29/11/09

BADALADAS - TEXTO 42 - 27 NOVEMBRO 2009

MEMÓRIA DO BRIGADEIRO NEVES COSTA


Joaquim Moedas Duarte


No discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, proferido em Torres Vedras no dia 11 de Novembro, na cerimónia da abertura oficial das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, encontramos esta passagem:

«Na cidade que deu nome a esta obra maior de um povo em armas, aproveito para trazer à memória a figura de um grande português.
Recordo um cartógrafo militar de primeira água, que foi vítima de muitas injustiças, e, porventura, da maior de todas: a do esquecimento.
José Maria das Neves Costa foi o oficial do Real Corpo de Engenheiros que procedeu ao levantamento cartográfico em que assentou a decisão, há precisamente duzentos anos, de edificar em tão curto espaço de tempo uma fortificação com aspecto tão imponente e dissuasor. Honremos a sua memória.»

Quem foi Neves Costa?

A investigadora Maria Helena Dias faz um resumo da sua biografia:

«Oficial do Real Corpo de Engenheiros, José Maria das Neves Costa nasceu em Carnide a 5 de Agosto de 1774 e morreu em Lisboa em 1841, provavelmente a 19 de Outubro. Formado na Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho (1793-1796), após os preparatórios na Academia de Marinha (1791-1793), foi premiado e considerado um dos melhores alunos do seu tempo. Engenheiro militar ilustre, destacou-se pelos seus brilhantes e inovadores trabalhos em prol da Cartografia militar, em particular nos levantamentos topográficos e na configuração dos terrenos, para além de ter sido um hábil desenhador. A sua vastíssima actividade neste campo desenvolveu-se durante mais de 40 anos e, apesar de constantemente referida a sua acção ao longo de todo o século XIX, cairia depois no mais injusto esquecimento.»

Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, esteve na região de Torres Vedras em Outubro de 1809, e percorreu a cavalo toda a zona envolvente, procurando estabelecer um plano de construção de linhas defensivas. Dessa observação resultou o memorando que entregou aos seus engenheiros, e a partir do qual se iniciou a construção das fortificações. Wellesley retomava uma velha ideia que já outros militares portugueses haviam defendido e que se baseava na verificação de que a defesa da capital portuguesa apenas teria viabilidade a partir de um conjunto de fortificações situadas a Norte de Lisboa. Junot, na 1ª invasão, pensou o mesmo e mandou fazer estudos preparatórios ao coronel Vincent. E este acabou por se basear no trabalho de dois engenheiros portugueses, Xavier de Brito e Neves Costa.

Com a saída de Junot na sequência da Convenção de Sintra, os trabalhos destes dois engenheiros foram interrompidos. Tempos depois, perante a ineficácia de uma comissão encarregada de os completar, Neves Costa inicia sozinho e com escassos meios, o trabalho de levantamento topográfico da região norte da península de Lisboa, o qual viria a ser a base da planificação traçada pelos engenheiros ingleses para a construção das Linhas de Torres Vedras. Wellington menosprezou a qualidade deste trabalho mas a observação dos documentos que chegaram até nós permite-nos concluir que ele foi decisivo. A atitude grosseira do ilustre general inglês parece ter pesado na injustiça a que foi sujeito Neves Costa, que se reflectiu na progressão da sua carreira militar e respectivos proventos.

É-nos muito difícil imaginar hoje as condições em que Neves Costa trabalhou. Não havia estradas, apenas caminhos pedregosos e veredas lamacentas por onde se transitava a cavalo ou a pé. Fazer o levantamento topográfico de uma área de centenas de quilómetros quadrados, em apenas dois meses e em tão difíceis condições foi uma tarefa hercúlea que nunca foi devidamente reconhecida. Nem quando, alguns anos depois, Neves Costa fez uma longa exposição ao Rei, no intuito de garantir melhor sustento da família. Para tal também terá contribuído a sua acção como deputado e a nomeação para Ministro da Guerra pelo governo liberal, pouco antes da restauração absolutista. Morreu amargurado, aos 67 anos de idade e repousa no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Deixou uma importante obra no campo da topografia militar, que só nos nossos dias mereceu reconhecimento público com a sua elevação a patrono do Instituto Geográfico do Exército, em 2005.



Para mais informação, ver o opúsculo de Maria Helena Dias, Brigadeiro José Maria das Neves Costa, 1774-1841: patrono do Instituto Geográfico do Exército. [Lisboa]: Instituto Geográfico do Exército, 2005. 16 p.

26/11/09

FEIRA DA MEMÓRIA





Na Praia da Assenta ( freguesia de S. Pedro da Cadeira, do concelho de Torres Vedras) no próximo Domingo, integrada nas Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.

Para ir até lá: estrada de Torres Vedras (Nac 9) para a Ericeira, desvio à direita depois da Coutada, seguir as placas.

22/11/09

UMA EXPOSIÇÃO A VER






«No âmbito das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras ( 1810 - 2010 ), apresenta-se a exposição "Guerra Peninsular 1807 1814", que se divide em 3 núcleos expositivos:

Núcleo 1
Não passarão! A importância das Linhas de Torres Vedras na defesa de Lisboa

Núcleo 2
Invasões francesas: memórias e relatos

Núcleo 3
De Ciudad Rodrigo a Torres Vedras: uma viagem pelas gravuras da época

Relançando um novo olhar sobre a História, (re)visitamos o episódio da Guerra Peninsular, assim como os seus impactos no território nacional, ultrapassando uma visão estritamente bélica dos acontecimentos, mas compreendendo-o à luz da mudança de um paradigma político-social.»

(Texto de abertura do pequeno catálogo da exposição)

A exposição encontra-se no Museu Municipal Leonel Trindade, no Convento da Graça, no centro de Torres Vedras
Horário: de Terça-feira a Domingo. Das 10H00 às 13H00 e das 14H00 às 18H00.
Entrada gratuita

Tem um serviço educativo para actividades infanto-juvenis.

Contactos:
Praça 25 de Abril, Convento da Graça, 2560 Torres Vedras
Tel e fax: 261 310 484
museu@cm-tvedras.pt
http://www.cm-tvedras.pt/
http://www.linhasdetorresvedras.com/

13/11/09




[Clicar para aumentar]


O editorial do semanário regional BADALADAS traz hoje uma referência elogiosa à nossa colaboração sobre o Bicentenário das Invasões Francesas.
É um incentivo que nos honra e que agradecemos.

12/11/09

INÍCIO DAS COMEMORAÇÕES DO BICENTENÁRIO




Muito curioso foi ver que "ele", deportado para Santa Helena e falecido há 188 anos, ainda ali estava... atento à tropa que passava...







Correu bem, a festa! Foi ontem, 11 de Novembro, Feriado Municipal.
Para ver reportagem completa: AQUI




07/11/09

ESCRITO À MÃO







(Clicar para aumentar)


A obra consiste em 11 poemas, com ilustrações, impressos em cartões separados. O conjunto vem dentro de um envelope cartonado.
Deixamos aqui a reprodução de três desses poemas. De notar que eles foram mesmo escritos à mão pelo autor, sendo a impressão feita a partir desse grafismo. Um objecto artístico que honra as Comemorações dos 200 anos da construção das Linhas de Torres Vedras.

05/11/09

INÍCIO DAS COMEMORAÇÕES

Recebemos há pouco um CONVITE que tornamos extensivo aos nossos leitores.

É o primeiro evento do Programa das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras. Trata-se do lançamento de um conjunto de poemas de Luís Filipe Rodrigues, com ilustrações de José Pedro Sobreiro. Na sessão participará um actor convidado.

Os poemas têm como tema genérico as invasões napoleónicas. A partir de lugares, acontecimentos e figuras da época, o autor procura uma abordagem emotiva, interiorizada, em contraste com o descritivismo patriótico que normalmente se associa aos actos de guerra.
José Pedro Sobreiro acompanha os textos com imagens muito sugestivas, em que se salienta o rigor do desenho e a vivacidade das cores, em fragmentos evocativos da nossa memória colectiva.





C O N V I T E

O Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras

convida V.ª Ex.ª para a apresentação e lançamento de

Escrito à mão duzentos anos depois

de

Luís Filipe Rodrigues

&

José Pedro Sobreiro

que terá lugar no Auditório Paços do Concelho

em Torres Vedras,

Sábado, dia 07 de Novembro de 2009,

pelas 16h00

30/10/09

BADALADAS - TEXTO 40 - 30 OUTUBRO 2009





LINHAS DE TORRES VEDRAS

A DECISÃO DO DUQUE DE WELLINGTON EM 1809


VENERANDO DE MATOS



Em Outubro de 1809, estando o exército anglo-luso acantonado nas margens do Guadiana, Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, deslocou-se a Lisboa e, na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, percorreu durante alguns dias os terrenos a norte de Lisboa, deixando instruções para este último, num documento datado de 20 de Outubro de 1809, que ficou conhecido pelo “Memorando Fletcher”.

