07/10/10

BADALADAS - TEXTO 56 - 10 SET 2010



TEMPO DE GUERRA
OS BONS E OS MAUS


José NR Ermitão

Ninguém põe em causa a importância dos ingleses no desenrolar da Guerra Peninsular contra os exércitos napoleónicos invasores. Contudo, quando se fala em comportamentos, não se pode identificar os franceses como “os maus” e os ingleses como “os bons”.
É hoje bem sabido que muitos militares ingleses,  soldados e até oficiais, tiveram para com os portugueses um comportamento absolutamente condenável. E tanto mais condenável quanto foram recebidos de um modo caloroso e festivo pela generalidade da população. O próprio Wellington queixava-se de que não havia correio ou relatório que recebesse que não trouxesse um rol de queixas contra violências e desmandos cometidos pelas tropas britânicas...
          No entanto, tão negativo como este péssimo comportamento era a atitude geral de condescendência, de superioridade, de arrogância britânicas relativamente aos portugueses, em muitos casos considerados de forma inferior e como uns incapazes tanto para governar como para defender o seu próprio país. Os ingleses tinham, por exemplo, uma péssima ideia sobre as nossas capacidades bélicas, só começando a alterar esse ponto de vista depois de constatarem a valentia dos soldados portugueses na Batalha do Buçaco.
E divulgaram esse mau conceito sobre nós em livros, em jornais, em revistas: durante e depois das invasões foram publicadas inúmeras obras que criticavam tendenciosamente o país e mostravam os seus habitantes como supersticiosos e ignorantes. E quanto à actuação do nosso exército, sempre a sua actuação foi desvalorizada comparativamente à do exército britânico, apesar de todos os elogios de Beresford e de Wellington à demonstrada capacidade de combate do militar português.   
Mas felizmente que nem todos assim pensavam e agiam. Muitos militares e civis incorporados no exército britânico eram homens de elevada formação cultural e fortes sentimentos humanos que, despindo-se da arrogância e preconceitos dos seus compatriotas, olharam o país e os seus habitantes com outros olhos, mais objectivos; e desse olhar diferente deram o devido testemunho em livros – livros em que descrevem o país destroçado pela guerra e o sofrimento dos habitantes, anotam a beleza das paisagens, tipos sociais e cenas quotidianas características, muitas vezes com ilustrações a complementarem o texto. Noutros casos, militares ingleses houve que praticaram actos de um humanismo raro em tempos de guerra.
Das várias obras publicadas que revelam atitudes diferentes e positivas na relação com os portugueses ou actos de grande humanismo, apresentarei, nos próximos dois artigos, dois exemplos. O primeiro é de Joseph Moyle Sherer, um militar que tanto se sente deslumbrado perante tudo o que vê, desde as cidades às cenas mais triviais – que procura entender como expressões próprias de um povo diferente – como condena as atitudes de sobranceria dos seus compatriotas. 
O segundo texto, de autor não identificado, revela um comportamento de elevado sentido humano por parte de militares ingleses. No texto de Moyle Sherer a guerra está longe embora paire como ameaça; mas no segundo ela está muito próxima: as populações estão em fuga perante o avanço francês e uma criança tragicamente perdida é salva por um militar britânico...

Por último, uma nota para dizer que também houve militares franceses que praticaram actos de elevado sentido humano. Refiro, por exemplo, o caso do general Travot que, durante a 1ª invasão, prestou valioso auxílio aos pescadores de Cascais; ou o caso passado com Guingret durante a 3ª invasão. Próximo de Leiria, um «bravo soldado» apresentou-lhe uma jovem e sua mãe, de uma família «conhecida e respeitada em Portugal», que tinha conseguido arrancar das mãos de soldados que se preparavam para as atacar, sobretudo a filha, da pior maneira. Guingret protegeu-as com todo o cuidado e fê-las conduzir para longe, guiadas pelo digno soldado que as salvou da ignomínia. Vários meses depois, em Espanha, um homem disfarçado de camponês procurou Guingret e entregou-lhe em segredo uma carta. Era da senhora portuguesa que, afectuosamente, lhe agradecia a protecção dada. Juntamente com a carta, ia um presente em ouro para o soldado que tinha salvo a honra da filha – presente que Guingret devolveu, porque o soldado tinha entretanto morrido em combate...
          Enfim, gestos e atitudes de paz em tempos de guerra...





