicos.
Tanto em vida como depois da sua morte, dedicaram-lhe muitas homenagens e monumentos, servindo de exemplo uma preciosa baixela de prata, desenhada e feita pelos melhores artistas e artífices portugueses, (Domingues Sequeira…) que marca uma época na história da arte portuguesa.
Morreu em 1852 tendo sido sepultado com grande pompa, na Catedral de S. Paulo, em Londres.

05/07/09

FRENTE OESTE - TEXTO 22 - 2 JUL 2009










A Associação de Defesa do Património na comemoração dos 200 anos
da Guerra Peninsular

Foi criada, nos finais do ano passado, uma Comissão Municipal para a Comemoração dos Duzentos Anos das Linhas de Torres Vedras – CM200, na qual se incluem diversas entidades representativas da vida cultural torriense, entre elas a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV). Ao mesmo tempo foi pedida a participação de todas as Associações, Escolas, etc, na elaboração de um Programa Municipal das Comemorações. Fizeram-se várias reuniões para ouvir toda a gente interessada no assunto e aguarda-se, para breve, a divulgação do Programa cujas actividades terão início em Outubro deste ano.

Para esse Programa a ADDPCTV propôs-se disponibilizar um SERVIÇO DE DIVULGAÇÂO HISTÓRICA SOBRE A GUERRA PENINSULAR, cuja concretização tem duas fases complementares. A primeira consiste na publicação de textos de divulgação histórica nos dois semanários torrienses, escritos por pessoas ligadas à História ou interessadas pela História. Esta fase iniciou-se em Janeiro de 2008, no semanário “Badaladas”, com a série “Bicentenário das Invasões Francesas”, onde já foram publicados 33 textos, numa cadência quinzenal, e um Suplemento de 4 páginas. Em Janeiro de 2009 iniciou-se, no semanário “Frente Oeste”, a publicação da série “Imagens da Guerra Peninsular”, em cadência semanal, tendo já sido publicados 22 textos. A divulgação destes textos irá prosseguir até finais de 2010, estando prevista a edição de um livro com uma selecção do que foi publicado. Simultaneamente foi criado um Blogue ( http://linhasdetorres.blogspot.com/ ) onde estão a ser reunidos aqueles textos, bem como outros dados de interesse para o conhecimento da época histórica das invasões francesas.
A segunda fase do Serviço acima referido consiste na realização, entre Outubro de 2009 e Outubro de 2010, de palestras sobre a Guerra Peninsular, nos locais que as solicitem: Juntas de Freguesia, Associações Recreativas, Culturais e Desportivas, Lares, Centros de Dia, Escolas…
A ADDPCTV está a realizar contactos com estas entidades, no sentido de as sensibilizar para estas realizações, esperando contribuir, assim, para o aprofundamento da memória colectiva, base necessária da nossa identidade cultural.

Contactos da ADDPCTV: addpctvedras@gmail.com

Apartado 50, 2564-909 TORRES VEDRAS

Av. Tenente Valadim, 17, 2º 2560-275 TORRES VEDRAS

BADALADAS - TEXTO 34 - 10 JUL 2009




A 2ª INVASÃO FRANCESA (2)

TUDO VAI SER DIFERENTE



JOSÉ NR ERMITÃO

Depois da derrota de Junot, da saída dos franceses de Portugal e da restauração da Regência portuguesa (18 de Setembro de 1808), o governo britânico deliberou apoiar abertamente a revolta espanhola. Assim, em meados de Outubro, a maior parte do exército britânico desembarcado em Portugal foi deslocado para Espanha, sob o comando do general Moore, movendo-se em direcção a Salamanca. Ao mesmo tempo, em finais do mesmo mês, tropas inglesas desembarcam na Corunha para reforçar aquele exército.
Em Salamanca, Moore toma conhecimento de que Napoleão conquistou Madrid, constata sérias dificuldades de entendimento com os exércitos espanhóis e decide retroceder para a Galiza. Em fins de Dezembro, Napoleão inicia a perseguição a Moore, perseguição que abandona a 1 de Janeiro de 1809 (para retornar a França) entregando o co-mando da expedição ao general Soult. Este prossegue no encalço dos ingleses que, apesar de esgotados, enfrentam os franceses próximo da cidade Corunha numa batalha que possibilita que o grosso do exército inglês embarque e se ponha a salvo.
Este movimento permite aos franceses a conquista parcial da Galiza; e é depois de instalado na cidade da Corunha que Soult recebe, a 28 de Janeiro de 1809, as instruções para invadir Portugal.


AS MUDANÇAS EM PORTUGAL


Exceptuando o mau tempo e os maus caminhos, a 1ª invasão francesa constituiu um passeio militar: o país estava política e moralmente desarmado devido à desorientação da Coroa e não ofereceu resistência militar aos invasores; pelo contrário, D. João or-denou que fossem recebidos e tratados como amigos. Só a partir de Junho de 1808 é que os portugueses se revoltaram e iniciaram acções de combate contra os franceses.
Na 2ª invasão tudo vai ser diferente: do primeiro ao último dia os invasores en-frentam uma feroz resistência que os desgasta, os desmoraliza e os derrota mesmo an-tes do auxílio britânico.
Os Governadores do Reino, depois de saberem da presença de Napoleão em Ma-drid e da retirada de Moore, tomam consciência de que Portugal seria a próxima presa do imperador francês e deliberam a reorganização militar do país. A 9 e 11 de Dezembro emitem duas proclamações declarando o levantamento em armas de toda a nação contra os franceses e tomam um conjunto de medidas para a reorganização do exército.
O estado do exército era lamentável: Junot tinha-o desorganizado e desarmado e os melhores quadros estavam ausentes do país. Assim, o governo apela a que os oficiais e soldados dos regimentos dissolvidos pelos franceses se reúnam de novo em locais determinados; criam-se unidades de infantaria e cavalaria; criam-se corpos de voluntários em Lisboa, Porto e Coimbra; definem-se cinco regiões militares e nomeiam-se generais ou brigadeiros para o seu comando – pelo seu papel na resistência contra o exército francês de Soult são de referir a região militar do Porto e Minho, sob o comando do general Bernardim Freire, e a região militar de Trás-os-Montes, comandada pelo brigadeiro Francisco da Silveira; e são restabelecidos os regimentos de milícias e de ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas, de âmbito regional e local, mas de importância absoluta na ausência de um exército regular devidamente disciplinado, armado e treinado.
Por último, consciente das insuficiências do exército e da necessidade de as ultrapassar, o governo solicita à Inglaterra o envio de um general competente para comandar o exército português; Londres envia o tenente-coronel William Beresford, que é nomeado comandante do exército em meados de Março, quando a 2ª invasão está no início. Sem perdas de tempo, este irá reorganizar o exército português transformando-o numa má-quina bélica cuja eficácia será plenamente demonstrada contra Massena na 3ª invasão.
Por isso, quando Napoleão, nas instruções a Junot, considera que é “pouco presumível” que ele encontre “grandes obstáculos” na “bela expedição” de que o encarrega – a encarniçada resistência nacional vai demonstrar-lhe quanto estava errado: haverá mesmo grandes obstáculos e tantos que se traduzirão em mais uma derrota do seu im-perial exército.

BADALADAS - TEXTO 33 - 26 JUN 2009






A 2ª INVASÃO FRANCESA (1)

AS INSTRUÇÕES E A REALIDADE


JOSÉ NR ERMITÃO


No dia 28 de Janeiro de 1809, alguns dias após a ocupação da cidade da Coru-nha, na Galiza, o general Soult recebe instruções escritas de Napoleão para invadir Portugal pelo norte do país, tomar a cidade do Porto e marchar sobre Lisboa. Neste movimento de conquista, seria apoiado pelo general Lapisse, estacio¬nado em Salamanca, e pelo general Victor, posicionado em Mérida.
Lapisse deveria dirigir-se para Abrantes, depois do Porto ter sido tomado, e Victor deveria atravessar o Alentejo “em apoio do vosso movimento... (para Lisboa) caso en-contreis grandes obstáculos para a sua conquista, possibilidade pouco presumível”. As instruções referem datas – “Sendo hoje 21 de Janeiro, não podereis atingir o Porto antes de 5 de Fevereiro, ou Lis¬boa antes de 16” – e terminam com uma frase plena de optimismo: “O Imperador tem uma confiança ilimitada na vossa competência para a bela expedição de que vos encar¬rega”.
Soult dispunha de 24 000 homens, Lapisse de 8 000, e Victor de 22 000 – num total de 54 000 homens, distribuídos por infantaria (maioritária), cavalaria, artilharia e logística. Por ausência de comunicação e por dificuldades militares ocorridas em Espanha, os generais Lapisse e Victor nunca chegarão a invadir o país. E Soult, que tomou o Porto, encontrou dificuldades de tal modo insuperáveis que permaneceu em Portugal unicamente durante dois meses e uma semana: cruzou a fronteira a 10 de Março e, derrotado e em fuga apressada, abandonou o país no dia 17 de Maio de 1809.


