13/09/09

BADALADAS - TEXTO 37 - 11 SET 2009





A 2ª INVASÃO FRANCESA


DOS ANÓNIMOS AO BRIGADEIRO SILVEIRA

José NR Ermitão


A 2ª invasão teve, em relação às restantes, características distintas: foi de curta duração (dois meses e uma semana); os franceses dominaram uma área exígua (de for-ma firme, o Porto e arredores; de forma incerta, a região entre Douro e Minho); o exército invasor não só foi isolado da retaguarda espanhola (nenhum correio de Soult chegou ao destino) como combatido, desgastado, desmoralizado e algumas vezes vencido por uma feroz resistência de base popular, guerrilheira e militar.
Pela primeira vez, sem ajuda exterior, os portugueses enfrentaram e desgastaram o exército francês invasor – e tão completamente que quando o exército luso-britâ- nico se aproximou, aos franceses nada mais restou senão fugir e rapidamente.



OS ANÓNIMOS


Os populares que, abandonando as povoações, levam consigo os alimentos e as-sim esfomeiam os franceses; os que resistem e morrem na defesa de Braga, na passagem das pontes, no Porto, em Ponte de Lima, em Amarante; os que “a coberto dos ro-chedos e das oliveiras, se infiltravam até... (ao) acampamento (francês) e disparavam sobre as... tendas e... cavalos” (Le Noble); ou o que “cuja coxa lhe foi partida... (e) sem abandonar a arma teve a coragem de, deitado de lado, apontar e matar um graduado... (ou o) ancião de cabelos brancos, entrincheirado atrás de um penedo com uma espingarda... (que feriu) três homens e cinco cavalos... (de Naylies). Os que passam barcos a Wellington para poder entrar no Porto.
Os ordenanças, milícias e soldados que formam o exército português, mal armados, indisciplinados, capazes de disparates mas também de resistir e de derrotar os franceses quando devidamente organizados e comandados. E os que formam as guerrilhas que atacam os correios, os flancos e a retaguarda dos franceses, desesperando-os. Os populares, as “pessoas de bem”, os eclesiásticos e os estudantes de Coimbra...


OS COMANDANTES


Os comandantes militares que enfrentaram e combateram os invasores. O general Bernardim Ribeiro, que impediu Soult de atravessar o rio Minho e que, por considerarar a impossibilidade da defesa de Braga, foi acusado de traidor e brutalmente assassinado pela população e ordenanças desvairados. O general Botelho, que resistiu em Ponte de Lima, tomou Braga e Guimarães aos franceses e, depois, se juntou a Silveira. E outros, até estrangeiros, como o barão de Eben, que conseguiu manter a resistência em Braga durante três dias, e Robert Wilson. Tantos outros...


O BRIGADEIRO SILVEIRA

Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira (1763-1821), a quem o governo nomeou para chefiar a região militar de Trás-os-Montes e cujo exército era uma amálgama de tropa regular, milícias mal armadas, ordenanças desenquadrados e voluntários. Que retira da cidade de Chaves por a considerar indefensável, mas que ataca os franceses em Venda Nova e pouco depois retoma a cidade, impedindo assim as ligações de Soult com a Espanha.
Que, movimentando-se a oeste e a leste do rio Tâmega, enfrenta os franceses, resiste-lhes em Amarante durante duas semanas e, sempre em movimento, reconquista depois Vila Real e combate Loison, perseguindo-o até Guimarães. Que pede socorros a Beresford mas que este não lhe concede. Que combate só com os recursos de que dispõe, às vezes desesperado – “assim um homem só não faz nada”, escreve ele a Beresford – sobretudo depois do que ele sentiu ser uma derrota, a perda de Amarante, mas que foi afinal a sua grande vitória: ter impedido a progressão francesa para leste ao resistir-lhe durante duas semanas.
O primeiro chefe militar português que derrotou exércitos franceses e que, pelas acções posteriores no país (impedindo os franceses de passar o Douro no inverno de 1810/11 e outras) e em Espanha (tomada de Sanábria, batalha de Vitória e batalhas nos Pirinéus), foi reconhecido – pelo nosso governo, pelo espanhol e pelo inglês – como o mais notável general português da Guerra Peninsular. Um tanto esquecido depois: a his-toriografia liberal não lhe perdoará a recusa em aderir à revolução de 1820...
Passados o tempo e os preconceitos é tempo de lhe dar o devido valor.

FORTE DO ZAMBUJAL - MAFRA


Restaurado e apresentado ao público ontem, 12 de Setembro. Notícia daqui e daqui.

30/08/09


30 de Agosto a 4 de Setembro de 2009
Porto
Congresso Internacional da História Militar
Edifício da Alfândega
Integrado no plano das comemorações das invasões francesas da Área Metropolitana do Porto

BADALADAS - TEXTO 36 - 28 AGO 2009





Um outro lado das invasões francesas nas Memórias do marechal Soult

Manuela Catarino


As preocupações de um homem da guerra não se fixam apenas na quantidade de efectivos militares de que dispõe, nem no poder fogo das máquinas bélicas, nem tampouco na estratégia militar a desenvolver. Outros aspectos têm de ser devidamente acautelados, quer no cumprimento das leis a que expressamente deve obedecer, quer nos diferentes componentes da estrutura que chefia.
Esta reflexão surge-nos a propósito de um relato feito na primeira pessoa por uma das figuras da segunda invasão francesa – o marechal Soult – ao lermos o texto recentemente publicado por Livros Horizonte, com introdução e notas de António Ventura, traduzido em português sob o título Memórias do Marechal Soult: Sobre a Guerra em Espanha e Portugal.
Em Fevereiro de 1809 a propósito da sua entrada em Portugal, procurando uma passagem para Chaves, relata ele de forma sucinta: O exército ia-se arriscar por caminhos muito maus onde a artilharia não podia passar. Resignei-me a não levar comigo mais do que uma vintena de peças ligeiras e a deixar o resto, bem como os parques, o hospital e tudo o mais que não podia seguir o exército, num grande depósito que instalei em Tui, sob as ordens do general Lamartinière. Estava decidido a mandá-lo buscar assim que chegasse ao Porto” (Ibidem p.43).
A 12 de Março de 1809, depois da capitulação da cidade flaviense, Soult manda instalar aí um depósito de doentes, sob a protecção de uma pequena guarnição enquanto prossegue a marcha para Braga em situação de combate permanente.
Mais tarde, já depois da ocupação do Porto pelas forças francesas, o próprio marechal justifica a escolha que fizera: Quando este depósito foi criado, para tratar e proteger dos habitantes os nossos primeiros feridos e doentes não transportáveis, a minha única finalidade era conseguir-lhes uma boa capitulação que lhes permitisse juntarem-se-me algures, depois da paz assinada em Lisboa” ( Ib. p.57).
O evoluir dos conflitos, contudo, irá contrariar as suas previsões. Ainda, de acordo com o seu testemunho, virá a saber que esse depósito de doentes, bem como a guarnição de cem homens que asseguravam a sua guarda tinham sido obrigados, após oito dias de bloqueio, a capitular. Muitos desses infelizes tinham sido massacrados no trajecto de Chaves para Lisboa (Ib. p.57)
A atitude dos habitantes de Tui merece-lhe reparo, quando, nas suas palavras, recusaram os bens mais necessários aos doentes (Ib.p56). Aliás é exactamente a vivência dos franceses, aí cercados pelas milícias portuguesas e espanholas, que merecem para Soult, uma descrição mais exacerbada: A situação do depósito era crítica na altura em que o bloqueio foi levantado. Dos 3400 homens que compunham a guarnição apenas sobravam 1500 em estado de prestar serviço. Os hospitais tinham falta de medicamentos, a febre reinava e levava todos os dias vários soldados. Já não havia vinho, dois terços dos cavalos do parque tinham sido comidos. (Ib. pp.55-56).
Melhor destino tiveram os franceses que integravam a retirada das forças em Baltar, quando Soult, tendo no seu encalço os exércitos português em Amarante, e inglês no Porto, se dirige para Montalegre. As ordens do marechal são explícitas: De alvorada, a artilharia estava destruída, todas as bagagens queimadas, as munições de infantaria e os feridos em cima dos cavalos de artilharia […] O ponto mais importante estava alcançado. O corpo de exército todo reunido não deixando nenhum homem para trás. (Ib. p.70)
Parece-nos importante realçar esta última frase do marechal no sentido em que sabemos que durante as campanhas militares a assistência médica imediata nos campos de batalha não é a primeira das preocupações dos estrategos. Moribundos e cadáveres vão juncando os cenários de guerra, abandonados à sua sorte, enquanto que feridos ou doentes, apoiados nos seus camaradas de armas, se arrastam até aos hospitais de campanha. Estes, posicionados em local mais resguardado, nem sempre asseguram as melhores condições médicas e de higiene, e a maior ou menor experiência dos cirurgiões procura milagres para não aumentar a contabilidade das baixas…
Na Península os exércitos napoleónicos contaram, no entanto, com a abnegação e a prática médica pioneira de um homem que passará a ser conhecido como “ Providência do soldado”- o cirurgião Dominique Jean Larrey. Mas, infelizmente para os soldados de Soult, ele não acompanhou a deslocação do 2º corpo da Grande Armée. Dele falaremos no próximo artigo.





BICENTENÁRIO DAS INVASÕES FRANCESAS

SUPLEMENTO DO JORNAL BADALADAS, 14 AGOSTO 2009



(Combate de Grijó - 11 de Maio de 1809 - Biblioteca Nacional de Portugal)

A SEGUNDA INVASÃO FRANCESA

José NR Ermitão


CONQUISTA DE CHAVES

No dia 8 de Fevereiro de 1809, Soult e o seu exército marcham de Santiago de Compostela para a fronteira portuguesa, com o objectivo de atravessar o rio Minho e descer em direcção ao Porto. Frente ao rio, Soult sofre as primeiras contrariedades: o grande caudal que, devido à chuva, o transforma em barreira difícil de transpor e o dispositivo de defesa organizado pelo general Bernardim Freire na margem portuguesa.
Os franceses fazem três tentativas para atravessar o rio, a 13 e 16 de Fevereiro, próximo de Valença, Caminha e Cerveira, tentativas que são rechaçadas pelas forças mi-litares portuguesas. Assim, Soult vê-se forçado a um novo percurso: subir até à cidade de Orense, descer pela linha do Tâmega e entrar em Portugal pela fronteira de Chaves – um caminho péssimo e cheio de riscos, que cansava as tropas e as expunha aos ataques da guerrilha espanhola.
Realizado o percurso alternativo à custa de perdas várias, os franceses aproximam-se da fronteira, atravessam-na a 10 de Março e dirigem-se para Chaves. O brigadeiro Francisco da Silveira, responsável militar da região de Trás-os-Montes, percebe a impossibilidade de defender a cidade frente ao exército de Soult e ordena a retirada.
Populares desesperados pelo medo dos franceses, diversos elementos do exército, milícias e ordenanças, não acatam a ordem de retirada e tentam resistir, mas são derrotados pelos franceses, que tomam a cidade no dia 11 de Março. Soult faz de Chaves o ponto de ligação com a Espanha.