Do seu conteúdo, entre outras coisas, constava o seguinte:

“O grande objectivo em Portugal é a posse de Lisboa e do rio Tejo e todas as medidas terão de ser dirigidas com este objecto em vista. Existe um outro, ligado igualmente com este primeiro objectivo para o qual devemos também prestar atenção, e que é o embarque das tropas britânicas em caso de revés.
“Qualquer que seja a época do ano em que o inimigo possa entrar em Portugal ele fará o seu ataque provavelmente por duas linhas distintas, uma a norte do Tejo e outra a sul; e o sistema de defesa adoptado terá que levar em conta este facto.
“(...) O objectivo dos aliados deverá ser o de obrigar o inimigo, tanto quanto possível a realizar o seu ataque com o corpo do exército concentrado: Eles deverão ficar em todas as posições que o terreno possa permitir, o tempo necessário para permitir que a população rural local evacue as vilas e aldeias levando consigo ou destruindo todos os meios de subsistência e meios de transporte que não forem necessários aos exércitos aliados; cada corpo do exército deve ter o cuidado de manter as suas comunicações com os outros e a sua distância relativa do lugar de junção”.

As intenções de Wellington, com essa recomendação, foram resumidas por Teixeira Botelho, na sua obra História Popular da Guerra da Península, (Porto, 1915), como a necessidade de “escolher uma posição suficientemente ampla para abrigar todas as tropas, quer da primeira, quer da segunda linha, das duas nações, que lhes permitisse ocupar uma situação vantajosa para cobrir Lisboa, sede dos recursos do país, e que não pudesse ser torneada nos seus flancos pelo inimigo, devendo ter uma comunicação segura com o mar, para permitir o embarque das tropas inglesas no caso de revezes sucessivos as obrigarem a esse extremo”.

Tomada a decisão, Wellington enviou uma carta para o Rio de Janeiro, dirigida ao príncipe regente onde explicava as suas razões no contexto da guerra peninsular que se iniciara um ano antes.
Uma interpretação mais recente (Gastão de Mello de Mattos, “Torres Vedras, Linhas de (1810)”, in Dicionário de História de Portugal, vol. VI, 2ª ed. , pp.180 a 182), questiona a opinião perfilhada pela “maior parte dos autores”, que defendiam “a opinião errada de serem as linhas de Torres Vedras destinadas a proteger Lisboa. Ora a verdade é que o fim das linhas que Wellington mandou levantar só subsidiariamente era esse. O seu projecto de campanha (...) era tornar praticamente impossível a vida de um exército invasor, destruindo ou transportando para outro ponto todas as produções utilizáveis do País. Assim a região escolhida pelos Franceses para seguirem a sua marcha em Portugal tornar-se-ia numa espécie de deserto, em que o invasor não poderia subsistir”. (...) O Governo Português procurou transportar para fora das suas residências os habitantes da zona em que operavam as tropas francesas, mas (...) a evacuação dessas regiões não foi total (…). Por outro lado, como as tropas inglesas tinham, em regra, mostrado fraca capacidade combativa no continente, Wellington procurava evitar uma acção que pudesse tornar-se geral, comprometendo a existência do seu exército, não só por motivos exclusivamente militares, mas também por causa da política interna da Inglaterra, onde existia um forte partido de oposição ao Governo e favorável à retirada das tropas expedicionárias para a sua Ilha.”.
Esta opinião é corroborada por Norris e Bremner na obra The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, tradução de Thomas Croft de Moura, afirmando que em “Outubro de 1809 o plano de Wellington tinha incluído não mais do que uma linha contínua de obras desde Alhandra, no Tejo, até à foz de S. Lourenço (agora chamado Safarujo), no Atântico, com certos redutos e acampamentos fortificados colocados em frente de Torres Vedras, Monte Agraço, Arruda e outros pontos. Não era intenção ocupar estes reductos permanentemente”, mas apenas “deter e estorvar o ataque do inimigo na linha principal na retaguarda”.
Seja como for, Fletcher, depois de receber aquelas ordens por escrito em 20 de Outubro, dirigiu o início da construção das linhas que se iniciaram em 3 de Novembro de 1809 pela construção dos fortes de S. Julião, Sobral e Torres Vedras.
Desenvolvimento deste texto em:

BADALADAS - TEXTO Nº 39 - 9 OUTUBRO 2009









Exemplo de ambulância móvel concebida por Dominique Larrey



UM CIRURGIÃO NA FRENTE DE BATALHA


DOMINIQUE JEAN LARREY


MANUELA CATARINO



A memória histórica tem por hábito salientar as figuras dos homens decisores das grandes batalhas enquanto outros ficam na penumbra, acabando num maior ou menor, mas injusto, anonimato. O tempo, porém, serena paixões e permite a análise com outra lucidez sobre os factos, acções e personagens menos conhecidas, mas intensamente presentes, no desenrolar dos acontecimentos.

Esta breve introdução permite-nos retomar o olhar sobre um outro lado das campanhas militares que envolveram a França napoleónica e a Península Ibérica no início do séc.XIX, sob uma perspectiva talvez menos conhecida, mas não menos importante para o desenlace dos conflitos – a assistência médica aos feridos, na frente de batalha, protagonizada pelo cirurgião militar Dominique Jean Larrey.

Nascido a 8 de Julho de 1766, em Baudéan (perto dos Altos Pirinéus), segundo filho de um modesto cordoeiro, inicia os rudimentos escolares com o pároco local. Aos treze anos assume o gosto pelos estudos médicos e junta-se ao tio Alexis Larrey, cirurgião chefe em Toulouse. O seu percurso estudantil é notável e cedo recebe as primeiras distinções académicas. Uma breve passagem pela marinha, apesar da riqueza da experiência, não colhe o seu entusiasmo e regressa a Paris. A agitação política que percorre a França galvaniza o jovem Larrey e em 1794, com vinte e oito anos, o posto de cirurgião-chefe do Exército da Córsega irá permitir-lhe travar conhecimento com o igualmente jovem general Bonaparte.

A vida de ambos ficará indissoluvelmente ligada, já que Dominique Larrey estará presente durante mais de vinte anos nas campanhas napoleónicas, suscitando a admiração de todos quantos acompanham a sua acção no campo de batalha, e o reconhecimento do próprio Napoleão.

A obra Mémoires de Chirurgie Militaire et Campagnes, que redigiu entre 1810 e 1812, testemunha de forma eloquente as suas práticas pioneiras nos cuidados médicos de urgência, graças ao sistema, por ele idealizado, das ambulâncias cirúrgicas móveis. Os conhecimentos precisos de anatomia influenciaram a sua decisão em querer alterar o padrão de socorro aos feridos em combate. A prática da cirurgia, na frente de batalha, e a posterior remoção do paciente numa ambulância (ver Fig.1) para local mais seguro permitiu a sobrevivência de numerosos feridos, ainda que por vezes as amputações de membros atingissem números elevados. Contudo, para Larrey, a diferença assentava num humanismo e dedicação desconhecidos no mundo militar – cuidar dos homens, soldados ou civis, independentemente da sua nacionalidade ou posto militar…

Dominique Larrey não esteve em Portugal mas participou na campanha de Espanha, integrado no exército de Murat, como cirurgião-chefe, entre 1808 e 1809. As críticas que faz ao estado deplorável da assistência feita nos hospitais espanhóis leva-o a utilizar as suas “ambulâncias voadoras” para minimizar as baixas ocorridas em batalhas como Burgos ou Somo-Sierra. Mas o seu espírito humanitário vai mais além e, em Valladolid, chega a solicitar a criação de um hospital destinado ao inimigo (espanhóis e ingleses) para tentar irradiar a epidemia de tifo que se propagava rapidamente, e que ditará o seu regresso a Paris.

A estrela de Napoleão vai conhecendo o sentido descendente rumo à abdicação de 1814, mas Larrey só em 1818, com 49 anos, verá terminada a sua carreira militar activa. Sobreviverá a Bonaparte permanecendo seu indefectível admirador, recebendo em troca o elogio que consta do testamento datado de 15 de Abril de 1821 : …c’est l’homme le plus vertueux que j’aie connu.

29/10/09

BADALADAS - TEXTO 38 - 25 SET 2009

A 2ª INVASÃO FRANCESA

PORMENORES IMPORTANTES


José NE Ermitão

Como foi referido no primeiro artigo sobre a 2ª invasão, as instruções do impera-dor francês indicavam claramente que, depois de Soult ter tomado o Porto, os generais Lapisse, estacio¬nado em Salamanca, e Victor, posicionado em Mérida, deviam também invadir o país; o primeiro marchando para Abrantes e o segundo atravessando o Alentejo para apoio à tomada de Lisboa.
Nenhum deles cumpriu as instruções dadas – e podemos interrogar-nos como te-ria sido a 2ª invasão se elas fossem cumpridas! – por falta de comunicação e articulação entre eles e por dificuldades militares, devidas ao estado de contínua revolta dos espanhóis. Mas não só: Lapisse não entrou no território português devido, sobretudo, à actuação da Leal Legião Lusitana.