MUDANÇAS EM ESPANHA


Ao insistir de novo na conquista de Portugal, Napoleão ou ignorava as mudanças ocorridas no país ou nada aprendeu com o fracasso da 1ª invasão, nem com o que se estava a passar em Espanha. A 1ª invasão ocorreu num quadro de amizade entre Napoleão e a Coroa espanhola, que colaborou com Junot na ocupação militar do país; no pe-ríodo da 2ª invasão toda a Espanha estava em estado de revolta contra os franceses.
De finais de 1807 a Fevereiro de 1808, Napoleão, embora continuando a protestar amizade com a Espanha, foi invadindo-a lentamente com 100 000 homens e ordenou a conquista das cidades de Pamplona e Barcelona. Quando a Corte espanhola percebeu os objectivos dos franceses era já demasiado tarde; uma facção aristocrática patriótica revoltou-se, obrigou o rei Carlos IV a abdicar e o seu filho, Fernando VII, tomou o poder. Madrid foi entretanto ocupada pelo general francês Murat e Napoleão, que não reconheceu Fernando VII como rei, chamou Carlos IV e o filho a Baiona, em França, e de forma sinuosa acabou por fazê-los abdicar a ambos em si próprio (30 de Abril de 1808). Para rei de Espanha, Napoleão resolveu nomear o seu irmão José.
Perante a ocupação francesa, toda a Espanha se revoltou a partir de Maio e Junho de 1808, formaram-se juntas governativas provinciais, ergueram-se exércitos patrióticos que enfrentaram os exércitos franceses e um deles, na batalha de Bailen (19-21 de Ju-lho), infligiu uma derrota devastadora ao exército francês.
Perante esta derrota impensável, os franceses abandonam em parte a Espanha; mas Napoleão resolve dirigir pessoalmente a campanha militar espanhola: entra em Es-panha a 3 de Novembro de 1808 com 200 000 soldados experientes e declara os seus objectivos: “Estou aqui com os soldados que venceram em Austerlitz, em Jena, em Eylau. Quem lhes vai resistir? Certamente que não vão ser as maltrapilhas tropas espanholas que nem combater sabem. Conquistarei a Espanha em dois meses e adquirirei sobre ela direitos como conquistador.” Derrota de facto os exércitos espanhóis, entra em Madrid a 4 de Dezembro, reafirma José como rei de Espanha e ameaça com repressão violenta quem se opuser os seu domínio.
Mas os espanhóis são resistentes pertinazes, são auxiliados pela Inglaterra, reerguem novos exércitos e aplicam um novo e eficaz modo de combate: a guerrilha. As maltrapilhas tropas espanholas enfrentam os exércitos franceses, derrotam-nos, desgastam-nos, desmoralizam-nos – e tanto que Napoleão reconhecerá anos mais tarde que “essa maldita guerra de Espanha... perdeu-me”. De facto, foi na Península Ibérica que se iniciou o seu fim.

22/06/09

FRENTE OESTE - Texto 21 - 25 JUNHO 2009






UM TÚMULO NO MEIO DA PAISAGEM
J. Moedas Duarte (texto e fotos)

Quem visitar os campos da Roliça – concelho de Óbidos – onde, em 17 de Agosto de 1808, se deu a batalha entre os aliados anglo-lusos e os franceses, encontrará um monumento tumular no meio dos pomares de macieiras, tão característicos da região. Impressionante monumento! Não pela grandeza ou adornos funerários, que não tem, mas pela localização solitária e o poder evocativo da sua simplicidade. Ali repousam os restos mortais do coronel Lake, comandante do 29º regimento inglês.
Recordemos: naquele 17 de Agosto o general francês Delaborde - que esperava reforços do general Loison - dispusera as suas tropas nos campos da Roliça, para fazer frente ao exército inglês de Sir Arthur Wellesley, no qual se haviam integrado algumas forças portuguesas. Loison tardava e as tropas aliadas, aproveitando a superioridade numérica, desencadearam o ataque. Delaborde faz uma retirada estratégica para os altos da Columbeira, uma formidável fortaleza natural formada pelos afloramentos rochosos que dominam o Vale do Roto, ainda hoje um lugar de paisagem magnífica. Os ingleses têm agora de desalojar daqueles picos (Alto do Picoto…) o entrincheirado inimigo, mas o êxito só é possível com uma manobra de envolvimento, “em tenaz”. Aos flanqueadores pede-se rapidez na manobra, enquanto os do centro progridem lentamente pelas ravinas acima.
É aqui que o impaciente coronel Lake, no centro do dispositivo inglês, decide um rápido ataque frontal à cumeada onde os franceses dispõem de uma invejável posição defensiva. Mais do que valentia, é temeridade que ele demonstra. Rodeados de inimigos, os homens do 29º defendem-se como leões mas são obrigados a recuar. No terreno jazem 50 mortos, entre os quais o seu comandante Lake, que ali serão inumados após a batalha.
Noventa anos depois destes acontecimentos, o 29º regimento pára em Portugal, na viagem de regresso a Inglaterra depois da Guerra dos Bóeres na África do Sul. Fiel à tradição, o regimento visita a Roliça para homenagear os seus antepassados mortos. Fazem-se escavações. Pelos despojos encontrados, são reconhecidos os restos mortais do lendário coronel Lake que emocionadamente depositam no singelo túmulo que ali constroem.
No silêncio da paisagem este monumento, mais do que lembrar um nome, perpetua a memória de tantos soldados desconhecidos que aqui se bateram na Guerra Peninsular.


15/06/09

FRENTE OESTE - Texto 20 - 18 JUNHO 2009





[ Batalha do Vimeiro. Água-forte de Domingo Escoppetta, Biblioteca Nacional Digital de Portugal]





BATALHA DO VIMEIRO


Pedro Fiéis



Após a vitória na Roliça, em 17 DE Agosto de 1808, Sir Arthur Wellesley espera reforços vindos de Inglaterra e procura local apropriado para o seu desembarque. Opta por Porto Novo, na foz do Alcabrichel e prepara um dispositivo militar de protecção.
Junot, aquartelado em Torres Vedras, ao tomar conhecimento do desembarque, decide em conselho de guerra lançar as suas forças disponíveis – cerca de 14 000 homens – num ataque de surpresa. A estrada escolhida, por Vale de Canas e Vila Facaia, está em péssimas condições, dificultando a marcha. A ponte de madeira em Paio Correia mais a dificulta e as patrulhas inglesas logo se dão conta desta imensa movimentação. Avisado, o general Wellesley modifica o seu dispositivo, reforçando a colina do Vimeiro e deslocando forças para o Alto da Ventosa.
As tropas de Junot estavam bastante cansadas e desgastadas por combates recentes, como o da Roliça, dias antes. Mesmo assim, ele manda avançar os generais Travot, Charlot e Tomières que encabeçam o ataque de três colunas em direcção à colina do Vimeiro. Solignac avançaria por Toledo em direcção à Ventosa, numa tentativa de contornar o dispositivo inglês e Brennier iria mais ainda pela ala direita seguindo pela estrada da Lourinhã até virar para Pregança.
Á sua frente, dispersa no terreno, estava a infantaria ligeira inglesa com seus atiradores, que os franceses não conseguiram expulsar das suas posições. Só com a chegada das colunas é que retiraram. De súbito, no topo da colina surgiram as linhas inglesas que a uma distância de 20 passos dispararam um fogo mortal, coadjuvado pela chuva de balas proporcionada pelas granadas Shrapnel, acabando com este ataque em pouco mais de meia hora.
Desorganizadas, as colunas francesas dispersam-se em fuga. Junot ordena, então, o avanço de metade da reserva de granadeiros, as suas melhores unidades. Estes sobem a encosta, mas são recebidos por um fogo mortal dos ingleses, formados em linha. Com perdas enormes, os franceses retiram.
A outra metade da reserva de granadeiros franceses ainda organiza um contra-ataque, chegando ao largo da igreja matriz do Vimeiro. Mas aí são surpreendidos pelas tropas de reserva inglesas e trava-se intenso combate, com a derrota francesa.
Mais longe, na Ventosa, o general francês Solignac é também derrotado, ele próprio saindo ferido da refrega.
Todas as forças francesas participantes na Batalha do Vimeiro, derrotadas, estavam agora em fuga desorganizada de volta a Torres Vedras. Isto aconteceu em 21 de Agosto de 1808.


