24/08/10

BADALADAS - Texto 54 - 13 AGOSTO 2010

TEMPO DE GUERRA
PORTUGUESES, ESPANHÓIS E INGLESES...

José NR Ermitão


          A Guerra Peninsular pôs em contacto frontal ingleses, portugueses e espanhóis, todos aliados num objectivo comum – a luta contra o domínio francês – mas com grandes diferenças entre eles quanto a relações humanas e mentalidades.
Assim, os portugueses e espanhóis nunca deixaram de mostrar o desafecto que sentiam uns pelos outros; por outro lado, os espanhóis e ingleses detestavam-se fortemente. Um dos pontos de fricção entre os ibéricos e os britânicos era a religião: os ingleses desprezavam o catolicismo como um conjunto de superstições e tolices, e os portu- gueses e espanhóis viam os britânicos como não cristãos.

          H. W. Maxwell publicou, em meados do século XIX, uma colectânea de narrativas de ingleses que participaram na Guerra Peninsular (1). Duas dessas narrativas dão conta dos sentimentos de hostilidade pessoal mútua entre os aliados. Uma delas, A night in the Peninsular War (Uma noite na Guerra Peninsular), refere aspectos da tensão existente entre os dois povos ibéricos: o facto de as suas disputas acabarem quase sempre em sangue e o facto de os condutores espanhóis de mulas servirem os regimentos ingleses mas recusarem-se a servir os militares portugueses.
Entretanto este vingavam-se, ou pondo-se sempre do lado dos ingleses quando havia altercações entre estes e os espanhóis, ou fazendo “visitas” predatórias nocturnas aos acampamentos dos arrieiros espanhóis – que tiveram de recorrer a cães de guarda e a tiros de mosquete para se defenderem dos portugueses... Estas tensões eram tão fortes que preocupavam os comandos militares pelos efeitos disciplinares negativos que originavam.

Outra narrativa, Recollections of the late war in Spain and Portugal (Lembranças da última guerra em Espanha e Portugal), anota a diferença de atitudes dos espanhóis e portugueses para com os ingleses – os primeiros, distantes e arrogantes; os segundos, cordiais e agradecidos – e descreve, com humor, o modo como os militares de um regimento inglês se transformaram em bons cristãos junto dos portugueses. Traduzo livremente:
“Descobrimos que ninguém no nosso exército era considerado como cristão excepto os militares que declaravam ser naturais da Irlanda (2), que eram logo tomados pelos portugueses com bons católicos romanos; tal declaração era em geral seguida de favores da parte deles; mas de vez em quando levantavam-se suspeitas e era necessário dar um testemunho prático da nossa sinceridade, benzendo-nos conforme o rito da igreja romana. Neste importante teste, os que realmente não eram católicos enganavam-se fazendo o sinal da cruz com a mão esquerda – um erro crasso que não só provocava decepção como era considerado um grosseiro acto de impiedade. Quando isto acontecia os habitantes ficavam muito agitados e clamavam, juntamente com gestos significativos: “Eles não são cristãos!”
 A pouco e pouco este erro irreverente foi sendo em grande parte corrigido e por meio desta manobra pia muitos incorrigíveis heréticos tornaram-se verdadeiros «bons cristãos». Depois continuámo-nos a aperfeiçoar segundo as ideias religiosas deles, afirmando que o nosso regimento era formado por um conjunto de fiéis da verdadeira igreja, servidores de um grande convento na Irlanda, e constituído para lutar contra os infiéis franceses. E para lhes tirarmos as dúvidas e escrúpulos mostrávamos mesmo a mal desenhada imagem de um castelo, que figurava nas nossas placas peitorais, como sendo a mansão dos nossos reverendos senhores.
Descobrimos também que o povo mostrava tendência para considerar melhor certos nomes, como António, o nome de um dos santos mais venerados naquele santo país; e rapidamente o número de militares que se tratavam por este nome excedeu todos os outros nomes no nosso regimento.”
E assim, com este truque burlão, a paz religiosa entre os habitantes e este regimento inglês foi alcançada – com reforço do desprezo inglês pela credulidade fácil dos portugueses...

(1)  Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2)  A Irlanda, apesar de colonizada pelos ingleses, manteve-se sempre fiel ao Catolicismo.

                                                                                          





05/08/10

BADALADAS - TEXTO 53 - 30 JULHO 2010



DE SANTARÉM A VILA FRANCA

POPULAÇÕES EM FUGA E BENS DESTRUÍDOS

José NR Ermitão


          A “política de terra queimada” foi um dos pilares da estratégia de Wellington para derrotar os franceses. E o exército luso-britânico, na sua retirada para as Linhas de Torres cumpriu à letra esta política, levando à sua frente os habitantes e destruindo muitos bens para que não caíssem nas mãos dos franceses. Esta política, tanto quanto as depredações dos franceses, arruinou o país, fez diminuir a produção agrícola, aumentou a mortalidade e traduziu-se num enorme sofrimento para os portugueses.  
Apresento parte do texto intitulado «Santarém», extraído de uma colectânea publicada por W. H. Maxwell (1), que constitui uma autêntica peça jornalística pelo rigor descritivo e visual com que retrata o percurso concreto de um corpo militar aliado de Santarém até às Linhas, a situação dos habitantes, o estado de espírito das tropas e as destruições sistemáticas que iam fazendo sobretudo nas adegas, sem esquecer as bebedeiras. Com candura, o autor confrange-se com o destino das populações desprotegidas, ao mesmo tempo que lhes destrói o produto do trabalho para evitar que caísse nas mãos dos franceses...