A LEAL LEGIÃO LUSITANA (LLL)

Formada em Inglaterra por militares emigrados do país durante a 1ª invasão, ao núcleo inicial juntaram-se outros portugueses, sobretudo do Porto, quando foi transferida para Portugal. No quadro da organização da defesa do país, um batalhão com cerca de 1500 homens foi colocado em Almeida, sob o comando de Robert Wilson, com o objectivo de evitar a progressão francesa por esta via.
Internando-se em Espanha até Salamanca e usando tácticas de guerrilha, a LLL paralisou os movimentos de Lapisse durante três meses, flagelando-o continuamente, e cortou-lhe as comunicações com o general Victor. Lapisse acabou por ter de abandonar as posições sem cumprir o objectivo assinalado por Napoleão. De volta ao país, a LLL foi apoiar o exército luso-britânico no seu movimento contra Soult.

WELLINGTON EM ESPANHA

Expulso Soult, a preocupação de Wellington foi impedir que o general Victor invadisse o país pelo Alentejo. Assim, faz descer o exército para Coimbra (finais de Maio) e concebe um plano de campanha assente em três pontos: derrotar Victor, impedir a sua junção com Soult (já à frente de outro exército francês) e avançar para Madrid. Entrega a defesa de Trás-os-Montes a Francisco da Silveira, envia Beresford para Castelo Rodrigo, para lhe proteger o flanco esquerdo, e dirige-se para Talavera de la Reyna onde se reúne com as tropas espanholas do general La Cuesta (21 de Julho).
O primeiro confronto com Victor dá-se a 22 de Julho, mas um desentendimento com La Cuesta não permite continuá-lo e o general francês aproveita para se retirar. Re-gressa no entanto a 25, reforçado com tropas vindas de Madrid, dando-se o com-bate a 27 e 28. Wellington derrota os franceses, embora a vitória seja um tanto ambígua pois vê-se sem condições para a explorar. Não podendo rumar a Madrid, com problemas de aprovisionamento e de relacionamento com la Cuesta, falhando-lhe Beresford na protecção do flanco esquerdo (Beresford demonstra não ser um general de campanha), não tem outra alternativa senão abandonar a posição e regressar a Portugal, por via de Mérida, Badajoz e Elvas.
Entendida numa perspectiva global, pode dizer-se que a 2ª invasão francesa só fi-ca definitivamente resolvida na batalha de Talavera, em finais de Julho de 1809. O general Victor não invadirá o país.

ENTRETANTO O GOVERNO...

Durante este período os governos do Rio de Janeiro e de Lisboa não estão inactivos. No Brasil, a acção política orienta-se no sentido do alargamento do território, com a conquista da Guiana francesa, do desenvolvimento económico e da criação das adequadas instituições administrativas e jurídicas tendentes a fazer do Brasil e do Rio o centro do império.
Em Lisboa, em Março, os governadores ordenam a perseguição aos suspeitos de «francesismo», especialmente os membros da maçonaria, que são presos e colocados em residência fixa, e decretam penas rigorosas para os portugueses que colaborem com os invasores; ao mesmo tempo apelam à população para que se una e lhes resista. Em Abril, convocam todos os portugueses dos 16 aos 30 anos para voluntariamente se apresentarem no exército.
Neste domínio, o militar, é particularmente relevante a acção do governador Mi-guel Pereira Forjaz, encarregado dos negócios da guerra e estrangeiros, a quem se deve, com Beresford, a responsabilidade pela reorganização do exército português.

22/10/09



PROGRAMA INAUGURAL DAS COMEMORAÇÕES DOS
200 ANOS DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS


Novembro 2009 a Novembro 2010
Torres Vedras e as Memórias de uma Invasão: Um "Olhar" Entre Linhas e Fortes
Concurso Fotográfico
Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras
Destinatários: Fotógrafos
Concurso que procura evidenciar o impacto das Invasões Francesas e das comemorações num outro tempo, num outro espaço. Uma abordagem livre baseada nas lógicas de reportagem. No final realizar-se-á uma instalação fotográfica referente ao trabalho de campo realizado.
Info e Inscrições: Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, TLF.: 261 338 931/2 ou email: geral@ccctv.org


11 Novembro » Quarta » 16h00 às 19h00
Bicentenário das Linhas de Torres Vedras
Inauguração das Comemorações
Praça 25 de Abril e Museu Municipal Leonel Trindade » Torres Vedras

Programa
16h00 » Chegada de Sua Excelência o Presidente da Republica, Aníbal Cavaco Silva, seguida de Cerimónia Militar, com as respectivas Honras Militares e Homenagem aos Mortos
Praça 25 de Abril » Torres Vedras

17h00 » Sessão Solene de abertura das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras, com a presença de Sua Excelência o Presidente da Republica, Aníbal Cavaco Silva
Praça 25 de Abril » Torres Vedras

17h30 » Inauguração da Exposição "Guerra Peninsular (1807-1814)"
Museu Municipal Leonel Trindade » Torres Vedras

11 Novembro 09 a 30 Novembro 2010 » Terça a Domingo » 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
Guerra Peninsular (1807-1814)
Exposição
Museu Municipal Leonel Trindade » Torres Vedras
O Município de Torres Vedras inaugura no Museu Municipal Leonel Trindade a exposição dedicada ao tema da Guerra Peninsular, renovando o olhar sobre esse assunto com especial enfoque para as Linhas de Torres Vedras.

14 Novembro » Sábado » 22h00
Homens e Armas da Guerra Peninsular
Recriação Nocturna
Bares do centro histórico da Cidade de Torres Vedras
Pequenas recriações nocturnas, junto aos bares do centro histórico, com demonstrações do traje e do armamento.
Info pelo TLF: 261 320 749
Organização: Associação Leonel Trindade


29 Novembro » Domingo » 10h00 às 21h00
1.ª Feira da Memória
Recriação Histórica
Salão da Ass. Recreativa e Cultural da Praia da Assenta » S. Pedro da Cadeira
Feira reportada à época oitocentista com a qual se pretende demonstrar a vivência da época no que respeita a costumes, tradições, gastronomia e vestuário. Poderá ainda visitar pequenas bancas com venda de produtos gastronómicos.
Organização: Ass. Recreativa e Cultural da Praia da Assenta

21/10/09

Foi no dia 21 de Outubro de 1805, faz hoje anos...

O Almirante Nelson comandando 27 navios ingleses, derrotou uma armada franco-espanhola de 33 navios, na batalha do Cabo Trafalgar, na costa sul de Espanha.
A ambição de Napoleão de invadir a Inglaterra por mar ficou aqui definitivamente afundada.
Nelson morreu nessa batalha, atingido pela bala de um atirador isolado. Com ele, mais 1500 ingleses. As baixas do lado francês ascenderam a 14 000 homens e 19 navios destruídos. Todos os navios ingleses regressaram a Inglaterra.



Trafalgar Square, em Londres. Ao meio, a coluna de Nélson, com a estátua do almirante que derrotou os franceses.




Para saber mais:
TRAFALGAR - A Biografia de uma Batalha.
Roy Adkins, Alétheia Editores, Lisboa, 2009. 434 p.
Um bom livro, pela narrativa empolgante, apoiada em documentos, bibliografia e ilustrações deversas. Pena é que a tradução seja descuidada. O original inglês foi publicado em 2004, com o título: Trafalgar - The Biography of a Battle
MUSEU MUNICIPAL DE TORRES VEDRAS
prepara exposição "Guerra Peninsular" (1807-1814)

No próximo dia 11 de Novembro o Museu Municipal Leonel Trindade inaugura a exposição "Guerra Penínsular" (1807-1814) que ficará patente até Novembro de 2010 e que marcará o arranque das comemorações do bicentenário das Linhas de Torres Vedras.

O programa das comemorações foi ontem apresentado publicamente em conferência de imprensa realizada nos Paços do Concelho, na qual estiveram presentes o Presidente da Câmara, Carlos Miguel e o Comissário para as Comemorações, Manuel Clemente, Bispo do Porto ( natural de Torres Vedras, livenciado em História e investigador da História Local desta cidade).

O programa é muito extenso e diversificado, com actividades que decorrerão entre Novembro deste ano e Outubro de 2010. O seu arranque será no próximo dia 11 de Novembro, Feriado Municipal, e contará com a presença do Presidente da República.

Aqui divulgaremos o programa quando tivermos o suporte informático.

FOI HÁ 199 ANOS...

Venerando de Matos, no seu VEDROGRAFIAS, recorda um documento importante que está na origem das Linhas de Torres Vedras. Começa assim o seu texto:

Em Outubro de 1809, estando o exército anglo-luso acantonado nas margens do Guadina, Wellington deslocou-se a Lisboa e, na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, percorreu durante alguns dias os terrenos a norte de Lisboa (1), deixando instruções para este último, num documento datado de 20 de Outubro de 1809, documento que ficou conhecido pelo “Memorando Fletcher”.