       




28/09/10

200 ANOS DA BATALHA DO BUÇACO

Evocando os 200 anos daquele que foi o mais marcante confronto militar da 3ª invasão francesa, publicamos hoje um artigo do Tenente Coronel Abílio Lousada. Notável pela concisão e rigor. O autor é um especialista nesta área e aceitou submeter-se às limitações de espaço deste tipo de colaboração. Será publicado em breve no jornal BADALADAS, na sequência dos que temos vindo a publicar sobre a Guerra Peninsular.
 Aproveitamos para lhe agradecer mais uma vez a disponibilidade que sempre nos manifestou ao longo destes dois anos em que temos procurado divulgar o que foi a Guerra Peninsular.






BATALHA DO BUÇACO

Tenente-Coronel Abílio Pires Lousada[1]

Travada no contexto da invasão francesa comandada por Massena, a 27 de Setembro de 1810, a Batalha do Buçaco constitui-se como a última grande batalha de cariz internacional travada em Território Português e a que apresentou maior contingente militar. Decorridas duas centúrias, um observador atento que se posicione na serra não pode deixar de sentir o “cheiro a pólvora”, depreender as ordens de batalha dos exércitos, admirar a motivação dos comandantes e sensibilizar-se com a coragem do soldado anónimo empurrado para a cara do inimigo. A Batalha revelou-se determinante para recobrar o moral dos soldados aliados abalado com o “episódio” da queda de Almeida e quebrar o ímpeto da progressão francesa, cabendo ao «articulado» defensivo das Linhas de Torres Vedras completar, posteriormente, o desastre napoleónico em Portugal.
Massena abordou o sopé da serra com l’Armée du Portugal organizado em Corpos de Exército: II CE (General Reynier), que atacaria segundo a direcção Santo António de Cântaro; VI CE (Marechal Ney) que atacaria ao longo de Moura-moinho de Sula; VIII (General Junot), que constituía a reserva; Divisão de Cavalaria (Montburn). No total, este exército tinha à volta de 60 000 homens, 15 000 cavalos e 84 “bocas-de-fogo”.
Numa posição defensiva que tinha 20 km extensão (do Ninho d’Águia ao Mondego), uma altitude média de 400 metros e um terreno escarpado com ampla visibilidade, o General Arthur Wellesley dispôs as Divisões e Brigadas (efectivos britânicos e portugueses) na serra desdobradas em duas linhas (sentido NO-SE): 4ª Divisão (Cole) no Ninho d’Águia; 1ª Divisão (Spencer) instalou-se no alto da crista “fronteira” ao moinho de Moura (posto de comando de Massena), para barrar a aproximação de Ney; a 3ª Divisão (Picton) organizou-se em apoio mútuo no centro do dispositivo, entre a 1ª e a 5ª Divisão; a 5ª Divisão (Leith) posicionou-se entre a Portela de Santo António e Santo António de Cântaro a barrar o eixo utilizado por Reynier; à direita, no Alto da Chã, estava a 2ª Divisão (Hill); a Divisão Ligeira (Craufurd) posicionou-se à frente da 1ªDivisão; a 1ª Brigada Portuguesa (Pack) guarneceu a área do moinho de Sula; a reserva era constituída pela Legião Alemã e pelas 5ª e 6ª Brigadas Portuguesas; a tarefa de guarnecer os flancos da posição foi conferida à Cavalaria Britânica de Cotton (a NO) e à Leal Legião Lusitana e Cavalaria Portuguesa de Fane (a SE); as forças irregulares vigiavam os caminhos que irradiavam de Mortágua. O Exército Aliado compreendia à volta dos 50 000 efectivos (metade dos quais portugueses).
Sem reconhecer a posição, Massena mandou atacar ao romper da aurora e debaixo de nevoeiro, que dificultou a coordenação das unidades e impediu o fogo de preparação da artilharia. Para ele, os ataques do II e VI CE deviam ser simultâneos de modo a dividirem as forças aliados e obrigarem Wellesley a um empenhamento decisivo. Contudo, Ney só avançou duas horas depois de Reynier, atacando a posição defensiva quando as forças deste retiravam em desordem, sendo também derrotado. Separados por mais de 3 km, os CE combateram desligados, o que permitiu a Wellesley fazer deslocar contra o VI CE francês parte das forças que tinha no centro da posição após destroçar o II CE, batendo o inimigo por partes. A reserva de Junot (VIII CE) mal se mexeu e a Cavalaria de Montburn ficou impedida de manobrar no terreno acidentado que tinha à sua frente.
Olhando para o terreno e as forças em presença, só um comandante inteligente poderia vencer, daí a apreciação posterior de Napoleão: “Massena sempre foi cabeçudo, mas no Buçaco mostrou ser ignorante, atacando de frente uma tal posição sem a devida preparação de artilharia”. Massena só torneou a posição, pela estrada de Boialvo, depois da derrota no Buçaco, e Wellesley podia ter feito perseguição ao exército francês explorando o sucesso. Mas não o fez, mantendo o não envolvimento em combates decisivos, o desgaste continuado do invasor e a crença nas virtudes das Linhas de Torres.
Relativamente ao comportamento das unidades portuguesas presentes no Buçaco, aproveitamos o comentário de Wellesley enviado a Forjaz (Gazeta de Lisboa): “As operações que effectuei no dia 27 me offereceram uma opportunidade de mostrar ao inimigo a qualidade das tropas de que era composto o meu exercito, bem como a de conduzir pela primeira vez as tropas portuguesas. As tropas d’esta nação se tornaram dignas de combaterem nas mesmas fileiras das tropas britannicas pela tão interessante causa, á qual ellas offerecem as melhores esperanças de salvação”.