          “Os vinhedos em torno de Santarém estavam carregados de uvas deliciosas prontas para a vindima... Doces como mel, os tentadores cachos pendiam mesmo à beira da estrada. Nem é necessário dizer quanto os nossos soldados as atacavam, comendo-as ou levando-as consigo. Era também a estação do amadurecimento das laranjas.... Também as laranjas foram arrancadas das árvores para que os invasores as não aproveitassem.
A tropa estava com o moral elevado e os soldados portugueses que faziam parte dela... entretinham-se com histórias sobre o seu possível futuro. Uns diziam que iriam pescar bacalhau com os ingleses; outros, que embarcariam para a Mauritânia em busca de D. Sebastião. Mas todos eles concordavam num ponto, que combateriam os franceses quando e onde “o Grande Lorde” (Wellington) mandasse.
          Entretanto a maior parte dos habitantes de Santarém já tinha abalado... para Lisboa e os poucos que ficaram partiam à medida que as nossas tropas marchavam pelas ruas na manhã do dia sete (de Outubro). (...)
Em Vila Franca, Azambuja e Cartaxo a vindima estava mais avançada... O vinho já fermentava nas dornas quando a tropa em retirada apareceu naquelas vilas. (...)
Desgraçadamente os seus habitantes ficaram fora das linhas defensivas que estávamos prestes a ocupar e, portanto, ficaram ao alcance das depredações do inimigo. Assim, destacamentos de soldados foram enviados para abrir as torneiras e partir todos os tonéis que pudessem encontrar. Os nossos homens, no despenho do seu dever, chegaram a andar com vinho até ao peito nas adegas submersas, para inutilizar o vinho que inundava literalmente as ruas. Foram destruídos desta maneira mais de quarenta mil al-mudes (2).
Em Vila Franca, os soldados não resistiram à tentação de tragar daquele delicioso líquido à medida que este se espalhava pelas ruas abaixo. Vinham aos magotes encher os cantis, e muitos, mas mesmo muitos, atiraram-se para aquela espumosa fonte de Baco, adorando o deus do vinho até ficarem completamente bêbados, estado em que, como odres, foram carregados para cima das mulas e conduzidos para a frente, sob pena de caírem nas mãos do inimigo.
O vinho destruído desta maneira era só uma pequena parte da produção daquelas regiões. A maior parte ficou nas adegas situadas longe da estrada porque já não havia tempo para as destruir; e assim caiu, juntamente com outras boas coisas da Providência, nas mãos dos espoliadores do país (os franceses).
O tempo, que tinha estado delicioso durante a nossa retirada, piorou na tarde do dia 7 de Outubro, o dia anterior à tomada das nossas posições dentro das linhas de defesa. A multidão de portugueses em fuga tinha-se por esta altura já acolhido em algum lugar ou já estava dentro das linhas. Tivessem as fortes chuvadas começado a desabar dez dias antes e um grande número deles teria morrido enregeladas ou por causa das dificuldades dos caminhos.”

(1) Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2) Cerca de 2 400 000 litros.


BADALADAS - TEXTO 52 - 16 JULHO 2010






QUOTIDIANOS EM TEMPOS DE GUERRA
“ MALDITOS FIGOS!” MALDITOS FIGOS!”



Manuela Catarino


 “Em tempo de figos, não há amigos” glosa, de forma bem mordaz, o adagiário popular. Sabedoria notável que atravessa os tempos e a experiência das gerações. Gerada nas relações mais próximas do homem com a natureza, nela se repete quer nos tempos de paz quanto nos da guerra. Nesses tempos de perturbação a vida tenta seguir a espaços o seu curso. Por isso, entre cenários de morte e dor, há também pequenos apontamentos de riso, como os que nos deixaram alguns dos testemunhos que hoje aqui trazemos…
“ O senhor Elliot, irmão do general inglês que comandava a ala esquerda das posições do seu exército, desembarcado na véspera em Lisboa, tinha ido visitar o general ao amanhecer; tendo-se enganado no caminho directo, morrendo de calor e desejando refrescar-se, viu uma grande figueira e trepou para colher alguns figos. Estava a preparar-se para os comer quando um dos pequenos postos móveis o descobriu, marchou contra ele e lhe apontou armas; do meu posto de guarda avançada vi o movimento e, sem saber o que fazia com que todo um posto apontasse armas contra uma árvore, acorri e vi descer um jovem bem parecido que acabava de se render, tendo já entregado a carteira e o relógio aos soldados, exclamando em inglês: Dam figue!...Dam figue! E tinha razão, porque sem eles não teria corrido este perigo; bem podia dizer malditos figos. Apenas reclamou a bolsa do relógio, que continha cabelos da sua mãe; restituíram-lha. Conduzido perante o general Soult, depois ao senhor marechal, andou quatro dias a passear por ali e em seguida foi trocado. Jurou fervorosamente que nunca mais seria tentado por um figo.” (1)
É este mesmo jovem que vamos encontrar no aquartelamento do general Reynier, em Outubro de 1810, quando Pelet, ajudante de campo de Massena, aí se desloca em missão de serviço. Reunidos ao jantar, o aspecto do inglês impressiona francamente Pelet que acaba por tecer comparações entre a qualidade de vida dos oficiais ingleses e franceses. Sobre a referida personagem ficamos a conhecer mais alguns pormenores: este jovem de vinte e três anos é neto do General Elliot, Governador de Gibraltar; tinha chegado das Índias para se casar em Londres; desde que enriquecera e casara com uma bonita menina (cujo retrato mostrou) esperava deixar o cargo de tenente da marinha que  até então vinha desempenhando…(2)
Pensávamos que o nosso jovem não mais se cruzaria connosco. Mas eis que…
Um estafeta inglês, Percy, capturado através de um ardiloso estratagema, é levado para o Sobral “onde teve a curiosidade de subir ao sino para ver como estava organizado o nosso exército. Foi-lhe dada autorização e, deste ponto elevado, de luneta na mão, ele foi testemunha de uma cena engraçada, da qual não se pôde impedir de rir, apesar do seu infortúnio: a tomada de um outro oficial inglês.”(3)
A descrição assenta que nem uma luva ao tenente Elliot : “regressado das Índias, depois de vinte anos de ausência, tendo sabido em Londres que o irmão estava em Portugal sob as ordens do duque de Wellington, embarcou para Lisboa e daí, apressou-se a ir a pé até aos postos avançados […] Estava entre os dois exércitos quando, vendo uns magníficos figos, e não comendo ele há muito tempo fruta da Europa, veio-lhe o desejo de subir à figueira. Estava ele tranquilamente nesta consoada, quando os soldados de um posto francês situado perto dali, admirados de ver uma vestimenta vermelha em cima da árvore, se aproximaram […]” (4) e já conhecemos o desfecho!!!!
Não. Não será bem assim. Pois que “este inglês, mais sensato do que o senhor Percy, pediu aos seus captores que o mantivessem na raia do exército francês, cuja configuração interna não queria ver, na esperança de poder haver uma troca”(5). E, de facto, o jovem Elliot será trocado pelo capitão Letermillier, capturado em Coimbra…
E o senhor Percy?? Bom, ele que tinha assistido à captura do seu correligionário, de quem tanto se tinha rido, tentou obter o mesmo favor. Foi-lhe recusado pois ele conhecia bem demais o aquartelamento francês. Mantido prisioneiro, acompanha a retirada por terras de Espanha partilhando os infortúnios dos seus captores. Irá até França e aí viverá vários anos.
Caso para, à maneira de epílogo, comprovar a ironia da voz popular: “ Uns comem os figos…a outros rebenta-lhes a boca”.