15/10/09

UM DIA DE CÓLERA








Arturo Pérez-Reverte escreveu um magnífico livro sobre um dia que ficou para a História da Espanha: o 2 de Maio de 1808. Intitulou-o UM DIA DE CÓLERA. Nesse dia "Madrid foi cenário de uma revolução espontânea". O ressentimento gerado pela presença das arrogantes tropas napoleónicas criou o ambiente explosivo que, a partir de um rastilho, levou à sublevação popular. Sem chefes, desorganizada e caótica, com armas brancas e algumas poucas de fogo, está condenada ao fracasso, face ao melhor exército do mundo. Tanto mais quanto os militares espanhóis, chefiados por gente timorata e subjugada ao poder imperial, se esconde nos quartéis ou reprime, também ela, o levantamento popular porque, em seu entender, não se devia provocar a ira do exército ocupante.

Apenas um punhado de militares de baixa patente, comandados pelos capitães Luis Daoiz e Pedro Velarde, decide apoiar a revolta popular, criando um foco de resistência no parque militar de Monteleón. Duarante muitas horas, com três canhões e alguns fuzis, manterá em respeito as muitas centenas de soldados franceses enviados para os dominar.
Rios de sangue mancharão as Calles de Madrid. Um dia depois, esmagada a revolta, os prisioneiros serão fuzilados numa montanha próxima, cena de horror que Goya registou num quadro célebre que está no Museu d Prado

A esta heróica resistência foi erguida uma memória na Praça 2 de Maio, em Madrid, onde está a placa e o monumento das fotos.

Arturo Péres-Reverte serve-se dos registos, relatórios e relatos diversos que ficaram nos arquivos e faz ressurgir perante nós todo um povo em cólera e desespero.
Da contra-capa: "Um livro que não é ficção. Que não é um documento histórico. É, sim, uma história colectiva feita de pequenos e obscuros casos individuais. Uma história feita de luz e sombra. De pessoas que nada t~em a perder e cuja união gera a cólera de que se faz uma revolução".
Milhares perderam a vida naquele 2 de Maio. Mas eles foram a semente de que germinou o levantamento nacional que garantiu a reconquista da independência nacional da Espanha.

05/10/09

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL EM OEIRAS

Em Oeiras vai decorrer no próximo dia 17 de Outubro (Sábado), uma Conferência Internacional sobre a Guerra Peninsular.
No dia 18 haverá uma visita guiada às 1ª e 2ª Linhas de Torres Vedras e no dia 25 à 3ª Linha.


Para mais informações e inscrições:




http://oeirascomhistoria.blogspot.com/2009/09/encontram-se-decorrer-as-inscricoes.html

21/09/09

RECRIAÇÃO HISTÓRICA EM AMARANTE


Este é o programa comemorativo dos 200 anos da Guerra Peninsular, em Amarante.


Um amigo de longa data enviou-nos algumas fotos que documentam a recriação histórica ali realizada passado dia 18 de Abril.

O nosso obrigado.


















A recriação foi organizada pela Câmara de Amarante, sendo a primeira iniciativa do programa das Comemorações, 2ª invasão francesa, assinalando o episódio de defesa da ponte de Amarante.
Mais informações:

NOTÍCIAS SOBRE AS LINHAS DE TORRES VEDRAS

No seu blogue VEDROGRAFIAS, o sempre atento Venerando de Matos transcreve uma notícia do PÚBLICO sobre as Linhas de Torres Vedras.

Basta clicar na ligação:

http://vedrografias2.blogspot.com/

13/09/09

BADALADAS - TEXTO 37 - 11 SET 2009





A 2ª INVASÃO FRANCESA


DOS ANÓNIMOS AO BRIGADEIRO SILVEIRA

José NR Ermitão


A 2ª invasão teve, em relação às restantes, características distintas: foi de curta duração (dois meses e uma semana); os franceses dominaram uma área exígua (de for-ma firme, o Porto e arredores; de forma incerta, a região entre Douro e Minho); o exército invasor não só foi isolado da retaguarda espanhola (nenhum correio de Soult chegou ao destino) como combatido, desgastado, desmoralizado e algumas vezes vencido por uma feroz resistência de base popular, guerrilheira e militar.
Pela primeira vez, sem ajuda exterior, os portugueses enfrentaram e desgastaram o exército francês invasor – e tão completamente que quando o exército luso-britâ- nico se aproximou, aos franceses nada mais restou senão fugir e rapidamente.



OS ANÓNIMOS


Os populares que, abandonando as povoações, levam consigo os alimentos e as-sim esfomeiam os franceses; os que resistem e morrem na defesa de Braga, na passagem das pontes, no Porto, em Ponte de Lima, em Amarante; os que “a coberto dos ro-chedos e das oliveiras, se infiltravam até... (ao) acampamento (francês) e disparavam sobre as... tendas e... cavalos” (Le Noble); ou o que “cuja coxa lhe foi partida... (e) sem abandonar a arma teve a coragem de, deitado de lado, apontar e matar um graduado... (ou o) ancião de cabelos brancos, entrincheirado atrás de um penedo com uma espingarda... (que feriu) três homens e cinco cavalos... (de Naylies). Os que passam barcos a Wellington para poder entrar no Porto.
Os ordenanças, milícias e soldados que formam o exército português, mal armados, indisciplinados, capazes de disparates mas também de resistir e de derrotar os franceses quando devidamente organizados e comandados. E os que formam as guerrilhas que atacam os correios, os flancos e a retaguarda dos franceses, desesperando-os. Os populares, as “pessoas de bem”, os eclesiásticos e os estudantes de Coimbra...


OS COMANDANTES


Os comandantes militares que enfrentaram e combateram os invasores. O general Bernardim Ribeiro, que impediu Soult de atravessar o rio Minho e que, por considerarar a impossibilidade da defesa de Braga, foi acusado de traidor e brutalmente assassinado pela população e ordenanças desvairados. O general Botelho, que resistiu em Ponte de Lima, tomou Braga e Guimarães aos franceses e, depois, se juntou a Silveira. E outros, até estrangeiros, como o barão de Eben, que conseguiu manter a resistência em Braga durante três dias, e Robert Wilson. Tantos outros...


O BRIGADEIRO SILVEIRA

Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira (1763-1821), a quem o governo nomeou para chefiar a região militar de Trás-os-Montes e cujo exército era uma amálgama de tropa regular, milícias mal armadas, ordenanças desenquadrados e voluntários. Que retira da cidade de Chaves por a considerar indefensável, mas que ataca os franceses em Venda Nova e pouco depois retoma a cidade, impedindo assim as ligações de Soult com a Espanha.
Que, movimentando-se a oeste e a leste do rio Tâmega, enfrenta os franceses, resiste-lhes em Amarante durante duas semanas e, sempre em movimento, reconquista depois Vila Real e combate Loison, perseguindo-o até Guimarães. Que pede socorros a Beresford mas que este não lhe concede. Que combate só com os recursos de que dispõe, às vezes desesperado – “assim um homem só não faz nada”, escreve ele a Beresford – sobretudo depois do que ele sentiu ser uma derrota, a perda de Amarante, mas que foi afinal a sua grande vitória: ter impedido a progressão francesa para leste ao resistir-lhe durante duas semanas.
O primeiro chefe militar português que derrotou exércitos franceses e que, pelas acções posteriores no país (impedindo os franceses de passar o Douro no inverno de 1810/11 e outras) e em Espanha (tomada de Sanábria, batalha de Vitória e batalhas nos Pirinéus), foi reconhecido – pelo nosso governo, pelo espanhol e pelo inglês – como o mais notável general português da Guerra Peninsular. Um tanto esquecido depois: a his-toriografia liberal não lhe perdoará a recusa em aderir à revolução de 1820...
Passados o tempo e os preconceitos é tempo de lhe dar o devido valor.

FORTE DO ZAMBUJAL - MAFRA


Restaurado e apresentado ao público ontem, 12 de Setembro. Notícia daqui e daqui.

30/08/09


30 de Agosto a 4 de Setembro de 2009
Porto
Congresso Internacional da História Militar
Edifício da Alfândega
Integrado no plano das comemorações das invasões francesas da Área Metropolitana do Porto