[1] Professor de História Militar do Instituto de Estudos Superiores Militares.







24/08/10

BADALADAS - Texto 55 - 27 AGOSTO 2010




 
FAZ HOJE 200 ANOS
ALMEIDA RENDE-SE À TRAGÉDIA


 

Joaquim Moedas Duarte


 
Almeida foi sempre a praça-forte mais avançada na resistência aos invasores. Na raia beirã, fronteira leste com Espanha, por aqui fazia entrada quem vinha sem licença e à força. Os anais históricos lembram as correrias bélicas da primeira dinastia, as investidas castelhanas na crise da independência dos finais do século XIV, a Guerra da Restauração trezentos anos depois, os cercos da Guerra da Sucessão já no XVIII - embates permanentes da teimosia espanhola contra o irredutível vizinho. Entrado o século XIX, o velho baluarte tinha ainda uma dura prova a cumprir. Foi quando o exército napoleónico, comandado por Massena, irrompeu por ali, disposto a vergar finalmente a velha Lusitânia com uma terceira invasão.

Estava-se em Julho de 1810. O Grande Exército francês, composto por três Corpos num total de cerca de 65 000 homens, estava prestes a invadir Portugal. Mas foi necessário, primeiro, cercar e dominar Ciudad Rodrigo, para garantir as linhas de abastecimento e comunicação com França. Feito isso, aí temos o invasor a derramar-se pelas serranias raianas, ciente da necessidade de dominar a grande praça-forte de Almeida, fortaleza de grossos muros em forma de estrela, que dispunha de 5 000 homens e de um poderoso equipamento de 98 peças de artilharia. Era seu comandante o brigadeiro inglês Guilherme Cox, tendo como subalternos alguns oficiais portugueses.
Depois do primeiro embate junto à ponte do rio Côa, em que o general inglês Craufurd a custo salvou a sua Divisão Ligeira, mas com pesadíssimas baixas, (ver nosso artigo neste jornal, em 22 /01/2010), as operações militares vão centrar-se em redor de Almeida.
Os preparativos para o cerco foram demorados. Os terrenos eram rochosos para trincheiras, e impraticáveis as vias de acesso aos trens de artilharia. Nestes trabalhos demoraram os franceses mais de quinze dias. As tropas anglo-lusas não estavam muito longe dali mas o prudente general inglês que as comandava – Arthur Wellesley – optara pela estratégia de não dar combate directo, fiado na capacidade de resistência da praça-forte e receoso da força inimiga em campo aberto.
A história do cerco está feita e não cabe aqui deter-nos em pormenores. (1)
Recordemos apenas que Massena escolhe o dia 15 de Agosto, aniversário de Napoleão, para iniciar o ataque mas os bombardeamentos sucessivos não vergam a valentia dos sitiados. Sucedem-se dias e noites de pesadelo. Atacar, atacar sem piedade. Resistir, resistir até poder. O drama, porém, estava guardado para um acontecimento inesperado. Foi no dia 26 de Agosto de 1810. O paiol da pólvora, no castelo de Almeida, bem no interior da povoação-fortaleza, foi deixado aberto enquanto se procedia ao transporte dos barris. Estranha e nunca bem explicada imprudência. Relata o narrador das “Memórias”:

Às sete da tarde ouviu-se uma tremenda explosão. Duas bombas lançadas pela bataria n.° 4 tinham atingido o grande armazém do castelo, que continha 75 000 quilogramas de pólvora. Foi como uma erupção vulcânica; o terrapleno das muralhas adjacentes abriu fendas; muitos canhões saltaram das suas posições e caíram no fosso; grande parte das casas ficou destruída, sepultando 500 homens nos escombros. Che­garam a cair destroços nas nossas trincheiras, ferindo alguns homens. As fortificações da frente de ataque, porém, ficaram intactas, e só a cortina do castelo sofreu danos. Os soldados da guarnição que escaparam ao desastre corriam entre as ruínas como perdidos, e um violento incêndio vinha aumentar o horror da sua situação. O governa­dor mandou tocar a reunir e dirigiu-se à muralha, onde chegou fogo por suas próprias mãos às poucas peças que ainda lá se encontravam. As nossas batarias de morteiros e obuses bombardearam durante toda a noite.”

Foi este trágico acontecimento que quebrou a resistência de Almeida. Depois de novo ataque francês, a praça-forte capitulou em 27 de Agosto – faz hoje 200 anos! Estava aberto aos invasores o caminho para Celorico e Viseu.
Saldo terrível: calculam-se as baixas em 600 mortos e 3 400 feridos entre os sitiados e cerca de 60 mortos e 320 feridos entre os franceses.
Por que razão Wellington não socorreu Almeida? Os estrategas militares ainda hoje discutem a opção do general inglês. Os factos, contudo, parecem desmentir a acusação de fraqueza que lhe é feita por alguns. Wellington jogava pela certa e não arriscava a sobrevivência do exército inglês, mesmo que isso significasse sacrifícios acrescidos para a população portuguesa. Um mês depois, no Buçaco, provou a justeza das suas escolhas. De mais, ele sabia o que Massena ignorava: mais a sul esperavam-no as formidáveis Linhas de defesa de Torres Vedras.

(1)
Memórias de Massena, General Koch, Livros Horizonte, Lisboa, 2007
Guerra Peninsular – Novas Interpretações, Vários, Inst. Def. Nacional, Tribuna, Lisboa , 2005

BADALADAS - Texto 54 - 13 AGOSTO 2010

TEMPO DE GUERRA
PORTUGUESES, ESPANHÓIS E INGLESES...

José NR Ermitão


          A Guerra Peninsular pôs em contacto frontal ingleses, portugueses e espanhóis, todos aliados num objectivo comum – a luta contra o domínio francês – mas com grandes diferenças entre eles quanto a relações humanas e mentalidades.
Assim, os portugueses e espanhóis nunca deixaram de mostrar o desafecto que sentiam uns pelos outros; por outro lado, os espanhóis e ingleses detestavam-se fortemente. Um dos pontos de fricção entre os ibéricos e os britânicos era a religião: os ingleses desprezavam o catolicismo como um conjunto de superstições e tolices, e os portu- gueses e espanhóis viam os britânicos como não cristãos.

          H. W. Maxwell publicou, em meados do século XIX, uma colectânea de narrativas de ingleses que participaram na Guerra Peninsular (1). Duas dessas narrativas dão conta dos sentimentos de hostilidade pessoal mútua entre os aliados. Uma delas, A night in the Peninsular War (Uma noite na Guerra Peninsular), refere aspectos da tensão existente entre os dois povos ibéricos: o facto de as suas disputas acabarem quase sempre em sangue e o facto de os condutores espanhóis de mulas servirem os regimentos ingleses mas recusarem-se a servir os militares portugueses.
Entretanto este vingavam-se, ou pondo-se sempre do lado dos ingleses quando havia altercações entre estes e os espanhóis, ou fazendo “visitas” predatórias nocturnas aos acampamentos dos arrieiros espanhóis – que tiveram de recorrer a cães de guarda e a tiros de mosquete para se defenderem dos portugueses... Estas tensões eram tão fortes que preocupavam os comandos militares pelos efeitos disciplinares negativos que originavam.