(1)       Capitão Jean-Baptiste Lemonnier-Delafosse, “Recordações Militares” in Vários, Linhas de Torres Vedras. Memórias Francesas sobre a III Invasão, Livros Horizonte, 2010, p.68.
(2)       THE FRENCH CAMPAIGN IN PORTUGAL, 1810-1811 An Account by Jean Jacques Pelet, Edited, Annotated and Translated by Donald D. Horward, University of Minnesota Press, Minneapolis, 1973, p. 273.
(3)       General Barão de Marbot, Memórias sobre a 3ª Invasão Francesa, ed. Caleidoscópio,Centro de História da Universidade de Lisboa, 2006, pp.82-83.
(4)       Idem,pp.82-83.
(5)       Ibidem,p.83.

                                                                                              

26/07/10

FORTES DO ALQUEIDÃO E DA CARVALHA

Um dia destes demos uma volta por aí. A ideia era visitar dois fortes das Linhas de Torres Vedras.
O primeiro onde parámos é o do Alqueidão, no Sobral de Monte Agraço. Ver dados AQUI e AQUI, que nos dispensam de mais escritas. Deixamos apenas algumas imagens:



Troço de estrada militar de aceso ao Forte do Alqueidão


Aspecto da praça de armas (interior) do Forte do Alqueidão




Aspecto de um dos paióis escavados no chão, recentemente postos a descoberto.
A parte de cima seria coberta de traves de madeira, base de uma cobertura que teria terra por cima.



Outro aspecto de um paiol subterrâneo


  Fosso exterior do Forte de Alqueidão




Posto de apoio aos visitantes do Forte do Alqueidão


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Depois parámos no Forte da Carvalha, arredores de Arruda dos Vinhos

Forte da Carvalha, Arruda dos Vinhos


Fosso exterior

Paiol



Outro aspecto do paiol



Canhoneira



Fosso exterior do Forte da Carvalha

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Esta visita confirmou o que já sabíamos: os concelhos de Sobral de Monte Agraço e Arruda estão na vanguarda da recuperação dos Fortes das Linhas de Torres Vedras, tendo feito estudos arqueológicos a partir de 2008 e apresentando aquelas estruturas militares prontas para serem visitadas no ano do Bicentenário.
Ao contrário do concelho de Torres Vedras, que dá nome às Linhas mas que, inexplicavelmente, pouco tem feito pela sua preservação, estando muito atrasada em relação às obras previstas.

22/07/10

CAMINHADA PELOS FORTES DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS







O início da actividade,
no novo Parque da Ponte do Rol.





Foi no passado dia 18 de Julho, por iniciativa da Associação de Marchas e Passeios do Concelho de Torres Vedras. Com cerca de dez quilómetros, este percurso inicia-se na aldeia de Ponte de Rol, concelho de Torres Vedras e passa pelos montes onde podem ver-se vestígios de três Fortes: Grilo, Alquiteira e Bonabal. O primeiro ainda é visitável, os dois seguintes estão cobertos de mato e canaviais.
É preciso ter em conta que 200 anos passaram sobre estas construções que, muitas vezes, não tinham qualquer anteparo de pedra e estavam situadas em terrenos particulares. A chuva, o vento e a utilização agrícola ou pecuária provocaram erosões irreversíveis. Não seria viável manter em bom estado 152 fortes, tantos são os que fazem parte das Linhas de Torres Vedras. Por isso mesmo, os seis concelhos que constituiram a Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres Vedras escolheram os mais significativos para serem intervencionados neste Bicentenário.
Por exemplo, para Torres Vedras está prevista a recuperação de seis obras militares: o reduto de Olheiros e os fortes do Grilo, do Passo, São Vicente, Forca e Feiteira.

Os lugares estão lá, as cartas militares referenciam-nos e é possível identificá-los pelo perfil dos terrenos: vestígios de muros de terra, de fossos, de zonas escarpadas artificialmente, abertura das canhoneiras...

Aqui ficam algumas fotos que documentam o interesse por estes passeios pedestres, em que normalmente participam cinco ou seis dezenas de pessoas. As paisagens são convidativas, há caminhos de terra batida e descobrem-se recantos magníficos que estão vedados a quem só passeia de automóvel.

Todos estes passeios irão culminar na inauguração da Grande Rota das Linhas de Torres Vedras, em 13 e 14 de Novembro.



Lá em cima, na linha do horizonte, é bem visível o perfil do Forte do Grilo, à esquerda das torres/antenas



Um troço de estrada militar


«Paralelamente à edificação das obras defensivas, foram construídos vários quilómetros de estrada, tanto na retaguarda das Linhas como na ligação entre essas estradas e as obras militares.
Durante o ano de 1811, as estradas militares foram aperfeiçoadas, para que houvesse comunicação sobre toda a extensão da primeira e segunda linha, desde o Atlântico até ao Tejo.
Entre a primeira e a segunda linha foram reaproveitadas estradas rurais já existentes que foram alargadas e adaptadas paro o transporte militar.» (Do folheto distribuído aos participantes neste passeio)



Caminhando...


