23/03/10
A CAVALO PELAS LINHAS
Venerando de Matos, incansável investigador da nossa História Local e sempre atento ao que por cá se vai passando, deixou estes apontamentos no seu VEDROGRAFIAS. Pela sua actualidade e importância aqui o transcrevemos com a devida vénia e agradecimento.
De notar que inclui a reportagem publicada hoje no jornal PÚBLICO.
Chamamos ainda a atenção para o endereço da organização responsável por este Raid. Vale a pena visitar: http://www.linesoftorresvedras.com/
Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.
O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:
"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão
Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo.
Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.
É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.
São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.
As invasões francesas
Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.
Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.
Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.
Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...
A história a cavalo
Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."
Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."
O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.
Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.
É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"
Uma guerra moderna
"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."
A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."
Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.
É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.
Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."
Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".
15/03/10
BADALADAS - Texto 47 - 12 MARÇO 2010
A OPOSIÇÃO AO PLANO DE DEFESA DE WELLINGTON
Rui Prudêncio
Apesar da vitória na batalha de Talavera (27-28 de Julho de 1809) Wellington entendeu que o avanço do exército anglo-luso até Madrid era arriscado devido às discrepâncias com o exército espanhol quanto à adopção de uma estratégia comum e à ameaçadora proximidade do exército francês da fronteira portuguesa. Além disso, a diplomacia francesa obtinha mais uma relevante vantagem para Napoleão com repercussões na Península Ibérica. O tratado de paz entre o império francês e o império austríaco (14 de Outubro de 1809) possibilitava a Napoleão a formação de um grande exército de conquista de Portugal. Com a situação militar controlada em Espanha a terceira invasão seria apenas uma questão de tempo.
Neste contexto político-militar Wellington define um plano de defesa de Portugal. O plano visava preservar o exército, evitando os confrontos directos com o inimigo, de resultados imprevisíveis. Objectivando também a defesa de Lisboa, o plano prevê a invasão das Beiras e Estremadura, retirando destas os meios de subsistência ao invasor como parte da táctica da terra queimada e constrói as linhas de defesa de Torres Vedras. As linhas de Torres Vedras articulavam-se com o primeiro objectivo ao servirem de protecção a uma eventual retirada do exército inglês por mar.
O plano de defesa de Portugal foi apresentado em Fevereiro de 1810 aos governadores do reino. Estes concordaram com a sua execução, aparentemente sem qualquer reserva. Contudo, algum tempo depois, verificou-se uma alteração no elenco governativo, com a nomeação do principal Sousa para o governo. Na opinião do principal Sousa, a defesa de Portugal devia fazer-se em território espanhol, por meio de batalha forte e dura ao invasor para impedir a sua entrada em solo português. Estava persuadido que permitir ao exército francês percorrer o país até às linhas de Torres Vedras era condenar a economia agrária e as populações. Obrigar as populações a abandonar casas e propriedades seria não só desmoralizante como lesivo para as finanças do reino, e consequentemente para o exército pela falta de dinheiro e de homens. Pensamento incompatível com o plano de defesa de Wellington que previa a evacuação da população em grande escala e a destruição de culturas e colheitas para retirar abastecimentos ao exército napoleónico.
Outro ponto discordante dizia respeito aos objectivos militares. Enquanto Wellington tinha por objectivo primordial a defesa de Lisboa e a retirada em segurança do exército inglês em caso de retirada, o principal Sousa pretendia a defesa da integralidade do território português através de acções militares em Espanha. Criticava as premissas militares de Wellington interrogando-se retoricamente: «Há de a fuga ser o meio de resistir ao inimigo? Há de ser a ruína das propriedades o meio de defender o reino? Há de Lisboa só considerar-se o ponto a defender em Portugal, e gostosamente hão de os povos danificar as suas fortunas para defesa desta cidade?» . (Arquivo Histórico Militar-DIV-1-14-002-34)
Queixa-se Wellington a 30 de Novembro de 1810 ao príncipe regente D. João que além dos governadores do reino não terem competências políticas nos planos e operações militares, pois só ele era responsável perante o rei português e inglês pela condução do exército anglo - luso, foram, sobretudo devido à oposição do principal Sousa, demorados em tomar as medidas necessárias para dificultar o avanço do invasor e implementar a táctica da terra queimada. Como consequência desta demora, escreve Wellington, «o inimigo há achado na Estremadura todas as coisas que não somente podiam cooperar para o seu conforto, mas até mesmo para a sua subsistência e para os habilitar a manter a sua posição em Portugal» . Em conclusão, o general inglês responsabilizava o principal Sousa pela sorte dos acontecimentos e pedia ao príncipe regente os devidos resultados políticos da sua acção: «Há sido pois a consequência da oposição ocasionada pelo principal Sousa contra as indicadas medidas que elas hão ficado improcedentes, e parte dos territórios de Vossa Alteza Real assim como do seu povo, estão agora suportando vexames e muitos pesados sofrimentos. A influência do principal Sousa se há em uma tal instância manifestado perniciosa e por isto deixo às sábias determinações de Vossa Alteza Real o decidir se acaso será conveniente que esta personagem continue um dos membros do governo» . Porém, o principal Sousa permanece no governo até à Revolução de 1820.
Rui Prudêncio
Apesar da vitória na batalha de Talavera (27-28 de Julho de 1809) Wellington entendeu que o avanço do exército anglo-luso até Madrid era arriscado devido às discrepâncias com o exército espanhol quanto à adopção de uma estratégia comum e à ameaçadora proximidade do exército francês da fronteira portuguesa. Além disso, a diplomacia francesa obtinha mais uma relevante vantagem para Napoleão com repercussões na Península Ibérica. O tratado de paz entre o império francês e o império austríaco (14 de Outubro de 1809) possibilitava a Napoleão a formação de um grande exército de conquista de Portugal. Com a situação militar controlada em Espanha a terceira invasão seria apenas uma questão de tempo.
Neste contexto político-militar Wellington define um plano de defesa de Portugal. O plano visava preservar o exército, evitando os confrontos directos com o inimigo, de resultados imprevisíveis. Objectivando também a defesa de Lisboa, o plano prevê a invasão das Beiras e Estremadura, retirando destas os meios de subsistência ao invasor como parte da táctica da terra queimada e constrói as linhas de defesa de Torres Vedras. As linhas de Torres Vedras articulavam-se com o primeiro objectivo ao servirem de protecção a uma eventual retirada do exército inglês por mar.
O plano de defesa de Portugal foi apresentado em Fevereiro de 1810 aos governadores do reino. Estes concordaram com a sua execução, aparentemente sem qualquer reserva. Contudo, algum tempo depois, verificou-se uma alteração no elenco governativo, com a nomeação do principal Sousa para o governo. Na opinião do principal Sousa, a defesa de Portugal devia fazer-se em território espanhol, por meio de batalha forte e dura ao invasor para impedir a sua entrada em solo português. Estava persuadido que permitir ao exército francês percorrer o país até às linhas de Torres Vedras era condenar a economia agrária e as populações. Obrigar as populações a abandonar casas e propriedades seria não só desmoralizante como lesivo para as finanças do reino, e consequentemente para o exército pela falta de dinheiro e de homens. Pensamento incompatível com o plano de defesa de Wellington que previa a evacuação da população em grande escala e a destruição de culturas e colheitas para retirar abastecimentos ao exército napoleónico.
Outro ponto discordante dizia respeito aos objectivos militares. Enquanto Wellington tinha por objectivo primordial a defesa de Lisboa e a retirada em segurança do exército inglês em caso de retirada, o principal Sousa pretendia a defesa da integralidade do território português através de acções militares em Espanha. Criticava as premissas militares de Wellington interrogando-se retoricamente: «Há de a fuga ser o meio de resistir ao inimigo? Há de ser a ruína das propriedades o meio de defender o reino? Há de Lisboa só considerar-se o ponto a defender em Portugal, e gostosamente hão de os povos danificar as suas fortunas para defesa desta cidade?» . (Arquivo Histórico Militar-DIV-1-14-002-34)
Queixa-se Wellington a 30 de Novembro de 1810 ao príncipe regente D. João que além dos governadores do reino não terem competências políticas nos planos e operações militares, pois só ele era responsável perante o rei português e inglês pela condução do exército anglo - luso, foram, sobretudo devido à oposição do principal Sousa, demorados em tomar as medidas necessárias para dificultar o avanço do invasor e implementar a táctica da terra queimada. Como consequência desta demora, escreve Wellington, «o inimigo há achado na Estremadura todas as coisas que não somente podiam cooperar para o seu conforto, mas até mesmo para a sua subsistência e para os habilitar a manter a sua posição em Portugal» . Em conclusão, o general inglês responsabilizava o principal Sousa pela sorte dos acontecimentos e pedia ao príncipe regente os devidos resultados políticos da sua acção: «Há sido pois a consequência da oposição ocasionada pelo principal Sousa contra as indicadas medidas que elas hão ficado improcedentes, e parte dos territórios de Vossa Alteza Real assim como do seu povo, estão agora suportando vexames e muitos pesados sofrimentos. A influência do principal Sousa se há em uma tal instância manifestado perniciosa e por isto deixo às sábias determinações de Vossa Alteza Real o decidir se acaso será conveniente que esta personagem continue um dos membros do governo» . Porém, o principal Sousa permanece no governo até à Revolução de 1820.