Outra narrativa, Recollections of the late war in Spain and Portugal (Lembranças da última guerra em Espanha e Portugal), anota a diferença de atitudes dos espanhóis e portugueses para com os ingleses – os primeiros, distantes e arrogantes; os segundos, cordiais e agradecidos – e descreve, com humor, o modo como os militares de um regimento inglês se transformaram em bons cristãos junto dos portugueses. Traduzo livremente:
“Descobrimos que ninguém no nosso exército era considerado como cristão excepto os militares que declaravam ser naturais da Irlanda (2), que eram logo tomados pelos portugueses com bons católicos romanos; tal declaração era em geral seguida de favores da parte deles; mas de vez em quando levantavam-se suspeitas e era necessário dar um testemunho prático da nossa sinceridade, benzendo-nos conforme o rito da igreja romana. Neste importante teste, os que realmente não eram católicos enganavam-se fazendo o sinal da cruz com a mão esquerda – um erro crasso que não só provocava decepção como era considerado um grosseiro acto de impiedade. Quando isto acontecia os habitantes ficavam muito agitados e clamavam, juntamente com gestos significativos: “Eles não são cristãos!”
 A pouco e pouco este erro irreverente foi sendo em grande parte corrigido e por meio desta manobra pia muitos incorrigíveis heréticos tornaram-se verdadeiros «bons cristãos». Depois continuámo-nos a aperfeiçoar segundo as ideias religiosas deles, afirmando que o nosso regimento era formado por um conjunto de fiéis da verdadeira igreja, servidores de um grande convento na Irlanda, e constituído para lutar contra os infiéis franceses. E para lhes tirarmos as dúvidas e escrúpulos mostrávamos mesmo a mal desenhada imagem de um castelo, que figurava nas nossas placas peitorais, como sendo a mansão dos nossos reverendos senhores.
Descobrimos também que o povo mostrava tendência para considerar melhor certos nomes, como António, o nome de um dos santos mais venerados naquele santo país; e rapidamente o número de militares que se tratavam por este nome excedeu todos os outros nomes no nosso regimento.”
E assim, com este truque burlão, a paz religiosa entre os habitantes e este regimento inglês foi alcançada – com reforço do desprezo inglês pela credulidade fácil dos portugueses...

(1)  Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2)  A Irlanda, apesar de colonizada pelos ingleses, manteve-se sempre fiel ao Catolicismo.

                                                                                          





05/08/10

BADALADAS - TEXTO 53 - 30 JULHO 2010



DE SANTARÉM A VILA FRANCA

POPULAÇÕES EM FUGA E BENS DESTRUÍDOS

José NR Ermitão


          A “política de terra queimada” foi um dos pilares da estratégia de Wellington para derrotar os franceses. E o exército luso-britânico, na sua retirada para as Linhas de Torres cumpriu à letra esta política, levando à sua frente os habitantes e destruindo muitos bens para que não caíssem nas mãos dos franceses. Esta política, tanto quanto as depredações dos franceses, arruinou o país, fez diminuir a produção agrícola, aumentou a mortalidade e traduziu-se num enorme sofrimento para os portugueses.  
Apresento parte do texto intitulado «Santarém», extraído de uma colectânea publicada por W. H. Maxwell (1), que constitui uma autêntica peça jornalística pelo rigor descritivo e visual com que retrata o percurso concreto de um corpo militar aliado de Santarém até às Linhas, a situação dos habitantes, o estado de espírito das tropas e as destruições sistemáticas que iam fazendo sobretudo nas adegas, sem esquecer as bebedeiras. Com candura, o autor confrange-se com o destino das populações desprotegidas, ao mesmo tempo que lhes destrói o produto do trabalho para evitar que caísse nas mãos dos franceses...