BADALADAS - TEXTO 36 - 28 AGO 2009





Um outro lado das invasões francesas nas Memórias do marechal Soult

Manuela Catarino


As preocupações de um homem da guerra não se fixam apenas na quantidade de efectivos militares de que dispõe, nem no poder fogo das máquinas bélicas, nem tampouco na estratégia militar a desenvolver. Outros aspectos têm de ser devidamente acautelados, quer no cumprimento das leis a que expressamente deve obedecer, quer nos diferentes componentes da estrutura que chefia.
Esta reflexão surge-nos a propósito de um relato feito na primeira pessoa por uma das figuras da segunda invasão francesa – o marechal Soult – ao lermos o texto recentemente publicado por Livros Horizonte, com introdução e notas de António Ventura, traduzido em português sob o título Memórias do Marechal Soult: Sobre a Guerra em Espanha e Portugal.
Em Fevereiro de 1809 a propósito da sua entrada em Portugal, procurando uma passagem para Chaves, relata ele de forma sucinta: O exército ia-se arriscar por caminhos muito maus onde a artilharia não podia passar. Resignei-me a não levar comigo mais do que uma vintena de peças ligeiras e a deixar o resto, bem como os parques, o hospital e tudo o mais que não podia seguir o exército, num grande depósito que instalei em Tui, sob as ordens do general Lamartinière. Estava decidido a mandá-lo buscar assim que chegasse ao Porto” (Ibidem p.43).
A 12 de Março de 1809, depois da capitulação da cidade flaviense, Soult manda instalar aí um depósito de doentes, sob a protecção de uma pequena guarnição enquanto prossegue a marcha para Braga em situação de combate permanente.
Mais tarde, já depois da ocupação do Porto pelas forças francesas, o próprio marechal justifica a escolha que fizera: Quando este depósito foi criado, para tratar e proteger dos habitantes os nossos primeiros feridos e doentes não transportáveis, a minha única finalidade era conseguir-lhes uma boa capitulação que lhes permitisse juntarem-se-me algures, depois da paz assinada em Lisboa” ( Ib. p.57).
O evoluir dos conflitos, contudo, irá contrariar as suas previsões. Ainda, de acordo com o seu testemunho, virá a saber que esse depósito de doentes, bem como a guarnição de cem homens que asseguravam a sua guarda tinham sido obrigados, após oito dias de bloqueio, a capitular. Muitos desses infelizes tinham sido massacrados no trajecto de Chaves para Lisboa (Ib. p.57)
A atitude dos habitantes de Tui merece-lhe reparo, quando, nas suas palavras, recusaram os bens mais necessários aos doentes (Ib.p56). Aliás é exactamente a vivência dos franceses, aí cercados pelas milícias portuguesas e espanholas, que merecem para Soult, uma descrição mais exacerbada: A situação do depósito era crítica na altura em que o bloqueio foi levantado. Dos 3400 homens que compunham a guarnição apenas sobravam 1500 em estado de prestar serviço. Os hospitais tinham falta de medicamentos, a febre reinava e levava todos os dias vários soldados. Já não havia vinho, dois terços dos cavalos do parque tinham sido comidos. (Ib. pp.55-56).
Melhor destino tiveram os franceses que integravam a retirada das forças em Baltar, quando Soult, tendo no seu encalço os exércitos português em Amarante, e inglês no Porto, se dirige para Montalegre. As ordens do marechal são explícitas: De alvorada, a artilharia estava destruída, todas as bagagens queimadas, as munições de infantaria e os feridos em cima dos cavalos de artilharia […] O ponto mais importante estava alcançado. O corpo de exército todo reunido não deixando nenhum homem para trás. (Ib. p.70)
Parece-nos importante realçar esta última frase do marechal no sentido em que sabemos que durante as campanhas militares a assistência médica imediata nos campos de batalha não é a primeira das preocupações dos estrategos. Moribundos e cadáveres vão juncando os cenários de guerra, abandonados à sua sorte, enquanto que feridos ou doentes, apoiados nos seus camaradas de armas, se arrastam até aos hospitais de campanha. Estes, posicionados em local mais resguardado, nem sempre asseguram as melhores condições médicas e de higiene, e a maior ou menor experiência dos cirurgiões procura milagres para não aumentar a contabilidade das baixas…
Na Península os exércitos napoleónicos contaram, no entanto, com a abnegação e a prática médica pioneira de um homem que passará a ser conhecido como “ Providência do soldado”- o cirurgião Dominique Jean Larrey. Mas, infelizmente para os soldados de Soult, ele não acompanhou a deslocação do 2º corpo da Grande Armée. Dele falaremos no próximo artigo.





BICENTENÁRIO DAS INVASÕES FRANCESAS

SUPLEMENTO DO JORNAL BADALADAS, 14 AGOSTO 2009



(Combate de Grijó - 11 de Maio de 1809 - Biblioteca Nacional de Portugal)

A SEGUNDA INVASÃO FRANCESA

José NR Ermitão


CONQUISTA DE CHAVES

No dia 8 de Fevereiro de 1809, Soult e o seu exército marcham de Santiago de Compostela para a fronteira portuguesa, com o objectivo de atravessar o rio Minho e descer em direcção ao Porto. Frente ao rio, Soult sofre as primeiras contrariedades: o grande caudal que, devido à chuva, o transforma em barreira difícil de transpor e o dispositivo de defesa organizado pelo general Bernardim Freire na margem portuguesa.
Os franceses fazem três tentativas para atravessar o rio, a 13 e 16 de Fevereiro, próximo de Valença, Caminha e Cerveira, tentativas que são rechaçadas pelas forças mi-litares portuguesas. Assim, Soult vê-se forçado a um novo percurso: subir até à cidade de Orense, descer pela linha do Tâmega e entrar em Portugal pela fronteira de Chaves – um caminho péssimo e cheio de riscos, que cansava as tropas e as expunha aos ataques da guerrilha espanhola.
Realizado o percurso alternativo à custa de perdas várias, os franceses aproximam-se da fronteira, atravessam-na a 10 de Março e dirigem-se para Chaves. O brigadeiro Francisco da Silveira, responsável militar da região de Trás-os-Montes, percebe a impossibilidade de defender a cidade frente ao exército de Soult e ordena a retirada.
Populares desesperados pelo medo dos franceses, diversos elementos do exército, milícias e ordenanças, não acatam a ordem de retirada e tentam resistir, mas são derrotados pelos franceses, que tomam a cidade no dia 11 de Março. Soult faz de Chaves o ponto de ligação com a Espanha.


CONQUISTA DE BRAGA

A 14, o exército francês inicia a marcha em direcção a Braga. Neste percurso os invasores começam a sentir as garras da resistência popular. As palavras são de Soult: “A nossa marcha de Chaves para Braga foi um combate contínuo. Tinha de me haver com toda a nação: todos os habitantes, homens, mulheres, crianças, velhos e padres, estavam em armas; as aldeias estavam abandonadas, mas os desfiladeiros bem defendidos”.
A resistência também é de natureza militar: o brigadeiro Silveira ataca a retaguarda e os flancos dos franceses na área de Venda Nova e Cabeceiras de Basto; e no caminho para Braga os franceses tiveram de travar combates em Ruivães, Salamonde, e sobretudo nos arredores de Braga, durante três dias (7, 18 e 19 de Março), antes de tomarem a cidade. O exército português, na incapacidade de ofensivas frontais, opta pela defensiva onde e quando possível, por ataques rápidos e mortíferos contra a retaguarda e flancos dos franceses e pela reocupação dos espaços por eles menos guarnecidos. População e militares empenham-se ainda na imobilização dos transportes e na captura dos correios franceses de modo a isolarem totalmente o exército invasor – o que conseguem.
Um ponto importante a referir: no dia 15 de Março, o general inglês Beresford assume o comando do exército português e inicia a sua reorganização.
As notícias da progressão dos franceses criam na cidade um grave ambiente de exaltação. O general Bernardim Freire, comandante militar da região do Porto e Minho, ao receber ordens dos Governadores do reino para dar prioridade à defesa do Porto e ao verificar a insuficiência das defesas de Braga em Carvalho d’Este e noutros pontos, decide-se pela retirada. População, numerosos militares, milícias e ordenanças, amotinam-se, acusam o general de traidor e assassinam-no barbaramente.
O barão de Eben encarrega-se da defesa da cidade e resiste durante três dias em Carvalho d’Este (17, 18 e 19 de Março), combate onde morrem mais de 2000 portugueses e dezenas de franceses. Só no dia 20 os franceses tomam a cidade, entretanto abandonada pela população. Comenta Le Noble: “... Braga apresentava-se à nossa imaginação provida de tudo quanto um exército necessitava. Mas qual o nosso doloroso espanto quando, ao entrar nela, a encontrámos deserta! Em três dias, vinte mil pessoas abandonaram a cidade... Que ódio contra o domínio estrangeiro! Que péssimo presságio para a condução da nossa expedição”.
Depois de cinco dias de paragem, Soult parte em direcção ao Porto em 25 de Março. Nesse mesmo dia Francisco da Silveira, depois de uns dias de combate renhido, reconquista a cidade de Chaves, cortando assim as ligações dos franceses com a Espanha, o que vai criar uma situação de total isolamento a Soult
Silveira, em seguida, movimenta as tropas para retomar Braga; só não o faz porque, tendo notícias de que o Porto foi tomado, decide posicionar-se na região de Vila Real. Mas Braga será retomada mais tarde, no dia 5 de Abril, pelo general Botelho.