CONQUISTA DE BRAGA

A 14, o exército francês inicia a marcha em direcção a Braga. Neste percurso os invasores começam a sentir as garras da resistência popular. As palavras são de Soult: “A nossa marcha de Chaves para Braga foi um combate contínuo. Tinha de me haver com toda a nação: todos os habitantes, homens, mulheres, crianças, velhos e padres, estavam em armas; as aldeias estavam abandonadas, mas os desfiladeiros bem defendidos”.
A resistência também é de natureza militar: o brigadeiro Silveira ataca a retaguarda e os flancos dos franceses na área de Venda Nova e Cabeceiras de Basto; e no caminho para Braga os franceses tiveram de travar combates em Ruivães, Salamonde, e sobretudo nos arredores de Braga, durante três dias (7, 18 e 19 de Março), antes de tomarem a cidade. O exército português, na incapacidade de ofensivas frontais, opta pela defensiva onde e quando possível, por ataques rápidos e mortíferos contra a retaguarda e flancos dos franceses e pela reocupação dos espaços por eles menos guarnecidos. População e militares empenham-se ainda na imobilização dos transportes e na captura dos correios franceses de modo a isolarem totalmente o exército invasor – o que conseguem.
Um ponto importante a referir: no dia 15 de Março, o general inglês Beresford assume o comando do exército português e inicia a sua reorganização.
As notícias da progressão dos franceses criam na cidade um grave ambiente de exaltação. O general Bernardim Freire, comandante militar da região do Porto e Minho, ao receber ordens dos Governadores do reino para dar prioridade à defesa do Porto e ao verificar a insuficiência das defesas de Braga em Carvalho d’Este e noutros pontos, decide-se pela retirada. População, numerosos militares, milícias e ordenanças, amotinam-se, acusam o general de traidor e assassinam-no barbaramente.
O barão de Eben encarrega-se da defesa da cidade e resiste durante três dias em Carvalho d’Este (17, 18 e 19 de Março), combate onde morrem mais de 2000 portugueses e dezenas de franceses. Só no dia 20 os franceses tomam a cidade, entretanto abandonada pela população. Comenta Le Noble: “... Braga apresentava-se à nossa imaginação provida de tudo quanto um exército necessitava. Mas qual o nosso doloroso espanto quando, ao entrar nela, a encontrámos deserta! Em três dias, vinte mil pessoas abandonaram a cidade... Que ódio contra o domínio estrangeiro! Que péssimo presságio para a condução da nossa expedição”.
Depois de cinco dias de paragem, Soult parte em direcção ao Porto em 25 de Março. Nesse mesmo dia Francisco da Silveira, depois de uns dias de combate renhido, reconquista a cidade de Chaves, cortando assim as ligações dos franceses com a Espanha, o que vai criar uma situação de total isolamento a Soult
Silveira, em seguida, movimenta as tropas para retomar Braga; só não o faz porque, tendo notícias de que o Porto foi tomado, decide posicionar-se na região de Vila Real. Mas Braga será retomada mais tarde, no dia 5 de Abril, pelo general Botelho.



CONQUISTA DO PORTO

No caminho para o Porto os franceses vêem aumentadas as dificuldades devido à guerrilha e à acção defensiva junto das pontes que tinham de atravessar. De salientar a fortíssima resistência da população e de alguns militares à passagem dos franceses nas pontes em Trofa e Santo Tirso – passagem conseguida à custa de combates violentos e de muitos mortos para ambos os lados.
No dia 27 de Março, Soult chega junto das defesas da cidade do Porto, a 28 cerca-a completamente, ordena o seu ataque, e no dia seguinte conquista-a. Esta rapidez na tomada da cidade tem causas civis e militares. Civil – o estado de anarquia da população, que mais se empenhava em assassinar supostos afrancesados traidores e que não aceitava qualquer disciplina; militares – inexistência de oficiais competentes (o próprio bispo se arvorou em general), obras de engenharia defensiva mal executadas, tropas regulares insuficientes e mal comandadas, milícias e ordenanças desenquadradas e quase sem armamento e artilharia disfuncional...
O que se seguiu é conhecido – a fuga em massa dos portuenses pela ponte das barcas em direcção a Gaia, com o afogamento de milhares de pessoas. Menos conhecida é a resistência no interior da cidade: milícias, ordenanças, populares e eclesiásticos cortam as ruas e disparam das janelas das casas e até do Paço do Bispo, causando aos invasores numerosas baixas. Esta resistência enfurece os franceses que, como escreve Beauchamps, “... chacinaram indistintamente os habitantes e praticaram todo o tipo de pilhagens e de crimes” durante o saque nos três dias seguintes.
O primeiro objectivo de Soult, a tomada do Porto, estava conseguido; mas a sua situação era a de completo isolamento em relação aos exércitos franceses em Espanha. Pior, estava cercado por uma activa resistência popular e militar que, sobretudo a leste, lhe haverá de cercear a liberdade de movimentos.
Soult vai tentar quebrar a situação de isolamento militar em que se encontrava desenvolvendo três frentes de progressão militar.
A primeira, para ocupar o Minho (de 5 a 13 de Abril) e estabelecer ligações com o exército francês na Galiza. Os franceses ocupam os centros urbanos mas não os campos: neles se movimentam guerrilhas que, por exemplo, capturam todos os correios franceses. E no Baixo Minho actua o general Botelho, que retoma Braga a 5 de Abril, donde é forçado a sair a 10 pelos franceses, mas que em seguida retoma Guimarães...
A segunda, em direcção ao sul, pretendia atingir Coimbra: os franceses ocupam Vila da Feira (a 17 de Abril) e Albergaria, e atingem o rio Vouga. O coronel Trant, nomeado por Beresford para o governo civil e militar de Coimbra, organiza a defesa da cidade e barra a progressão francesa no Vouga.
A terceira, em direcção a leste, com o objectivo de dominar Trás-os-Montes e a Beira Alta, aniquilar o exército de Francisco da Silveira e conseguir uma via de comunicação com os exércitos franceses em Espanha. Tentativa fracassada pela impressionante resistência portuguesa em Amarante e áreas circundantes, chefiada por Silveira, e que constituiu o toque de finados da 2ª invasão.
Politicamente, Soult ensaia uma política de apaziguamento de que resultou um grupo de bracarenses e outros nortenhos, suplicarem a Napoleão “se dignasse nomear um príncipe... para ocupar” o trono português. Episódio com mão óbvia de Soult e sem mais consequências...


RESISTÊNCIA EM AMARANTE

Com o objectivo de abrir caminho para leste, os franceses ocupam Penafiel e dirigem-se para a ponte de Canavezes a 31 de Março. Penafiel fora abandonada pelos habitantes mas Canavezes e sua ponte estão bem defendidas, e tanto que os franceses retrocedem para Penafiel. A 7 de Abril, Soult envia reforços e nomeia para chefiar as operações o terrível general Loison.
A 9 de Abril, Silveira desloca-se de Vila Real para Amarante, onde se reúnem as tropas, milícias, ordenanças e voluntários das regiões próximas. Com um exército díspar de 6000 homens, sem quadros nem armamento suficientes, ataca Penafiel no dia 13, donde expulsa Loison. Perante o facto, Soult envia novos reforços – os franceses nesta área de acção passam a 9000, mais de 40% do total dos invasores.
Conseguem assim retomar Penafiel a 15 de Abril e dar combate ao exército de Sil-veira que, perante a superioridade francesa, retira para Amarante, onde os franceses en-tram no dia 18, após horas de combate e muita destruição. Os franceses ocupam a vila, na margem direita do rio Tâmega; os portugueses ocupam a margem esquerda do rio e impedem a tomada da ponte.
E durante duas semanas, de 18 de Abril a 2 de Maio, numa eficaz acção defensiva, em contínuos duelos de artilharia e de fogo de atiradores, os portugueses frustram todas as tentativas francesas para a tomada da ponte. Só a 2 de Maio, devido a nevoeiro e a deficiências da vigilância portuguesa, Loison consegue tomar a ponte e passar o rio. Silveira, vendo-se derrotado, desloca o exército para leste e margem sul do Douro.
Embora na posse deste ponto estratégico, Loison só irá progredir até Vila Real (3 de Maio), Mesão Frio e próximo da Régua, encontrando sempre a resistência de destacamentos do exército de Silveira. Em Vila Real (retomada por Silveira a 8 de Maio) os franceses tomam conhecimento “das grandes mobilizações que tinham sido feitas em Portugal, além do movimento do Exército Luso-Britânico em direcção ao Norte” (De Nayles). A 11 de Maio, Loison inicia o movimento de retirada, sempre acossado pelas tropas de Silveira, que o combate em Moure, a 12, levando-o a abandonar Amarante e continuando a persegui-lo.
Por onde passa, Loison deixa um rasto de destruição e morte. Mas é o princípio do fim da 2ª invasão: a resistência popular e o exército do general Silveira, sem auxílio exterior, combatem, esgotam e desmoralizam irreversivelmente os franceses.


FIM DA SEGUNDA INVASÃO

Em meados de Março de 1809, Beresford assume o comando do exército português e inicia o processo da sua reorganização. A 22 de Abril, acompanhado de 20000 homens, o general Wellington desembarca em Lisboa e toma o comando do exército britânico no país. Os dois chefes militares articulam-se e organizam o exército luso-britânico, que vai avançar para Norte, iniciando uma fortíssima pressão militar sobre os franceses.
Soult verifica a impossibilidade de resistir e decide a retirada, o que em muito facilita a Wellington a tomada do Porto. Em fuga, os franceses fazem explodir tudo o que lhes impede a rapidez de andamento (artilharia, carros de transporte e até o produto dos saques), desfazem-se da própria caixa militar e optam por um caminho difícil mas inesperado para os seus perseguidores.
Perseguido pelas tropas anglo-lusas, o exército francês tem ainda de enfrentar a resistência desesperada das milícias e dos populares, que fazem guerrilha por todo o lado, matando centenas de soldados invasores. Devido ao caminho imprevisto que escolheu e às horas de avanço que tem, Soult consegue escapar, evitando uma derrota fatal. Mas tem de enfrentar as dificuldades do caminho, um tempo invernoso, a fome, doença e exaustão dos soldados, as pontes de Saltadouro e de Misarela, cujas trágicas passagens tiveram de ser conquistadas violentamente.
Soult, à frente de um exército em estado moral e material calamitoso, atravessa enfim a fronteira da Galiza de 17 para 18 de Maio. Dos cerca de 23000 homens com que entrou no país conseguiu salvar pouco mais de 15000 – um bem trágico final para a “bela expedição” de que o imperador o encarregara.