BADALADAS - Texto 46 - 26 FEVEREIRO 2010
O MARECHAL MASSENA
Maria Guilhermina Pacheco
“Guindam-se aos mais altos cargos homens como Massena, contrabandista e estalajadeiro...” Raul Brandão, El-rei Junot
Realmente, poder-se-á perguntar quem foi André Massena, que em 1810 comandou a terceira invasão francesa a Portugal.
Nasceu em Nice, em 1758, o pai era taberneiro. Começou por ser grumete, na marinha mercante, depois alistou-se no exército, mas como era de origem burguesa, não podia atingir o cargo de alferes, demitiu-se, era sargento-ajudante, estava-se em 1789.
Com a revolução, vai aderir à Guarda Nacional e, regressa à vida militar, em 1792, já detém o cargo de chefe de batalhão e, em 1793, era general de divisão.
Conhecido como bom estratega, Napoleão, elogiava-o, dizendo que tinha “...des talents militaires devant lesquels il faut se prosterner...”. (talentos militares, diante dos quais temos de nos inclinar…)
A sua carreira militar não se caracteriza, no entanto, por uma ascensão contínua, terá campanhas vitoriosas, seguidas de períodos de abrandamento ou mesmo paragem.
Entre 1795 e 1799, Massena, combate os piemonteses, os austríacos, tendo alcançado vitórias em Loano (1795) e na campanha da Itália (1797), mas vai ser em Zurique (1799) que consegue uma das suas mais importantes vitórias militares. Como resultado, ganha o cognome de Filho Querido da Vitória e o título de marechal.
Entretanto, em França a cena política sofre mudanças, Massena é republicano, mas não aprovou o golpe de 18 de Brumário, vai apoiar o Império, e passa a fazer parte da lista dos marechais do exército francês, tendo recebido a condecoração da Grã-cruz da Legião de Honra.
Novamente em campanha, trava batalhas na Itália e na Polónia, tendo tido êxito em Essling e Wagram (1809). Teve um acidente, impossibilitando-o de combater, e será durante a sua recuperação que Napoleão o vai enviar como comandante do exército que invadirá Portugal pela terceira vez.
Este exército estava dividido em três corpos, comandados respectivamente por Reynier, Ney e Junot, tinha também, uma divisão de cavalaria comandada por Kellerman, no total eram 65 000 homens, tinha ainda 65 oficiais e 16 ajudantes-de-campo sob as suas ordens.
Em Julho de 1810, o exército francês está perto da fronteira portuguesa. Depois de ocupar Astorga e Cidade Rodrigo, prepara-se para tomar a praça de Almeida, o que consegue devido a uma explosão no paiol, tendo o seu responsável, Costa e Almeida, capitulado.
A 15 de Setembro, Massena inicia a invasão, dirige-se para Celorico da Beira, seguidamente Fornos de Algodres em direcção ao Mondego. Entretanto as populações com medo e recebendo ordens de Wellington, abandonam as suas casas, contribuindo para dificultar o abastecimento ao exército inimigo. Massena vai seguindo para o interior do país as tropas de Wellington, não se apercebendo da estratégia. Encontram-se os dois exércitos em Buçaco, tendo as tropas portuguesas e inglesas lutado tão vigorosamente que os franceses tiveram que retirar, perdendo 4 498 homens.
Massena, no entanto, ansiava chegar a Lisboa, e continuou o seu caminho, indo em direcção a Coimbra que tomou e pilhou, e continuou desconhecendo a existência de fortes defesas: Linhas de Torres Vedras. Aí não teve capacidade para atacar, ficando à espera de reforços, enquanto os seus soldados saqueavam as populações das aldeias mais perto, havendo também grupos de desertores que se organizavam em quadrilhas de ladrões, devastando tudo à sua roda.
Em meados de Novembro, Massena, dá inicio à retirada, tendo seguido na direcção de Santarém, quando a ajuda que esperava chegou, era insuficiente, pelo que o comandante francês resolveu retirar-se para Espanha. O seu caminho de regresso não foi fácil, vários foram os encontros entre os dois exércitos, a retirada tinha-se iniciado a 4 de Março de 1811, e atravessa a fronteira a 8 de Abril, continuando a ser perseguido quer pelos aliados quer por grupos de guerrilhas e de milícias.
O próprio exército francês sofre problemas fracturantes como é o caso da insubordinação de Ney, que não concorda com a estratégia do marechal, tendo sido destituído do seu comando.
Em Espanha travou vários combates, destacando-se o de Fuentes de Oñoro a 2 de Maio, tendo sido posteriormente destituído do seu cargo por Napoleão e substituído por Marmont, duque de Ragusa.
Com as mudanças políticas em França, aceita a Restauração e Luís XVIII, mantém-no como comandante da 8ª divisão militar em Marselha. Morre em Paris em 1817.
Massena distinguiu-se como militar pela coragem, dotes estratégicos e mesmo bravura, mas como pessoa, actuou de uma forma ambiciosa e sem escrúpulos, esquecendo-se muitas vezes da posição que detinha, aproximando-se das atitudes dos seus subordinados. Assim, em 10 anos aumentou sua fortuna pessoal em 40 milhões de francos.
“Em Portugal, deixou um rasto de ruínas e de morte, que ficarão pelos tempos fora, a macular a sua memória e a empanar o lustre que alcançou nos campos de batalha.” (António Álvaro Dória)
Maria Guilhermina Pacheco
“Guindam-se aos mais altos cargos homens como Massena, contrabandista e estalajadeiro...” Raul Brandão, El-rei Junot
Realmente, poder-se-á perguntar quem foi André Massena, que em 1810 comandou a terceira invasão francesa a Portugal.
Nasceu em Nice, em 1758, o pai era taberneiro. Começou por ser grumete, na marinha mercante, depois alistou-se no exército, mas como era de origem burguesa, não podia atingir o cargo de alferes, demitiu-se, era sargento-ajudante, estava-se em 1789.
Com a revolução, vai aderir à Guarda Nacional e, regressa à vida militar, em 1792, já detém o cargo de chefe de batalhão e, em 1793, era general de divisão.
Conhecido como bom estratega, Napoleão, elogiava-o, dizendo que tinha “...des talents militaires devant lesquels il faut se prosterner...”. (talentos militares, diante dos quais temos de nos inclinar…)
A sua carreira militar não se caracteriza, no entanto, por uma ascensão contínua, terá campanhas vitoriosas, seguidas de períodos de abrandamento ou mesmo paragem.
Entre 1795 e 1799, Massena, combate os piemonteses, os austríacos, tendo alcançado vitórias em Loano (1795) e na campanha da Itália (1797), mas vai ser em Zurique (1799) que consegue uma das suas mais importantes vitórias militares. Como resultado, ganha o cognome de Filho Querido da Vitória e o título de marechal.
Entretanto, em França a cena política sofre mudanças, Massena é republicano, mas não aprovou o golpe de 18 de Brumário, vai apoiar o Império, e passa a fazer parte da lista dos marechais do exército francês, tendo recebido a condecoração da Grã-cruz da Legião de Honra.
Novamente em campanha, trava batalhas na Itália e na Polónia, tendo tido êxito em Essling e Wagram (1809). Teve um acidente, impossibilitando-o de combater, e será durante a sua recuperação que Napoleão o vai enviar como comandante do exército que invadirá Portugal pela terceira vez.
Este exército estava dividido em três corpos, comandados respectivamente por Reynier, Ney e Junot, tinha também, uma divisão de cavalaria comandada por Kellerman, no total eram 65 000 homens, tinha ainda 65 oficiais e 16 ajudantes-de-campo sob as suas ordens.
Em Julho de 1810, o exército francês está perto da fronteira portuguesa. Depois de ocupar Astorga e Cidade Rodrigo, prepara-se para tomar a praça de Almeida, o que consegue devido a uma explosão no paiol, tendo o seu responsável, Costa e Almeida, capitulado.
A 15 de Setembro, Massena inicia a invasão, dirige-se para Celorico da Beira, seguidamente Fornos de Algodres em direcção ao Mondego. Entretanto as populações com medo e recebendo ordens de Wellington, abandonam as suas casas, contribuindo para dificultar o abastecimento ao exército inimigo. Massena vai seguindo para o interior do país as tropas de Wellington, não se apercebendo da estratégia. Encontram-se os dois exércitos em Buçaco, tendo as tropas portuguesas e inglesas lutado tão vigorosamente que os franceses tiveram que retirar, perdendo 4 498 homens.
Massena, no entanto, ansiava chegar a Lisboa, e continuou o seu caminho, indo em direcção a Coimbra que tomou e pilhou, e continuou desconhecendo a existência de fortes defesas: Linhas de Torres Vedras. Aí não teve capacidade para atacar, ficando à espera de reforços, enquanto os seus soldados saqueavam as populações das aldeias mais perto, havendo também grupos de desertores que se organizavam em quadrilhas de ladrões, devastando tudo à sua roda.