Junto do Forte de Alquiteira, situado atrás do grupo. Impossível o acesso ao espaço do Forte devido ao mato, canas e ervas.


Concorrentes inesperados à partilha do mesmo caminho...
Mais adiante, na aldeia da Bordinheira, esperava-nos um abastecimento: líquidos, maçãs, biscoitos...
Foram cerca de três horas de caminho, com paragens, pequenas explicações dadas pela Guia, o abastecimento...
O nosso agradecimento à Associação de Marchas e Passeios!

16/07/10

Linhas de Torres Vedras



Julgamos oportuno divulgar este apontamento de vídeo criado pela Câmara Municipal de Torres Vedras.
Vemo-lo com muitas reservas. De facto, fazendo nós parte de grupo das associações que participaram na elaboração do programa comemorativo do bicentenário das Linhas de Torres Vedras, não fomos vistos nem achados para as decisões relativas ao Centro Interpretativo. Tal como as restantes associações.
A decisão foi tomada pelo anterior executivo municipal, sem consensos (toda a oposição votou contra), sem discussão pública, sem debate entre os cidadãos interessados.

Já denunciámos publicamente este projecto nas páginas do jornal BADALADAS. Consideramos que a sua localização é errada e o seu desenho aponta para uma construção dispendiosíssima, de um exibicionismo chocante, completamente contrário ao fim em vista, além de começar por propor um edificío sem que ninguém saiba qual o projecto museológico que lhe está subjacente.

Apontamos para outro tipo de solução, muito mais barata e adequada, perto do Forte de S. Vicente, com leitura visual das Linhas desde o Forte do Alqueidão até perto da costa, num projecto que seja participado pelas populações e que corresponda a um programa museológico previamente delineado.

13/07/10

RECUPERAÇÃO DOS FORTES DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS

O concelho de Torres Vedras é o que está mais atrasado no que respeita ao trabalho de recuperação dos Fortes. Para além de um pequeno trabalho de investigação arqueológica junto à casa do guarda no Forte de S. Vicente e da deslocação de uma locatária no Forte da Forca, nada mais foi feito.
No entanto, o Programa das Comemorações 2009/2010 ( publicado em Junho de 2010...) diz, na página 120:

"Para Torres Vedras está prevista a recuperação de seis obras militares: o reduto de Olheiros e os fortes do Grilo, do Paço, São Vicente, Forca e Feiteira."

Segundo informação que recolhemos junto dos serviços da Câmara Municipal, estas obras deverão estar concluídas no primeiro semestre de 2011.

Entretanto no concelho do Sobral de Monte Agraço já foi festejada pelo Presidente da República a recuperação do Forte Grande do Alqueidão e o respectivo complexo dos fortes auxiliares.

Em Mafra já foram feitas obras de recuperação no Forte do Zambujal, Juncal e Circuito da Enxara do Bispo.

No concelho de Arruda dos Vinhos foi inaugurado o Circuito que inclui os Fortes da Carvalha e do Cego.

Ontem visitámos o Forte do Zambujal, situado na freguesia da Carvoeira, concelho de Mafra.
É uma obra militar impressionante, como se poderá ver nas fotos. Pareceu-nos, no entanto, que a limpeza dos terrenos terá sido demasiado radical pois rapou por completo o coberto vegetal. Uma grande chuvada provocará, necessariamente, forte erosão nas estruturas construídas.

Como chegar lá: passada a Ericeira, na direcção de Sintra, a estrada desce para a ponte sobre o Lisandro, depois sobe até à Carvoeira; aí, junto à Igreja, virar à esquerda, direcção da capela de Nª Srª do Ó. Depois da pequena ponte junto da capela, virar à direita e subir para a aldeia do Zambujal. Aí começamos a encontrar placas de sinalização para o Forte.

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Foto 1: aproximação ao Forte do Zambujal, lado oposto ao Vale do Lisandro


Foto 2: fosso exterior


Foto 3: outro aspecto do fosso



Foto 4: aspecto do interior do Forte, com os traveses de protecção




Foto 5: fosso poente, vendo-se ao fundo a abertura do tunel de acesso ao reduto interior.


Foto 6: aspecto exterior do tunel de ligação entre o reduto central e a bateria avançada




Foto 7: perspectiva do tunel a partir do reduto central

Foto 8: panorama para o lado poente, a partir do terreiro da bateria externa. Vê-se o vale do Lisandro e o adro da Senhora do Ó.

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Fotos: Associação de Defesa do Património de Torrres Vedras
Mais pormenores: veja-se o folheto da Câmara Municipal de Mafra, a partir do respectivo site.


NOVA ACTIVIDADE DO PROGRAMA DO BICENTENÁRIO DAS LINHAS


Conan Doyle, o célebre criador de Sherlock Holmes, escreveu um conto em que faz referências à Guerra Peninsular: "As Aventuras do Brigadeiro Gèrard". Motivo suficiente para esta iniciativa da Casa da Cultura da Ponte do Rol, em que o público é convidado a participar no jantar e na resolução de um enigma. Lá estaremos.

10/07/10

XADREZ HUMANO

O Académico de Torres Vedras anunciou e concretizou: uma encenação de Xadrez Humano no recinto do castelo - espectáculo integrado no Programa de Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras.

As imagens dão uma ideia muito pequena do que foi esta realização. Cor, movimento, inventiva, abordagem original de um tema já tão repetido. Sobretudo a quantidade de jovens envolvidos, perto de quatro dezenas.
No final ainda houve um porco assado no espeto, às portas da Sede do Académico, no Largo do Grilo.


Rapaziada valente!