(Desenho a lápis do capitão Manuel Isidro da Paz - Arq. Nac. Torre Tombo)
PELA INTERNET

Manuela Catarino

Muito longe estariam os marechais de Napoleão, em 1809, quando procuravam cumprir as ordens recebidas, de que os seus planos de batalha, as suas memórias, os pormenores dos estandartes das suas companhias, ou, simplesmente as imprescindíveis ordens do dia, tudo sempre tão ciosamente guardado, estivesse hoje, para nós, à simples distância de um click…
A acessibilidade, que a rede nos permite, a Bibliotecas, Fundos Documentais, Museus, ou a espaços pessoais (os famosos “blogs”) onde se disponibiliza e partilha todo o tipo de informação, facilita a obtenção de dados que, de outra forma, seria impensável visualizar com a rapidez e fiabilidade que todos conhecemos. A propósito do tema “Invasões Francesas”, em particular a chamada 2ª Invasão, aqui deixamos nota de alguns “links” para uma pesquisa mais personalizada de quem se interessa por estas temáticas.

O município de Amarante, por ocasião das Comemorações da 2ª Invasão Francesa em Amarante, apresenta um interessante espaço com Galeria e Vídeo, excertos da Recriação Histórica, bem com alguma Bibliografia específica, entre outros aspectos.
Basta um click em http://amarantesegundainvasao.blogspot.com

Também a região de Albergaria-a-velha, outro dos cenários da 2ª Invasão, mereceu destaque, a partir de Março de 2009, nas postagens feitas e cruzadas com referências à História Local. Para saber mais: http://blogdealbergaria.blogspot.com

Outra forma de olhar sobre os espaços percorridos pelas tropas francesas é-nos apresentado pelo Grupo Portuense de Montanhismo. Recordando o percurso efectuado pelo II Corpo do exército francês, no mês de Maio de 1809, apresentam-se fotos e iconografia específica. Olhemos, pois, http://gpmcaminhadas.blogspot.com

Uma rápida e ilustrada pesquisa sobre Invasões Francesas poderá ser sempre feita n’O Portal da História. Neste mesmo espaço, o seu autor, Manuel do Amaral, apresenta um trabalho de investigação sobre as transformações verificadas no Exército Português entre 1793 e 1823, com particular incidência na iconografia do período das Invasões Francesas. Consulte-se : http://www.arqnet.pt

Figura incontornável neste tema é a do próprio Napoleão Bonaparte. De entre muitos e variados espaços que, na net, a ele se dedicam, merece atenção um blog que apresenta um conjunto assinalável de informação sobre a figura de Napoleão e o contexto em que viveu. Curioso o projecto que nele se apresenta – a juventude de Napoleão em Banda Desenhada. Texto em francês.
A visitar: http://napoleonbonaparte.wordpress.com
Os apaixonados pelas miniaturas poderão encontrar um vasto manancial de informação e expressivas fotografias num espaço peculiar. Ainda que escrito em francês, o seu autor surpreende quem o visite. Destacamos, neste caso, a área sobre La campagne d’Espagne, que inclui miniaturas e maquetas de várias situações ocorridas na campanha peninsular das forças napoleónicas. A não deixar de descobrir em : http://el-frances.over-blog.com

Tesouro inestimável que deixamos à consideração de quem quiser dispor de uma visita ao Arquivo da Torre do Tombo. Um documento iconográfico produzido pelo capitão Manuel Isidro da Paz, entre Fevereiro e Julho de 1812. Um álbum de desenhos a lápis retratando pormenores da vida militar, paisagens rurais, interiores, vida quotidiana, retratos, esboços, uniformes…
Para um primeiro relance : http://antt.dgarq.gov.pt consultando o link especifico – As Invasões Francesas – Eventos em Documentos



SUGESTÕES DE LEITURA


MEMÓRIAS DO MARECHAL SOULT sobre a guerra em Espanha e Portugal
Introdução e notas de António Ventura, Livros Horizonte, Lisboa, 2009.
Soult, um dos mais destacados chefes militares de Napoleão, que depois da queda deste, em 1815, ainda desempenhou elevados cargos politicos em França - embaixador, ministro e Presidente do Conselho de Ministros - quis testemunhar o seu tempo através da escrita das suas memórias. Não chegou a vê-las publicadas, o que seria feito por seu filho em 1854, três anos depois da sua morte.
Este livro contém a parte relativa à Guerra Peninsular. Revela um homem extremamente lúcido e crítico em relação a muitas opções estratégicas de Napoleão. Longe de ser uma descrição enfadonha de movimentações militares, é um testemunho vivo de uma época, bem escrito e servido por uma boa tradução.


O PORTO E AS INVASÕES FRANCESAS -1809/2009. 4 vols, coordenação de Valente de Oliveira, edição conjunta do jornal PÚBLICO e da Câmara Municipal do Porto, 2009.
Trata-se de uma obra monumental - mais de mil páginas nos quatro volumes - que reune trinta e sete comunicações, relacionadas com a segunda invasão francesa e escritas por especialistas, professores universitários de todas as universidades portuguesas onde se ensinam e investigam temas de História e também de algumas iniversidades do Reino Unido, França e Espanha.

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TORRES VEDRAS E A SEGUNDA INVASÃO

Tudo se passou bem longe de Torres Vedras, ao contrário do que sucedera um anos antes, na primeira invasão. Mas sabia-se que a missão de Soult era chegar a Lisboa, vindo do Porto, pelo litoral. Se acaso não tivesse sido detido, Torres Vedras voltaria a sofrer a guerra do invasor. Havia, pois, que tomar providências. É o que vemos nestes dois excertos do Livro de Acordãos da Câmara Municipal de Torres Vedras, compilados por Venerando de Matos.

Torres Vedras fortifica-se

“Illustrissimos senhores vereadores:
“Tendo sido mandado por Sua Alteza Real para fortificar provizoriamente esta villa,” (Torres Vedras) “precizo par por em pratica o q se tem projectado que Vossas Senhorias me fornessão na manhã de segunda feira dez do corrente (...) na meia laranja da Ponte de Mentira o seguinte: trinta trabalhadores, dez enxadas, dez cêstos, quatro picaretas, duas paviolas e dois (...?) - Torres Vedras oito de Abril de 1809”
“Tenente Coronel de Enginharia; Cypriano José da Silva, encarregado pella Regencia em nome de Sua Alteza Real para a Fortificação d’esta villa”
(in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, ff. 193v-194, AMTV) .

Torres Vedras melhora o sistema de comunicações

“Tendo-se estabelecido signaes em cazo de rebate para avizar os Povos pertencentes a esta capitania mór, se determinou por ser o metodo mais facil o uzarem de foguetes para o que se fazem precizos quatro duzias de foguetes de quatro respostas cada hum. Rogo portanto a Vossa Senhoria queira mandallos apromptar com toda a brevidade como tambem seis covados de sarafina ou outra qualquer fazenda encarnada que devem servir para signaes de Faxos”
(oficio do Governo Militar, datado de 6 de Abril de 1809, enviado à Câmara de T.Vedras, in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, f.196, AMTV) .




(Ex-voto da Irmandade das Almas, pormenor, Igreja de S. João das Taipas, Porto)


A TRAGÉDIA DA PONTE DAS BARCAS

José NR Ermitão

Na memória colectiva nacional a tomada do Porto pelos franceses durante a 2ª invasão estará sempre relacionada com o desastre da Ponte das Barcas.
Aterrorizados com a chegada dos franceses, uma multidão de portuenses tentou passar para Gaia utilizando a ponte de madeira assente sobre barcaças que então ligava as duas margens. A tragédia subsequente é arrepiante e conhecida. Apresentamo-la descrita por Arnaldo Gama (1828-1869) na obra O Sargento-Mor de Vilar, Episódios da invasão dos franceses em 1809.
Do romance citado, diz o próprio autor que «Não fiz mais do que ir às partes oficiais, aos escritos e manuscritos de alguns contemporâneos, copiá-los e dialogá-los. Um historiador pode escrever a história da 2ª invasão pelos feitos do meu Sargento-Mor de Vilar». De facto, a sua leitura oferece um vivo panorama da invasão desde o seu início até à tomada do Porto, da província do Minho no princípio do século XIX (seu estado social, movimentos populares, mentalidades), do estado do exército, da acção de alguns militares e outros importantes aspectos.

Seguiu-se depois aquela medonha quarta-feira de cinza, 29 de março de 1809, memorável nos anais do Porto pelas desgraças e atrocidades que nela tiveram lugar. (...)
Luís Vasques e o sargento (de Vilar) dirigiram-se à pressa para o lado da ponte. Precedera-os porém compacta e monstruosa massa de povo, que se lançava, correndo, para ela... mas apenas (os dois amigos) tinham dados uns passos para a frente, quando pararam assombrados por um grito pavoroso, medonho e terrível de agonia dilacerante... Era horrendo o espectáculo diante de que se achavam.
A meio da ponte, aquela massa compacta de fugitivos estava como que estacada diante de um abismo, pelo qual se sumiam, uns após outros, homens, velhos, crianças e mulheres; e mais atrás desse medonho sorvedouro, os parapeitos de madeira arrebentados vomitavam pelas aberturas milhares de pessoas sobre o rio.(...)
Depois que o bispo e o general Parreiras passaram para... (Gaia)... os que estavam de guarda à ponte fizeram levantar um dos enormes alçapões que ela tinha a meio, sem se lembrarem que era naturalmente por ela que a cidade se havia de esvaziar logo que os franceses se assenhoreassem das linhas.
Assim aconteceu. Os habitantes, dementados pelo pavor, correram à ponte, como estrada de salvação... Ao chegar junto dela, aquilo era uma massa compacta e apertadíssima onde mal se podia respirar – e aquela massa compacta lançou-se por ela... cada vez mais comprimida e cada vez mais alucinada... impelida pelo terror.
Ao chegar a meio da ponte estacou um momento... É que diante daquela massa compacta... estava um abismo, estava aquele terrível boqueirão, que a estupidez humana deixara após si ao fugir. As primeiras dezenas de pessoas sumiram-se de repente na voragem, sem terem tempo sequer para fazer um esforço para estacar, sem terem tempo para mais que para soltar aquele brado pavoroso de medonha agonia, aquele grito de alarme contra a morte, que de súbito e à traição se lhe abria debaixo dos pés... Todos pretenderam estacar, firmar-se, não ir mais avante; mas a força da impulsão, que lhes comunicavam os que vinham de trás, era mais forte do que a da repulsão da agonia dos que viam aos pés o abismo; e centenas e centenas de pessoas continuaram a sumir-se por aquele medonho boqueirão. Era um só brado de desespero o alarido... por fim as forças dos que resistiam puderam quase equilibrar-se com as dos que empurravam para a frente. O número dos que se sumiam pelo boqueirão abaixo começou a... (diminuir); mas a imensa (massa de gente)... comprimida nas extremidades, começou a alargar ao centro... sobre as guardas da ponte... (que) não puderam dilatar-se mais; estoiraram, e por aqueles dois enormes rombos lufaram imediatamente... centenares e centenares de pessoas.
(...) No rio, junto da ponte, viam-se milhares de desgraçados, aferrados uns aos outros... ora aparecendo, ora desaparecendo, e depois... deslizando em fieira, a debater-se sempre, pela corrente do rio abaixo. Mais além já eram cadáveres... que boiavam à tona da água; e só longe... é que aquela medonha pavezada se ia desfazendo pouco a pouco, pedaço a pedaço, até que de todo mergulhava e sumia.
O alarido dos que... se achavam subitamente em frente da morte e o dos que de terra presenciavam esta imensa desgraça, com a morte também a poucos passos... – porque os franceses desciam pela rua... abaixo, lançando um chuveiro de balas – era medonho, tremendol... Naquela meia dúzia de palmos de terra, naquela estreita ponte de madeira que se estendia sobre o Douro, representou-se naquele dia uma cena que compendiou em breve resumo tudo quanto a agonia e o pavor têm de mais...horroroso.(…)