          “Os vinhedos em torno de Santarém estavam carregados de uvas deliciosas prontas para a vindima... Doces como mel, os tentadores cachos pendiam mesmo à beira da estrada. Nem é necessário dizer quanto os nossos soldados as atacavam, comendo-as ou levando-as consigo. Era também a estação do amadurecimento das laranjas.... Também as laranjas foram arrancadas das árvores para que os invasores as não aproveitassem.
A tropa estava com o moral elevado e os soldados portugueses que faziam parte dela... entretinham-se com histórias sobre o seu possível futuro. Uns diziam que iriam pescar bacalhau com os ingleses; outros, que embarcariam para a Mauritânia em busca de D. Sebastião. Mas todos eles concordavam num ponto, que combateriam os franceses quando e onde “o Grande Lorde” (Wellington) mandasse.
          Entretanto a maior parte dos habitantes de Santarém já tinha abalado... para Lisboa e os poucos que ficaram partiam à medida que as nossas tropas marchavam pelas ruas na manhã do dia sete (de Outubro). (...)
Em Vila Franca, Azambuja e Cartaxo a vindima estava mais avançada... O vinho já fermentava nas dornas quando a tropa em retirada apareceu naquelas vilas. (...)
Desgraçadamente os seus habitantes ficaram fora das linhas defensivas que estávamos prestes a ocupar e, portanto, ficaram ao alcance das depredações do inimigo. Assim, destacamentos de soldados foram enviados para abrir as torneiras e partir todos os tonéis que pudessem encontrar. Os nossos homens, no despenho do seu dever, chegaram a andar com vinho até ao peito nas adegas submersas, para inutilizar o vinho que inundava literalmente as ruas. Foram destruídos desta maneira mais de quarenta mil al-mudes (2).
Em Vila Franca, os soldados não resistiram à tentação de tragar daquele delicioso líquido à medida que este se espalhava pelas ruas abaixo. Vinham aos magotes encher os cantis, e muitos, mas mesmo muitos, atiraram-se para aquela espumosa fonte de Baco, adorando o deus do vinho até ficarem completamente bêbados, estado em que, como odres, foram carregados para cima das mulas e conduzidos para a frente, sob pena de caírem nas mãos do inimigo.
O vinho destruído desta maneira era só uma pequena parte da produção daquelas regiões. A maior parte ficou nas adegas situadas longe da estrada porque já não havia tempo para as destruir; e assim caiu, juntamente com outras boas coisas da Providência, nas mãos dos espoliadores do país (os franceses).
O tempo, que tinha estado delicioso durante a nossa retirada, piorou na tarde do dia 7 de Outubro, o dia anterior à tomada das nossas posições dentro das linhas de defesa. A multidão de portugueses em fuga tinha-se por esta altura já acolhido em algum lugar ou já estava dentro das linhas. Tivessem as fortes chuvadas começado a desabar dez dias antes e um grande número deles teria morrido enregeladas ou por causa das dificuldades dos caminhos.”

(1) Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2) Cerca de 2 400 000 litros.


BADALADAS - TEXTO 52 - 16 JULHO 2010






QUOTIDIANOS EM TEMPOS DE GUERRA
“ MALDITOS FIGOS!” MALDITOS FIGOS!”