04/07/10

AS LINHAS DE TORRES VEDRAS E A GUERRA PENINSULAR NA FEIRA DE S. PEDRO














A Associação do Património de Torres Vedras participou na Feira de S. Pedro deste ano com um espaço duplo no pavilhão B.
Com painéis criteriosamente escolhidos e uma maquete do reduto nº 20 do Forte de S. Vicente, o espaço da ADDPCTV (Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras) atraiu muitos visitantes e suscitou muitas conversas interessantes.

BADALADAS - TEXTO 51 - 2 JULHO 2010

Le Moniteur, jornal fundado em Paris em 1789 e que se publicou até 1901. Durante muito tempo foi o órgão oficial do governo francês com o título principal de Gazette Nationale. O sub-título Le Moniteur passou a principal em 1 Janeiro de 1811.


DESINFORMAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA




José NR Ermitão

O Le Moniteur foi o jornal oficial do governo francês durante o período revolucionário e napoleónico; transmitia notícias controladas pelo governo, boletins militares, declarações oficiais e textos de propaganda política. Apresentava também artigos culturais e tinha grande divulgação em França e na Europa.

Como a informação do Moniteur era completamente controlada pelo poder napo-leónico, podemo-nos interrogar sobre que notícias teriam os franceses acerca da invasão de Portugal pelo exército comandado por Massena. A resposta é simples: poucas, atrasadas e mentirosas.

Antes da 3ª invasão, o jornal transcreve declarações ameaçadoras de Napoleão indicando claramente os seus intentos. Nelas afirma que “Antes de um ano, os Ingleses, por muitos esforços que façam, serão expulsos da Península, e a águia imperial flutuará sobre as fortalezas de Lisboa...” (27/9/1809); que Wellington, general incompetente, terá o mesmo destino de outros generais ingleses derrotados (9/10/1809); e que “Ape-nas eu transponha os Pirenéus, o leopardo (a Inglaterra) assustado fugirá em direcção ao Oceano para evitar a vergonha, a derrota e a morte” (4/12/1809).

Com a invasão em curso, as primeiras notícias aparecidas no Moniteur, a 29/11/ 1810 (já quinze dias depois dos franceses terem abandonado as Linhas de Torres), são sobre a batalha do Buçaco e comunicam que “o ataque no Buçaco não foi senão um falso ataque... a fim de cobrir o movimento de flanco que tinha sido decidido para tornear as montanhas...” Como é evidente, nada disto é verdadeiro: o ataque francês no Buçaco não foi falso e foi rechaçado pelos luso-ingleses; e o movimento de flanco dos franceses foi posterior à sua derrota. Ou seja, o jornal transforma em manobra de diversão vitoriosa uma derrota que custou aos franceses milhares de mortos e de feridos.

No dia seguinte (30/11) o jornal torna a noticiar sobre a invasão e nos seguintes termos: “Os Ingleses tinham a sua direita em Alhandra, sobre o Tejo, a sua esquerda, perto da embocadura do Lisandro; ocupavam uma posição com dez léguas de extensão sobre uma linha de colinas entrincheiradas; (Massena) fez o que pôde para levar os Ingleses à luta; mas foi-lhe impossível travar uma batalha com um inimigo extremamente prudente e que não queria combater... resguardado... por trás de trincheiras cheias de artilharia e inexpugnáveis.»

Desta vez o jornal foi fiel à verdade, pois refere a inexpugnabilidade das Linhas, a incapacidade de Massena em as tomar e a extrema prudência de Wellington. Mas as mentiras são imediatas quando comunica “Que os regimentos e os soldados franceses recebiam diariamente a sua provisão de pão e biscoito, que se tinham organizado inúmeros armazéns de cereais e que nada havia a temer quanto a subsistências...” – ou seja, exactamente o contrário do que estava a acontecer, com a fome a morder severamente o exército de Massena.

Em 26 de Fevereiro de 1811, uma semana antes da retirada definitiva dos franceses, ainda adiantava o Moniteur que “...o dia em que o exército inglês (derrotado) embarcar, será um dia de festa...” E assim o jornal iludia os franceses falando-lhe em vitórias futuras que, como sabemos, nunca aconteceram.

Mas o cúmulo da mentira aparece no dia seguinte, 27 de Fevereiro, quando comunica “que o marechal... (Massena) tinha julgado conveniente fazer um movimento; que tinha feito chegar a sua direita até ao mar e a sua esquerda até ao Zêzere e que o seu quartel-general estava em Pombal; que os diferentes corpos de tropas a soldo da Inglaterra tinham sido derrotadas; que colunas (francesas) tinham percorrido Portugal por todo o lado e conseguido a submissão... de várias regiões.”

De facto Massena fez um movimento, de recuo; mas nem os ingleses foram derrotados nem os franceses dominaram outras parcelas do território para além das que ocupavam militar e fugazmente, nem nunca o seu quartel-general esteve em Pombal, salvo por momentos e já no movimento de retirada definitiva.

Os franceses não eram informados, mas sim desinformados. Definitivamente, numa guerra, as grandes vítimas são sempre as pessoas e a verdade!



[Publicado no Badaladas em 2 JULHO 2010]

19/06/10






O "jantar em acampamento" foi um sucesso. Cerca de 300 pessoas saborearam uma ementa de estalo: salada de fruta com molho salgado; Carne de vaca estufada à Moda ( receita da corte de D. Maria I), acompanhada de batatas e couve cozidas, regadas com molho Gasconha; bolo de nozes com ovos moles (receita favorita de D. João VI); pudim de coco; tarte gelada.

De parabéns toda a organização.




Gente do povo, a cigana que lê a sina...







O Grupo de Gaiteiros da Freiria

16/06/10

BADALADAS - TEXTO 50 - 11 JUNHO 2010


Le maréchal Masséna (1758-1817)



CENAS DA 3ª INVASÃO

 NOVA CARTA DE WELLINGTON A MASSENA 

José NR Ermitão         

Conforme referi no artigo anterior Massena respondeu a Wellington numa carta datada de 14 de Setembro. Nela, afirma que não pode considerar como soldados um bando de camponeses sem uniforme e que praticam assassinatos; considera que Wellington se contradiz ao reclamar, por um lado, respeito pelas leis da guerra e, por outro, ao obrigar os portugueses a destruir as suas propriedades e outros bens e a fugir diante dos franceses. E acusa Wellington de violar expressamente as leis da guerra por desrespeitar os termos da capitulação de Almeida, segundo as quais os milicianos postos em liberdade pelos franceses não deviam retomar o serviço militar.