Em meados de Novembro, Massena, dá inicio à retirada, tendo seguido na direcção de Santarém, quando a ajuda que esperava chegou, era insuficiente, pelo que o comandante francês resolveu retirar-se para Espanha. O seu caminho de regresso não foi fácil, vários foram os encontros entre os dois exércitos, a retirada tinha-se iniciado a 4 de Março de 1811, e atravessa a fronteira a 8 de Abril, continuando a ser perseguido quer pelos aliados quer por grupos de guerrilhas e de milícias.
O próprio exército francês sofre problemas fracturantes como é o caso da insubordinação de Ney, que não concorda com a estratégia do marechal, tendo sido destituído do seu comando.
Em Espanha travou vários combates, destacando-se o de Fuentes de Oñoro a 2 de Maio, tendo sido posteriormente destituído do seu cargo por Napoleão e substituído por Marmont, duque de Ragusa.
Com as mudanças políticas em França, aceita a Restauração e Luís XVIII, mantém-no como comandante da 8ª divisão militar em Marselha. Morre em Paris em 1817.
Massena distinguiu-se como militar pela coragem, dotes estratégicos e mesmo bravura, mas como pessoa, actuou de uma forma ambiciosa e sem escrúpulos, esquecendo-se muitas vezes da posição que detinha, aproximando-se das atitudes dos seus subordinados. Assim, em 10 anos aumentou sua fortuna pessoal em 40 milhões de francos.
“Em Portugal, deixou um rasto de ruínas e de morte, que ficarão pelos tempos fora, a macular a sua memória e a empanar o lustre que alcançou nos campos de batalha.” (António Álvaro Dória)
11/03/10
27/02/10
RAID HÍPICO DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS
Mais um raid nas Linhas de Torres Vedras. A organização pede-nos que divulguemos. Com todo o gosto o fazemos.
Raid Hípico dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.
“Galopando nas Linhas com Wellington”
Realiza-se já no próximo Sábado 20 de Março o V Raid Hípico das linhas de Torres Vedras com os seguintes apoios:
Arenescar , BP Lubrificantes , Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Mafra , Campo Real , ELO Artes Gráficas , Império Bonança , Junta de Freguesia do Turcifal , Município de Mafra , Município de Sobral de Monte Agraço , Município de Torres Vedras , Tecsport /Audi , Turismo do Oeste.
A edição do bicentenário, para além da promoção histórica e turística da lindíssima envolvente paisagística, conta este ano com uma participação muito especial, o herdeiro do Ducado de Wellington e Marquês de Douro e de Torres Vedras, Lord Arthur Charles Wellesley, em representação de seu pai o 8º Duque de Wellington, com 95 anos de idade.
Lord Douro, conforme é conhecido no Reino Unido, graças ao título Inglês, surgido da célebre alcunha “Douro”, colocada ao General Wellington pelos soldados portugueses, manifestou a sua paixão por cavalos e o seu enorme desejo de participar no raid hípico, que recria criteriosamente os percursos históricos efectuados durante a defesa das Linhas de Torres Vedras, pelo seu famoso 4º avô, que derrotou Napoleão.
O evento equestre realiza-se como é habitual na zona central das Linhas de Torres Vedras, destacando-se ao longo do itinerário os soberbos miradouros das Serras da Archeira, Alqueidão, Enxara e Socorro, onde termina com uma espectacular recriação histórica e animação do telégrafo óptico de Wellington, da responsabilidade do Município de Mafra. Toda a informação adicional no site oficial : www.linesoftorresvedras.com
Em simultâneo ao raid hípico decorrerá ainda o concurso fotografia Tecsport/ Audi designado “ O cavalo e as Linhas de Torres Vedras” destinado a jovens entre os 11 e 16 anos, cujos prémios incluem desde viagens a Londres e máquinas fotográficas. Inscrições e regulamento no site :
www.belgest.pt/concursofoto
A organização do Raid Hípico das linhas de Torres Vedras
www.linesoftorresvedras.com
31/01/10
DIVULGAÇÃO DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS
AO ENCONTRO DA HISTÓRIA
À atenção de:
Escolas
Juntas de Freguesia
Paróquias
Associações recreativas e culturais
Centros de Dia
Outras entidades interessadas
A Associação do Património de Torres Vedras desloca-se a estes locais, sempre que solicitada, para realizar palestras sobre a Guerra Peninsular, adaptando-as às audiências e apoiando-as em projecção de imagens. Duração base: 1h 30m
Este serviço, totalmente gratuito e a cargo de Professores de História, está integrado no Programa Municipal das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, de cuja Comissão executiva a Associação do Património faz parte.
Disponível mediante marcação prévia. Contactos:
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23/01/10
UM QUADRO DE GOYA
O nome de Goya é indissociável da Guerra Peninsular. São dele os quadros sobre a insurreição de Madrid em 2 de Maio de 1808 contra a ocupação francesa, e - talvez o mais conhecido - o do fuzilamento dos insurrectos, em 3 de Maio.
Mas há um outro que nem sempre é lembrado e que constitui o reverso da realidade brutal dos quadros referidos, aquele em que retrata a família real espanhola. Onde vemos que gente era a que governava Espanha nas vésperas da Guerra Peninsular.
Transcrevo do site da GLOBO:
«"A família de Carlos IV" (1800) é um dos quadros mais conhecidos do pintor espanhol Francisco de Goya y Lucientes. O retrato dos governantes de Bourbon, que se mantinham altivamente distantes de seus súditos, mostra os modelos como de fato eram – enfatuados e pomposos.
O quadro impressiona pela beleza e cruel introvisão. Os membros da família real, com fisionomias apáticas, desdobram-se na tela como se estivessem num friso arquitetônico, pesados e presunçosos, ajuntando-se com pouca elegância e nenhum estilo. A imagem é de um rei fraco, de uma rainha irritável e rixenta, de um herdeiro crasso.
Em todos os retratos, Goya captura o que se passa com o modelo com tal intensidade que combina um senso decorativo aguçado para contrabalançar o impacto. Aqui, trajes deslumbrantes, sedas e rendados, delicadas jóias, medalhes e faixas garantem certo glamour à cena.»
A este propósito Raul Brandão, no seu EL-REI JUNOT, escreve estas páginas fulgurantes:
« É o pobre Carlos IV, feito manequim nas mãos da mulher, que o ludibria de acordo com o favorito; é Carlos IV, cego até comunicar ternura, e, apesar de tudo, inabalável na sua profunda confiança. Arrastam-no, mentem-lhe, perde tudo, mulher, trono, oiro, e já entre as mãos de Napoleão, sem coroa, sem reino, sem prestígio, ainda pergunta numa aflição: — O Manuel? onde está o Manuel? ( Trata-se de Manuel Godoy, o "príncipe da paz", que se tornara amante da rainha Maria Luisa. Toda a gente sabia menos o pobre coitado Carlos IV... - Nota do autor deste blogue)
É a rainha, a impetuosa e lasciva Maria Luísa. Tem 50 anos. Até aí o tropel da vida, o sangue, a miragem, não a deixaram ver a realidade em todos os seus aspectos. Primeiro rebate da velhice, primeiro sabor do sepulcro. Tantas horas perdidas... Pouco te resta já - e já rugas, a pele ressequida, os olhos apagados. É quando a mulher se apega com desespero — restos de colo, restos de cabelo - ao pó de um sonho extinto. Momento em que a vida e a morte se tocam, em que a verdade e a ilusão se misturam. Submete-se. Godoy trata-a como uma criada de servir.
É Fernando, envelhecido na crápula, obtuso e concentrado, odiando o próprio pai, e conseguindo abrir a estúpida boca com sono, perante o formidável drama que se desencadeia na Europa. É enfim o valido, que, por ser esbelto e tocar guitarra como um bandido de Astorga, conquistara um trono. Godoy, que iniciara o seu reinado com estrépito, engorda e parece um cocheiro sebáceo. Há um quadro no Prado que aclara todo o drama confuso: as tintas conservaram e exprimem os sentimentos, os rancores, a ambição, o ódio, as vergonhas e o indeciso e o falso dos caracteres: está ali vivo o que há muito se sumiu para sempre na eternidade. Basta vê-lo ao rei, pachorrento e gordo, de olhos à flor do rosto, estupidez e inocência, satisfação por que o retratem com a família toda — e o Manuel ao lado: compreende-se logo que o representante da sombria raça de crueldade e loucura, nasceu para ser o ludíbrio da mulher e do aventureiro vulgar. É o boi, como lhe chama o embaixador francês em Madrid. Chega a desgraça e ele não entende nem a catástrofe nem o escárnio; num espanto, sem um ímpeto, obedece às ordens deste ou daquele, da rainha, de Godoy, do filho, dos generalões sem escrúpulos, de Napoleão, até ao fim enganado e iludido, obcecado por uma amizade cujas raízes se tinham apoderado de todo o seu ser. Vale a pena encará-lo por mo¬mentos no cenário a negro que é a Espanha, rodeado de fidalgos, de intrigas, de tropas sobre tropas — multidões sôfregas que descem os Pirenéus para lhe arrancarem o trono, de ódios, de gritos de vergonhas: num mar bravio depois: mortes, rapinas, almas sanguinárias à solta — e ele simples e terno, espantadiço e inalterável: — Onde está o Manuel?