Manuela Catarino


 “Em tempo de figos, não há amigos” glosa, de forma bem mordaz, o adagiário popular. Sabedoria notável que atravessa os tempos e a experiência das gerações. Gerada nas relações mais próximas do homem com a natureza, nela se repete quer nos tempos de paz quanto nos da guerra. Nesses tempos de perturbação a vida tenta seguir a espaços o seu curso. Por isso, entre cenários de morte e dor, há também pequenos apontamentos de riso, como os que nos deixaram alguns dos testemunhos que hoje aqui trazemos…
“ O senhor Elliot, irmão do general inglês que comandava a ala esquerda das posições do seu exército, desembarcado na véspera em Lisboa, tinha ido visitar o general ao amanhecer; tendo-se enganado no caminho directo, morrendo de calor e desejando refrescar-se, viu uma grande figueira e trepou para colher alguns figos. Estava a preparar-se para os comer quando um dos pequenos postos móveis o descobriu, marchou contra ele e lhe apontou armas; do meu posto de guarda avançada vi o movimento e, sem saber o que fazia com que todo um posto apontasse armas contra uma árvore, acorri e vi descer um jovem bem parecido que acabava de se render, tendo já entregado a carteira e o relógio aos soldados, exclamando em inglês: Dam figue!...Dam figue! E tinha razão, porque sem eles não teria corrido este perigo; bem podia dizer malditos figos. Apenas reclamou a bolsa do relógio, que continha cabelos da sua mãe; restituíram-lha. Conduzido perante o general Soult, depois ao senhor marechal, andou quatro dias a passear por ali e em seguida foi trocado. Jurou fervorosamente que nunca mais seria tentado por um figo.” (1)
É este mesmo jovem que vamos encontrar no aquartelamento do general Reynier, em Outubro de 1810, quando Pelet, ajudante de campo de Massena, aí se desloca em missão de serviço. Reunidos ao jantar, o aspecto do inglês impressiona francamente Pelet que acaba por tecer comparações entre a qualidade de vida dos oficiais ingleses e franceses. Sobre a referida personagem ficamos a conhecer mais alguns pormenores: este jovem de vinte e três anos é neto do General Elliot, Governador de Gibraltar; tinha chegado das Índias para se casar em Londres; desde que enriquecera e casara com uma bonita menina (cujo retrato mostrou) esperava deixar o cargo de tenente da marinha que  até então vinha desempenhando…(2)
Pensávamos que o nosso jovem não mais se cruzaria connosco. Mas eis que…
Um estafeta inglês, Percy, capturado através de um ardiloso estratagema, é levado para o Sobral “onde teve a curiosidade de subir ao sino para ver como estava organizado o nosso exército. Foi-lhe dada autorização e, deste ponto elevado, de luneta na mão, ele foi testemunha de uma cena engraçada, da qual não se pôde impedir de rir, apesar do seu infortúnio: a tomada de um outro oficial inglês.”(3)
A descrição assenta que nem uma luva ao tenente Elliot : “regressado das Índias, depois de vinte anos de ausência, tendo sabido em Londres que o irmão estava em Portugal sob as ordens do duque de Wellington, embarcou para Lisboa e daí, apressou-se a ir a pé até aos postos avançados […] Estava entre os dois exércitos quando, vendo uns magníficos figos, e não comendo ele há muito tempo fruta da Europa, veio-lhe o desejo de subir à figueira. Estava ele tranquilamente nesta consoada, quando os soldados de um posto francês situado perto dali, admirados de ver uma vestimenta vermelha em cima da árvore, se aproximaram […]” (4) e já conhecemos o desfecho!!!!
Não. Não será bem assim. Pois que “este inglês, mais sensato do que o senhor Percy, pediu aos seus captores que o mantivessem na raia do exército francês, cuja configuração interna não queria ver, na esperança de poder haver uma troca”(5). E, de facto, o jovem Elliot será trocado pelo capitão Letermillier, capturado em Coimbra…
E o senhor Percy?? Bom, ele que tinha assistido à captura do seu correligionário, de quem tanto se tinha rido, tentou obter o mesmo favor. Foi-lhe recusado pois ele conhecia bem demais o aquartelamento francês. Mantido prisioneiro, acompanha a retirada por terras de Espanha partilhando os infortúnios dos seus captores. Irá até França e aí viverá vários anos.
Caso para, à maneira de epílogo, comprovar a ironia da voz popular: “ Uns comem os figos…a outros rebenta-lhes a boca”.


(1)       Capitão Jean-Baptiste Lemonnier-Delafosse, “Recordações Militares” in Vários, Linhas de Torres Vedras. Memórias Francesas sobre a III Invasão, Livros Horizonte, 2010, p.68.
(2)       THE FRENCH CAMPAIGN IN PORTUGAL, 1810-1811 An Account by Jean Jacques Pelet, Edited, Annotated and Translated by Donald D. Horward, University of Minnesota Press, Minneapolis, 1973, p. 273.
(3)       General Barão de Marbot, Memórias sobre a 3ª Invasão Francesa, ed. Caleidoscópio,Centro de História da Universidade de Lisboa, 2006, pp.82-83.
(4)       Idem,pp.82-83.
(5)       Ibidem,p.83.

                                                                                              

26/07/10

FORTES DO ALQUEIDÃO E DA CARVALHA

Um dia destes demos uma volta por aí. A ideia era visitar dois fortes das Linhas de Torres Vedras.
O primeiro onde parámos é o do Alqueidão, no Sobral de Monte Agraço. Ver dados AQUI e AQUI, que nos dispensam de mais escritas. Deixamos apenas algumas imagens:



Troço de estrada militar de aceso ao Forte do Alqueidão


Aspecto da praça de armas (interior) do Forte do Alqueidão




Aspecto de um dos paióis escavados no chão, recentemente postos a descoberto.
A parte de cima seria coberta de traves de madeira, base de uma cobertura que teria terra por cima.



Outro aspecto de um paiol subterrâneo


  Fosso exterior do Forte de Alqueidão




Posto de apoio aos visitantes do Forte do Alqueidão


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Depois parámos no Forte da Carvalha, arredores de Arruda dos Vinhos

Forte da Carvalha, Arruda dos Vinhos


Fosso exterior

Paiol



Outro aspecto do paiol



Canhoneira



Fosso exterior do Forte da Carvalha

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Esta visita confirmou o que já sabíamos: os concelhos de Sobral de Monte Agraço e Arruda estão na vanguarda da recuperação dos Fortes das Linhas de Torres Vedras, tendo feito estudos arqueológicos a partir de 2008 e apresentando aquelas estruturas militares prontas para serem visitadas no ano do Bicentenário.
Ao contrário do concelho de Torres Vedras, que dá nome às Linhas mas que, inexplicavelmente, pouco tem feito pela sua preservação, estando muito atrasada em relação às obras previstas.