FRENTE OESTE - Texto 19 - 4 JUNHO 2009



FIGURAS HISTÓRICAS


D. CARLOTA JOAQUINA

Maria Guilhermina Pacheco



Carlota Joaquina de Bourbon e Bragança nasceu no Palácio de Aranjuez em Madrid, a 25 de Abril de 1775. Era filha do futuro rei Carlos IV de Espanha e de Maria Luísa Teresa de Parma.
Aos 10 anos de idade casou por procuração com o Infante português D. João, filho segundo da rainha D. Maria I, tendo vindo viver para a Corte Portuguesa.
Teve que se submeter aos chamados “ exames públicos”, e durante três dias, perante a família real e uma parte da Corte, respondeu a perguntas sobre religião, história, geografia, latim, gramática e línguas - Portuguesa, Espanhola e Francesa - tendo ficado registado na Gazeta de Lisboa (4-10-1785), que ”Sereníssima Senhora” tudo satisfez, e salienta ser difícil de “expressar a admiração que deve causar uma instrução tão vasta em uma idade tão tenra.”
O casamento só se veio a concretizar alguns anos depois, mas o relacionamento do casal não foi bem sucedido, nem a nível pessoal nem político, no entanto, a princesa seria mãe de nove filhos, como era hábito dizer na altura.
Entretanto, Carlota Joaquina adquire a Quinta do Ramalhão, à entrada de Sintra, onde viverá, separada do marido.
Entre os anos de 1805 e 1806, a relação esfriou mais, tendo para isso contribuído a chamada “Conspiração de Mafra”, cuja autoria é atribuída à princesa. A causa relaciona-se com a atribuição do título de regente a D. João, devido à doença de D. Maria, não tendo convidado Carlota para integrar o Conselho de Regência – esta não gostou.
A necessidade de viajar para o Brasil, devido à invasão das tropas francesas, no final de Novembro de 1807, veio agudizar as relações do casal.
No Brasil, a sua estadia, como toda a sua vida, apresenta versões diferentes, mas há uma característica comum, a sua tendência para a conspiração. Aqui, será para se tornar regente nas colónias espanholas, na América.
No entanto, não se concretizou, e Espanha veio a perder neste período a maior parte das suas colónias. Também se assumiu como pretendente ao trono de Espanha, por direito, era a primogénita, mas o seu pai abdicara a favor de seu irmão Fernando, que sobe ao trono como Fernando VII.
A vida do casal real, no Brasil desenvolve-se em espaços diferentes, Carlota habitará na Chácara de Botafogo e João em São Cristóvão.
Chegada a Lisboa, novamente a sua faceta politica e conspiratória continua, tornando-se uma das grandes impulsionadoras da contra-revolução, recusando-se a jurar a Constituição de 1822, tendo sofrido por isso uma condenação, ficando, no entanto, autorizada a viver no Ramalhão. Continua a conspirar contra o marido e os liberais, participando na “Vila-francada” e na “Abrilada”, golpes fracassados, mas que abriram o caminho para o torno ao seu filho D. Miguel.
Carlota Joaquina morreu no dia 7 de Janeiro de 1830.

“Em uma retrospectiva de sua vida, Carlota Joaquina poderia chegar à conclusão de que seu temperamento independente, sua personalidade autoritária, sua negação à submissão foram seus maiores obstáculos para vencer no mundo dos homens.”(AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de, Carlota Joaquina na Corte do Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.)

BADALADAS TEXTO 32 - 12 JUNHO 2009

1809: SEGUNDA INVASÃO FRANCESA

Cronologia dos principais acontecimentos

Janeiro, 28 – O marechal francês Soult, na cidade galega da Corunha, recebe instruções escritas de Napoleão para que marche pelo Porto sobre Lisboa, ao longo da faixa costeira.

Fevereiro, 13 – O exército de Soult tenta atravessar o rio Minho em Vila Nova de Cerveira.

Fevereiro, 16 - O exército francês tenta nova travessia do Minho em Caminha, na foz do rio.

Março, 7 - O general Wellesley, futuro duque de Wellington, aconselha o governo britânico a defender Portugal, demonstrando a maneira de o realizar.

Março, 8 - O general britânico Beresford é nomeado comandante em chefe do Exército português com o posto de Marechal do Exército.

Março, 10 - O corpo de exército de Soult, tendo subido o rio Minho desde a foz até Orense e dirigindo-se depois para a fronteira portuguesa, entra em Portugal pela veiga de Chaves. Começa assim a 2.ª Invasão Francesa.

Março, 12 - Soult conquista Chaves, dirigindo-se para o Porto, por Braga.

Março, 15 - O marechal Beresford assume o comando do exército português.

Março, 16 - A guarda avançada do corpo de exército de Soult, comandada pelo general Franceschi, derrota as forças portuguesas em Salamonde.

Março, 17 - O general Bernardim Freire de Andrade é massacrado perto de Braga, por populares que o acusavam de traição.

Março, 18 a 20 - Soult vence as forças portuguesas que defendiam Braga em Carvalho d'Este.

Março, 21 - O brigadeiro Silveira, comandante da divisão que defendia Trás-os-Montes, reocupa Chaves.

Março, 25 - O brigadeiro Silveira conquista o forte de S. Francisco, de Chaves, aprisionando a guarnição francesa.

Março, 27 a 29 - O Porto é atacado, conquistado e saqueado, pelo exército francês de Soult. Desastre da Ponte das Barcas, no dia 29.

Março, 31 - Uma brigada de cavalaria do exército de Soult, comandada pelo general Caulaincourt, ocupa Penafiel, dirigindo-se para a ponte de Canaveses que tenta atravessar, sendo rechaçado por forças militares portuguesas.

Abril, 2 - Wellesley é nomeado comandante-em-chefe do exército britânico na Península.

Abril, 5 - O general José António Botelho de Sousa, comandante das forças portuguesas no Minho, reocupa Braga.

Abril, 9 - O general Silveira instala as suas forças nas proximidades de Amarante.
- O marechal Beresford chega a Tomar, onde toma o comando das forças operacionais portuguesas concentradas nesta cidade.

Abril, 13 - Silveira ataca e obriga a retirar a divisão Loison, reocupando a cidade de Penafiel. Retirar-se-á por sua vez no dia 15.

Abril, 18 / Maio 2 - As forças portuguesas do general Silveira defendem a ponte de Amarante do ataque de uma força francesa comandada pelo general Loison.

Abril, 21 - Assinatura da Convenção entre Portugal e a Grã-Bretanha, sobre um empréstimo de 6.000.000 libras esterlinas.

Abril, 27 - Wellesley toma o comando do exército britânico em Portugal, substituindo sir John Craddock.

Maio, 2 - O exército britânico, comandado pelo general Wellesley, incorporando algumas unidades portuguesas, chega a Coimbra.
- Forças do exército francês comandadas pelo general Delaborde atacam a Ponte de Amarante e obrigam as forças do brigadeiro Silveira a retirar. A defesa da Ponte de Amarante durou de 18 de Abril a 2 de Maio.

Maio, 4 - O general Wellington é nomeado marechal general do exército português, por Carta Régia.

Maio, 8 - O exército português comandado por Beresford chega a Lamego, vindo de Tomar por Coimbra e Viseu.
- As forças comandadas pelo general Silveira ocupam Vila Real, obrigando a cavalaria francesa de Caulaincourt a retirar.

Maio, 12 - As forças de Silveira ataca a divisão Loison na serra do Marão, obrigando-a a retirar para Amarante.
- Wellington bate Soult no Porto, obrigando-o a retirar para Espanha por Trás-os-Montes.

Maio, 13 -- Loison retira de Amarante, impossibilitando que o exército francês de Soult pudesse vir a retirar de Portugal pela Beira.
- O marechal Beresford chega a Amarante. O exército português de operações é reorganizado em 3 brigadas de Infantaria de Linha, 1 de Milícias e 1 de Caçadores. A brigada de Silveira ocupa Penafiel.

Maio, 18 - O exército francês de Soult abandona Portugal por Montalegre. A 2.ª Invasão Francesa termina.

06/06/09

A GUERRA PENINSULAR


Trata-se das Actas do Congresso TURRES VETERAS XI, realizado em Torres Vedras em 2008 e publicadas em 2009. Comunicações: (clicar para aumentar )

















04/06/09

BADALADAS - Texto 31 - 29 MAIO 2009

A “PROTECÇÃO BRITÂNICA”


DUAS CARTAS DE LORD WELLINGTON


José NR Ermitão


As grandes potências não têm amizades, têm interesses; e quando invocam amizades ou alianças, fazem-no sempre em seu favor e pagando-se bem. Foi o que aconteceu entre a Grã-Bretanha e Portugal no século XIX. A Inglaterra protegeu-nos, é um facto, da ameaça napoleónica – protecção reconhecida “pela confiança que o príncipe regente tem posto... (na) cooperação do governo do reino e do povo daquele país”, segundo o discurso da Coroa ao Parlamento inglês em Janeiro de 1810.
Mas esta protecção teve custos elevadíssimos: a abertura do comércio brasileiro à Inglaterra e a subsequente ruína do comércio português, a utilização do país como testa de ponte pelos britânicos na luta contra Napoleão, a participação do representante inglês na regência do país, a submissão desta e do governo do Rio aos ditames ingleses e o comportamento violento dos militares britânicos.
Escreveu Napier que “Este reino foi por então reduzido à condição de estado feudatário (dependente)”. E acrescentava Luz Soriano que Portugal “sofria por então todos os males inerentes a uma semelhante situação, porque depois de roubado e devastado pelos franceses, igualmente o estava sendo pelos ingleses”.
Em artigo anterior já se referiu que os ingleses se comportavam no nosso país co-mo se tratasse de terra conquistada: eram constantes as queixas sobre os seus roubos. Mas as violências também eram cometidas por oficiais: é conhecido o caso de um coronel, em Monforte, que mantinha um cárcere privado e que, à revelia da justiça portuguesa, mandou chicotear publicamente dois paisanos, amarrados a quatro estacas...