Já um criador de moda actual lê assim este quadro:
«Nesse extraordinário trabalho de Francisco de Goya, “A Família Real de Carlos IV”, de 1801, vemos a influência da silhueta império em outras cortes, como a espanhola. A figura central, mais iluminada que o rei é a rainha Maria Luísa de Parma que, junto com toda as outras figuras feminina do quadro, ostenta vestido da linha império. Podemos ver também o magnifíco contraste de cores, a leveza dos trajes femininos e a altivez dos masculinos, mas todos os adultos apresentam traços no rosto entre a alienação e a pasmaceira, incomum na composição pictórica de nobres e ainda mais dos supremos líderes de uma corte.
A genialidade de Goya como retratista faz com que mais do que vermos os brilhos dos brocados, dos bordados a ouro, das pedras preciosas, das pérolas, os sentíssemos reluzindo. O brilho ofusca as caras meio tolas e alienadas dos personagens principais que estão prestes a serem subjugados exatamente pela força que difundiu os vestidos império, a era napoleônica. É uma corte retratada em seu fim. Enfim, as mulheres já vestiam culturalmente o que depois seria político. De alguma forma, a moda antecipou os fatos.»
in: http://dusinfernus.wordpress.com/2009/08/17/goya-e-juliette-o-espanhol-e-a-francesa-e-a-brasileira/
Mas há um outro que nem sempre é lembrado e que constitui o reverso da realidade brutal dos quadros referidos, aquele em que retrata a família real espanhola. Onde vemos que gente era a que governava Espanha nas vésperas da Guerra Peninsular.
Transcrevo do site da GLOBO:
«"A família de Carlos IV" (1800) é um dos quadros mais conhecidos do pintor espanhol Francisco de Goya y Lucientes. O retrato dos governantes de Bourbon, que se mantinham altivamente distantes de seus súditos, mostra os modelos como de fato eram – enfatuados e pomposos.
O quadro impressiona pela beleza e cruel introvisão. Os membros da família real, com fisionomias apáticas, desdobram-se na tela como se estivessem num friso arquitetônico, pesados e presunçosos, ajuntando-se com pouca elegância e nenhum estilo. A imagem é de um rei fraco, de uma rainha irritável e rixenta, de um herdeiro crasso.
Em todos os retratos, Goya captura o que se passa com o modelo com tal intensidade que combina um senso decorativo aguçado para contrabalançar o impacto. Aqui, trajes deslumbrantes, sedas e rendados, delicadas jóias, medalhes e faixas garantem certo glamour à cena.»
A este propósito Raul Brandão, no seu EL-REI JUNOT, escreve estas páginas fulgurantes:
« É o pobre Carlos IV, feito manequim nas mãos da mulher, que o ludibria de acordo com o favorito; é Carlos IV, cego até comunicar ternura, e, apesar de tudo, inabalável na sua profunda confiança. Arrastam-no, mentem-lhe, perde tudo, mulher, trono, oiro, e já entre as mãos de Napoleão, sem coroa, sem reino, sem prestígio, ainda pergunta numa aflição: — O Manuel? onde está o Manuel? ( Trata-se de Manuel Godoy, o "príncipe da paz", que se tornara amante da rainha Maria Luisa. Toda a gente sabia menos o pobre coitado Carlos IV... - Nota do autor deste blogue)
É a rainha, a impetuosa e lasciva Maria Luísa. Tem 50 anos. Até aí o tropel da vida, o sangue, a miragem, não a deixaram ver a realidade em todos os seus aspectos. Primeiro rebate da velhice, primeiro sabor do sepulcro. Tantas horas perdidas... Pouco te resta já - e já rugas, a pele ressequida, os olhos apagados. É quando a mulher se apega com desespero — restos de colo, restos de cabelo - ao pó de um sonho extinto. Momento em que a vida e a morte se tocam, em que a verdade e a ilusão se misturam. Submete-se. Godoy trata-a como uma criada de servir.
É Fernando, envelhecido na crápula, obtuso e concentrado, odiando o próprio pai, e conseguindo abrir a estúpida boca com sono, perante o formidável drama que se desencadeia na Europa. É enfim o valido, que, por ser esbelto e tocar guitarra como um bandido de Astorga, conquistara um trono. Godoy, que iniciara o seu reinado com estrépito, engorda e parece um cocheiro sebáceo. Há um quadro no Prado que aclara todo o drama confuso: as tintas conservaram e exprimem os sentimentos, os rancores, a ambição, o ódio, as vergonhas e o indeciso e o falso dos caracteres: está ali vivo o que há muito se sumiu para sempre na eternidade. Basta vê-lo ao rei, pachorrento e gordo, de olhos à flor do rosto, estupidez e inocência, satisfação por que o retratem com a família toda — e o Manuel ao lado: compreende-se logo que o representante da sombria raça de crueldade e loucura, nasceu para ser o ludíbrio da mulher e do aventureiro vulgar. É o boi, como lhe chama o embaixador francês em Madrid. Chega a desgraça e ele não entende nem a catástrofe nem o escárnio; num espanto, sem um ímpeto, obedece às ordens deste ou daquele, da rainha, de Godoy, do filho, dos generalões sem escrúpulos, de Napoleão, até ao fim enganado e iludido, obcecado por uma amizade cujas raízes se tinham apoderado de todo o seu ser. Vale a pena encará-lo por mo¬mentos no cenário a negro que é a Espanha, rodeado de fidalgos, de intrigas, de tropas sobre tropas — multidões sôfregas que descem os Pirenéus para lhe arrancarem o trono, de ódios, de gritos de vergonhas: num mar bravio depois: mortes, rapinas, almas sanguinárias à solta — e ele simples e terno, espantadiço e inalterável: — Onde está o Manuel?
Já um criador de moda actual lê assim este quadro:
«Nesse extraordinário trabalho de Francisco de Goya, “A Família Real de Carlos IV”, de 1801, vemos a influência da silhueta império em outras cortes, como a espanhola. A figura central, mais iluminada que o rei é a rainha Maria Luísa de Parma que, junto com toda as outras figuras feminina do quadro, ostenta vestido da linha império. Podemos ver também o magnifíco contraste de cores, a leveza dos trajes femininos e a altivez dos masculinos, mas todos os adultos apresentam traços no rosto entre a alienação e a pasmaceira, incomum na composição pictórica de nobres e ainda mais dos supremos líderes de uma corte.
A genialidade de Goya como retratista faz com que mais do que vermos os brilhos dos brocados, dos bordados a ouro, das pedras preciosas, das pérolas, os sentíssemos reluzindo. O brilho ofusca as caras meio tolas e alienadas dos personagens principais que estão prestes a serem subjugados exatamente pela força que difundiu os vestidos império, a era napoleônica. É uma corte retratada em seu fim. Enfim, as mulheres já vestiam culturalmente o que depois seria político. De alguma forma, a moda antecipou os fatos.»
in: http://dusinfernus.wordpress.com/2009/08/17/goya-e-juliette-o-espanhol-e-a-francesa-e-a-brasileira/
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15/01/10
BADALADAS - TEXTO Nº 45 - 22 JANEIRO 2010
A BATALHA DO CÔA
J. Moedas Duarte
Em Julho de 1809 Napoleão, vitorioso em Essling e Wagram, dominava a Áustria, a Prússia e tinha a Rússia sobre controlo. Considerou que estava na altura de se voltar para a Península Ibérica onde a aliança Luso-Britânica mantinha um foco de resistência. Ponderou vir, ele próprio, resolver o problema militar mas acabou por entregar a um dos seus mais eficientes generais, André Massena ( 1758-1817), o comando do denominado “Exército de Portugal”, criado em 17 de Abril de 1810. Massena, gasto por muitas batalhas, aceitou contrariado esta missão e mais contrariado ficou com a atitude dos generais seus subordinados, invejosos por se sentirem preteridos. Para muitos autores, estas desconfianças mútuas explicam parte do fracasso de Massena nesta campanha militar.
A primeira acção dos franceses foi contra Ciudad Rodrigo, já muito próximo da fronteira portuguesa. Durante setenta e dois dias esta cidade resistiu heroicamente ao cerco mas acabou por se render face à superioridade do inimigo. Ultrapassado o obstáculo, Massena entra em Portugal em meados de Julho e prepara-se para neutralizar Almeida de modo a garantir linhas de abastecimento com a Espanha, dominada pelos franceses. Não tinha muita pressa pois recebera instruções de Napoleão para que a campanha em Portugal se desencadeasse em Setembro, «depois do tempo quente e sobretudo depois das colheitas». Wellington, ciente da sua inferioridade numérica - o exército francês tinha cerca de 65 000 homens – não acorrera em auxílio de Ciudad Rodrigo e evita agora o confronto directo. Conta com a capacidade de resistência da vila fortificada de Almeida, uma praça-forte construída em forma de estrela, segundo o modelo idealizado dois séculos antes pelo engenheiro francês Vauban, de modo a neutralizar os efeitos da artilharia atacante e a aumentar a capacidade da artilharia defensiva. A estratégia de Wellington assentava em três princípios: desertificação do território, com destruição dos víveres que não pudessem ser transportados para Sul pelo êxodo das populações; acção de guerrilha das milícias e ordenanças, tropas de segunda e terceira linhas formadas por camponeses mas enquadradas por oficiais britânicos; e manobras no terreno, do exército luso-britânico de primeira linha, de forma habilidosa, de modo a encontrar um lugar propício ao embate, em condições de superioridade táctica - o que veio a suceder no Buçaco, em 27 de Setembro. Subjacente a estes princípios estava o segredo das Linhas de Torres Vedras, em construção acelerada mas ainda incompletas. Era vital, por isso, atrasar o mais possível a marcha de Massena sobre Lisboa.