          Wellington respondeu a Massena, a 24 de Setembro, numa carta contundente e sarcástica, que transcrevo parcialmente:

          “Senhor Marechal (...)
          Aquilo a que o Sr. chama “camponeses sem uniforme”, “assassinos e salteadores de estradas” são a Ordenança deste país... corpo militar comandado por oficiais e submetidos às leis militares. Parece que o Sr. exige que eles tenham de usar uniforme militar para poderem gozar dos direitos da guerra; mas o Sr. mesmo deve lembrar-se de quanto aumentou a glória do exército francês ao comandar soldados sem uniforme (1).
          O Sr. queixa-se da conduta da Ordenança de Nave de Haver para com o coronel Pavetti. A questão é somente saber se um país invadido por um formidável inimigo tem o direito de se defender por todos os meios ao seu alcance. Se este direito existe, justifica-se que Portugal utilize a Ordenança, um corpo militar reconhecido e organizado segundo as antigas leis do país. Asseguro a V. Ex. que a Ordenança de Nave de Haver tratou bem o coronel Pavetti e que teria sido punida se o tivesse maltratado. Assim, eu desejava não ter sabido que... a casa do capitão-mor foi incendiada e que alguns soldados da sua companhia foram fuzilados por terem cumprido o dever para com o seu país.
          Sinto muito que V. Ex. sofra alguns inconvenientes pessoais pelo facto de os portugueses abandonarem os lares à aproximação do exército francês. É meu dever fazer retirar todos os que não dispõem de meios para se defenderem; e observo-lhe que as ordens dadas nesse sentido quase que não foram necessárias. Porque aqueles que se lembravam da invasão do país em 1807, da usurpação do governo do seu Príncipe... dificilmente podiam achar a conduta dos soldados do exército francês... para com as suas propriedades, para com as suas mulheres e para com eles próprios, de acordo com as proclamações de V Ex (2).
          Não é pois de espantar que eles abandonem os seus lares voluntariamente, queimando e destruindo tudo o que não podem levar; e não tenho que apresentar... desculpas pelo encorajamento que lhes dou, a não ser pelos inconvenientes pessoais que po-dem causar a V. Ex.
V. Ex. foi mal informado sobre a questão da milícia que fazia parte da guarnição de Almeida. Antes de se queixar sobre a infracção dos termos da capitulação de Almeida, V. Ex. deveria lembrar-se que ela foi violada logo após ter sido assinada. V. Ex. comprometeu-se a que os oficiais e soldados da Milícia voltassem às suas casas; e apesar deste compromisso, o Sr. reteve 7 oficiais e 200 soldados de cada regimento para fazer deles um corpo de pioneiros. A capitulação de Almeida está assim anulada... Mas posso assegurar-lhe que nenhum dos soldados da Milícia de Almeida se encontra em serviço.”
Massena recebeu a carta, ressentiu-se do teor do seu primeiro parágrafo (segundo as suas “Memórias”), mas não respondeu, terminando assim a correspondência entre ambos. A 3ª invasão iria ser mesmo caracterizada, por parte dos franceses, por ter aspectos de guerra de extermínio, bem sofrido por parte da população portuguesa, so-bretudo como resposta à política de terra queimada levada a efeito por Wellington.
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(1) Wellington, ofensivo, referia-se ao facto de Massena, em 1793 e 1794, ter comandado vitoriosamente tropas francesas de aspecto miserável e desprovidas de uniforme...
(2) Referência à proclamação de Massena dirigida aos portugueses, na qual afirma que os vem proteger e garantir-lhes a prosperidade, sendo seu objectivo único expulsar os ingleses...
         

3º SUPLEMENTO NO BADALADAS - 14 MAIO 2010

Primeira e última página do suplemento



Do papel ao terreno
a construção das Linhas de Torres Vedras
André Filipe Vítor Melícias