Preocupado com o comportamento violento dos militares ingleses, escreveu Wellington em 17/6/1809 a Lord Castlereagh, membro do governo inglês:
«É impossível pintar-vos os excessos e violências das tropas (britânicas). (...) jamais elas têm estado fora da vigilância dos comandantes dos seus regimentos... a fim de impedir as violências cometidas. Pois apesar das precauções por mim tomadas... não chega postilhão nem correio, nem mesmo um só oficial vindo da retaguarda do exército, que não traga queixas contra as violências cometidas pelos soldados... (...) a nenhum destacamento permito que marche sem ser comandado por um oficial, e todavia não há violências, seja de que espécie for, que não tenha experimentado este povo, que nos recebeu como amigos, da parte dos nossos soldados, apesar destes não terem sofrido em qualquer momento a mais ligeira precisão ou privação.»
Já antes, a 31 de Maio de 1809, numa carta ao representante do seu país em Lisboa, reconhecia que os militares ingleses “roubavam terrivelmente o país que tinham vindo socorrer”, roubando não para sobreviver mas para fazer dinheiro; e pedia que os governadores do reino emitissem uma ordem proibindo o povo de comprar o quer que fosse aos militares ingleses porque certamente se tratava de produtos roubados.

E a propósito de facto de o governo britânico estar a apresentar aos espanhóis as mesmas exigências comerciais feitas antes ao governo português, Wellington, em carta a seu irmão, datada de 10/08/1810, analisava a ruinosa situação a que o seu país tinha conduzido Portugal e interrogava-se sobre a justiça do facto:
“Espero que a regência (espanhola) tenha a firmeza de resistir à (nossa) exigência de comércio livre com as suas colónias... Nós não temos... direito... da nossa parte em exigir isso. A Grã-Bretanha arruinou Portugal com o seu comércio livre com o Brasil: não só Portugal perdeu rendimentos alfandegários, como a fortuna de numerosas pessoas que viviam desse comércio ficou arruinada... Portugal estaria hoje numa situação muito diferente como aliado se o nosso comércio com o Brasil fosse feito como antes, através de Lisboa; e eu pergunto se é justo destruir o poder e rendimentos, em suma, arruinar o nosso aliado, só para pôr nos bolsos dos nossos comerciantes o dinheiro que antes ia para o seu tesouro e que, agora, seria empregado na manutenção da campanha militar contra o nosso comum inimigo”.
Não é preciso acrescentar nem mais uma palavra ao que Wellington escreveu...



FRENTE OESTE - Texto 18 - 4 JUNHO 2009

Foi nestes campos da Roliça, no concelho de Óbidos, que se desencadearam as operações militares entre o exército francês e as forças anglo-lusas.








A BATALHA DA ROLIÇA

Pedro Fiéis

Junot está em Lisboa quando recebe a notícia do desembarque dos ingleses em Lavos (Figueira da Foz) entre 1 e 8 de Agosto de 1808, os quais marchavam já rapidamente em direcção a Lisboa, sob o comando do General Wellesley. Junot decide fazer avançar a sua melhor divisão militar, sob o comando do Gen. Delaborde, com a missão de observar os movimentos do inimigo e se possível de contê-lo. Delaborde avança até Alcobaça onde lhe mostram o campo de batalha de Aljubarrota, julgado por ele como ineficaz para a guerra do século XIX, por isso retrocede para uma zona que já observara e que os mapas recolhidos pelo coronel Vincent lhe diziam ser perfeita para o que tinha em mente: os campos da Roliça, perto de Óbidos. Neste meio-termo as nuvens de pó levantadas pelos seus homens eram claramente visíveis para os ingleses, que apenas algumas horas depois entraram em Alcobaça. A presença francesa só confirmava os relatos que o general Wellesley já havia recebido e por isso resolve tomar precauções, enviando à frente do seu exército os regimentos de infantaria ligeira, em missão de observação.
No dia 15 de Agosto de 1808, estes homens encontram pela primeira vez os franceses em Brilos, mas só dois dias depois, na madrugada do dia 17, é que do alto do Moinho do Facho, em Óbidos, Wellesley observa uma linha francesa disposta numa colina. Rapidamente organiza um plano de batalha que consistia numa manobra em tenaz: pela direita avançaria o coronel Trant com cerca de 2.000 soldados portugueses, entre infantaria e cavalaria; pela direita os generais Ferguson e Bowes com duas brigadas e um reforço de artilharia; os restantes homens (3 brigadas) seguiam ao centro sob o comando do próprio Wellesley.
Não era aqui que Delaborde queria resistir, pois estava em inferioridade numérica e esperava reforços do General Loison. Por isso recua até aos Altos da Columbeira, uma verdadeira fortaleza natural. Wellesley tem de reorganizar o ataque inglês, adaptando-o ao terreno. O coronel George Lake, homem desejoso de notoriedade, apesar das determinações do comando, colocou todos os seus homens em linha e avançou por uma das ravinas acima. Ainda chegaram bem perto do topo, só um rápido contra ataque francês, comandado pelo general Brennier, pôs cobro a este avanço, do qual resultaram cerca de 50 mortos entre os quais se encontrava o próprio Lake. .
Perante isto, Wellesley ordenou um avanço geral. Delaborde, sem o esperado reforço de Loison, e perante a iminência de ser cercado, ordena a retirada. Depois de algumas escaramuças, é a debandada geral. Wellesley, prudente como sempre, prefere reorganizar as suas forças e só alguns dias depois voltará a defrontar os franceses, no Vimeiro.

FRENTE OESTE - Texto17 - 28 MAIO 2009





LAURA PERMON, A MULHER DO GENERAL JUNOT

J. Moedas Duarte



No ano 1800 Laura Permon, com dezasseis anos, casou com Andoche Junot. Dele enviuvou em 1813. Sobreviveu 25 anos, vindo a morrer em Paris, muito pobre. Porque é que o seu nome é recordado sempre que se fala na Guerra Peninsular?
Com a ascensão de Napoleão ao título de Imperador de França, a velha nobreza do Antigo Regime afundou-se e surgiu uma casta social formada pelos novos funcionários superiores do Estado e por centenas de oficiais militares do Grande Exército e respectivas famílias. Junot foi um exemplo brilhante deste novo tipo de militar. Laura Permon partilhou a sua ascensão, frequentou os salões do poder, acompanhou o marido em muitas das suas missões e de tudo o que viveu e conheceu deixou testemunho escrito. As suas memórias fazem parte de uma obra extensa – cerca de 50 volumes à data da morte, em 1838 – e são de leitura obrigatória para quem queira conhecer a vida mundana da alta sociedade desta época.
Em Março de 1805 Junot foi colocado em Lisboa como embaixador de França em Portugal e sua mulher acompanhou-o. Desta estada deixou ela pormenorizado testemunho em texto disponível em português numa edição recente (2008) da Biblioteca Nacional, com apresentação e notas de José-Augusto França: “Recordações de uma Estada em Portugal, 1805-1806”, que Laura Permon assinou como “Duquesa de Abrantes”, usando o título nobiliárquico atribuído por Napoleão a seu marido.
Como todas as memórias, o conteúdo deste escrito não tem o rigor e a credibilidade de um ensaio de História e deve ser lido com precaução e reserva, cruzando os dados que nos fornece com outros de proveniência diversa.
Ainda assim, o quadro que traçou sobre o Portugal que ela conheceu revela uma atenta e informada observadora, que em muitos aspectos corrobora as descrições de outros estrangeiros que aqui viveram por esta época. Se não poupa adjectivos elogiosos às belezas naturais e à excelência do clima, aplica registo bem contrário quando fala das pessoas e dos costumes. A Corte portuguesa, com sua pelintrice e fatuidade, sai muito maltratada da pena da Duquesa, que não resiste a compará-la com a alta sociedade europeia que ela já conhecia.

“Viajei muito, percorri o Norte e o Sul da Europa, e jamais uma cidade tão estranha, mas tão notável e também tão bonita como Lisboa, se deparou a meus olhos; jamais um céu tão lindo lançou a sua luz sobre ma cidade rodeada por uma natureza que a cumula de maravilhas; mas também jamais, em parte alguma, vi antas dádivas de Deus desprezadas e sacrificadas.”
(…)
“Estas damas do palácio (…) estavam sempre, tal como as vi, sentadas no chão em volta da Princesa [D. Carlota Joaquina] com a qual conversavam, cantavam, comiam, ou então prestavam mutuamente serviço, matando os pequenos insectos que alimentavam na própria cabeça. Mais uma vez não é um conto, EU VI!”