Ponte sobre o Côa
Memorial aos combatentes do Côa
O primeiro grande embate entre invasores e defensores estava reservado para as margens do Rio Côa, perto de Almeida. Deu-se entre uma parte do exército francês, comandada pelo general Ney e a Divisão Ligeira Luso-Britânica comandada pelo general Craufurd. Os testemunhos da época dão-nos conta de um embate terrível, em que as forças aliadas estiveram a ponto de serem completamente aniquiladas pela superioridade numérica do inimigo. Tudo se passou em redor de uma ponte granítica sobre o Côa, que ainda hoje podemos visitar, poucos quilómetros antes de Almeida, na qual foi construído um singelo memorial a recordar as centenas de combatentes que ali perderam a vida. Contrariando ordens do sempre prudente e astucioso duque de Wellington, Craufurd não se limitou a pequenas acções de reconhecimento e diversão táctica. Decidiu enfrentar os franceses, apesar de manobrar em terreno acidentado e declivoso. Só a valentia desesperada dos seus soldados e oficiais subalternos impediu o desastre total, conseguindo a retirada pela ponte para a margem oposta, em sucessivos combates de enorme violência.
O confronto seguinte vai dar-se em Almeida. Dele falaremos em próximo artigo.
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Terceira Invasão Francesa
13/01/10
11/01/10
10/01/10
CURSO DE FORMAÇÃO
Começa no dia 20 de Janeiro. Inscrições abertas. Contactar o Arquivo Municipal de Torres Vedras
Esclarecemos que a data inicial, que era 13 de Janeiro, foi alterada pela organização.
ACTIVIDADES DO PROGRAMA COMEMORATIVO
"Linhas Cruzadas": projecto artístico transdisciplinar que visa valorizar o contributo das artes, ofícios e lazeres tradicionais, pelo seu cruzamento com saberes e leituras con-temporâneas. Decorre em vários locais do concelho tendo como parceiros artistas convidados, Clube Sénior, lares e escolas.
"Linhas de Leitura": Concurso Municipal de Leitura para alunos do 3o ciclo que te¬rá por base obras literárias relacionadas com as invasões francesas. As provas de¬correm a 3 de Fevereiro devendo as inscrições ser efectuadas para 261 310 457 ou biblioteca@cm-tvedras.pt
Campelos: de 11 a 15, Semana do Bicentenário da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres Vedras, na Escola Básica 2, 3 Gaspar Campello. A acção tem como objecti¬vo dar a conhecer à comunidade a história e a influência local da Guerra e das Li¬nhas com exposições temáticas, exibição de filmes e visitas de estudo. Informações: 261 438 130.
"Linhas de Leitura": Concurso Municipal de Leitura para alunos do 3o ciclo que te¬rá por base obras literárias relacionadas com as invasões francesas. As provas de¬correm a 3 de Fevereiro devendo as inscrições ser efectuadas para 261 310 457 ou biblioteca@cm-tvedras.pt
Campelos: de 11 a 15, Semana do Bicentenário da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres Vedras, na Escola Básica 2, 3 Gaspar Campello. A acção tem como objecti¬vo dar a conhecer à comunidade a história e a influência local da Guerra e das Li¬nhas com exposições temáticas, exibição de filmes e visitas de estudo. Informações: 261 438 130.
04/01/10
BADALADAS - TEXTO Nº 44 8 JANEIRO 2010
AS LINHAS DE TORRES VEDRAS
VISTAS POR UM GENERAL FRANCÊS
J. Moedas Duarte
As fontes históricas são o instrumento necessário para o conhecimento do passado humano. Podem ser escritas e não escritas e exigem tratamento específico de modo a retirar delas toda a informação possível. Para o conhecimento da História da Guerra Peninsular há um acervo quase infinito de fontes escritas. E há também fontes iconográficas, mapas, construções militares, armamento, etc. Das fontes escritas há um núcleo particularmente rico, constituído pelas “memórias” e pela “correspondência”, escritas por intervenientes directos, geralmente franceses e ingleses, que nos relatam a sua visão dos acontecimentos. Nelas encontramos descrições de costumes, de paisagens e de pessoas. Ou pormenores e observações mais ou menos judiciosas sobre toda esta época tão rica de acontecimentos. No entanto o Historiador sabe que deve lê-las com prudência pois elas transmitem visões pessoais, com uma inevitável carga subjectiva que tende a deformar a realidade relatada. Daí a necessidade de cruzar essas informações com outras de diferente proveniência.
Estão publicados em Português alguns livros de memórias e cartas que constituem testemunhos valiosos e imprescindíveis para o conhecimento da Guerra Peninsular.
Neste espaço falamos hoje de um livro que se liga directamente com a Terceira Invasão Francesa: General Barão de Marbot - Memórias sobre a 3ª Invasão Francesa, edição da Caleidoscópio, Lisboa, 2006, com uma introdução do professor universitário, António Vicente.
Este historiador traça o percurso biográfico de Marbot, general francês que fez parte do Estado-Maior de Massena em Portugal, em 1810. Mas antes esclarece o lugar das suas memórias no conjunto dos relatos da época. Considerado inicialmente como fantasista, o testemunho de Marbot foi reconhecido como de grande fiabilidade pela edição crítica da sua obra. António Vicente considera que se trata de um contributo de grande importância para o apuramento da verdade histórica. Até porque – escreve ele na sua Introdução - “ Marbot faz justiça ao comportamento dos portugueses na Guerra Peninsular. Quando analisa, no último capítulo dedicado à guerra na Penín¬sula, o desempenho dos diversos intervenientes, escreve: «No que respeita aos portugueses, não lhes foi feita justiça pelo contributo que deram às guer¬ras da Península. Menos cruéis, muito mais disciplinados que os espanhóis e com uma coragem mais calma, eles formavam, no exército de Wellington várias brigadas e divisões que, dirigidas pelos oficiais ingleses, não ficavam a dever nada às tropas britânicas, mas, como eram menos gabarolas que os espanhóis, falaram pouco deles e das suas façanhas e a reputação tornou-os menos célebres». Palavras tanto mais elogiosas quanto foram escritas por um adversário...”
A leitura do relato de Marbot é, de facto, apaixonante. Habituados que estamos ao ponto de vista patriótico e inglês, somos levados ao outro lado da guerra, o do inimigo, representado pelo exército francês. Ele relata inicialmente os acontecimentos da 2ª Invasão, no Norte de Portugal, pelo exército de Soult, mas centra-se depois na 3ª Invasão, na qual participou como ajudante de campo de Massena, sempre perto dos centros de decisão. É muito crítico quanto à forma como Massena conduziu a campanha, acusando-o de hesitações nos momentos cruciais e de não saber impor a sua autoridade aos comandantes mais contestatários, o marechal Ney e o general Reynier. Considera que o desaire francês na Serra do Buçaco se deveu a erros grosseiros na avaliação e reconhecimento das posições de Wellington, agravados depois por opções inexplicáveis na fase da marcha para Lisboa.
Frente às Linhas de Torres Vedras, que refere muitas vezes como sendo “de Sintra”, Marbot faz uma crítica demolidora às orientações de Massena. Do seu ponto de vista, no início de Outubro de 1810, as Linhas não eram inexpugnáveis e Massena deveria ter optado por um ataque bem planeado, com diversos pontos de investida, o qual teria condições de êxito face à desorganização dos ingleses, a braços com a multidão de refugiados que acompanhara Wellington para trás das Linhas. Marbot refere também que estas famosas fortificações ainda não estavam concluídas, pelo que seria ainda mais fácil a sua abordagem. Massena hesitou devido à recusa formal de Ney em lhe obedecer e às reservas de Reynier. Tudo isso agravado pela facto de outro general francês, Sainte-Croix, o único que poderia dar bons conselhos ao comandante em chefe, ter sido morto por um tiro de canhão quando fazia um reconhecimento perto de Alhandra. E Marbot termina assim o capítulo em que fala das Linhas de Torres Vedras:
«Afastei-me, portanto, com muita pena das colinas de Sintra, de tal for¬ma estava persuadido que poderíamos ter quebrado as linhas que estavam ainda por acabar, aproveitando a confusão no campo inglês lançada pelos fugitivos. Mas o que era, então, fácil já o não foi de todo quinze dias depois! Na verdade, Wellington, obrigado a alimentar a multidão que tinha obrigado a recuar para Lisboa, utilizava a força de braços de 40 000 camponeses sãos e fazia-os trabalhar na conclusão das fortalezas que ele queria espalhar por Lisboa. A cidade ficou, desde então, muito forte.»