A soldadesca corria desenfreada pelas ruas, arrombando casas, entrando nas já arrombadas, roubando tudo o que achavam em dinheiro e atirando os trastes (/móveis) e roupas para o meio da rua. Espancavam toda a gente, e cometiam toda a ordem de desacatos, sem respeitarem velhos, mulheres ou crianças... nem escaparam os conventos das freiras... Os excomungados não queriam senão botas e camisas; e de dinheiro só o metal... Aqui e ali via-se gente morta... fuzilavam por dá cá aquela palha qualquer homem... (...)
Aqueles três dias de saque foram três dias de inferno. Hoje o Soult saiu com uma proclamação, em que dizia que o Porto devia ser queimado por ter resistido, mas que ele lhe perdoava.


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FICHA TÉCNICA:
Coordenação: Joaquim Moedas Duarte
Textos: José Ermitão Manuela Catarino Venerando de Matos
Concepção Gráfica: José Pedro Sobreiro
Execução Gráfica: Carlos António Ferreira



21/08/09

ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS NO FORTE DE ALQUEIDÃO



No Forte de Alqueidão, Sobral de Monte Agraço, está a decorrer uma campanha de escavações para pôr a descoberto o conjunto de estruturas militares que faziam parte daquele complexo. Ver site da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, AQUI

08/08/09

BADALADAS - TEXTO 35 - 7 AGO 2009

A 2ª INVASÃO FRANCESA (3)

ÀS ARMAS, PORTUGUESES, ÀS ARMAS!


JOSÉ NR ERMITÃO


No artigo anterior referi que os Governadores do Reino, perante a possibilidade de uma nova invasão, emitem nos dias 9 e 11 de Dezembro de 1808 duas proclamações declarando o levantamento em armas de toda a nação contra os franceses. Porque terá sido a única vez na nossa história que proclamações destas foram feitas – a nação estava em perigo! – Transcrevo-as parcialmente (grafia actualizada).

Proclamação de 9/12/1808:

“ (...) portugueses, não basta ter uma vez vencido; é necessário para conservar a Liberdade opor uma barreira irresistível aos novos esforços do insaciável Napoleão... (...)
Às armas, portugueses, às armas! A necessidade exige que a massa da nação em-punhe as armas; e todas as armas na mão robusta de um defensor da Pátria são instrumentos decisivos da vitória. O governo vigia sobre a subsistência dos exércitos; e onde não chegam os recursos ordinários das rendas públicas suprem os donativos dos vassalos... (...) A Inglaterra, a generosa Inglaterra... nos vem dar o exemplo que devemos imitar. (...) E nós, mais do que ela interessados na defesa da nossa independência, ficaremos agora numa mole e insensível apatia? (...)
Portugueses, contra um inimigo poderoso e vigilante não deve haver descuido. Se não quereis ser vis escravos, se não quereis ver ultrajada a santa religião, vilipendiada a vossa honra, insultadas as vossas mulheres, trespassados das baionetas os vossos inocentes filhos e aniquilada para sempre a glória de Portugal, corramos todos a afrontar-nos com o inimigo comum, unamos as nossas armas às dos honrados espanhóis e às dos intrépidos ingleses... A Nação que quer ser livre nenhuma força a pode tornar escrava. Uma Nação levantada em massa tem uma força irresistível. (...).”

Proclamação de 11/12/1808
“ (...) que toda a Nação Portuguesa se arme pelo modo que a cada um for possível: que todos os homens, sem excepção de pessoa ou classe, tenham uma espingarda ou pique com ponta de ferro... e (se arme) de todas as demais armas que as suas possibilidades permitirem. Que todas as cidades, vilas e povoações consideráveis se fortifiquem tapando as entradas e ruas principais com dois, três ou mais traveses para que, reunindo-se aos seus habitantes todos os moradores dos lugares, aldeias e casais vizinhos, se defendam ali vigorosamente quando o inimigo se apresente; (...)
Que todas as Câmaras... remetam no espaço de oito dias... (ao) Governador de Armas da respectiva província, uma relação das pessoas que... forem mais capazes para as comandar... que todos os Generais encarregados dos Governos das Armas (regiões militares)... examinem o estado das Companhias, nomeiem para oficiais delas... (quem) julgarem mais dignas e capazes..; (...)
Que todas as Companhias se reúnam nas suas povoações todos os domingos e dias santos para se exercitaram no exercício das armas que tiverem e nas evoluções militares, compreendendo todos os homens de quinze até sessenta anos. (...)”

E termina ordenando a pena de morte a quem se recusar à defesa do país ou auxilie o inimigo, e o arrasamento das povoações que não se defendam ou colaborem com o inimigo.
Como também foi referido no anterior artigo, a situação do exército era péssima. E a correspondência do general Bernardim Freire, tanto revela essa situação como a vontade popular em resistir e em se defender: “De toda a parte se queixam de falta de munições e de meios de defesa... (...) entretanto o que dá muitas esperanças é o muito que os povos parecem animados a defender a nossa causa”; “a cada passo me lastimo do estado em que se acha a nossa tropa, armada... com chuços e espingardas sem baionetas...sem oficiais capazes de as comandar”. Mas “anima muito observar a boa vontade que o povo em geral mostra em se defender e que resiste a todas as privações...”.
Faltam armas, munições e organização, haverá mesmo momentos de anarquia que inutilizam o valor da intervenção popular – mas é com um exército onde o elemento popular (milícias e ordenanças), militarmente enquadrado, supera a tropa regular que se vai organizar a tenaz e vitoriosa resistência contra os invasores.


05/08/09

FRENTE OESTE - TEXTO 24 - 16 JUL 2009




CENA HISTÓRICA COM TOQUE DE AQUILINO

João Flores Cunha

As Guerras Napoleónicas deixaram marcas profundas na sociedade portuguesa. Ao longo do século XIX, e até hoje, elas repercutem-se sem cessar quer na memória popular quer na História e na Literatura. Este fenómeno não é único em Portugal. Não só na Inglaterra e em França, mas também em muitos outros países, há uma imensa biblioteca que se debruça sobre esta época, mostrando expressivamente que ela é a porta da modernidade política, social e cultural europeia.
Registamos hoje um apontamento de um nosso leitor e colaborador, sempre atento e oportuno, que no-lo enviou como exemplo desta realidade.

Aquilino Ribeiro (1885/1963) num dos seus últimos grandes romances, A Casa Grande de Romarigães (1957), uma crónica romanceada através de nove gerações de um morgadio do Alto Minho, dá-nos a conhecer, quer o modo de vida e as relações inter-sociais coevas, quer episódios da nossa história com relevância local. Como não podia deixar de ser, num dos capítulos deste livro são descritos alguns episódios da segunda invasão francesa, dos quais transcrevemos este:
"Soult era, por temperamento ou cálculo, mais moderado que os outros marechais de França que comandaram as tropas de invasão e procurou reprimir as suas feras.
Chegou mesmo, à semelhança das abelhas que batem as asas à porta do apiário, a dar lugar com suas anaçadas atitudes a que um hausto de refrigério aliviasse em seus transes a terra acalcanhada. Dado o seu génio clemente e generoso, o melhor era a gente entregar-lhe corpos e almas. E uma embaixada dos 36 maiores do Distrito, tonsurados e bacharéis, banqueiros e industriais, foi ao Porto dizer-lhe:
- O nosso rei fugiu para o Brasil e é um covarde, um traste, um biltre indignamente ungido de Deus; é provável que nas âmbulas só houvesse azeite rançoso. Ninguém lhe tinha respeito, a mulher fartou-se de lhe sujar as barbas. Arranje-nos outro, Mossiú, que nós aceitamo-lo. Mas arranje-no-lo depressa, que isto de povo sem um reizinho é como cego sem bordão. E aqui para nós: bem empregado pontapé que Mossiú Junot lhe deu na bunda! Agora diga-nos: Quando é que nos arranja um sucessor...?! Nós não podemos passar sem rei, não podemos, venha ele donde vier, de casa ou de fora, feito ao torno ou filho duma saca de maganas. Tome nota, Mossiú...
O duque da Dalmácia viu-lhes os rostos contorcionados pela angústia e o olhar dúbio; ouviu suas palavras pressurosas a jurar pelo pai, pela mãe, por Cristo - e avaliou à justa do que valia aquela delegação de carneiros. Teve dó, teve nojo?! Limitou-se a despedi-los com irónica amenidade e duas palavras de falso agradecimento, em nome do Imperador."


FRENTE OESTE - TEXTO 23 - 9 JUL 2009


DUQUE DE WELLINGTON


Maria Guilhermina Pacheco




Artur Wellesley, nasceu em Dublin a 1 de Maio de 1769, seguiu a carreira militar, tendo frequentado o colégio de Eton, ausentou-se de Inglaterra com a família, recebendo parte da sua formação em França. Em 1786 estava de regresso assentando praça no 75º regimento.
Tem um papel muito activo em combates e acontecimentos, relacionados com a defesa da Grã-Bretanha na política internacional, destacando-se a sua participação na luta contra o bloqueio continental, contabilizando êxitos militares que lhe proporcionarão o desenvolvimento de uma carreira que o celebrará.
Em 1807, seguiu com a expedição que bombardeará Copenhaga, iniciando a reacção Inglesa ao bloqueio, mas será na Península Ibérica que a sua acção contra os franceses vai somar êxitos, ficando ligado à História dos países peninsulares.
Desembarca na Figueira da Foz, em 1808, vencendo as tropas de Junot, em Roliça e Vimeiro, assinando posteriormente a Convenção de Sintra, que pelas facilidades de retirada dadas aos franceses, foi muito contestada, mas Wellesley, sai ilibado, em tribunal militar, desta responsabilidade.
Regressa à Península somando êxitos, em Espanha, a vitória de Talavera (1809) e a de Vitória (1813), em Portugal a do Buçaco (1810), expulsando os franceses com o apoio das linhas defensivas de Torres Vedras.
Mas o auge da sua carreira militar foi conseguido com a derrota imposta às tropas de Napoleão Bonaparte em Waterloo, em 1815, contribuindo para o afastamento definitivo daquele, da cena política europeia.
Ser-lhe-ão atribuídos títulos de Conde de Vimeiro, Marquês de Torres Vedras e Duque de Vitória, o cargo de Marechal e o título de Primeiro Duque de Wellington.
As vitórias militares de Wellington, o “duque de ferro”, nas guerras napoleónicas favoreceram a sua ascensão a altos cargos do governo britânico. Foi nomeado comandante-chefe do exército britânico, 1827, desempenha um papel de destaque no partido conservador, e ocupa o cargo de primeiro-ministro entre 1828-30, ficando o seu governo ligado à publicação da lei de tolerância para com os católicos.
Tanto em vida como depois da sua morte, dedicaram-lhe muitas homenagens e monumentos, servindo de exemplo uma preciosa baixela de prata, desenhada e feita pelos melhores artistas e artífices portugueses, (Domingues Sequeira…) que marca uma época na história da arte portuguesa.
Morreu em 1852 tendo sido sepultado com grande pompa, na Catedral de S. Paulo, em Londres.