FRENTE OESTE - Texto16 - 21 MAIO 2009





O GENERAL JUNOT



J. Moedas Duarte



Este foi o homem de Napoleão que mais contacto teve com Portugal durante a guerra peninsular: embaixador de França no nosso país em 1805, comandante da 1ª Invasão Francesa em 1807 e comandante do 8º Corpo do Exército de Portugal na 3ª Invasão, sob o Comandante-em-chefe Massena.
Filho de um lavrador da Borgonha, Andoche Junot era estudante de Direito quando se alistou como soldado granadeiro num batalhão de voluntários da Côte d’Or , em 1791. Tinha 20 anos. Fogoso e temerário, - os colegas alcunharam-no de “Junot la Tampête” ( A tempestade) – em 1792 já era Sargento. Participou no cerco de Toulon e de tal modo que Napoleão reparou nele e fê-lo seu secretário e, pouco depois, seu ajudante-de-campo com o posto de Capitão. Ao lado de Napoleão, fez toda a campanha da Itália, onde foi gravemente ferido. Em 1798 foi promovido a General de Brigada durante a expedição ao Egipto. Governador de Paris em 1800, é nomeado General de Divisão em 1804 e Coronel-General dos Hussardos, uma das maiores dignidades do exército napoleónico.
A sua nomeação para Embaixador de França em Portugal, em 1805, parece ter sido uma compensação por não chegar a Marechal, posto supremo da carreira militar. Pouco tempo aqui ficou pois ainda neste ano acompanha o Imperador na campanha da Alemanha, onde participou na batalha de Austerlitz. Em 1806 passa alguns meses como Governador-Geral de Parma e é, de novo, nomeado Governador Militar de Paris.
Quando Napoleão decide invadir Portugal em consequência do Bloqueio Continental, é a Junot que confia o comando do Corpo de Observação da Gironda, um exército de cerca de 26 000 homens que atravessa a Espanha e entra no nosso território em 19 de Novembro de 1807. Em 30 de Novembro chega a Lisboa à frente de um pequeno destacamento pois o grosso do seu exército ficara para trás, atolado por tempestades diluvianas em caminhos intransitáveis. Não consegue aprisionar a família real portuguesa, que se escapara um dia antes para o Brasil, mas ocupa como vencedor um país decapitado das suas chefias naturais. Em 1808 é feito Duque de Abrantes. As revoltas populares a partir de Maio de 1808 prenunciam as derrotas militares na Roliça e no Vimeiro, em Agosto desse ano. Pela Convenção de Sintra abandona Portugal. Em 1809 é comandante do Exército de Reserva da Alemanha. Em 1810 entra de novo em Portugal durante a 3ª Invasão, à frente do 8 º Corpo do exército comandado por Massena. Em 1812 participa na invasão da Rússia como Comandante do 2º Corpo do Grande Exército francês. Começa aqui a sua decadência. Ainda é nomeado Governador de Veneza mas notam-se já os sinais de loucura que acabarão por levá-lo ao suicídio, em 1813. Tinha 42 anos.

FRENTE OESTE - Texto 15 - 14 MAIO 2009






MOINHO DE BRILOS: O PRIMEIRO COMBATE


Pedro Fiéis


O primeiro confronto entre ingleses e franceses no que ficou conhecido como Guerra Peninsular, ocorre em território português, mas a sua localização exacta esteve desde sempre envolta em algum mistério, decorrente do nome dado à escaramuça – “Brilos”.
Surgiram em dois séculos de História as mais variadas teorias sobre o local, umas mais fundamentadas do que outras, tendo a maioria apenas um aspecto em comum: a existência de um moinho. Recapitule-se entretanto o desenrolar dos acontecimentos, para uma melhor compreensão do mesmo.
No dia 14 de Agosto de 1808, o exército anglo-português chega a Alcobaça onde pernoita. No dia seguinte, o general Wellesley, sabendo que os franceses se encontravam na zona das Caldas da Rainha, ordenou o avanço de duas companhias do 60º regimento e outras duas do 95º, unidades de atiradores de elite, que deveriam reconhecer o terreno.
Por seu turno o general Delaborde que comandava a primeira divisão do Armée du Portugal, enviada ao seu encontro, havia destacado seis companhias para um moinho numa elevação perto de um curso de água, com o objectivo de vigiar a estrada que ligava Caldas a Óbidos.
Os ingleses surpreendem o inimigo, forçando-o a recuar e iniciam uma perseguição que só termina junto às muralhas de Óbidos, quando outras companhias francesas se juntam à refrega. Há um intenso fogo cruzado, que ali causa 27 mortos e feridos entre os ingleses, incluindo 2 oficiais. Só com a chegada da brigada do general Spencer os franceses abandonam a sua posição, terminando por esse dia os combates.
Para mais detalhes temos que consultar autores como Oman, por exemplo, que nos refere os três factores que devem orientar a busca: - Uma elevação com um moinho; - Uma linha de água, mas excluindo o Rio Real; - A existência de uma estrada real. Os autores portugueses da época seguem todos a descrição dos ingleses, não mudando sequer o nome, daí os mapas não ajudarem muito.
Apesar disso, pode-se excluir desde logo os moinhos mais próximos da vila de Óbidos, nomeadamente o do “Facho”, situado na ponta Sul da vila e o dos “Arrifes”, a Leste, apontado pela tradição popular como o palco dos eventos, mas longe da estrada e de um curso de água.
Uma Carta Topográfica do Reino de 1867 e o Atlas de James Wyld de 1840, são os elementos finais a consultar antes de uma ida ao terreno. No segundo documento, este primeiro confronto é colocado a meio caminho, entre as duas localidades já citadas e no primeiro podemos constatar a existência de uma estrada real que partindo por detrás do actual quartel militar, nas Caldas, segue em linha recta pelo vale e passa pelo Bairro de Nossa Senhora da Luz e pela Ermida de Santo Antão, desembocando junto às muralhas a Norte de Óbidos.
Esta é uma estrada que ainda existe nos nossos dias, seguindo um percurso paralelo à actual nacional e o Bairro é uma localidade muito antiga, na época pouco povoada, mas já contando com uma igreja, defronte da qual existe numa colina e perto de um curso de água, um moinho.
Reside então aqui a chave para a resolução do problema, uma vez que todos os factores já descritos se conjugam e se hoje em dia a vista se encontra um pouco obstruída, os habitantes locais mais idosos ainda se lembram de duas condicionantes muito importantes e que eram ainda uma realidade na primeira metade do século XX.
A primeira eram os pântanos que existiam na zona, ou seja, ninguém se aventurava para muito longe dos caminhos conhecidos e a segunda era a vista nítida para a saída Sul das Caldas da Rainha.
Por tudo isto o Bairro da Senhora da Luz, perto de Óbidos, configura-se como a hipótese mais provável para a localização de “Brilos”, evento de pouco relevo na época, mas de grande importância para quem hoje em dia estuda a época.

FRENTE OESTE - Texto 14 - 7 MAIO 2009



Encontro internacional nos dias 15 e 16 de Maio

HISTÓRIA DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS


É o número XII do encontro anual de História Local, TURRES VETERAS, uma organização da Câmara Municipal de Torres Vedras em parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras de Lisboa e que conta com uma muito significativa lista de participantes, especialistas nesta área de estudos. As inscrições estão abertas no Arquivo Municipal, o que permitirá receber uma pasta de apoio mas as sessões são abertas ao público em geral.
Programa
15 de Maio
10.00 – Cerimónia de inauguração
10.30 – “Enfrentar as Linhas. Testemunhos franceses sobre uma barreira intransponível” António Ventura, Fac. Letras de Lisboa.
11.00 – “(Re)Construções da memória: as Linhas de Torres em narrativas britânicas” Maria Gabriela Gândara Terenas, Univ. Nova de Lisboa.
11.30 – “Writing Portugal: Robert Southey’s Peninsular Imagination, 1808-1814” Diego Saglia, Univ. Parma.
12.00 – Debate 13.00 – Almoço
15.00 – “O exército de Portugal: a presença francesa face às Linhas de Torres Vedras” Ana Cristina Clímaco, Univ. de Paris VII
15.30 – “Identidade das Linhas de Torres Vedras” Francisco de Sousa Lobo, Assoc. dos Amigos dos Castelos.
16.00 – “População e família em Torres Vedras durante a Guerra Peninsular: a freguesia de Santa Maria do Castelo” Venerando Aspra de Matos, Esc. Sec. Henriques Nogueira.
16.30 – Intervalo
17.00 – Debate
17.30 – “A construção das Linhas de Torres Vedras” André V. Melícias, Museu Municipal do Cadaval
18.00 – “Produtos e preços em Torres Vedras durante a Guerra Peninsular” Henrique Vieira, Esc. Sec. Tomás Cabreira.
18.30 – “Chegaram os franceses: a chegada de Junot e o impacto da 1ª Invasão francesa na Beira Baixa” Nuno Pousinho, Agrup. Escolas J.N.C.Sobral
19.00 – “Da foz do Mondego a Torres Vedras, passando por Mesão Frio, Olhão e Évora” Manuel do Amaral, Instit. Superior de Novas Profissões.
19.30 - Debate
16 de Maio
09.00 – Visita: Linhas de Torres Vedras 13.00 – Almoço
15.00 – “Massena’s french army before the Lines of Torres Vedras, 1810-1811” Donald D. Horword, Florida State University.
15.30 – “El Coronel Sir Robert Wilson en Portugal através de su correspondencia(1808-1809”) Alicia Laspra, Univers. de Oviedo
16.00 – Debate 16.30 – Intervalo
17.00 – “O fim do sonho ibérico de Napoleão” António Pedro Vicente, Univ. Nova de Lisboa
17.30 – “La estrategia napoleónica y las ciudades sitiadas” Antonio Moliner Prada, Univ. Autonoma de Barcelona
18.00 – Debate
18.30 – Encerramento. Lançamento das “Actas – Turres Veteras XI: História da Guerra Peninsular”