01/01/10
BOM ANO 2010
(Abertura das comemorações junto ao obelisco da Guerra Peninsular - 11 Nov 2009)
AOS LEITORES DESTE ESPAÇO DE DIVULGAÇÃO HISTÓRICA
A ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS
DESEJA UM BOM ANO 2010.
25/12/09
FORTE DA FORCA
À entrada de Torres Vedras, para quem vem do norte, há uma pequena colina onde se situa o chamado Forte da Forca, uma das 152 estruturas defensivas das Linhas de Torres Vedras, frente ao monte do Castelo.
Do Forte já pouco resta.
Do Forte já pouco resta.
Uma parte do fosso
O mesmo troço, visto do lado de dentro do Forte
O espaço interior, com o resto de um través de protecção
Quem está lá no alto e olha para o lado norte, terá agora mais dificuldade em imaginar as tropas francesas acampadas no terreno fronteiro. O que de lá se vê é o "Arena", uma "grande superfície" comercial, para onde convergem milhares de pessoas, sobretudo nos fins-de-semana.
O espaço ocupado pelo que resta do Forte, com o terreno circundante, é bastante exíguo. Sobretudo se pensarmos que para ali se projecta um Centro Interpretativo das Linhas de Torres Vedras.
Antevisão do projecto, recolhido do site do gabinete de arquitectura que o "ofereceu" à Câmara Municipal de Torres Vedras.
É um projecto que consideramos de grande importância para Torres Vedras. Por isso julgamos que deve ser repensado. Será aquele o local mais indicado? O que se pede de uma estrutura deste tipo?
Que custos de construção - e, sobretudo, de manutenção?
16/12/09
INCENTIVO
Recebemos da revista on-line OPERACIONAL uma nota elogiosa que nos honra e incentiva a prosseguir. Sendo nós uma Associação sem fins lucrativos, que vive do amor à camisola de uns poucos entusiastas do Património Local, gostamos de saber que há ressonância do trabalho realizado.
Bem hajam.
Aqui fica a ligação para a bela reportagem fotográfica que fizeram da Exposição sobre as Linhas de Torres Vedras.
11/12/09
PRÉMIO PESSOA 2009
(Foto da revista VISÃO, entrevista de 11 DEZ 2009)
Parabéns ao Comissário da Comemorações dos 200 anos, Manuel Clemente, nosso conterrâneo e bispo da diocese do Porto, pela sua nomeação para o Prémio Pessoa 2009!
09/12/09
BADALADAS - TEXTO Nº 43 - 11 DEZEMBRO 2009
MIGUEL PEREIRA FORJAZ
José NR Ermitão
Quando falamos das Invasões Francesas de que personagens nos lembramos?
Lembramo-nos dos franceses, Napoleão e os generais invasores (Junot, Soult e Massena). Lembramo-nos dos ingleses, Wellington que os derrotou e Beresford que comandou o exército português.
E de que portugueses nos lembramos? Praticamente de nenhum! Não fomos só invadidos pelos franceses e depois dominados pelos ingleses: fomos também esquecidos dos portugueses que tiveram uma acção política e/ou militar preponderante durante esse período. No entanto, a verdade histórica exige que alguns deles sejam retirados do esquecimento; por exemplo, o estadista Miguel Pereira Forjaz (1769-1827).
Militar de carreira, Miguel Pereira Forjaz foi nomeado por D. João em 1807 para a Regência do Reino, cargo de que se demitiu por se recusar a colaborar com Junot. Expulsos os franceses, integrou de novo a Regência do Reino como Secretário dos Negócios Estrangeiros e Guerra – tendo sido no exercício destas funções que se distinguiu, ao proceder à reforma e reorganização do exército português e ao assumir o papel de ligação com os ingleses.
De imediato há um equívoco a desfazer: costuma atribuir-se a reorganização do exército a Beresford, que assumiu as funções de Comandante em Março de 1809. Beresford foi disciplinador, implantou novas tácticas, reforçou o treino militar, nomeou oficiais eficientes, sugeriu reformas – foi o operacional necessário no momento adequado. Mas já antes, em finais de 1808, Miguel Forjaz tinha iniciado todo o processo de reorganização e reconstrução do exército.
Para isso, ordenou que os militares desmobilizados pelos franceses se apresentassem nos seus quartéis, concedeu perdão aos desertores e chamou às armas os soldados desmobilizados desde 1801. No início de 1809, em resultado de sucessiva legislação da sua autoria:
- estavam definidas as regiões militares do país e nomeados os seus comandantes;
- estavam criados 6 Batalhões de Caçadores; 24 Regimentos de Infantaria; 12 Regimentos de Cavalaria; 4 Regimentos de Artilharia; Corpos de Voluntários em Lisboa, Porto e Coimbra (o Batalhão Académico);
- estavam organizados corpos especiais como o de Engenheiros, o Arsenal Real (produção de armas), o Corpo Telegráfico, a Academia de Fortificações, os Guias do Exército e o Corpo de Informações (com uma bem montada rede de espionagem em Espanha);
- estavam restabelecidos os Regimentos de Milícias (tropa de 2ª linha) e os de Ordenanças (tropa de 3ª linha).
Como um exército não se improvisa em três meses, havia problemas a nível de oficiais, fornecimentos, armamento, fardamento, disciplina, etc. Mas foi com este exército, entre o apressado e o organizado, que os generais Bernardim Freire e Francisco da Silveira inviabilizaram e derrotaram os planos de Soult (2ª invasão) – antes de qualquer intervenção de Beresford e Wellington.
É este exército, assim estruturado por Miguel Forjaz, que Beresford – ambos sempre em estreita colaboração – vai transformar numa máquina bélica que merecerá todos os elogios de Wellington (que chama aos militares portugueses os “galos de combate” do exército aliado).
Outra das importantes funções de Forjaz - estadista dotado de uma excepcional capacidade de trabalho, determinação e organização - foi a de ser o elemento de ligação entre o comando militar britânico e o governo.
Durante a 3ª invasão apoiou o plano defensivo de Wellington, contra os restantes governadores que preferiam uma acção ofensiva contra Massena. Aliás, Wellington considerou-o como «o único homem em Portugal adequado à função que ocupa» e «como o mais hábil estadista da Península».
Contudo, depois de 1813, com a expulsão dos franceses da Península e o fim de Napoleão, Miguel Forjaz entra em ruptura total com Beresford e os seus planos de reforço militar, que considera desnecessários em tempo de paz. Beresford só permanece porque tem o apoio político da Corte do Rio de Janeiro.
Miguel Forjaz continua no governo até à Revolução Liberal de 1820. Depois disso desaparece da cena política, da história e da memória – até quando?
BADALADAS - TEXTO Nº41 - 13 NOVEMBRO 2009
200 ANOS DEPOIS
J. Moedas Duarte
Como temos referido em diversas circunstâncias, estas não são comemorações festivas, são EVOCAÇÕES de um período especial na nossa História que marcou profundamente a região em que vivemos. São memórias revisitadas, portadoras de traços de identidade e de pertença que persistem no nosso imaginário colectivo. A este propósito o nosso conterrâneo Manuel Clemente, Bispo do Porto e comissário da CM200Anos, escreve no prólogo do Programa Oficial do Município de Torres Vedras :
(…) O que as nossas Linhas evocam ocorre agora, como então, na permanente disposição que temos como povo de garantir a identidade e a liberdade do nosso ser colectivo.
(…) Lembrá-las hoje, na paz europeia de que felizmente gozamos, é evocar todos os que aqui estiveram, dos dois lados das Linhas, quando nós, seus descendentes, nos reencontramos num projecto comum para o Continente e para o Mundo.
Lembrando os de então, abrimos o futuro na solidariedade e na paz.
O vasto programa comemorativo abarca inúmeras e diversificadas actividades que mobilizarão todas as instituições do nosso concelho: autarquias, escolas, associações, criadores de arte… e decorrerão entre Novembro deste ano e o final do ano que vem.
A Associação de Defesa do Património de Torres Vedras intervém activamente nesta evocação de dupla maneira: por um lado, através de um SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO HISTÓRICA sobre a Guerra Peninsular; por outro, fazendo parte do Executivo da Comissão Municipal.
No que se refere ao referido SERVIÇO, a sua concretização tem duas fases complementares. A primeira consiste na publicação de textos de divulgação na imprensa regional, com destaque para o Badaladas. Neste jornal, entre 25 de Janeiro de 2008 e 31 de Outubro de 2009, foram publicados 41 artigos de 13 autores, e dois Suplementos de 4 páginas; no Frente Oeste, entre 2 de Fevereiro e 16 de Julho de 2009, foram publicados 24 artigos ilustrados.
Simultaneamente a ADDPCTV mantém actualizado um blogue (http://linhasdetorres.blogspot.com/) onde estão todos os artigos já publicados, bem como uma bibliografia e a divulgação de sítios na internet relacionados com o tema. A divulgação de textos irá prosseguir até finais de 2010, estando prevista a edição de um livro com uma selecção do que foi publicado.