As Linhas de Torres Vedras, enquanto sistema defensivo, permitiram a Wellington travar o avanço de Massena sobre Lisboa em 1810. O facto de Portugal ter permanecido livre possibilitou que servisse de base a ofensivas do exército aliado de Ingleses, Portugueses e Espanhóis contra o território espanhol ocupado, permitindo ainda a Inglaterra a manutenção de um importante ponto de escala para a sua marinha mercante e de guerra, evitando a asfixia que Napoleão projectara anos antes ao decretar o Bloqueio Continental.
As Linhas como hoje as conhecemos não resultaram de um projecto estático, aplicado inflexivelmente ao terreno. Foram antes o resultado do trabalho intelectual e físico de muita gente, desde Wellington a Neves Costa, passando pelos 19 oficiais de engenharia ingleses, portugueses e alemães que dirigiram as obras até aos inúmeros anónimos - soldados e populares – que, uma a uma, edificaram as fortificações.
Ainda que tenham existido trabalhos anteriores de reconhecimento de terreno, dos quais o mais conhecido será o do oficial português José Maria das Neves Costa, é a Wellington que se atribui o acto fundador das Linhas: o Memorando de 20 de Outubro de 1809. Deixando temporariamente as operações que dirigia em território espanhol, Wellington dirigiu-se a Portugal para preparar a defesa para uma expectável nova invasão. Aqui realizou durante alguns dias um breve reconhecimento do terreno – certamente com base em material cartográfico já existente – tendo depois enviado ao engenheiro Richard Fletcher um memorando onde ordenava a criação de um sistema defensivo que garantisse o domínio de Lisboa, bem como um embarque seguro em caso de derrota do exército inglês. Para tal estabeleceu uma série de zonas que deveriam ser fortificadas de imediato, indicando ainda o número e o posicionamento dos efectivos militares, bem como eixos de comunicação que deveriam tomar em caso de se terem que deslocar. Além disso solicitou a Fletcher que continuasse o estudo do terreno para a implantação de mais fortificações.
Foi na sequência deste memorando que no dia 3 de Novembro tiveram início obras em S. Julião, na terceira linha, no dia seguinte em Sobral de Monte Agraço e no dia 8 em Torres Vedras. Provavelmente da mesma época são os fortes de Enxara dos Cavaleiros e do Alto da Ajuda.
Em Fevereiro de 1810 Wellington realizou um nova visita ao terreno, talvez motivado pelo ritmo lento a que as obras decorriam. Entre os dias 5 e 10 de Fevereiro Wellington esteve em plena região das Linhas, passando por Torres Vedras, Mafra e Vila Franca de Xira.
Como resultado deste reconhecimento assistiu-se à pormenorização e desenvolvimento do plano iniciado com o Memorando de 20 de Outubro. Nos dias seguintes as obras ganharam um novo ritmo, iniciando-se a fortificação das zonas de Mafra, Ericeira, Montachique, Bucelas, Vialonga, Alhandra, Arruda, Ponte do Rol e São Pedro da Cadeira. Com estas obras constituiu-se uma linha efectiva de defesa – a actual 2.ª Linha -, que, complementada por um conjunto de postos avançados (como Torres Vedras, por exemplo), possibilitava a cobertura das principais vias de acesso à capital.
No entanto, o tempo decorrido até à efectivação da invasão de Massena, permitiu que mais trabalhos fossem lançados. Assim, a partir de 17 de Julho de 1810, já sob o comando do engenheiro John T. Jones, foi iniciado mais um conjunto de obras com o objectivo de fortalecer ao máximo os flancos direito e esquerdo das posições avançadas. Até Outubro foram iniciadas as obras junto a Alhandra, bem como a fortificação do Vale do Calhandriz que visava impedir que Alhandra fosse contornada. Também a Serra de Serves foi reforçada, pela construção de mais dois fortes. No flanco esquerdo das posições avançadas tiveram início as obras de construção de três fortificações junto da Foz do Sizandro.
Para além das novas fortificações Jones também fez construir uma série de obras complementares – escarpamentos, terraplanagens, minagem de estradas e pontes, construção de vias militares, etc. Foi igualmente nesta altura que se estabeleceram e testaram os postos de comunicação ao longo do sistema defensivo e, para permitir uma melhor logística, dividiu-se o mesmo em seis ‘distritos’ com sede em Torres Vedras, Sobral, Alhandra, Bucelas, Montachique e Mafra.
Quando, a 8 de Outubro desse ano os dois exércitos começaram a chegar às Linhas, encontraram um sistema composto por duas linhas sucessivas de fortificações, cobrindo o terreno entre o Tejo e o Atlântico e uma terceira em torno de Oeiras, para proteger o embarque inglês em caso de derrota. No entanto, ainda não era o sistema que hoje conhecemos, pois, para acautelar algumas fragilidades foram logo iniciadas fortificações no centro da 1.ª linha (entre Catefica e Ribaldeira).
Após cerca de um mês frente às Linhas, Massena retirou para Santarém. No entanto, a incerteza de invasões futuras levou a que se tivesse continuado o trabalho de fortificação, nomeadamente no Vale do Sizandro, entre Torres Vedras e o oceano, onde a descida do nível do rio durante o tempo mais quente levou a que essa região fosse protegida com 18 novas fortificações. Estas construções, iniciadas em 1811 mas terminadas talvez só em 1812, marcam o final do período de construção das Linhas.
Entre os anos de 1812 e 1814, foram detectadas em Torres Vedras obras, já não de construção, mas de recuperação de alguns fortes e estradas militares, a cargo do Sargento Mor Lourenço Homem da Cunha d’Eça. Estas obras terão terminado em Julho de 1814, talvez na sequência do clima de pacificação decorrente da assinatura da Convenção de Paris e da capitulação de Napoleão.
Quando se perfazem dois séculos sobre a construção deste sistema defensivo que teve implicações tão sérias no desenrolar da guerra, aproveitar a oportunidade de conhecer melhor a sua História é igualmente conhecer em maior profundidade a identidade de nossa terra e de nossa região: o local onde se iniciou a expulsão dos exércitos franceses da Península Ibérica.

                                                                                     

                                                            * * *
Portugueses no exército de Massena

Rui Prudêncio

Com algum espanto as autoridades portuguesas tiveram conhecimento de estarem incorporados no exército do general Massena oficiais portugueses. Esses oficiais pertenciam à Legião Portuguesa formada em 1808 e que se juntou aos exércitos napoleónicos em França. Em 1810, aquando da preparação da 3.ª Invasão a Portugal, o ministério da guerra francês ordenou que alguns desses oficiais se juntassem ao estado-maior de Massena, a fim de lhe dar apoio no relacionamento com as populações locais e no conhecimento do território a invadir. Atribuiu-se-lhes assim mais a função de ligação com os portugueses civis do que a função de combater o exército anglo-luso. Tal circunstância, juntamente com o facto de muitos deles serem, afrancesados, ou seja, adeptos da ideias mais moderadas da Revolução Francesa, de verem na administração napoleónica um factor de modernidade política e social e possivelmente a expectativa de integrarem o governo de Portugal após a esperada expulsão dos ingleses talvez contribuísse para aceitarem essa incumbência.