20/05/09

BADALADAS - Texto 30 - 15 MAIO 2009





ALMEIDA E BUÇACO: NOTAS DE VIAGEM

Manuela Catarino

Ao despontar da manhã, o céu confirma as previsões meteorológicas e anuncia os primeiros dias radiosos de Maio. Abrem-se sorrisos na perspectiva de um início de viagem agradável, que se vai confirmando com o galgar da distância, estrada fora. Embaladas, pela cadência da condução segura, as pálpebras fecham-se, por momentos, esquecendo a paisagem que corre do outro lado do vidro. Quando se reabrem, na primeira paragem, a perspectiva de um rápido e energético cafezinho permite constatar que não foi um sonho: o sol brilha. Eis a primavera …
De regresso ao alcatrão, que a velocidade engole, vai-se sobrepondo a paisagem em mutação. A caminho de uma Beira interior, de feições bem marcadas pela pedra que se modela ao vento, às chuvas dos dias invernosos, e pela vegetação que vai ganhando coloridos primaveris, os olhos habituam-se a descobrir permanências e mudanças. Não se encontram grandes aglomerados populacionais e, de quando em vez, os pardieiros, ermos, em ruínas, pontuam o espaço outrora habitado. Nos céus, as asas de uma ave de rapina espraiam-se pelo azul sem nuvens. Sobre uma torre, aninham-se cegonhas. Manchas acastanhadas de bovinos jovens preguiçam por entre ervas que guardam os restos da fresca madrugada. Sucedem-se as placas de toponímia, e as peculiaridades de cada paisagem ressaltam no nome escolhido para designar o espaço em que se vive e as
águas que nele serpenteiam.



Sinal do progresso dos tempos, o viaduto transpõe distâncias e quase esconde a velha ponte. Uma paragem. Pelo caminho, ornado de vivos tons florísticos, despontam tufos de rosmaninho. Na ponte sobre o rio Côa, apenas se distinguem os murmúrios da água corrente. Poluída, é certo, mas longe do vermelho intenso que terá conhecido após os primeiros combates que ali ocorreram na terceira invasão francesa. Memória gravada em pedra, ali permanece em nome de sonhos, vidas, feitos militares, medos e perdas, que à escala humana não têm nação nem bandeira.
Recordados os episódios históricos, de novo à estrada, e “com alma até Almeida”!!!!!! A impressão que se tem quando se entra a porta de S. Francisco é esmagadora. A abóbada que se ergue sobre as cabeças dos transeuntes é sólida e transmite confiança, tanta quanto a necessidade de defesa contra os ataques dos invasores que teria de suportar. E, ao entrarmos no perímetro amuralhado e circularmos pelo antigo caminho de Ronda sentimo-nos atraídos pela magnífica paisagem envolvente, sem contudo podermos despegar os olhos daquela imensa conjugação de traveses, parapeitos, baluartes, revelins, trincheiras, guaritas, redutos e mais elementos necessários à arte militar que ainda ali se apresentam. Quase nos esquecemos que foi esta praça-forte a sentinela raiana que enfrentou invasões, exigindo-se-lhe o maior dos sacrifícios: deter por todo o tempo possível os exércitos de Massena, com ordens de entrar em Portugal e dominar Lisboa definitivamente. Só a violenta explosão, que no dia 26 de Agosto de 1810, deixou marcas indeléveis na memória, e nas pedras do castelo velho, acabou por lhe ditar a trágica rendição.
E o cair da tarde prenuncia-se nas sombras que se adensam. Altaneira, a cidade da Guarda, surge ante nossos olhos numa mistura de lenda e modernidade. É a serra que se impõe. Ares frios e secos, bons para um sono reparador.

Manhã soalheira e nós em direcção ao Buçaco. Imaginamos o calvário da marcha de milhares de homens a caminho da batalha. Há 200 anos eles passaram por aqui, por caminhos velhos e pedregosos, ravinas e outeiros, sempre a marchar, à fome e ao frio, sem saberem o seu destino. Mas o nosso autocarro é de turismo cultural, ironia tremenda da História. Queremos evocar, homenagear, reconhecer aqueles heróis. Apenas se fala de generais – Crowfurd, Wellesley, Massena, Ney, Reinier, Junot – mas o sangue que correu em 1810 era de milhares de anónimos, franceses obrigados a atacarem, portugueses e ingleses obrigados a defenderem. Ali está o Moinho de Moura, nas faldas do Buçaco, inscrição atestando ter sido ali o Posto de Comando de Massena.







Mais adiante o Moinho de Sula, posto de comando do inglês Crowfurd, que já se batera, semanas antes, na Ponte do Côa com a sua Divisão Ligeira. E a tradição do moleiro que teimou em subir para desfraldar as velas, pois para ele não havia feriados mesmo que fosse dia de batalha a sério. E chegamos ao Obelisco comemorativo da batalha. Dominando a paisagem, grito de pedra a lembrar aos viajantes o sofrimento inaudito de milhares de homens que ali morreram. O Museu Militar mostra fardas, armas, mapas, gravuras. Porque é preciso manter viva a memória.
Alonga-se a vista na panorâmica soberba da Cruz Alta. Fim, quase, de viagem. Início de uma descida ao coração verde da mata. Veredas, folhas, troncos, cenóbios desabitados. A comunhão com a mãe-natureza. Em nome de todos os deuses. Em memória de todos os homens.


03/05/09

GOYA: o horror da guerra...


"Os Fuzilamentos de Madrid"




"A carga dos mamelucos"


Goya deixou a memória dos acontecimentos de 2 e 3 de Maio de 1808, em Madrid, quando a população se revoltou contra as tropas napoleónicas. A repressão foi terrível. Ficaram os relatos escritos e estes quadros de Goya, hoje no Museu do Prado. De grandes dimensões, vistos por milhares de pessoas, em impressionante silêncio...

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 13 - 30 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE



MULHERES NO EXÉRCITO FRANCÊS

Pedro Fiéis


As cantinières (numa tradução livre – aguadeiras), eram mulheres francesas a quem os regimentos davam uma autorização para a venda de comida e bebida, para além daquilo que eram as rações atribuídas a cada soldado. Tinham como única obrigação a de serem casadas com soldados do dito regimento.
A sua principal função era vender álcool, geralmente brandy de várias qualidades, que guardavam nos seus cantis pintados de azul, branco e vermelho e presos em bandoleira por uma correia de couro, onde estavam pendurados os copos de cobre ou latão, em que serviam a bebida. Também efectuavam outros serviços, como cozinhar, lavar e coser a roupa, recolher água e lenha para as fogueiras.
Não menos importante era o facto de constituírem uma muito necessária companhia feminina durante os longos meses das campanhas. Um dos mais famosos generais napoleónicos, Lasalle, chegou a dedicar-lhes uma canção nas vésperas da batalha de Marengo. Mas se por acaso se tornassem demasiado desordeiras, uma ordem do dia permitiria que os soldados pudessem pilhar os seus bens.
Muitas serviam até 30 anos no exército e se o respectivo marido fosse morto em combate, casavam com outro soldado para poderem manter a posição. Sobreviviam do salário do homem e dos ganhos com as vendas, mas os preços que podiam praticar eram obrigatoriamente baixos, sob pena de confiscação dos bens e não podiam vender a civis ou membros de outro regimento.
Não deixavam, elas próprias, de serem civis no exército e não tendo direito a uniforme, o garbo pessoal de cada mulher fazia com que envergassem uma mistura de vestidos de camponesa, com casacas militares e por vezes, o chamado bonet de police – o chapéu militar para ser usado nas folgas.
Os filhos surgiam naturalmente, os quais acompanhavam as mães durante as campanhas. Existem relatos de mulheres que seguiam os seus maridos no cativeiro, como foi o caso dos que foram aprisionados na ilha de Cabrera, em Espanha. Afinal, até na derrota sofriam as mesmas agruras, com os roubos, os ferimentos e as doenças, agravados pelas violações.
A sua coragem ficou demonstrada em diversos episódios, quando em plena batalha e a receberem fogo inimigo, corriam as fileiras dando de beber aos homens, carregando os mosquetes e não poucas vezes disparando-os. Há relatos de mulheres que chegaram a transportar os seus maridos feridos em grandes distâncias até chegarem a um hospital ou encontrarem uma ambulância.
Em 1807, na primeira invasão francesa, há testemunho de algumas que acompanharam os maridos na penosa marcha através de Espanha até à fronteira portuguesa.