05/07/09

FRENTE OESTE - TEXTO 22 - 2 JUL 2009










A Associação de Defesa do Património na comemoração dos 200 anos
da Guerra Peninsular

Foi criada, nos finais do ano passado, uma Comissão Municipal para a Comemoração dos Duzentos Anos das Linhas de Torres Vedras – CM200, na qual se incluem diversas entidades representativas da vida cultural torriense, entre elas a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV). Ao mesmo tempo foi pedida a participação de todas as Associações, Escolas, etc, na elaboração de um Programa Municipal das Comemorações. Fizeram-se várias reuniões para ouvir toda a gente interessada no assunto e aguarda-se, para breve, a divulgação do Programa cujas actividades terão início em Outubro deste ano.

Para esse Programa a ADDPCTV propôs-se disponibilizar um SERVIÇO DE DIVULGAÇÂO HISTÓRICA SOBRE A GUERRA PENINSULAR, cuja concretização tem duas fases complementares. A primeira consiste na publicação de textos de divulgação histórica nos dois semanários torrienses, escritos por pessoas ligadas à História ou interessadas pela História. Esta fase iniciou-se em Janeiro de 2008, no semanário “Badaladas”, com a série “Bicentenário das Invasões Francesas”, onde já foram publicados 33 textos, numa cadência quinzenal, e um Suplemento de 4 páginas. Em Janeiro de 2009 iniciou-se, no semanário “Frente Oeste”, a publicação da série “Imagens da Guerra Peninsular”, em cadência semanal, tendo já sido publicados 22 textos. A divulgação destes textos irá prosseguir até finais de 2010, estando prevista a edição de um livro com uma selecção do que foi publicado. Simultaneamente foi criado um Blogue ( http://linhasdetorres.blogspot.com/ ) onde estão a ser reunidos aqueles textos, bem como outros dados de interesse para o conhecimento da época histórica das invasões francesas.
A segunda fase do Serviço acima referido consiste na realização, entre Outubro de 2009 e Outubro de 2010, de palestras sobre a Guerra Peninsular, nos locais que as solicitem: Juntas de Freguesia, Associações Recreativas, Culturais e Desportivas, Lares, Centros de Dia, Escolas…
A ADDPCTV está a realizar contactos com estas entidades, no sentido de as sensibilizar para estas realizações, esperando contribuir, assim, para o aprofundamento da memória colectiva, base necessária da nossa identidade cultural.

Contactos da ADDPCTV: addpctvedras@gmail.com

Apartado 50, 2564-909 TORRES VEDRAS

Av. Tenente Valadim, 17, 2º 2560-275 TORRES VEDRAS

BADALADAS - TEXTO 34 - 10 JUL 2009




A 2ª INVASÃO FRANCESA (2)

TUDO VAI SER DIFERENTE



JOSÉ NR ERMITÃO

Depois da derrota de Junot, da saída dos franceses de Portugal e da restauração da Regência portuguesa (18 de Setembro de 1808), o governo britânico deliberou apoiar abertamente a revolta espanhola. Assim, em meados de Outubro, a maior parte do exército britânico desembarcado em Portugal foi deslocado para Espanha, sob o comando do general Moore, movendo-se em direcção a Salamanca. Ao mesmo tempo, em finais do mesmo mês, tropas inglesas desembarcam na Corunha para reforçar aquele exército.
Em Salamanca, Moore toma conhecimento de que Napoleão conquistou Madrid, constata sérias dificuldades de entendimento com os exércitos espanhóis e decide retroceder para a Galiza. Em fins de Dezembro, Napoleão inicia a perseguição a Moore, perseguição que abandona a 1 de Janeiro de 1809 (para retornar a França) entregando o co-mando da expedição ao general Soult. Este prossegue no encalço dos ingleses que, apesar de esgotados, enfrentam os franceses próximo da cidade Corunha numa batalha que possibilita que o grosso do exército inglês embarque e se ponha a salvo.
Este movimento permite aos franceses a conquista parcial da Galiza; e é depois de instalado na cidade da Corunha que Soult recebe, a 28 de Janeiro de 1809, as instruções para invadir Portugal.


AS MUDANÇAS EM PORTUGAL


Exceptuando o mau tempo e os maus caminhos, a 1ª invasão francesa constituiu um passeio militar: o país estava política e moralmente desarmado devido à desorientação da Coroa e não ofereceu resistência militar aos invasores; pelo contrário, D. João or-denou que fossem recebidos e tratados como amigos. Só a partir de Junho de 1808 é que os portugueses se revoltaram e iniciaram acções de combate contra os franceses.
Na 2ª invasão tudo vai ser diferente: do primeiro ao último dia os invasores en-frentam uma feroz resistência que os desgasta, os desmoraliza e os derrota mesmo an-tes do auxílio britânico.
Os Governadores do Reino, depois de saberem da presença de Napoleão em Ma-drid e da retirada de Moore, tomam consciência de que Portugal seria a próxima presa do imperador francês e deliberam a reorganização militar do país. A 9 e 11 de Dezembro emitem duas proclamações declarando o levantamento em armas de toda a nação contra os franceses e tomam um conjunto de medidas para a reorganização do exército.
O estado do exército era lamentável: Junot tinha-o desorganizado e desarmado e os melhores quadros estavam ausentes do país. Assim, o governo apela a que os oficiais e soldados dos regimentos dissolvidos pelos franceses se reúnam de novo em locais determinados; criam-se unidades de infantaria e cavalaria; criam-se corpos de voluntários em Lisboa, Porto e Coimbra; definem-se cinco regiões militares e nomeiam-se generais ou brigadeiros para o seu comando – pelo seu papel na resistência contra o exército francês de Soult são de referir a região militar do Porto e Minho, sob o comando do general Bernardim Freire, e a região militar de Trás-os-Montes, comandada pelo brigadeiro Francisco da Silveira; e são restabelecidos os regimentos de milícias e de ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas, de âmbito regional e local, mas de importância absoluta na ausência de um exército regular devidamente disciplinado, armado e treinado.
Por último, consciente das insuficiências do exército e da necessidade de as ultrapassar, o governo solicita à Inglaterra o envio de um general competente para comandar o exército português; Londres envia o tenente-coronel William Beresford, que é nomeado comandante do exército em meados de Março, quando a 2ª invasão está no início. Sem perdas de tempo, este irá reorganizar o exército português transformando-o numa má-quina bélica cuja eficácia será plenamente demonstrada contra Massena na 3ª invasão.
Por isso, quando Napoleão, nas instruções a Junot, considera que é “pouco presumível” que ele encontre “grandes obstáculos” na “bela expedição” de que o encarrega – a encarniçada resistência nacional vai demonstrar-lhe quanto estava errado: haverá mesmo grandes obstáculos e tantos que se traduzirão em mais uma derrota do seu im-perial exército.

BADALADAS - TEXTO 33 - 26 JUN 2009






A 2ª INVASÃO FRANCESA (1)

AS INSTRUÇÕES E A REALIDADE


JOSÉ NR ERMITÃO


No dia 28 de Janeiro de 1809, alguns dias após a ocupação da cidade da Coru-nha, na Galiza, o general Soult recebe instruções escritas de Napoleão para invadir Portugal pelo norte do país, tomar a cidade do Porto e marchar sobre Lisboa. Neste movimento de conquista, seria apoiado pelo general Lapisse, estacio¬nado em Salamanca, e pelo general Victor, posicionado em Mérida.
Lapisse deveria dirigir-se para Abrantes, depois do Porto ter sido tomado, e Victor deveria atravessar o Alentejo “em apoio do vosso movimento... (para Lisboa) caso en-contreis grandes obstáculos para a sua conquista, possibilidade pouco presumível”. As instruções referem datas – “Sendo hoje 21 de Janeiro, não podereis atingir o Porto antes de 5 de Fevereiro, ou Lis¬boa antes de 16” – e terminam com uma frase plena de optimismo: “O Imperador tem uma confiança ilimitada na vossa competência para a bela expedição de que vos encar¬rega”.
Soult dispunha de 24 000 homens, Lapisse de 8 000, e Victor de 22 000 – num total de 54 000 homens, distribuídos por infantaria (maioritária), cavalaria, artilharia e logística. Por ausência de comunicação e por dificuldades militares ocorridas em Espanha, os generais Lapisse e Victor nunca chegarão a invadir o país. E Soult, que tomou o Porto, encontrou dificuldades de tal modo insuperáveis que permaneceu em Portugal unicamente durante dois meses e uma semana: cruzou a fronteira a 10 de Março e, derrotado e em fuga apressada, abandonou o país no dia 17 de Maio de 1809.