CONQUISTA DO PORTO

No caminho para o Porto os franceses vêem aumentadas as dificuldades devido à guerrilha e à acção defensiva junto das pontes que tinham de atravessar. De salientar a fortíssima resistência da população e de alguns militares à passagem dos franceses nas pontes em Trofa e Santo Tirso – passagem conseguida à custa de combates violentos e de muitos mortos para ambos os lados.
No dia 27 de Março, Soult chega junto das defesas da cidade do Porto, a 28 cerca-a completamente, ordena o seu ataque, e no dia seguinte conquista-a. Esta rapidez na tomada da cidade tem causas civis e militares. Civil – o estado de anarquia da população, que mais se empenhava em assassinar supostos afrancesados traidores e que não aceitava qualquer disciplina; militares – inexistência de oficiais competentes (o próprio bispo se arvorou em general), obras de engenharia defensiva mal executadas, tropas regulares insuficientes e mal comandadas, milícias e ordenanças desenquadradas e quase sem armamento e artilharia disfuncional...
O que se seguiu é conhecido – a fuga em massa dos portuenses pela ponte das barcas em direcção a Gaia, com o afogamento de milhares de pessoas. Menos conhecida é a resistência no interior da cidade: milícias, ordenanças, populares e eclesiásticos cortam as ruas e disparam das janelas das casas e até do Paço do Bispo, causando aos invasores numerosas baixas. Esta resistência enfurece os franceses que, como escreve Beauchamps, “... chacinaram indistintamente os habitantes e praticaram todo o tipo de pilhagens e de crimes” durante o saque nos três dias seguintes.
O primeiro objectivo de Soult, a tomada do Porto, estava conseguido; mas a sua situação era a de completo isolamento em relação aos exércitos franceses em Espanha. Pior, estava cercado por uma activa resistência popular e militar que, sobretudo a leste, lhe haverá de cercear a liberdade de movimentos.
Soult vai tentar quebrar a situação de isolamento militar em que se encontrava desenvolvendo três frentes de progressão militar.
A primeira, para ocupar o Minho (de 5 a 13 de Abril) e estabelecer ligações com o exército francês na Galiza. Os franceses ocupam os centros urbanos mas não os campos: neles se movimentam guerrilhas que, por exemplo, capturam todos os correios franceses. E no Baixo Minho actua o general Botelho, que retoma Braga a 5 de Abril, donde é forçado a sair a 10 pelos franceses, mas que em seguida retoma Guimarães...
A segunda, em direcção ao sul, pretendia atingir Coimbra: os franceses ocupam Vila da Feira (a 17 de Abril) e Albergaria, e atingem o rio Vouga. O coronel Trant, nomeado por Beresford para o governo civil e militar de Coimbra, organiza a defesa da cidade e barra a progressão francesa no Vouga.
A terceira, em direcção a leste, com o objectivo de dominar Trás-os-Montes e a Beira Alta, aniquilar o exército de Francisco da Silveira e conseguir uma via de comunicação com os exércitos franceses em Espanha. Tentativa fracassada pela impressionante resistência portuguesa em Amarante e áreas circundantes, chefiada por Silveira, e que constituiu o toque de finados da 2ª invasão.
Politicamente, Soult ensaia uma política de apaziguamento de que resultou um grupo de bracarenses e outros nortenhos, suplicarem a Napoleão “se dignasse nomear um príncipe... para ocupar” o trono português. Episódio com mão óbvia de Soult e sem mais consequências...


RESISTÊNCIA EM AMARANTE

Com o objectivo de abrir caminho para leste, os franceses ocupam Penafiel e dirigem-se para a ponte de Canavezes a 31 de Março. Penafiel fora abandonada pelos habitantes mas Canavezes e sua ponte estão bem defendidas, e tanto que os franceses retrocedem para Penafiel. A 7 de Abril, Soult envia reforços e nomeia para chefiar as operações o terrível general Loison.
A 9 de Abril, Silveira desloca-se de Vila Real para Amarante, onde se reúnem as tropas, milícias, ordenanças e voluntários das regiões próximas. Com um exército díspar de 6000 homens, sem quadros nem armamento suficientes, ataca Penafiel no dia 13, donde expulsa Loison. Perante o facto, Soult envia novos reforços – os franceses nesta área de acção passam a 9000, mais de 40% do total dos invasores.
Conseguem assim retomar Penafiel a 15 de Abril e dar combate ao exército de Sil-veira que, perante a superioridade francesa, retira para Amarante, onde os franceses en-tram no dia 18, após horas de combate e muita destruição. Os franceses ocupam a vila, na margem direita do rio Tâmega; os portugueses ocupam a margem esquerda do rio e impedem a tomada da ponte.
E durante duas semanas, de 18 de Abril a 2 de Maio, numa eficaz acção defensiva, em contínuos duelos de artilharia e de fogo de atiradores, os portugueses frustram todas as tentativas francesas para a tomada da ponte. Só a 2 de Maio, devido a nevoeiro e a deficiências da vigilância portuguesa, Loison consegue tomar a ponte e passar o rio. Silveira, vendo-se derrotado, desloca o exército para leste e margem sul do Douro.
Embora na posse deste ponto estratégico, Loison só irá progredir até Vila Real (3 de Maio), Mesão Frio e próximo da Régua, encontrando sempre a resistência de destacamentos do exército de Silveira. Em Vila Real (retomada por Silveira a 8 de Maio) os franceses tomam conhecimento “das grandes mobilizações que tinham sido feitas em Portugal, além do movimento do Exército Luso-Britânico em direcção ao Norte” (De Nayles). A 11 de Maio, Loison inicia o movimento de retirada, sempre acossado pelas tropas de Silveira, que o combate em Moure, a 12, levando-o a abandonar Amarante e continuando a persegui-lo.
Por onde passa, Loison deixa um rasto de destruição e morte. Mas é o princípio do fim da 2ª invasão: a resistência popular e o exército do general Silveira, sem auxílio exterior, combatem, esgotam e desmoralizam irreversivelmente os franceses.


FIM DA SEGUNDA INVASÃO

Em meados de Março de 1809, Beresford assume o comando do exército português e inicia o processo da sua reorganização. A 22 de Abril, acompanhado de 20000 homens, o general Wellington desembarca em Lisboa e toma o comando do exército britânico no país. Os dois chefes militares articulam-se e organizam o exército luso-britânico, que vai avançar para Norte, iniciando uma fortíssima pressão militar sobre os franceses.
Soult verifica a impossibilidade de resistir e decide a retirada, o que em muito facilita a Wellington a tomada do Porto. Em fuga, os franceses fazem explodir tudo o que lhes impede a rapidez de andamento (artilharia, carros de transporte e até o produto dos saques), desfazem-se da própria caixa militar e optam por um caminho difícil mas inesperado para os seus perseguidores.
Perseguido pelas tropas anglo-lusas, o exército francês tem ainda de enfrentar a resistência desesperada das milícias e dos populares, que fazem guerrilha por todo o lado, matando centenas de soldados invasores. Devido ao caminho imprevisto que escolheu e às horas de avanço que tem, Soult consegue escapar, evitando uma derrota fatal. Mas tem de enfrentar as dificuldades do caminho, um tempo invernoso, a fome, doença e exaustão dos soldados, as pontes de Saltadouro e de Misarela, cujas trágicas passagens tiveram de ser conquistadas violentamente.
Soult, à frente de um exército em estado moral e material calamitoso, atravessa enfim a fronteira da Galiza de 17 para 18 de Maio. Dos cerca de 23000 homens com que entrou no país conseguiu salvar pouco mais de 15000 – um bem trágico final para a “bela expedição” de que o imperador o encarregara.




(Desenho a lápis do capitão Manuel Isidro da Paz - Arq. Nac. Torre Tombo)
PELA INTERNET

Manuela Catarino

Muito longe estariam os marechais de Napoleão, em 1809, quando procuravam cumprir as ordens recebidas, de que os seus planos de batalha, as suas memórias, os pormenores dos estandartes das suas companhias, ou, simplesmente as imprescindíveis ordens do dia, tudo sempre tão ciosamente guardado, estivesse hoje, para nós, à simples distância de um click…
A acessibilidade, que a rede nos permite, a Bibliotecas, Fundos Documentais, Museus, ou a espaços pessoais (os famosos “blogs”) onde se disponibiliza e partilha todo o tipo de informação, facilita a obtenção de dados que, de outra forma, seria impensável visualizar com a rapidez e fiabilidade que todos conhecemos. A propósito do tema “Invasões Francesas”, em particular a chamada 2ª Invasão, aqui deixamos nota de alguns “links” para uma pesquisa mais personalizada de quem se interessa por estas temáticas.