21/04/09

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 12 - 23 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE




Monumento em memória de Jacinto Correia,
frente ao topo sul do Convento de Mafra

JACINTO CORREIA,
UM HERÓI POPULAR DE MAFRA


Tenente-coronel Abílio Pires Lousada



Fronteira de Segura - Beira Baixa, 20 de Novembro de 1807. À frente de um exército de 26500 homens, o general francês Andoche Junot invadiu Portugal para conquistar Portugal.

Lisboa, 30 de Novembro de 1807. Junot entra, com o seu exército, em Lisboa.

Lugar de Atouguia, Gorcinhos – Mafra, finais de Janeiro de 1808. Ao final da manhã, o jornaleiro Jacinto Correia, habitante da área, de 46 anos, casado e com filhos, dirige-se, como habitualmente, para casa com o produto do seu trabalho. No caminho, é abordado bruscamente por dois soldados franceses que o pretendem roubar. Jacinto Correia não teme e não cede, segue-se uma violenta luta entre os três homens. O jornaleiro saloio, homem de rija têmpera e habituado ao trabalho duro do campo, habilmente e com raiva, brande a foice roçadora e golpeia mortalmente os dois soldados que o atacaram.
Em pouco tempo, uma força militar francesa detém Jacinto Correia, que é presente a tribunal e julgado num Conselho de Guerra.
Apesar de algumas autoridades locais tentarem o perdão do jornaleiro, o Tribunal empurrou o processo para uma incriminação do réu, que impunha punir exemplarmente.
Em determinada altura do julgamento, porque o jornaleiro apresentava uma atitude de serenidade e desafio, foi-lhe perguntado por Loison, comandante militar francês da região, “se o arrependimento já tinha exercido algum efeito no seu espírito”. A resposta, tão convicta como desconcertante, “se todos os Portugueses fossem como eu, não ficaria um francês vivo”, enraiveceu Loison.
Jacinto Correia foi condenado à morte e fuzilado no campo da Alameda, no topo sul do Convento de Mafra, a 25 de Janeiro de 1808.
Tratou-se de um acto heróico, que correu célere de boca em boca. Junot, temendo que a atitude patriótica do «mafrense» estimulasse ânimos e ódios para provocações futuras, publicou uma semana depois a notícia da execução de Jacinto Correia:

«Um dos vossos compatriotas, Jacinto Correia, convencido de um grande crime, foi condenado á morte; Esta severidade das leis assegura a tranquilidade pública de que dependem as vossas vidas e propriedades» (Gazeta de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1808)

14/04/09

POSTO DE SINAIS DA SERRA DO SOCORRO


O Posto de Sinais da Serra do Socorro (Mafra, freg. Enxara do Bispo)
Para proteger Lisboa da 3.ª Invasão Francesa, as forças anglo-lusas estabeleceram, em torno da capital do reino, um sistema defensivo estruturado que incluía duas linhas defensivas que ligavam o Oceano Atlântico ao Rio Tejo: as Linhas de Torres.Paralelamente à construção de fortes e redutos, o exército anglo-luso previu a instalação de um sistema de comunicações para a transmissão de ordens e informações. A Serra do Socorro constituía o ponto central a partir do qual era efectuada a comunicação com os sete fortes onde estavam colocados mastros de sinais. Com base na documentação histórica e nas evidências arqueológicas, efectuou-se o projecto (pioneiro) de reconstituição do telégrafo da Serra do Socorro.
Comunicar em tempo de guerra:
Será recriada a ocupação militar que a Serra do Socorro registou durante a 3.ª Invasão Francesa, através de uma encenação junto ao telégrafo.Duzentos anos volvidos, podemos reviver o quotidiano da época e compreender como funcionava este sistema telegráfico que permitia passar uma mensagem até Lisboa em poucos minutos!
As actividades de recreação poderão ser canceladas caso se verifiquem condições meteorológicas desfavoráveis.
A par com a Recriação Histórica têm, igualmente, lugar visitas guiadas no dia 5 de Setembro, às 15h00 e 16h00 (início das visitas).
A entrada é livre, mediante marcação prévia através do telef.: 261 819 711

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO 11 - 16 ABRIL 2009 FrenteOeste






Aguarela grisaille, Luís António Xavier: «La Veritable entrée des protecteurs en Lisbonne le 30 Novembre de 1807». Lisboa, MC. PIN. 284


A PRIMEIRA INVASÃO FRANCESA


Joaquim Moedas Duarte

Estava-se em 1807. Napoleão varria a Europa central com a política do ferro e do fogo. Nada parecia resistir. Mas faltava-lhe aniquilar a Inglaterra. Esta, acantonada na ilha e dominadora dos mares, não se dobrava e tinha em Portugal um ancoradouro fiel.
Dominada a Espanha, o reduto português parecia alvo fácil. Escrevinha-se em Fontainebleau o tratado que retalha Portugal: uma parte para a Espanha, a outra para a França. Em Novembro deste ano, um exército de 25 000 homens põe-se em marcha, atravessa a Espanha e irrompe pela Beira, sob o comando de Andoche Junot, general de Napoleão, que havia estado em Portugal, três anos antes, como embaixador. Tem como objectivos a chegada em triunfo a Lisboa e a prisão da família real portuguesa. Mas uma barreira formidável se lhe opõe: não de exércitos mas de tempestades torrenciais que inundam os poucos caminhos que por aqui havia e transformam a marcha do seu exército numa espantosa calamidade humana. Soldados – homens! – arrastam-se, devoram o que encontram, matam, saqueiam, sobrevivem na lama, no frio, no dilúvio. Raul Brandão, no livro El-Rei Junot, descreve com pinceladas impressionantes este drama que envolve invasores e invadidos.
Que fazem os chefes portugueses? Organizam a defesa? Uma testemunha da época diz que teriam bastado mil espingardas para deter Junot. Mas nem uma se lhe opôs. Ouro e pedras preciosas foram enviados em desespero para comprar a benevolência de Napoleão. De nada serviram. Diplomatas atormentados fingiam aos franceses que estavam contra os ingleses, imploravam aos ingleses que os defendessem dos franceses. Uma decisão é tomada, a conselho da Inglaterra: transferir a família real para o Brasil, então colónia portuguesa, garantindo a continuidade da soberania. Com o Regente D. João (futuro rei D. João VI), sua mãe D. Maria I e seus filhos, fogem cerca de 15 000 pessoas, a elite do país: nobres, clérigos, juízes, militares, comerciantes, políticos, e mais as respectivas mulheres, e os servos, os criados, as bagagens. Indiferentes ao desespero do povo, safavam a pele. Tudo o que navegava foi tomado de assalto por esta horda amedrontada que uma aberta de temporal amainado permitiu sair do Tejo, direcção do Brasil. Junot e os 1 500 homens que sobraram da marcha forçada falharam a captura real por uma tira de horas. Foi nos dias finais de Novembro de 1807.

13/04/09

Texto nº 29 (Jornal BADALADAS, 24 Abril 2009)

UM CORRESPONDENTE DE GUERRA NA SEGUNDA INVASÃO FRANCESA




Pedro Fiéis



Talvez sejam tão antigos como a própria guerra, mas é geralmente aceite que na moderna concepção da palavra, o primeiro correspondente de guerra terá sido Henry Crabb Robinson, um inglês que em 1800 tinha viajado para o território da actual Alemanha, onde fez os estudos universitários e onde terá contactado com alguns dos maiores vultos da cultura do seu tempo, casos de Schiller e Goethe, entre outros.
O seu conhecimento do terreno e domínio da língua constituíram então factores cruciais para que o jornal londrino “The Times” o contratasse para escrever crónicas sobre a guerra que Napoleão conduzia e cujos sucessos sobressaltavam os seus ávidos leitores.
Esta primeira experiência não é muito profícua, quer porque os escritos não tinham grande mérito, quer pela sua irregularidade e por se basearem muito no ouvi dizer. As distâncias ainda eram nesta época uma barreira difícil de vencer, pelo que as novas sobre as batalhas chegavam muito depois de as mesmas terem ocorrido e novos acontecimentos as terem tornado redundantes.
De qualquer modo, o progressivamente maior envolvimento britânico na Península em finais de 1808 convence os responsáveis pelo “Times” da necessidade de ter alguém perto do cenário do conflito e com acesso aos meios navais que transportavam a normal correspondência do exército, encurtando deste modo as ditas distâncias.
O escolhido vai ser então Robinson, principalmente pela sua experiência anterior, embarcando para a Coruña onde chega no dia 28 de Julho de 1808, 5 dias depois de ter deixado Inglaterra. Assumindo agora também de forma mais séria o seu papel, mantém uma correspondência regular com o jornal, muito embora o que escrevia ainda se baseasse nos relatos dos soldados feridos que iam chegando.
O facto de não acompanhar de perto as tropas não lhe permitia seguir todos os acontecimentos. Apesar disso, as informações que fazia chegar eram preciosas, por anteriormente se ter de esperar que esses mesmos soldados escrevessem para casa nas raras pausas que eram concedidas, não contando com a demora do correio. Tudo isto muda a partir do dia 11 de Janeiro de 1809 com a chegada das tropas sob comando de sir John Moore, em retirada diante das tropas francesas desde Salamanca.
Como não tinham chegado os navios de transporte, Moore foi forçado a tomar posições defensivas e aguardar a sua chegada. O seu oponente, Soult, chegou pouco depois e no dia 15 lança os primeiros ataques. A este desenrolar dos acontecimentos assistiu este correspondente desde o primeiro momento, e nesse dia, ao regressar ao hotel, encontrou a sala de refeições vazia e nenhum oficial por perto.
Ao sair para a rua foi informado da aproximação do inimigo e, ao longe, já se conseguia ouvir o troar dos canhões. Robinson foi imediatamente para as alturas que rodeiam a cidade, embora ainda longe da acção, assistiu ao desenrolar da batalha, observando compatriotas seus a serem feridos e mesmo mortos, reportando ainda sobre os prisioneiros franceses que eram escoltados para a zona do porto.
Foram umas horas únicas e que não mais repetiu, dado que ainda no final do referido dia 15 embarca de volta a Inglaterra e não mais escreve sobre a guerra, até porque no “Times” não se lhe reconheceram grandes dotes para a escrita e como a campanha terminara após o embarque da tropa inglesa, não lhe fazem nova proposta de trabalho.