MUDANÇAS EM ESPANHA


Ao insistir de novo na conquista de Portugal, Napoleão ou ignorava as mudanças ocorridas no país ou nada aprendeu com o fracasso da 1ª invasão, nem com o que se estava a passar em Espanha. A 1ª invasão ocorreu num quadro de amizade entre Napoleão e a Coroa espanhola, que colaborou com Junot na ocupação militar do país; no pe-ríodo da 2ª invasão toda a Espanha estava em estado de revolta contra os franceses.
De finais de 1807 a Fevereiro de 1808, Napoleão, embora continuando a protestar amizade com a Espanha, foi invadindo-a lentamente com 100 000 homens e ordenou a conquista das cidades de Pamplona e Barcelona. Quando a Corte espanhola percebeu os objectivos dos franceses era já demasiado tarde; uma facção aristocrática patriótica revoltou-se, obrigou o rei Carlos IV a abdicar e o seu filho, Fernando VII, tomou o poder. Madrid foi entretanto ocupada pelo general francês Murat e Napoleão, que não reconheceu Fernando VII como rei, chamou Carlos IV e o filho a Baiona, em França, e de forma sinuosa acabou por fazê-los abdicar a ambos em si próprio (30 de Abril de 1808). Para rei de Espanha, Napoleão resolveu nomear o seu irmão José.
Perante a ocupação francesa, toda a Espanha se revoltou a partir de Maio e Junho de 1808, formaram-se juntas governativas provinciais, ergueram-se exércitos patrióticos que enfrentaram os exércitos franceses e um deles, na batalha de Bailen (19-21 de Ju-lho), infligiu uma derrota devastadora ao exército francês.
Perante esta derrota impensável, os franceses abandonam em parte a Espanha; mas Napoleão resolve dirigir pessoalmente a campanha militar espanhola: entra em Es-panha a 3 de Novembro de 1808 com 200 000 soldados experientes e declara os seus objectivos: “Estou aqui com os soldados que venceram em Austerlitz, em Jena, em Eylau. Quem lhes vai resistir? Certamente que não vão ser as maltrapilhas tropas espanholas que nem combater sabem. Conquistarei a Espanha em dois meses e adquirirei sobre ela direitos como conquistador.” Derrota de facto os exércitos espanhóis, entra em Madrid a 4 de Dezembro, reafirma José como rei de Espanha e ameaça com repressão violenta quem se opuser os seu domínio.
Mas os espanhóis são resistentes pertinazes, são auxiliados pela Inglaterra, reerguem novos exércitos e aplicam um novo e eficaz modo de combate: a guerrilha. As maltrapilhas tropas espanholas enfrentam os exércitos franceses, derrotam-nos, desgastam-nos, desmoralizam-nos – e tanto que Napoleão reconhecerá anos mais tarde que “essa maldita guerra de Espanha... perdeu-me”. De facto, foi na Península Ibérica que se iniciou o seu fim.

22/06/09

FRENTE OESTE - Texto 21 - 25 JUNHO 2009






UM TÚMULO NO MEIO DA PAISAGEM
J. Moedas Duarte (texto e fotos)

Quem visitar os campos da Roliça – concelho de Óbidos – onde, em 17 de Agosto de 1808, se deu a batalha entre os aliados anglo-lusos e os franceses, encontrará um monumento tumular no meio dos pomares de macieiras, tão característicos da região. Impressionante monumento! Não pela grandeza ou adornos funerários, que não tem, mas pela localização solitária e o poder evocativo da sua simplicidade. Ali repousam os restos mortais do coronel Lake, comandante do 29º regimento inglês.
Recordemos: naquele 17 de Agosto o general francês Delaborde - que esperava reforços do general Loison - dispusera as suas tropas nos campos da Roliça, para fazer frente ao exército inglês de Sir Arthur Wellesley, no qual se haviam integrado algumas forças portuguesas. Loison tardava e as tropas aliadas, aproveitando a superioridade numérica, desencadearam o ataque. Delaborde faz uma retirada estratégica para os altos da Columbeira, uma formidável fortaleza natural formada pelos afloramentos rochosos que dominam o Vale do Roto, ainda hoje um lugar de paisagem magnífica. Os ingleses têm agora de desalojar daqueles picos (Alto do Picoto…) o entrincheirado inimigo, mas o êxito só é possível com uma manobra de envolvimento, “em tenaz”. Aos flanqueadores pede-se rapidez na manobra, enquanto os do centro progridem lentamente pelas ravinas acima.
É aqui que o impaciente coronel Lake, no centro do dispositivo inglês, decide um rápido ataque frontal à cumeada onde os franceses dispõem de uma invejável posição defensiva. Mais do que valentia, é temeridade que ele demonstra. Rodeados de inimigos, os homens do 29º defendem-se como leões mas são obrigados a recuar. No terreno jazem 50 mortos, entre os quais o seu comandante Lake, que ali serão inumados após a batalha.
Noventa anos depois destes acontecimentos, o 29º regimento pára em Portugal, na viagem de regresso a Inglaterra depois da Guerra dos Bóeres na África do Sul. Fiel à tradição, o regimento visita a Roliça para homenagear os seus antepassados mortos. Fazem-se escavações. Pelos despojos encontrados, são reconhecidos os restos mortais do lendário coronel Lake que emocionadamente depositam no singelo túmulo que ali constroem.
No silêncio da paisagem este monumento, mais do que lembrar um nome, perpetua a memória de tantos soldados desconhecidos que aqui se bateram na Guerra Peninsular.


15/06/09

FRENTE OESTE - Texto 20 - 18 JUNHO 2009





[ Batalha do Vimeiro. Água-forte de Domingo Escoppetta, Biblioteca Nacional Digital de Portugal]





BATALHA DO VIMEIRO


Pedro Fiéis



Após a vitória na Roliça, em 17 DE Agosto de 1808, Sir Arthur Wellesley espera reforços vindos de Inglaterra e procura local apropriado para o seu desembarque. Opta por Porto Novo, na foz do Alcabrichel e prepara um dispositivo militar de protecção.
Junot, aquartelado em Torres Vedras, ao tomar conhecimento do desembarque, decide em conselho de guerra lançar as suas forças disponíveis – cerca de 14 000 homens – num ataque de surpresa. A estrada escolhida, por Vale de Canas e Vila Facaia, está em péssimas condições, dificultando a marcha. A ponte de madeira em Paio Correia mais a dificulta e as patrulhas inglesas logo se dão conta desta imensa movimentação. Avisado, o general Wellesley modifica o seu dispositivo, reforçando a colina do Vimeiro e deslocando forças para o Alto da Ventosa.
As tropas de Junot estavam bastante cansadas e desgastadas por combates recentes, como o da Roliça, dias antes. Mesmo assim, ele manda avançar os generais Travot, Charlot e Tomières que encabeçam o ataque de três colunas em direcção à colina do Vimeiro. Solignac avançaria por Toledo em direcção à Ventosa, numa tentativa de contornar o dispositivo inglês e Brennier iria mais ainda pela ala direita seguindo pela estrada da Lourinhã até virar para Pregança.
Á sua frente, dispersa no terreno, estava a infantaria ligeira inglesa com seus atiradores, que os franceses não conseguiram expulsar das suas posições. Só com a chegada das colunas é que retiraram. De súbito, no topo da colina surgiram as linhas inglesas que a uma distância de 20 passos dispararam um fogo mortal, coadjuvado pela chuva de balas proporcionada pelas granadas Shrapnel, acabando com este ataque em pouco mais de meia hora.
Desorganizadas, as colunas francesas dispersam-se em fuga. Junot ordena, então, o avanço de metade da reserva de granadeiros, as suas melhores unidades. Estes sobem a encosta, mas são recebidos por um fogo mortal dos ingleses, formados em linha. Com perdas enormes, os franceses retiram.
A outra metade da reserva de granadeiros franceses ainda organiza um contra-ataque, chegando ao largo da igreja matriz do Vimeiro. Mas aí são surpreendidos pelas tropas de reserva inglesas e trava-se intenso combate, com a derrota francesa.
Mais longe, na Ventosa, o general francês Solignac é também derrotado, ele próprio saindo ferido da refrega.
Todas as forças francesas participantes na Batalha do Vimeiro, derrotadas, estavam agora em fuga desorganizada de volta a Torres Vedras. Isto aconteceu em 21 de Agosto de 1808.


FRENTE OESTE - Texto 19 - 4 JUNHO 2009



FIGURAS HISTÓRICAS


D. CARLOTA JOAQUINA

Maria Guilhermina Pacheco



Carlota Joaquina de Bourbon e Bragança nasceu no Palácio de Aranjuez em Madrid, a 25 de Abril de 1775. Era filha do futuro rei Carlos IV de Espanha e de Maria Luísa Teresa de Parma.
Aos 10 anos de idade casou por procuração com o Infante português D. João, filho segundo da rainha D. Maria I, tendo vindo viver para a Corte Portuguesa.
Teve que se submeter aos chamados “ exames públicos”, e durante três dias, perante a família real e uma parte da Corte, respondeu a perguntas sobre religião, história, geografia, latim, gramática e línguas - Portuguesa, Espanhola e Francesa - tendo ficado registado na Gazeta de Lisboa (4-10-1785), que ”Sereníssima Senhora” tudo satisfez, e salienta ser difícil de “expressar a admiração que deve causar uma instrução tão vasta em uma idade tão tenra.”
O casamento só se veio a concretizar alguns anos depois, mas o relacionamento do casal não foi bem sucedido, nem a nível pessoal nem político, no entanto, a princesa seria mãe de nove filhos, como era hábito dizer na altura.
Entretanto, Carlota Joaquina adquire a Quinta do Ramalhão, à entrada de Sintra, onde viverá, separada do marido.
Entre os anos de 1805 e 1806, a relação esfriou mais, tendo para isso contribuído a chamada “Conspiração de Mafra”, cuja autoria é atribuída à princesa. A causa relaciona-se com a atribuição do título de regente a D. João, devido à doença de D. Maria, não tendo convidado Carlota para integrar o Conselho de Regência – esta não gostou.
A necessidade de viajar para o Brasil, devido à invasão das tropas francesas, no final de Novembro de 1807, veio agudizar as relações do casal.
No Brasil, a sua estadia, como toda a sua vida, apresenta versões diferentes, mas há uma característica comum, a sua tendência para a conspiração. Aqui, será para se tornar regente nas colónias espanholas, na América.
No entanto, não se concretizou, e Espanha veio a perder neste período a maior parte das suas colónias. Também se assumiu como pretendente ao trono de Espanha, por direito, era a primogénita, mas o seu pai abdicara a favor de seu irmão Fernando, que sobe ao trono como Fernando VII.
A vida do casal real, no Brasil desenvolve-se em espaços diferentes, Carlota habitará na Chácara de Botafogo e João em São Cristóvão.
Chegada a Lisboa, novamente a sua faceta politica e conspiratória continua, tornando-se uma das grandes impulsionadoras da contra-revolução, recusando-se a jurar a Constituição de 1822, tendo sofrido por isso uma condenação, ficando, no entanto, autorizada a viver no Ramalhão. Continua a conspirar contra o marido e os liberais, participando na “Vila-francada” e na “Abrilada”, golpes fracassados, mas que abriram o caminho para o torno ao seu filho D. Miguel.
Carlota Joaquina morreu no dia 7 de Janeiro de 1830.

“Em uma retrospectiva de sua vida, Carlota Joaquina poderia chegar à conclusão de que seu temperamento independente, sua personalidade autoritária, sua negação à submissão foram seus maiores obstáculos para vencer no mundo dos homens.”(AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de, Carlota Joaquina na Corte do Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.)

BADALADAS TEXTO 32 - 12 JUNHO 2009

1809: SEGUNDA INVASÃO FRANCESA

Cronologia dos principais acontecimentos

Janeiro, 28 – O marechal francês Soult, na cidade galega da Corunha, recebe instruções escritas de Napoleão para que marche pelo Porto sobre Lisboa, ao longo da faixa costeira.