Apesar de não pretenderem a extinção política de Portugal como estado independente, esses militares foram vistos como traidores à pátria e como tal acusados pelo governo português. Formou-se um tribunal (Junta da Inconfidência) que os julgou e sentenciou à revelia. A pena foi a condenação à morte. E os condenados foram:

D. Pedro José de Almeida (3.º marquês de Alorna).
D. Agostinho Domingos Rolim de Moura Barreto (1.º marquês de Loulé).
Manuel Inácio Martins Pamplona Corte Real (general de brigada).
D. Álvaro Xavier Botelho (6.º conde de S. Miguel).
José Manuel de Noronha.
José Pereira Pinto (capitão de infantaria 11).
João da Gama (capitão de infantaria 16)
João Freire Salazar (sargento mor da Legião Portuguesa)
Francisco Taveira Cardoso.
Alexandre Henriques Lima.
Henrique Lima.
José Soares de Albergaria.
João Reicend (capitão de infantaria 16).
Piton (sargento da Guarda Real da Policia).
João António Ramos Nobre (sargento mor do regimento de cavalaria 5).
Fortunato José Barreiros (sargento mor de artilharia).
João Pedro Salabert (fabricante de chapéus)
Estevão de Carvalho (alferes)
Manuel Joaquim Rodrigues da Fonseca
João Mascarenhas Neto
José Maria Carvalho
José Alexandrino da Costa Fortuna
Cândido José Xavier

Destes condenados à morte nenhum cumpriu a pena por não estarem presentes em julgamento, à excepção de João Mascarenhas Neto que morreu de garrote na praça do Cais de Sodré. O condenado José Pereira Pinto (capitão do regimento de infantaria 11) foi mais tarde absolvido (1816) e o marquês de Loulé e o conde de S. Miguel foram amnistiados em 1818 e 1820 respectivamente.

Dos acusados, D. Miguel de Assis Mascarenhas (3.º conde do Sabugal) foi absolvido mas como medida preventiva foi desterrado para a ilha de S. Miguel. Os restantes acusados, João Pedro Salabert (fabricante de chapéus); Estevão de Carvalho (alferes) e Manuel Joaquim Rodrigues da Fonseca não foram condenados porque os seus processos judiciais não foram instruídos por falta de legalidade.

Posteriormente foram acusados D. José de Portugal e Castro (5.º marquês de Valença); D. Tomás da Silva (marquês da Ponte de Lima) e José de Vasconcelos e Sá (coronel), Miguel Bernardo de Meneses, Joaquim José Pombeiro Salvador Sá Benevides (5.º visconde da Asseca), tendo sido todos absolvidos.

Depois da Revolução Liberal foram os demais amnistiados pelo governo (decreto de 9 de Fevereiro de 1821), com a justificação de terem sido julgados à revelia, logo impossibilitados de se defenderem com prescreve o direito natural. O decreto de amnistia geral abrangia todos os indivíduos perseguidos por opinião ou comportamento político bem como os que se ausentaram de Portugal pelo mesmo motivo desde 1807.


Bibliografia:

SORIANO, Luz - História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal comprehendendo a história diplomática militar e política d'este reino desde 1777 até 1834.Lisboa : Imprensa Nacional, 1866-1890, segunda épocha, tomo III, p. 99 -115.
Acessível na Biblioteca Nacional Digital em http://purl.pt/12103/2/

        
                                                                                         
                                                                                                * * *


Tipologias de fortificação presentes nas Linhas de Torres Vedras

Forte - Obra militar de pequena ou média dimensão, isolada, dependente de uma praça principal ou funcionando de modo autónomo.

Reduto - Numa fortaleza, o reduto é uma obra geralmente quadrangular num pano de muralha de um baluarte. No contexto das Linhas de Torres Vedras aparece isolado. É, no entanto, confusa a aplicação deste conceito e do de forte, no contexto das Linhas de Torres Vedras. Por exemplo, o Forte de São Vicente é constituído por três diferente redutos interligados.

Bateria - Plataforma criada para a colocação de peças de artilharia.


Obras complementares

Entrincheiramentos – Tipo de fortificação de campanha, utilizado na época sobretudo para aproximação de tropas sitiantes aos locais sitiados. No contexto das Linhas, foram estabelecidos alguns entrincheiramentos, nomeadamente em Alhandra, como obra complementar aos fortes existentes junto ao rio Tejo.

Abatizes - Obstáculo construído a partir de troncos de árvores cravados firmemente no terreno e cuja extremidade visível é aguçada para obstar ao inimigo.

EscarpamentosEntrave artificial que consiste na criação um declive no terreno, ou aumento de um declive já existente, através da construção de um talude de terras.

Terraplanagens – Em vários locais das linhas procedeu-se à terraplanagem de pequenas elevações, para que não interferisse no ângulo de fogo de artilharia.

Minagem de estradas e pontes – Enquanto os exércitos contendentes se aproximavam, John T. Jones, o engenheiro inglês responsável pelas obras, recebe ordens de Wellington, via Richard Fletcher, para que se procedesse à minagem das vias de comunicação, para que pudessem ser destruídas à aproximação do inimigo.

Abate de árvores – Por toda a frente de combate, foram abatidas as árvores encontradas dentro do raio de tiro, para que não obstasse à artilharia e não permitisse que o inimigo encontrasse nelas abrigo para o fogo. Estas árvores serviam para construir os abatizes.

Estradas militares – Foi construída uma rede de estradas que interligava os fortes. O facto das estradas serem construídas nas vertentes protegidas dos montes, permitia que os fortes fossem abastecidos de víveres e soldados com mais facilidade.


* * *
OPUS 2



Sobem e descem a encosta num vai vem
bois e jumentos por pederneira e matagal
pé ante pé às cegas sem descanso,
dia e noite entre nuvem bruta e o boreal
que os carregos urgem e o rumo é ficar
pronto para batalha rija e sem bonança.



Ao cabo de meses eis o forte de S. Vicente
em pedra construído por tenaz labor
de quem cavalgou a escarpa até ao morro,
homens e animais que em degredo
trabalhavam mais por cada jeira
que durante um ano de sementeira.



Abrindo as asas eis assim um pássaro
de trinta e nove bocas de fogo para
barrar a estrada que liga Coimbra a Lisboa,
cantar bem alto aqui é terra antiga
lugar de um nome só fundado
em osso vivo e bandeira alcantilada.



Mais que pássaro cantador se ouvem
passos dia-a-dia agora de quem
marinhando a encosta e mais além
vê seu próprio rosto nesse rosto
moldado há anos, imagem
do tempo golpeando sem limite.


Luís Filipe Rodrigues in: Escrito à Mão, Torres Vedras, 2010