Notas Finais: Henry Crabb Robinson não mais vai escrever para jornais, preferindo dedicar-se à advocacia até ao final da sua vida. O general Moore morre devido a ferimentos sofridos durante a batalha, deixando campo aberto ao regresso triunfal de Wellesley.

10/04/09

TURRES VETERAS XII

HISTÓRIA DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS

Dias 15 e 16 de Maio de 2009








Participação sujeita a Inscrição € 10 www.arquivo@cm-tvedras.pt arquivo@cm-tvedras.pt telef. 261320736

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO X - 9 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE

Portinari: Chegada de D. João VI a S. Salvador


A Corte portuguesa no Brasil

Maria Guilhermina Pacheco


A família real vai permanecer no Brasil de 1808 a 1821. Esta deslocação foi provocada pela conjuntura europeia durante o período napoleónico e vai influenciar o processo de independência da colónia brasileira.
Devido à aproximação das tropas francesas de Lisboa, o príncipe regente D. João, com o apoio da esquadra inglesa, transfere o governo e a corte para o Brasil. Chega aí em Janeiro de 1808, instalando-se dois meses depois no Rio de Janeiro. A vida na colónia vai começar a mudar.
Logo que se instala a corte, o príncipe regente empenha-se nas tarefas de organização do Estado, nomeando o governo e promovendo a estruturação das instituições administrativas, políticas e judiciais, num território que até aí era uma colónia e agora funcionava como a sede da monarquia.
Assim, a instalação dos órgãos administrativos do Império foram integrados na própria estrutura colonial sem haver corte no normal funcionamento das instituições. Foi criado o Conselho de Estado, o Conselho Militar e o da Fazenda, a Mesa do Desembargo do Paço e a da Consciência e Ordens. No sector da Justiça, foi criada a Casa da Suplicação, como tribunal superior e de última instância, no sector militar, a Academia Militar e da Marinha e o Hospital e o Arquivo Militar. No âmbito da administração municipal, a Intendência Geral da Polícia, contribuindo para o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro.
As medidas de carácter administrativo-jurídico visavam as várias capitanias e comarcas do território brasileiro contribuindo para a expansão da agricultura, o desenvolvimento do comércio interno e melhoria da rede viária, facilitando a penetração em zonas menos conhecidas do território. Houve uma política de expansão territorial, a norte e a sul do Brasil: exemplo disso, a invasão da Guiana Francesa em 1809; ou, dois anos depois, o cerco de Montevideu por forças navais portuguesas, e ocupação da Banda Oriental (actual Uruguai), território integrante do antigo Vice-Reinado do Prata.
Mas as mudanças mais emblemáticas foram; em 1º lugar a abertura dos portos brasileiros, “aos navios de todas as nações amigas”; permitindo a entrada de mercadorias de qualquer proveniência, acabando com o sistema do “pacto colonial”, em vigor desde a época pombalina. Portugal deixava de ter direito ao monopólio da exploração dos produtos coloniais brasileiros. Em 1810 assina-se os tratados de Comércio e Amizade e de Aliança e Navegação, que asseguravam aos Britânicos o acesso preferencial dos seus produtos.
A data de 1808 representa, na opinião do historiador Kenneth Maxwell, “uma verdadeira linha divisória, tanto na história de Portugal como na do Brasil.”
Em 1815 o Brasil é elevado à condição de Reino Unido. Era a garantia para a monarquia portuguesa estar formalmente representada no Congresso de Viena, que reorganiza o mapa político da Europa após a derrota de Napoleão.


IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO IX - 2 ABRIL 2009 - FRENTE OESTE





NAPOLEÃO


José Travanca Rodrigues


Quando começa o novo século, todas as ambições lhe são possíveis. Tem, ao virar dessa página do tempo, 31 anos. Nascera em 1769, na Córsega, meio italiano, meio francês. Carreira militar meteórica – general em 1793 – participou activamente nas vicissitudes da grande revolução iniciada na França em 1789. A carreira de Napoleão acompanhou os espasmos políticos que dilaceraram a França nesses anos. Sagaz e maleável, sabendo colher as oportunidades, passou praticamente incólume a tempestade da Convenção (chegou a ser preso por amigo dos jacobinos, em 1794), soube adaptar-se em crescendo aos novos tempos, muito próprios afinal aos seus projectos. Dois anos bastaram para chegar à fama europeia: em 1796, consumadas as suas primeiras vitórias militares em terras italianas, proclamava: “Povos da Itália! O exército francês vem quebrar as vossas grilhetas. O povo francês é o amigo de todos os povos. Para nunca mais os tiranos que vos têm subjugado!”
São estas as tintas políticas de que se cobre o manto “libertador” de Napoleão, génio da guerra. Doravante, ele torna-se o pesadelo das velhas monarquias europeias. Naqueles reinos ainda absolutistas, socialmente de matriz feudal, Napoleão passa a ser visto como o portador temido da “desordem”, do “caos”, da “impiedade”, enfim. Personificação do Anti-Cristo.
Internamente, a carreira de Napoleão foi fulgurante. Em 1802, torna-se cônsul vitalício. Em 1804 é coroado imperador dos franceses, com a caução do Papa Pio VII. Depois das turbulências do processo revolucionário, a figura de Napoleão emergia como a de um tipo novo de líder político. Incorporando certos conceitos e ideias liberais, atraía largas franjas da burguesia e boa parte da aristocracia se lhe rendia. Muitas desconfianças se desvaneciam para quem via no imperador o instrumento da normalização e da afirmação da França no quadro europeu.

IMAGENS DA GUERRA PENINSULAR - TEXTO VIII - 26 MARÇO 2009 - FRENTE OESTE

“Bonaparte louco de raiva ou mais navios, colónias e comércio” – Água-forte gravada por I. Cruikshand, 1808, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga




QUE NOME DAR A ESTA GUERRA?


Carlos Guardado da Silva


Comemorando-se o bicentenário da «Guerra Peninsular», os historiadores reflectem sobre este conflito que teve uma dimensão internacional, e que se desenvolveu no contexto das «Guerras Napoleónicas», protagonizadas por França e Inglaterra, as maiores potências, em finais do século XVIII e inícios do século XIX. Dentro da estratégia hegemónica de Napoleão Bonaparte, o domínio da Península Ibérica era fundamental para travar o forte poder marítimo inglês no Atlântico, assim como nos portos comerciais do Mediterrâneo. Pois quem dominava economicamente, tinha igualmente a supremacia política na Europa.
O período (1807-1814) acabou por ser conhecido por três designações: «Guerra Peninsular», a mais generalizada, sobretudo no mundo anglo-saxónico, mas também em Portugal; «Guerra de la Independencia», em Espanha; e «Invasões Francesas» (em número de três ou quatro, se considerarmos, neste caso, a Guerra das Laranjas, em 1801) ou Napoleónicas. Deste modo, a denominação inglesa e portuguesa de «Guerra Peninsular» tem sobretudo em conta a realidade geográfica do conflito, sublinhando o apoio fundamental do exército inglês chefiado por Arthur Wellesley, mais tarde duque de Wellington, para a vitória, quer em Portugal, quer em Espanha.
Geograficamente, a Guerra Peninsular abrangeu toda a Península Ibérica, França com os seus aliados e vassalos, e Inglaterra. Mas este conflito teve uma dimensão europeia e atlântica, enquanto parte das Guerras Napoleónicas, travadas sobretudo entre França e Grã-Bretanha pela hegemonia no continente europeu.
Assim, as designações «Guerras Napoleónicas», «Guerra Peninsular» e «Guerra de la Independência» ou «Invasões Francesas» expressam diferentes dimensões do conflito – europeia, peninsular e nacional – que, apesar das características comuns, teve processos distintos em Portugal e em Espanha.