A segunda fase deste SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO HISTÓRICA consiste na realização, ao longo de 2010, de palestras sobre a Guerra Peninsular, com recurso a meios informáticos de apresentação, a realizar nos locais que as solicitarem: Associações recreativas, culturais e desportivas, Lares, Centros de Dia, Escolas, Juntas de Freguesia.
Em complemento, a Associação de Defesa do Património irá realizar duas Visitas Guiadas: uma ao concelho de Oeiras, para visitar a mal conhecida 3ª Linha do complexo das três Linhas de Torres Vedras; e outra, a Albuera, em Espanha, local de uma batalha importante, onde a autarquia local tem realizado um bom trabalho de divulgação. Para uma e outra serão abertas inscrições em altura oportuna.
Contactos da ADDPCTV:
Apartado 50, 2564-909 TORRES VEDRAS
Av. tenente Valadim, 17, 2º 2560-275 TORRES VEDRAS.
08/12/09
TESTEMUNHOS
No sopé da Serra do Socorro, entre o Casal Barbas e S. Sebastião, há duas quintas - Póvoa e Vale do Corvo - que são testemunhas reais e presentes da Guerra Peninsular.
Gonçalo Vasconcellos Guisado, da família proprietária, gere as quintas com elevado sentido da preservação da memória histórica que herdou dos seus antepassados, contemporâneos das invasões francesas.
O sítio Linhas de Torres Vedras dá-nos conta do que por lá se faz e acrescenta muitos dados históricos, gravuras, curiosidades e fotografias que muito nos elucidam sobre aquela época.
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ADDPCTV- Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras
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Quinta do Vale do Corvo
06/12/09
VOLTAMOS A FALAR DESTA REVISTA
São 96 páginas de uma revista belíssima que dedica o número inaugural ao tema das Linhas de Torres Vedras. Lemos no seu Estatuto Editorial:
«A revista ITINERANTE defende, através do pedestrianismo, o Turismo Ético e tem por objectivos:
a) promover hábitos de via saudável; b) defender e valorizar o património natural, cultural e ambiental; c) contribuir para o estabelecimento de relações reciprocamente benéficas entre os caminheiros e as comunidades locais.»
Os artigos organizam-se em três núcleos:
CONHECER
CAMINHAR
CONVIVER
No primeiro agrupam-se textos de abordagem histórica, de cariz variado - que vai da produção teórica à entrevista, passando pela resenha bibliográfica e, até, pelo cartoon.
No núcleo do CAMINHAR, encontramos a descrição pormenorizada de sete trilhos de marcha pedestre, para além de dicas e cuidados para a prática das caminhadas , mapas, perfis de relevo, etc
Finalmente, CONVIVER aponta para outras práticas que se adivinham: depois de muito ler e muito caminhar, há que recuperar calorias. Daí o roteiro dos restaurantes e indicações de espaços de lazer.
A organização gráfica é primorosa, a criar enorme apetência para folhear e desfrutar. E parar os olhos nas belas fotos que pontuam toda a revista.
Muitos textos e legendas são vertidos para o Inglês.
Não resistimos a transcrever um parágrafo que nos sensibilizou e que agradecemos:
clicar para aumentar
04/12/09
ÚLTIMA HORA
ATENÇÃO
A actividade programada, que divulgámos ontem, foi adiada por razões de saúde de alguns intervenientes, conforme mail que acabámos de receber:
«Caros membros da Comissão Executiva,
Vimos por este meio informar que infelizmente esta actividade foi adiada por questões de saúde de alguns elementos do grupo de recriadores.
Assim que a Associação Leonel Trindade nos indicar nova data, voltaremos a divulgar.»
COMEMORAÇÕES
Hoje, na sede da COOPERATIVA DE COMUNICAÇÃO E CULTURA DE TORRES VEDRAS, mais uma iniciativa integrada nas Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.
O cartaz diz o essencial.
Entrada livre.
01/12/09
ITINERANTE:
Uma nova Revista que veio às Linhas de Torres Vedras
O lançamento foi no passado dia 26 de Novembro, em Lisboa.
Neste primeiro número da revista Itinerante aborda-se o tema das Invasões Francesas, agora que se comemora o seu bicentenário. Ao longo destas páginas é feito o enquadramento para caminhadas em trilhos que passam por zonas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas à Guerra peninsular, do norte ao centro do país.
A informação é complementada por este website dinâmico e interactivo, onde se pode fazer download dos trilhos para GPS e partilhar informação e experiências no blogue e em redes sociais.
O lançamento foi no passado dia 26 de Novembro, em Lisboa.
Podemos visitá-la AQUI. Excelente apresentação e conteúdo à altura.
O primeiro número é dedicado às Linhas de Torres Vedras, facto a que não será estranho um dos seus editores, José Constantino Costa, ligado ao ICEA, ser um entusiasta do conhecimento histórico que nos acompanha desde o aparecimento deste blogue, como se pode comprovar no nosso Arquivo.
Texto de apresentação:
Neste primeiro número da revista Itinerante aborda-se o tema das Invasões Francesas, agora que se comemora o seu bicentenário. Ao longo destas páginas é feito o enquadramento para caminhadas em trilhos que passam por zonas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas à Guerra peninsular, do norte ao centro do país.
A informação é complementada por este website dinâmico e interactivo, onde se pode fazer download dos trilhos para GPS e partilhar informação e experiências no blogue e em redes sociais.
29/11/09
LÁ FOMOS, À "FEIRA DA MEMÓRIA" NA ASSENTA
Foi na sede da Associação Recreativa e Cultural da Praia da Assenta.
Havia tasquinhas, galinhas, peixe seco, enchidos, toucinho alto e piano de porco, carracenas e arroz doce, um rapazinho a tocar acordeon, vestuários mais ou menos da época ( eram todos antigos...), um frade com ar patibular, um pedinte de sacola, uma cigana a ler a sina e a pedir um real para mandar consertar a carroça e trocar de burro... A um canto dois façanhudos guerrilheiros, atentos, não aparecesse por ali algum "franciu do Jinote".
As fotos só não dizem como foi o gosto das carracenas molhadas a café das velhinhas...
Aplaudimos a iniciativa. Forma de visitar memórias de tempos passados, quando por cá andaram os invasores de Napoleão...
Foi na sede da Associação Recreativa e Cultural da Praia da Assenta.
Havia tasquinhas, galinhas, peixe seco, enchidos, toucinho alto e piano de porco, carracenas e arroz doce, um rapazinho a tocar acordeon, vestuários mais ou menos da época ( eram todos antigos...), um frade com ar patibular, um pedinte de sacola, uma cigana a ler a sina e a pedir um real para mandar consertar a carroça e trocar de burro... A um canto dois façanhudos guerrilheiros, atentos, não aparecesse por ali algum "franciu do Jinote".
As fotos só não dizem como foi o gosto das carracenas molhadas a café das velhinhas...
Aplaudimos a iniciativa. Forma de visitar memórias de tempos passados, quando por cá andaram os invasores de Napoleão...
BADALADAS - TEXTO 42 - 27 NOVEMBRO 2009
MEMÓRIA DO BRIGADEIRO NEVES COSTA
Joaquim Moedas Duarte
No discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, proferido em Torres Vedras no dia 11 de Novembro, na cerimónia da abertura oficial das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, encontramos esta passagem:
«Na cidade que deu nome a esta obra maior de um povo em armas, aproveito para trazer à memória a figura de um grande português.
Recordo um cartógrafo militar de primeira água, que foi vítima de muitas injustiças, e, porventura, da maior de todas: a do esquecimento.
José Maria das Neves Costa foi o oficial do Real Corpo de Engenheiros que procedeu ao levantamento cartográfico em que assentou a decisão, há precisamente duzentos anos, de edificar em tão curto espaço de tempo uma fortificação com aspecto tão imponente e dissuasor. Honremos a sua memória.»
Quem foi Neves Costa?
A investigadora Maria Helena Dias faz um resumo da sua biografia:
«Oficial do Real Corpo de Engenheiros, José Maria das Neves Costa nasceu em Carnide a 5 de Agosto de 1774 e morreu em Lisboa em 1841, provavelmente a 19 de Outubro. Formado na Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho (1793-1796), após os preparatórios na Academia de Marinha (1791-1793), foi premiado e considerado um dos melhores alunos do seu tempo. Engenheiro militar ilustre, destacou-se pelos seus brilhantes e inovadores trabalhos em prol da Cartografia militar, em particular nos levantamentos topográficos e na configuração dos terrenos, para além de ter sido um hábil desenhador. A sua vastíssima actividade neste campo desenvolveu-se durante mais de 40 anos e, apesar de constantemente referida a sua acção ao longo de todo o século XIX, cairia depois no mais injusto esquecimento.»
Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, esteve na região de Torres Vedras em Outubro de 1809, e percorreu a cavalo toda a zona envolvente, procurando estabelecer um plano de construção de linhas defensivas. Dessa observação resultou o memorando que entregou aos seus engenheiros, e a partir do qual se iniciou a construção das fortificações. Wellesley retomava uma velha ideia que já outros militares portugueses haviam defendido e que se baseava na verificação de que a defesa da capital portuguesa apenas teria viabilidade a partir de um conjunto de fortificações situadas a Norte de Lisboa. Junot, na 1ª invasão, pensou o mesmo e mandou fazer estudos preparatórios ao coronel Vincent. E este acabou por se basear no trabalho de dois engenheiros portugueses, Xavier de Brito e Neves Costa.
Com a saída de Junot na sequência da Convenção de Sintra, os trabalhos destes dois engenheiros foram interrompidos. Tempos depois, perante a ineficácia de uma comissão encarregada de os completar, Neves Costa inicia sozinho e com escassos meios, o trabalho de levantamento topográfico da região norte da península de Lisboa, o qual viria a ser a base da planificação traçada pelos engenheiros ingleses para a construção das Linhas de Torres Vedras. Wellington menosprezou a qualidade deste trabalho mas a observação dos documentos que chegaram até nós permite-nos concluir que ele foi decisivo. A atitude grosseira do ilustre general inglês parece ter pesado na injustiça a que foi sujeito Neves Costa, que se reflectiu na progressão da sua carreira militar e respectivos proventos.
É-nos muito difícil imaginar hoje as condições em que Neves Costa trabalhou. Não havia estradas, apenas caminhos pedregosos e veredas lamacentas por onde se transitava a cavalo ou a pé. Fazer o levantamento topográfico de uma área de centenas de quilómetros quadrados, em apenas dois meses e em tão difíceis condições foi uma tarefa hercúlea que nunca foi devidamente reconhecida. Nem quando, alguns anos depois, Neves Costa fez uma longa exposição ao Rei, no intuito de garantir melhor sustento da família. Para tal também terá contribuído a sua acção como deputado e a nomeação para Ministro da Guerra pelo governo liberal, pouco antes da restauração absolutista. Morreu amargurado, aos 67 anos de idade e repousa no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
Deixou uma importante obra no campo da topografia militar, que só nos nossos dias mereceu reconhecimento público com a sua elevação a patrono do Instituto Geográfico do Exército, em 2005.
Para mais informação, ver o opúsculo de Maria Helena Dias, Brigadeiro José Maria das Neves Costa, 1774-1841: patrono do Instituto Geográfico do Exército. [Lisboa]: Instituto Geográfico do Exército, 2005. 16 p.
Joaquim Moedas Duarte
No discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, proferido em Torres Vedras no dia 11 de Novembro, na cerimónia da abertura oficial das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, encontramos esta passagem:
«Na cidade que deu nome a esta obra maior de um povo em armas, aproveito para trazer à memória a figura de um grande português.
Recordo um cartógrafo militar de primeira água, que foi vítima de muitas injustiças, e, porventura, da maior de todas: a do esquecimento.
José Maria das Neves Costa foi o oficial do Real Corpo de Engenheiros que procedeu ao levantamento cartográfico em que assentou a decisão, há precisamente duzentos anos, de edificar em tão curto espaço de tempo uma fortificação com aspecto tão imponente e dissuasor. Honremos a sua memória.»
Quem foi Neves Costa?
A investigadora Maria Helena Dias faz um resumo da sua biografia:
«Oficial do Real Corpo de Engenheiros, José Maria das Neves Costa nasceu em Carnide a 5 de Agosto de 1774 e morreu em Lisboa em 1841, provavelmente a 19 de Outubro. Formado na Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho (1793-1796), após os preparatórios na Academia de Marinha (1791-1793), foi premiado e considerado um dos melhores alunos do seu tempo. Engenheiro militar ilustre, destacou-se pelos seus brilhantes e inovadores trabalhos em prol da Cartografia militar, em particular nos levantamentos topográficos e na configuração dos terrenos, para além de ter sido um hábil desenhador. A sua vastíssima actividade neste campo desenvolveu-se durante mais de 40 anos e, apesar de constantemente referida a sua acção ao longo de todo o século XIX, cairia depois no mais injusto esquecimento.»
Sir Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, esteve na região de Torres Vedras em Outubro de 1809, e percorreu a cavalo toda a zona envolvente, procurando estabelecer um plano de construção de linhas defensivas. Dessa observação resultou o memorando que entregou aos seus engenheiros, e a partir do qual se iniciou a construção das fortificações. Wellesley retomava uma velha ideia que já outros militares portugueses haviam defendido e que se baseava na verificação de que a defesa da capital portuguesa apenas teria viabilidade a partir de um conjunto de fortificações situadas a Norte de Lisboa. Junot, na 1ª invasão, pensou o mesmo e mandou fazer estudos preparatórios ao coronel Vincent. E este acabou por se basear no trabalho de dois engenheiros portugueses, Xavier de Brito e Neves Costa.
Com a saída de Junot na sequência da Convenção de Sintra, os trabalhos destes dois engenheiros foram interrompidos. Tempos depois, perante a ineficácia de uma comissão encarregada de os completar, Neves Costa inicia sozinho e com escassos meios, o trabalho de levantamento topográfico da região norte da península de Lisboa, o qual viria a ser a base da planificação traçada pelos engenheiros ingleses para a construção das Linhas de Torres Vedras. Wellington menosprezou a qualidade deste trabalho mas a observação dos documentos que chegaram até nós permite-nos concluir que ele foi decisivo. A atitude grosseira do ilustre general inglês parece ter pesado na injustiça a que foi sujeito Neves Costa, que se reflectiu na progressão da sua carreira militar e respectivos proventos.
É-nos muito difícil imaginar hoje as condições em que Neves Costa trabalhou. Não havia estradas, apenas caminhos pedregosos e veredas lamacentas por onde se transitava a cavalo ou a pé. Fazer o levantamento topográfico de uma área de centenas de quilómetros quadrados, em apenas dois meses e em tão difíceis condições foi uma tarefa hercúlea que nunca foi devidamente reconhecida. Nem quando, alguns anos depois, Neves Costa fez uma longa exposição ao Rei, no intuito de garantir melhor sustento da família. Para tal também terá contribuído a sua acção como deputado e a nomeação para Ministro da Guerra pelo governo liberal, pouco antes da restauração absolutista. Morreu amargurado, aos 67 anos de idade e repousa no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
Deixou uma importante obra no campo da topografia militar, que só nos nossos dias mereceu reconhecimento público com a sua elevação a patrono do Instituto Geográfico do Exército, em 2005.
Para mais informação, ver o opúsculo de Maria Helena Dias, Brigadeiro José Maria das Neves Costa, 1774-1841: patrono do Instituto Geográfico do Exército. [Lisboa]: Instituto Geográfico do Exército, 2005. 16 p.
26/11/09
FEIRA DA MEMÓRIA
Na Praia da Assenta ( freguesia de S. Pedro da Cadeira, do concelho de Torres Vedras) no próximo Domingo, integrada nas Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.
Para ir até lá: estrada de Torres Vedras (Nac 9) para a Ericeira, desvio à direita depois da Coutada, seguir as placas.
22/11/09
UMA EXPOSIÇÃO A VER
«No âmbito das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras ( 1810 - 2010 ), apresenta-se a exposição "Guerra Peninsular 1807 1814", que se divide em 3 núcleos expositivos:
Núcleo 1
Não passarão! A importância das Linhas de Torres Vedras na defesa de Lisboa
Núcleo 2
Invasões francesas: memórias e relatos
Núcleo 3
De Ciudad Rodrigo a Torres Vedras: uma viagem pelas gravuras da época
Relançando um novo olhar sobre a História, (re)visitamos o episódio da Guerra Peninsular, assim como os seus impactos no território nacional, ultrapassando uma visão estritamente bélica dos acontecimentos, mas compreendendo-o à luz da mudança de um paradigma político-social.»
(Texto de abertura do pequeno catálogo da exposição)
A exposição encontra-se no Museu Municipal Leonel Trindade, no Convento da Graça, no centro de Torres Vedras
Horário: de Terça-feira a Domingo. Das 10H00 às 13H00 e das 14H00 às 18H00.
Entrada gratuita
Tem um serviço educativo para actividades infanto-juvenis.
Contactos:
Praça 25 de Abril, Convento da Graça, 2560 Torres Vedras
Tel e fax: 261 310 484
museu@cm-tvedras.pt
http://www.cm-tvedras.pt/
http://www.linhasdetorresvedras.com/
13/11/09
12/11/09
INÍCIO DAS COMEMORAÇÕES DO BICENTENÁRIO

Muito curioso foi ver que "ele", deportado para Santa Helena e falecido há 188 anos, ainda ali estava... atento à tropa que passava...
Correu bem, a festa! Foi ontem, 11 de Novembro, Feriado Municipal.
Para ver reportagem completa: AQUI
07/11/09
ESCRITO À MÃO


(Clicar para aumentar)
A obra consiste em 11 poemas, com ilustrações, impressos em cartões separados. O conjunto vem dentro de um envelope cartonado.
Deixamos aqui a reprodução de três desses poemas. De notar que eles foram mesmo escritos à mão pelo autor, sendo a impressão feita a partir desse grafismo. Um objecto artístico que honra as Comemorações dos 200 anos da construção das Linhas de Torres Vedras.
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