Fevereiro, 13 – O exército de Soult tenta atravessar o rio Minho em Vila Nova de Cerveira.

Fevereiro, 16 - O exército francês tenta nova travessia do Minho em Caminha, na foz do rio.

Março, 7 - O general Wellesley, futuro duque de Wellington, aconselha o governo britânico a defender Portugal, demonstrando a maneira de o realizar.

Março, 8 - O general britânico Beresford é nomeado comandante em chefe do Exército português com o posto de Marechal do Exército.

Março, 10 - O corpo de exército de Soult, tendo subido o rio Minho desde a foz até Orense e dirigindo-se depois para a fronteira portuguesa, entra em Portugal pela veiga de Chaves. Começa assim a 2.ª Invasão Francesa.

Março, 12 - Soult conquista Chaves, dirigindo-se para o Porto, por Braga.

Março, 15 - O marechal Beresford assume o comando do exército português.

Março, 16 - A guarda avançada do corpo de exército de Soult, comandada pelo general Franceschi, derrota as forças portuguesas em Salamonde.

Março, 17 - O general Bernardim Freire de Andrade é massacrado perto de Braga, por populares que o acusavam de traição.

Março, 18 a 20 - Soult vence as forças portuguesas que defendiam Braga em Carvalho d'Este.

Março, 21 - O brigadeiro Silveira, comandante da divisão que defendia Trás-os-Montes, reocupa Chaves.

Março, 25 - O brigadeiro Silveira conquista o forte de S. Francisco, de Chaves, aprisionando a guarnição francesa.

Março, 27 a 29 - O Porto é atacado, conquistado e saqueado, pelo exército francês de Soult. Desastre da Ponte das Barcas, no dia 29.

Março, 31 - Uma brigada de cavalaria do exército de Soult, comandada pelo general Caulaincourt, ocupa Penafiel, dirigindo-se para a ponte de Canaveses que tenta atravessar, sendo rechaçado por forças militares portuguesas.

Abril, 2 - Wellesley é nomeado comandante-em-chefe do exército britânico na Península.

Abril, 5 - O general José António Botelho de Sousa, comandante das forças portuguesas no Minho, reocupa Braga.

Abril, 9 - O general Silveira instala as suas forças nas proximidades de Amarante.
- O marechal Beresford chega a Tomar, onde toma o comando das forças operacionais portuguesas concentradas nesta cidade.

Abril, 13 - Silveira ataca e obriga a retirar a divisão Loison, reocupando a cidade de Penafiel. Retirar-se-á por sua vez no dia 15.

Abril, 18 / Maio 2 - As forças portuguesas do general Silveira defendem a ponte de Amarante do ataque de uma força francesa comandada pelo general Loison.

Abril, 21 - Assinatura da Convenção entre Portugal e a Grã-Bretanha, sobre um empréstimo de 6.000.000 libras esterlinas.

Abril, 27 - Wellesley toma o comando do exército britânico em Portugal, substituindo sir John Craddock.

Maio, 2 - O exército britânico, comandado pelo general Wellesley, incorporando algumas unidades portuguesas, chega a Coimbra.
- Forças do exército francês comandadas pelo general Delaborde atacam a Ponte de Amarante e obrigam as forças do brigadeiro Silveira a retirar. A defesa da Ponte de Amarante durou de 18 de Abril a 2 de Maio.

Maio, 4 - O general Wellington é nomeado marechal general do exército português, por Carta Régia.

Maio, 8 - O exército português comandado por Beresford chega a Lamego, vindo de Tomar por Coimbra e Viseu.
- As forças comandadas pelo general Silveira ocupam Vila Real, obrigando a cavalaria francesa de Caulaincourt a retirar.

Maio, 12 - As forças de Silveira ataca a divisão Loison na serra do Marão, obrigando-a a retirar para Amarante.
- Wellington bate Soult no Porto, obrigando-o a retirar para Espanha por Trás-os-Montes.

Maio, 13 -- Loison retira de Amarante, impossibilitando que o exército francês de Soult pudesse vir a retirar de Portugal pela Beira.
- O marechal Beresford chega a Amarante. O exército português de operações é reorganizado em 3 brigadas de Infantaria de Linha, 1 de Milícias e 1 de Caçadores. A brigada de Silveira ocupa Penafiel.

Maio, 18 - O exército francês de Soult abandona Portugal por Montalegre. A 2.ª Invasão Francesa termina.

06/06/09

A GUERRA PENINSULAR


Trata-se das Actas do Congresso TURRES VETERAS XI, realizado em Torres Vedras em 2008 e publicadas em 2009. Comunicações: (clicar para aumentar )

















04/06/09

BADALADAS - Texto 31 - 29 MAIO 2009

A “PROTECÇÃO BRITÂNICA”


DUAS CARTAS DE LORD WELLINGTON


José NR Ermitão


As grandes potências não têm amizades, têm interesses; e quando invocam amizades ou alianças, fazem-no sempre em seu favor e pagando-se bem. Foi o que aconteceu entre a Grã-Bretanha e Portugal no século XIX. A Inglaterra protegeu-nos, é um facto, da ameaça napoleónica – protecção reconhecida “pela confiança que o príncipe regente tem posto... (na) cooperação do governo do reino e do povo daquele país”, segundo o discurso da Coroa ao Parlamento inglês em Janeiro de 1810.
Mas esta protecção teve custos elevadíssimos: a abertura do comércio brasileiro à Inglaterra e a subsequente ruína do comércio português, a utilização do país como testa de ponte pelos britânicos na luta contra Napoleão, a participação do representante inglês na regência do país, a submissão desta e do governo do Rio aos ditames ingleses e o comportamento violento dos militares britânicos.
Escreveu Napier que “Este reino foi por então reduzido à condição de estado feudatário (dependente)”. E acrescentava Luz Soriano que Portugal “sofria por então todos os males inerentes a uma semelhante situação, porque depois de roubado e devastado pelos franceses, igualmente o estava sendo pelos ingleses”.
Em artigo anterior já se referiu que os ingleses se comportavam no nosso país co-mo se tratasse de terra conquistada: eram constantes as queixas sobre os seus roubos. Mas as violências também eram cometidas por oficiais: é conhecido o caso de um coronel, em Monforte, que mantinha um cárcere privado e que, à revelia da justiça portuguesa, mandou chicotear publicamente dois paisanos, amarrados a quatro estacas...

Preocupado com o comportamento violento dos militares ingleses, escreveu Wellington em 17/6/1809 a Lord Castlereagh, membro do governo inglês:
«É impossível pintar-vos os excessos e violências das tropas (britânicas). (...) jamais elas têm estado fora da vigilância dos comandantes dos seus regimentos... a fim de impedir as violências cometidas. Pois apesar das precauções por mim tomadas... não chega postilhão nem correio, nem mesmo um só oficial vindo da retaguarda do exército, que não traga queixas contra as violências cometidas pelos soldados... (...) a nenhum destacamento permito que marche sem ser comandado por um oficial, e todavia não há violências, seja de que espécie for, que não tenha experimentado este povo, que nos recebeu como amigos, da parte dos nossos soldados, apesar destes não terem sofrido em qualquer momento a mais ligeira precisão ou privação.»
Já antes, a 31 de Maio de 1809, numa carta ao representante do seu país em Lisboa, reconhecia que os militares ingleses “roubavam terrivelmente o país que tinham vindo socorrer”, roubando não para sobreviver mas para fazer dinheiro; e pedia que os governadores do reino emitissem uma ordem proibindo o povo de comprar o quer que fosse aos militares ingleses porque certamente se tratava de produtos roubados.

E a propósito de facto de o governo britânico estar a apresentar aos espanhóis as mesmas exigências comerciais feitas antes ao governo português, Wellington, em carta a seu irmão, datada de 10/08/1810, analisava a ruinosa situação a que o seu país tinha conduzido Portugal e interrogava-se sobre a justiça do facto:
“Espero que a regência (espanhola) tenha a firmeza de resistir à (nossa) exigência de comércio livre com as suas colónias... Nós não temos... direito... da nossa parte em exigir isso. A Grã-Bretanha arruinou Portugal com o seu comércio livre com o Brasil: não só Portugal perdeu rendimentos alfandegários, como a fortuna de numerosas pessoas que viviam desse comércio ficou arruinada... Portugal estaria hoje numa situação muito diferente como aliado se o nosso comércio com o Brasil fosse feito como antes, através de Lisboa; e eu pergunto se é justo destruir o poder e rendimentos, em suma, arruinar o nosso aliado, só para pôr nos bolsos dos nossos comerciantes o dinheiro que antes ia para o seu tesouro e que, agora, seria empregado na manutenção da campanha militar contra o nosso comum inimigo”.
Não é preciso acrescentar nem mais uma palavra ao que Wellington escreveu...



FRENTE OESTE - Texto 18 - 4 JUNHO 2009

Foi nestes campos da Roliça, no concelho de Óbidos, que se desencadearam as operações militares entre o exército francês e as forças anglo-lusas.








A BATALHA DA ROLIÇA

Pedro Fiéis

Junot está em Lisboa quando recebe a notícia do desembarque dos ingleses em Lavos (Figueira da Foz) entre 1 e 8 de Agosto de 1808, os quais marchavam já rapidamente em direcção a Lisboa, sob o comando do General Wellesley. Junot decide fazer avançar a sua melhor divisão militar, sob o comando do Gen. Delaborde, com a missão de observar os movimentos do inimigo e se possível de contê-lo. Delaborde avança até Alcobaça onde lhe mostram o campo de batalha de Aljubarrota, julgado por ele como ineficaz para a guerra do século XIX, por isso retrocede para uma zona que já observara e que os mapas recolhidos pelo coronel Vincent lhe diziam ser perfeita para o que tinha em mente: os campos da Roliça, perto de Óbidos. Neste meio-termo as nuvens de pó levantadas pelos seus homens eram claramente visíveis para os ingleses, que apenas algumas horas depois entraram em Alcobaça. A presença francesa só confirmava os relatos que o general Wellesley já havia recebido e por isso resolve tomar precauções, enviando à frente do seu exército os regimentos de infantaria ligeira, em missão de observação.
No dia 15 de Agosto de 1808, estes homens encontram pela primeira vez os franceses em Brilos, mas só dois dias depois, na madrugada do dia 17, é que do alto do Moinho do Facho, em Óbidos, Wellesley observa uma linha francesa disposta numa colina. Rapidamente organiza um plano de batalha que consistia numa manobra em tenaz: pela direita avançaria o coronel Trant com cerca de 2.000 soldados portugueses, entre infantaria e cavalaria; pela direita os generais Ferguson e Bowes com duas brigadas e um reforço de artilharia; os restantes homens (3 brigadas) seguiam ao centro sob o comando do próprio Wellesley.
Não era aqui que Delaborde queria resistir, pois estava em inferioridade numérica e esperava reforços do General Loison. Por isso recua até aos Altos da Columbeira, uma verdadeira fortaleza natural. Wellesley tem de reorganizar o ataque inglês, adaptando-o ao terreno. O coronel George Lake, homem desejoso de notoriedade, apesar das determinações do comando, colocou todos os seus homens em linha e avançou por uma das ravinas acima. Ainda chegaram bem perto do topo, só um rápido contra ataque francês, comandado pelo general Brennier, pôs cobro a este avanço, do qual resultaram cerca de 50 mortos entre os quais se encontrava o próprio Lake. .
Perante isto, Wellesley ordenou um avanço geral. Delaborde, sem o esperado reforço de Loison, e perante a iminência de ser cercado, ordena a retirada. Depois de algumas escaramuças, é a debandada geral. Wellesley, prudente como sempre, prefere reorganizar as suas forças e só alguns dias depois voltará a defrontar os franceses, no Vimeiro.