O município de Amarante, por ocasião das Comemorações da 2ª Invasão Francesa em Amarante, apresenta um interessante espaço com Galeria e Vídeo, excertos da Recriação Histórica, bem com alguma Bibliografia específica, entre outros aspectos.
Basta um click em http://amarantesegundainvasao.blogspot.com

Também a região de Albergaria-a-velha, outro dos cenários da 2ª Invasão, mereceu destaque, a partir de Março de 2009, nas postagens feitas e cruzadas com referências à História Local. Para saber mais: http://blogdealbergaria.blogspot.com

Outra forma de olhar sobre os espaços percorridos pelas tropas francesas é-nos apresentado pelo Grupo Portuense de Montanhismo. Recordando o percurso efectuado pelo II Corpo do exército francês, no mês de Maio de 1809, apresentam-se fotos e iconografia específica. Olhemos, pois, http://gpmcaminhadas.blogspot.com

Uma rápida e ilustrada pesquisa sobre Invasões Francesas poderá ser sempre feita n’O Portal da História. Neste mesmo espaço, o seu autor, Manuel do Amaral, apresenta um trabalho de investigação sobre as transformações verificadas no Exército Português entre 1793 e 1823, com particular incidência na iconografia do período das Invasões Francesas. Consulte-se : http://www.arqnet.pt

Figura incontornável neste tema é a do próprio Napoleão Bonaparte. De entre muitos e variados espaços que, na net, a ele se dedicam, merece atenção um blog que apresenta um conjunto assinalável de informação sobre a figura de Napoleão e o contexto em que viveu. Curioso o projecto que nele se apresenta – a juventude de Napoleão em Banda Desenhada. Texto em francês.
A visitar: http://napoleonbonaparte.wordpress.com
Os apaixonados pelas miniaturas poderão encontrar um vasto manancial de informação e expressivas fotografias num espaço peculiar. Ainda que escrito em francês, o seu autor surpreende quem o visite. Destacamos, neste caso, a área sobre La campagne d’Espagne, que inclui miniaturas e maquetas de várias situações ocorridas na campanha peninsular das forças napoleónicas. A não deixar de descobrir em : http://el-frances.over-blog.com

Tesouro inestimável que deixamos à consideração de quem quiser dispor de uma visita ao Arquivo da Torre do Tombo. Um documento iconográfico produzido pelo capitão Manuel Isidro da Paz, entre Fevereiro e Julho de 1812. Um álbum de desenhos a lápis retratando pormenores da vida militar, paisagens rurais, interiores, vida quotidiana, retratos, esboços, uniformes…
Para um primeiro relance : http://antt.dgarq.gov.pt consultando o link especifico – As Invasões Francesas – Eventos em Documentos



SUGESTÕES DE LEITURA


MEMÓRIAS DO MARECHAL SOULT sobre a guerra em Espanha e Portugal
Introdução e notas de António Ventura, Livros Horizonte, Lisboa, 2009.
Soult, um dos mais destacados chefes militares de Napoleão, que depois da queda deste, em 1815, ainda desempenhou elevados cargos politicos em França - embaixador, ministro e Presidente do Conselho de Ministros - quis testemunhar o seu tempo através da escrita das suas memórias. Não chegou a vê-las publicadas, o que seria feito por seu filho em 1854, três anos depois da sua morte.
Este livro contém a parte relativa à Guerra Peninsular. Revela um homem extremamente lúcido e crítico em relação a muitas opções estratégicas de Napoleão. Longe de ser uma descrição enfadonha de movimentações militares, é um testemunho vivo de uma época, bem escrito e servido por uma boa tradução.


O PORTO E AS INVASÕES FRANCESAS -1809/2009. 4 vols, coordenação de Valente de Oliveira, edição conjunta do jornal PÚBLICO e da Câmara Municipal do Porto, 2009.
Trata-se de uma obra monumental - mais de mil páginas nos quatro volumes - que reune trinta e sete comunicações, relacionadas com a segunda invasão francesa e escritas por especialistas, professores universitários de todas as universidades portuguesas onde se ensinam e investigam temas de História e também de algumas iniversidades do Reino Unido, França e Espanha.

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TORRES VEDRAS E A SEGUNDA INVASÃO

Tudo se passou bem longe de Torres Vedras, ao contrário do que sucedera um anos antes, na primeira invasão. Mas sabia-se que a missão de Soult era chegar a Lisboa, vindo do Porto, pelo litoral. Se acaso não tivesse sido detido, Torres Vedras voltaria a sofrer a guerra do invasor. Havia, pois, que tomar providências. É o que vemos nestes dois excertos do Livro de Acordãos da Câmara Municipal de Torres Vedras, compilados por Venerando de Matos.

Torres Vedras fortifica-se

“Illustrissimos senhores vereadores:
“Tendo sido mandado por Sua Alteza Real para fortificar provizoriamente esta villa,” (Torres Vedras) “precizo par por em pratica o q se tem projectado que Vossas Senhorias me fornessão na manhã de segunda feira dez do corrente (...) na meia laranja da Ponte de Mentira o seguinte: trinta trabalhadores, dez enxadas, dez cêstos, quatro picaretas, duas paviolas e dois (...?) - Torres Vedras oito de Abril de 1809”
“Tenente Coronel de Enginharia; Cypriano José da Silva, encarregado pella Regencia em nome de Sua Alteza Real para a Fortificação d’esta villa”
(in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, ff. 193v-194, AMTV) .

Torres Vedras melhora o sistema de comunicações

“Tendo-se estabelecido signaes em cazo de rebate para avizar os Povos pertencentes a esta capitania mór, se determinou por ser o metodo mais facil o uzarem de foguetes para o que se fazem precizos quatro duzias de foguetes de quatro respostas cada hum. Rogo portanto a Vossa Senhoria queira mandallos apromptar com toda a brevidade como tambem seis covados de sarafina ou outra qualquer fazenda encarnada que devem servir para signaes de Faxos”
(oficio do Governo Militar, datado de 6 de Abril de 1809, enviado à Câmara de T.Vedras, in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, f.196, AMTV) .




(Ex-voto da Irmandade das Almas, pormenor, Igreja de S. João das Taipas, Porto)


A TRAGÉDIA DA PONTE DAS BARCAS

José NR Ermitão

Na memória colectiva nacional a tomada do Porto pelos franceses durante a 2ª invasão estará sempre relacionada com o desastre da Ponte das Barcas.
Aterrorizados com a chegada dos franceses, uma multidão de portuenses tentou passar para Gaia utilizando a ponte de madeira assente sobre barcaças que então ligava as duas margens. A tragédia subsequente é arrepiante e conhecida. Apresentamo-la descrita por Arnaldo Gama (1828-1869) na obra O Sargento-Mor de Vilar, Episódios da invasão dos franceses em 1809.
Do romance citado, diz o próprio autor que «Não fiz mais do que ir às partes oficiais, aos escritos e manuscritos de alguns contemporâneos, copiá-los e dialogá-los. Um historiador pode escrever a história da 2ª invasão pelos feitos do meu Sargento-Mor de Vilar». De facto, a sua leitura oferece um vivo panorama da invasão desde o seu início até à tomada do Porto, da província do Minho no princípio do século XIX (seu estado social, movimentos populares, mentalidades), do estado do exército, da acção de alguns militares e outros importantes aspectos.

Seguiu-se depois aquela medonha quarta-feira de cinza, 29 de março de 1809, memorável nos anais do Porto pelas desgraças e atrocidades que nela tiveram lugar. (...)
Luís Vasques e o sargento (de Vilar) dirigiram-se à pressa para o lado da ponte. Precedera-os porém compacta e monstruosa massa de povo, que se lançava, correndo, para ela... mas apenas (os dois amigos) tinham dados uns passos para a frente, quando pararam assombrados por um grito pavoroso, medonho e terrível de agonia dilacerante... Era horrendo o espectáculo diante de que se achavam.
A meio da ponte, aquela massa compacta de fugitivos estava como que estacada diante de um abismo, pelo qual se sumiam, uns após outros, homens, velhos, crianças e mulheres; e mais atrás desse medonho sorvedouro, os parapeitos de madeira arrebentados vomitavam pelas aberturas milhares de pessoas sobre o rio.(...)
Depois que o bispo e o general Parreiras passaram para... (Gaia)... os que estavam de guarda à ponte fizeram levantar um dos enormes alçapões que ela tinha a meio, sem se lembrarem que era naturalmente por ela que a cidade se havia de esvaziar logo que os franceses se assenhoreassem das linhas.
Assim aconteceu. Os habitantes, dementados pelo pavor, correram à ponte, como estrada de salvação... Ao chegar junto dela, aquilo era uma massa compacta e apertadíssima onde mal se podia respirar – e aquela massa compacta lançou-se por ela... cada vez mais comprimida e cada vez mais alucinada... impelida pelo terror.
Ao chegar a meio da ponte estacou um momento... É que diante daquela massa compacta... estava um abismo, estava aquele terrível boqueirão, que a estupidez humana deixara após si ao fugir. As primeiras dezenas de pessoas sumiram-se de repente na voragem, sem terem tempo sequer para fazer um esforço para estacar, sem terem tempo para mais que para soltar aquele brado pavoroso de medonha agonia, aquele grito de alarme contra a morte, que de súbito e à traição se lhe abria debaixo dos pés... Todos pretenderam estacar, firmar-se, não ir mais avante; mas a força da impulsão, que lhes comunicavam os que vinham de trás, era mais forte do que a da repulsão da agonia dos que viam aos pés o abismo; e centenas e centenas de pessoas continuaram a sumir-se por aquele medonho boqueirão. Era um só brado de desespero o alarido... por fim as forças dos que resistiam puderam quase equilibrar-se com as dos que empurravam para a frente. O número dos que se sumiam pelo boqueirão abaixo começou a... (diminuir); mas a imensa (massa de gente)... comprimida nas extremidades, começou a alargar ao centro... sobre as guardas da ponte... (que) não puderam dilatar-se mais; estoiraram, e por aqueles dois enormes rombos lufaram imediatamente... centenares e centenares de pessoas.
(...) No rio, junto da ponte, viam-se milhares de desgraçados, aferrados uns aos outros... ora aparecendo, ora desaparecendo, e depois... deslizando em fieira, a debater-se sempre, pela corrente do rio abaixo. Mais além já eram cadáveres... que boiavam à tona da água; e só longe... é que aquela medonha pavezada se ia desfazendo pouco a pouco, pedaço a pedaço, até que de todo mergulhava e sumia.
O alarido dos que... se achavam subitamente em frente da morte e o dos que de terra presenciavam esta imensa desgraça, com a morte também a poucos passos... – porque os franceses desciam pela rua... abaixo, lançando um chuveiro de balas – era medonho, tremendol... Naquela meia dúzia de palmos de terra, naquela estreita ponte de madeira que se estendia sobre o Douro, representou-se naquele dia uma cena que compendiou em breve resumo tudo quanto a agonia e o pavor têm de mais...horroroso.(…)