FRENTE OESTE - Texto17 - 28 MAIO 2009





LAURA PERMON, A MULHER DO GENERAL JUNOT

J. Moedas Duarte



No ano 1800 Laura Permon, com dezasseis anos, casou com Andoche Junot. Dele enviuvou em 1813. Sobreviveu 25 anos, vindo a morrer em Paris, muito pobre. Porque é que o seu nome é recordado sempre que se fala na Guerra Peninsular?
Com a ascensão de Napoleão ao título de Imperador de França, a velha nobreza do Antigo Regime afundou-se e surgiu uma casta social formada pelos novos funcionários superiores do Estado e por centenas de oficiais militares do Grande Exército e respectivas famílias. Junot foi um exemplo brilhante deste novo tipo de militar. Laura Permon partilhou a sua ascensão, frequentou os salões do poder, acompanhou o marido em muitas das suas missões e de tudo o que viveu e conheceu deixou testemunho escrito. As suas memórias fazem parte de uma obra extensa – cerca de 50 volumes à data da morte, em 1838 – e são de leitura obrigatória para quem queira conhecer a vida mundana da alta sociedade desta época.
Em Março de 1805 Junot foi colocado em Lisboa como embaixador de França em Portugal e sua mulher acompanhou-o. Desta estada deixou ela pormenorizado testemunho em texto disponível em português numa edição recente (2008) da Biblioteca Nacional, com apresentação e notas de José-Augusto França: “Recordações de uma Estada em Portugal, 1805-1806”, que Laura Permon assinou como “Duquesa de Abrantes”, usando o título nobiliárquico atribuído por Napoleão a seu marido.
Como todas as memórias, o conteúdo deste escrito não tem o rigor e a credibilidade de um ensaio de História e deve ser lido com precaução e reserva, cruzando os dados que nos fornece com outros de proveniência diversa.
Ainda assim, o quadro que traçou sobre o Portugal que ela conheceu revela uma atenta e informada observadora, que em muitos aspectos corrobora as descrições de outros estrangeiros que aqui viveram por esta época. Se não poupa adjectivos elogiosos às belezas naturais e à excelência do clima, aplica registo bem contrário quando fala das pessoas e dos costumes. A Corte portuguesa, com sua pelintrice e fatuidade, sai muito maltratada da pena da Duquesa, que não resiste a compará-la com a alta sociedade europeia que ela já conhecia.

“Viajei muito, percorri o Norte e o Sul da Europa, e jamais uma cidade tão estranha, mas tão notável e também tão bonita como Lisboa, se deparou a meus olhos; jamais um céu tão lindo lançou a sua luz sobre ma cidade rodeada por uma natureza que a cumula de maravilhas; mas também jamais, em parte alguma, vi antas dádivas de Deus desprezadas e sacrificadas.”
(…)
“Estas damas do palácio (…) estavam sempre, tal como as vi, sentadas no chão em volta da Princesa [D. Carlota Joaquina] com a qual conversavam, cantavam, comiam, ou então prestavam mutuamente serviço, matando os pequenos insectos que alimentavam na própria cabeça. Mais uma vez não é um conto, EU VI!”

FRENTE OESTE - Texto16 - 21 MAIO 2009





O GENERAL JUNOT



J. Moedas Duarte



Este foi o homem de Napoleão que mais contacto teve com Portugal durante a guerra peninsular: embaixador de França no nosso país em 1805, comandante da 1ª Invasão Francesa em 1807 e comandante do 8º Corpo do Exército de Portugal na 3ª Invasão, sob o Comandante-em-chefe Massena.
Filho de um lavrador da Borgonha, Andoche Junot era estudante de Direito quando se alistou como soldado granadeiro num batalhão de voluntários da Côte d’Or , em 1791. Tinha 20 anos. Fogoso e temerário, - os colegas alcunharam-no de “Junot la Tampête” ( A tempestade) – em 1792 já era Sargento. Participou no cerco de Toulon e de tal modo que Napoleão reparou nele e fê-lo seu secretário e, pouco depois, seu ajudante-de-campo com o posto de Capitão. Ao lado de Napoleão, fez toda a campanha da Itália, onde foi gravemente ferido. Em 1798 foi promovido a General de Brigada durante a expedição ao Egipto. Governador de Paris em 1800, é nomeado General de Divisão em 1804 e Coronel-General dos Hussardos, uma das maiores dignidades do exército napoleónico.
A sua nomeação para Embaixador de França em Portugal, em 1805, parece ter sido uma compensação por não chegar a Marechal, posto supremo da carreira militar. Pouco tempo aqui ficou pois ainda neste ano acompanha o Imperador na campanha da Alemanha, onde participou na batalha de Austerlitz. Em 1806 passa alguns meses como Governador-Geral de Parma e é, de novo, nomeado Governador Militar de Paris.
Quando Napoleão decide invadir Portugal em consequência do Bloqueio Continental, é a Junot que confia o comando do Corpo de Observação da Gironda, um exército de cerca de 26 000 homens que atravessa a Espanha e entra no nosso território em 19 de Novembro de 1807. Em 30 de Novembro chega a Lisboa à frente de um pequeno destacamento pois o grosso do seu exército ficara para trás, atolado por tempestades diluvianas em caminhos intransitáveis. Não consegue aprisionar a família real portuguesa, que se escapara um dia antes para o Brasil, mas ocupa como vencedor um país decapitado das suas chefias naturais. Em 1808 é feito Duque de Abrantes. As revoltas populares a partir de Maio de 1808 prenunciam as derrotas militares na Roliça e no Vimeiro, em Agosto desse ano. Pela Convenção de Sintra abandona Portugal. Em 1809 é comandante do Exército de Reserva da Alemanha. Em 1810 entra de novo em Portugal durante a 3ª Invasão, à frente do 8 º Corpo do exército comandado por Massena. Em 1812 participa na invasão da Rússia como Comandante do 2º Corpo do Grande Exército francês. Começa aqui a sua decadência. Ainda é nomeado Governador de Veneza mas notam-se já os sinais de loucura que acabarão por levá-lo ao suicídio, em 1813. Tinha 42 anos.

FRENTE OESTE - Texto 15 - 14 MAIO 2009






MOINHO DE BRILOS: O PRIMEIRO COMBATE


Pedro Fiéis


O primeiro confronto entre ingleses e franceses no que ficou conhecido como Guerra Peninsular, ocorre em território português, mas a sua localização exacta esteve desde sempre envolta em algum mistério, decorrente do nome dado à escaramuça – “Brilos”.
Surgiram em dois séculos de História as mais variadas teorias sobre o local, umas mais fundamentadas do que outras, tendo a maioria apenas um aspecto em comum: a existência de um moinho. Recapitule-se entretanto o desenrolar dos acontecimentos, para uma melhor compreensão do mesmo.
No dia 14 de Agosto de 1808, o exército anglo-português chega a Alcobaça onde pernoita. No dia seguinte, o general Wellesley, sabendo que os franceses se encontravam na zona das Caldas da Rainha, ordenou o avanço de duas companhias do 60º regimento e outras duas do 95º, unidades de atiradores de elite, que deveriam reconhecer o terreno.
Por seu turno o general Delaborde que comandava a primeira divisão do Armée du Portugal, enviada ao seu encontro, havia destacado seis companhias para um moinho numa elevação perto de um curso de água, com o objectivo de vigiar a estrada que ligava Caldas a Óbidos.
Os ingleses surpreendem o inimigo, forçando-o a recuar e iniciam uma perseguição que só termina junto às muralhas de Óbidos, quando outras companhias francesas se juntam à refrega. Há um intenso fogo cruzado, que ali causa 27 mortos e feridos entre os ingleses, incluindo 2 oficiais. Só com a chegada da brigada do general Spencer os franceses abandonam a sua posição, terminando por esse dia os combates.
Para mais detalhes temos que consultar autores como Oman, por exemplo, que nos refere os três factores que devem orientar a busca: - Uma elevação com um moinho; - Uma linha de água, mas excluindo o Rio Real; - A existência de uma estrada real. Os autores portugueses da época seguem todos a descrição dos ingleses, não mudando sequer o nome, daí os mapas não ajudarem muito.
Apesar disso, pode-se excluir desde logo os moinhos mais próximos da vila de Óbidos, nomeadamente o do “Facho”, situado na ponta Sul da vila e o dos “Arrifes”, a Leste, apontado pela tradição popular como o palco dos eventos, mas longe da estrada e de um curso de água.
Uma Carta Topográfica do Reino de 1867 e o Atlas de James Wyld de 1840, são os elementos finais a consultar antes de uma ida ao terreno. No segundo documento, este primeiro confronto é colocado a meio caminho, entre as duas localidades já citadas e no primeiro podemos constatar a existência de uma estrada real que partindo por detrás do actual quartel militar, nas Caldas, segue em linha recta pelo vale e passa pelo Bairro de Nossa Senhora da Luz e pela Ermida de Santo Antão, desembocando junto às muralhas a Norte de Óbidos.
Esta é uma estrada que ainda existe nos nossos dias, seguindo um percurso paralelo à actual nacional e o Bairro é uma localidade muito antiga, na época pouco povoada, mas já contando com uma igreja, defronte da qual existe numa colina e perto de um curso de água, um moinho.
Reside então aqui a chave para a resolução do problema, uma vez que todos os factores já descritos se conjugam e se hoje em dia a vista se encontra um pouco obstruída, os habitantes locais mais idosos ainda se lembram de duas condicionantes muito importantes e que eram ainda uma realidade na primeira metade do século XX.
A primeira eram os pântanos que existiam na zona, ou seja, ninguém se aventurava para muito longe dos caminhos conhecidos e a segunda era a vista nítida para a saída Sul das Caldas da Rainha.
Por tudo isto o Bairro da Senhora da Luz, perto de Óbidos, configura-se como a hipótese mais provável para a localização de “Brilos”, evento de pouco relevo na época, mas de grande importância para quem hoje em dia estuda a época.