A soldadesca corria desenfreada pelas ruas, arrombando casas, entrando nas já arrombadas, roubando tudo o que achavam em dinheiro e atirando os trastes (/móveis) e roupas para o meio da rua. Espancavam toda a gente, e cometiam toda a ordem de desacatos, sem respeitarem velhos, mulheres ou crianças... nem escaparam os conventos das freiras... Os excomungados não queriam senão botas e camisas; e de dinheiro só o metal... Aqui e ali via-se gente morta... fuzilavam por dá cá aquela palha qualquer homem... (...)
Aqueles três dias de saque foram três dias de inferno. Hoje o Soult saiu com uma proclamação, em que dizia que o Porto devia ser queimado por ter resistido, mas que ele lhe perdoava.


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FICHA TÉCNICA:
Coordenação: Joaquim Moedas Duarte
Textos: José Ermitão Manuela Catarino Venerando de Matos
Concepção Gráfica: José Pedro Sobreiro
Execução Gráfica: Carlos António Ferreira



21/08/09

ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS NO FORTE DE ALQUEIDÃO



No Forte de Alqueidão, Sobral de Monte Agraço, está a decorrer uma campanha de escavações para pôr a descoberto o conjunto de estruturas militares que faziam parte daquele complexo. Ver site da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, AQUI

08/08/09

BADALADAS - TEXTO 35 - 7 AGO 2009

A 2ª INVASÃO FRANCESA (3)

ÀS ARMAS, PORTUGUESES, ÀS ARMAS!


JOSÉ NR ERMITÃO


No artigo anterior referi que os Governadores do Reino, perante a possibilidade de uma nova invasão, emitem nos dias 9 e 11 de Dezembro de 1808 duas proclamações declarando o levantamento em armas de toda a nação contra os franceses. Porque terá sido a única vez na nossa história que proclamações destas foram feitas – a nação estava em perigo! – Transcrevo-as parcialmente (grafia actualizada).

Proclamação de 9/12/1808:

“ (...) portugueses, não basta ter uma vez vencido; é necessário para conservar a Liberdade opor uma barreira irresistível aos novos esforços do insaciável Napoleão... (...)
Às armas, portugueses, às armas! A necessidade exige que a massa da nação em-punhe as armas; e todas as armas na mão robusta de um defensor da Pátria são instrumentos decisivos da vitória. O governo vigia sobre a subsistência dos exércitos; e onde não chegam os recursos ordinários das rendas públicas suprem os donativos dos vassalos... (...) A Inglaterra, a generosa Inglaterra... nos vem dar o exemplo que devemos imitar. (...) E nós, mais do que ela interessados na defesa da nossa independência, ficaremos agora numa mole e insensível apatia? (...)
Portugueses, contra um inimigo poderoso e vigilante não deve haver descuido. Se não quereis ser vis escravos, se não quereis ver ultrajada a santa religião, vilipendiada a vossa honra, insultadas as vossas mulheres, trespassados das baionetas os vossos inocentes filhos e aniquilada para sempre a glória de Portugal, corramos todos a afrontar-nos com o inimigo comum, unamos as nossas armas às dos honrados espanhóis e às dos intrépidos ingleses... A Nação que quer ser livre nenhuma força a pode tornar escrava. Uma Nação levantada em massa tem uma força irresistível. (...).”

Proclamação de 11/12/1808
“ (...) que toda a Nação Portuguesa se arme pelo modo que a cada um for possível: que todos os homens, sem excepção de pessoa ou classe, tenham uma espingarda ou pique com ponta de ferro... e (se arme) de todas as demais armas que as suas possibilidades permitirem. Que todas as cidades, vilas e povoações consideráveis se fortifiquem tapando as entradas e ruas principais com dois, três ou mais traveses para que, reunindo-se aos seus habitantes todos os moradores dos lugares, aldeias e casais vizinhos, se defendam ali vigorosamente quando o inimigo se apresente; (...)
Que todas as Câmaras... remetam no espaço de oito dias... (ao) Governador de Armas da respectiva província, uma relação das pessoas que... forem mais capazes para as comandar... que todos os Generais encarregados dos Governos das Armas (regiões militares)... examinem o estado das Companhias, nomeiem para oficiais delas... (quem) julgarem mais dignas e capazes..; (...)
Que todas as Companhias se reúnam nas suas povoações todos os domingos e dias santos para se exercitaram no exercício das armas que tiverem e nas evoluções militares, compreendendo todos os homens de quinze até sessenta anos. (...)”

E termina ordenando a pena de morte a quem se recusar à defesa do país ou auxilie o inimigo, e o arrasamento das povoações que não se defendam ou colaborem com o inimigo.
Como também foi referido no anterior artigo, a situação do exército era péssima. E a correspondência do general Bernardim Freire, tanto revela essa situação como a vontade popular em resistir e em se defender: “De toda a parte se queixam de falta de munições e de meios de defesa... (...) entretanto o que dá muitas esperanças é o muito que os povos parecem animados a defender a nossa causa”; “a cada passo me lastimo do estado em que se acha a nossa tropa, armada... com chuços e espingardas sem baionetas...sem oficiais capazes de as comandar”. Mas “anima muito observar a boa vontade que o povo em geral mostra em se defender e que resiste a todas as privações...”.
Faltam armas, munições e organização, haverá mesmo momentos de anarquia que inutilizam o valor da intervenção popular – mas é com um exército onde o elemento popular (milícias e ordenanças), militarmente enquadrado, supera a tropa regular que se vai organizar a tenaz e vitoriosa resistência contra os invasores.


05/08/09

FRENTE OESTE - TEXTO 24 - 16 JUL 2009




CENA HISTÓRICA COM TOQUE DE AQUILINO

João Flores Cunha

As Guerras Napoleónicas deixaram marcas profundas na sociedade portuguesa. Ao longo do século XIX, e até hoje, elas repercutem-se sem cessar quer na memória popular quer na História e na Literatura. Este fenómeno não é único em Portugal. Não só na Inglaterra e em França, mas também em muitos outros países, há uma imensa biblioteca que se debruça sobre esta época, mostrando expressivamente que ela é a porta da modernidade política, social e cultural europeia.
Registamos hoje um apontamento de um nosso leitor e colaborador, sempre atento e oportuno, que no-lo enviou como exemplo desta realidade.

Aquilino Ribeiro (1885/1963) num dos seus últimos grandes romances, A Casa Grande de Romarigães (1957), uma crónica romanceada através de nove gerações de um morgadio do Alto Minho, dá-nos a conhecer, quer o modo de vida e as relações inter-sociais coevas, quer episódios da nossa história com relevância local. Como não podia deixar de ser, num dos capítulos deste livro são descritos alguns episódios da segunda invasão francesa, dos quais transcrevemos este:
"Soult era, por temperamento ou cálculo, mais moderado que os outros marechais de França que comandaram as tropas de invasão e procurou reprimir as suas feras.
Chegou mesmo, à semelhança das abelhas que batem as asas à porta do apiário, a dar lugar com suas anaçadas atitudes a que um hausto de refrigério aliviasse em seus transes a terra acalcanhada. Dado o seu génio clemente e generoso, o melhor era a gente entregar-lhe corpos e almas. E uma embaixada dos 36 maiores do Distrito, tonsurados e bacharéis, banqueiros e industriais, foi ao Porto dizer-lhe:
- O nosso rei fugiu para o Brasil e é um covarde, um traste, um biltre indignamente ungido de Deus; é provável que nas âmbulas só houvesse azeite rançoso. Ninguém lhe tinha respeito, a mulher fartou-se de lhe sujar as barbas. Arranje-nos outro, Mossiú, que nós aceitamo-lo. Mas arranje-no-lo depressa, que isto de povo sem um reizinho é como cego sem bordão. E aqui para nós: bem empregado pontapé que Mossiú Junot lhe deu na bunda! Agora diga-nos: Quando é que nos arranja um sucessor...?! Nós não podemos passar sem rei, não podemos, venha ele donde vier, de casa ou de fora, feito ao torno ou filho duma saca de maganas. Tome nota, Mossiú...
O duque da Dalmácia viu-lhes os rostos contorcionados pela angústia e o olhar dúbio; ouviu suas palavras pressurosas a jurar pelo pai, pela mãe, por Cristo - e avaliou à justa do que valia aquela delegação de carneiros. Teve dó, teve nojo?! Limitou-se a despedi-los com irónica amenidade e duas palavras de falso agradecimento, em nome do Imperador."