22/07/10

CAMINHADA PELOS FORTES DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS







O início da actividade,
no novo Parque da Ponte do Rol.





Foi no passado dia 18 de Julho, por iniciativa da Associação de Marchas e Passeios do Concelho de Torres Vedras. Com cerca de dez quilómetros, este percurso inicia-se na aldeia de Ponte de Rol, concelho de Torres Vedras e passa pelos montes onde podem ver-se vestígios de três Fortes: Grilo, Alquiteira e Bonabal. O primeiro ainda é visitável, os dois seguintes estão cobertos de mato e canaviais.
É preciso ter em conta que 200 anos passaram sobre estas construções que, muitas vezes, não tinham qualquer anteparo de pedra e estavam situadas em terrenos particulares. A chuva, o vento e a utilização agrícola ou pecuária provocaram erosões irreversíveis. Não seria viável manter em bom estado 152 fortes, tantos são os que fazem parte das Linhas de Torres Vedras. Por isso mesmo, os seis concelhos que constituiram a Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres Vedras escolheram os mais significativos para serem intervencionados neste Bicentenário.
Por exemplo, para Torres Vedras está prevista a recuperação de seis obras militares: o reduto de Olheiros e os fortes do Grilo, do Passo, São Vicente, Forca e Feiteira.

Os lugares estão lá, as cartas militares referenciam-nos e é possível identificá-los pelo perfil dos terrenos: vestígios de muros de terra, de fossos, de zonas escarpadas artificialmente, abertura das canhoneiras...

Aqui ficam algumas fotos que documentam o interesse por estes passeios pedestres, em que normalmente participam cinco ou seis dezenas de pessoas. As paisagens são convidativas, há caminhos de terra batida e descobrem-se recantos magníficos que estão vedados a quem só passeia de automóvel.

Todos estes passeios irão culminar na inauguração da Grande Rota das Linhas de Torres Vedras, em 13 e 14 de Novembro.



Lá em cima, na linha do horizonte, é bem visível o perfil do Forte do Grilo, à esquerda das torres/antenas



Um troço de estrada militar


«Paralelamente à edificação das obras defensivas, foram construídos vários quilómetros de estrada, tanto na retaguarda das Linhas como na ligação entre essas estradas e as obras militares.
Durante o ano de 1811, as estradas militares foram aperfeiçoadas, para que houvesse comunicação sobre toda a extensão da primeira e segunda linha, desde o Atlântico até ao Tejo.
Entre a primeira e a segunda linha foram reaproveitadas estradas rurais já existentes que foram alargadas e adaptadas paro o transporte militar.» (Do folheto distribuído aos participantes neste passeio)



Caminhando...


Junto do Forte de Alquiteira, situado atrás do grupo. Impossível o acesso ao espaço do Forte devido ao mato, canas e ervas.


Concorrentes inesperados à partilha do mesmo caminho...
Mais adiante, na aldeia da Bordinheira, esperava-nos um abastecimento: líquidos, maçãs, biscoitos...
Foram cerca de três horas de caminho, com paragens, pequenas explicações dadas pela Guia, o abastecimento...
O nosso agradecimento à Associação de Marchas e Passeios!

16/07/10

Linhas de Torres Vedras



Julgamos oportuno divulgar este apontamento de vídeo criado pela Câmara Municipal de Torres Vedras.
Vemo-lo com muitas reservas. De facto, fazendo nós parte de grupo das associações que participaram na elaboração do programa comemorativo do bicentenário das Linhas de Torres Vedras, não fomos vistos nem achados para as decisões relativas ao Centro Interpretativo. Tal como as restantes associações.
A decisão foi tomada pelo anterior executivo municipal, sem consensos (toda a oposição votou contra), sem discussão pública, sem debate entre os cidadãos interessados.

Já denunciámos publicamente este projecto nas páginas do jornal BADALADAS. Consideramos que a sua localização é errada e o seu desenho aponta para uma construção dispendiosíssima, de um exibicionismo chocante, completamente contrário ao fim em vista, além de começar por propor um edificío sem que ninguém saiba qual o projecto museológico que lhe está subjacente.

Apontamos para outro tipo de solução, muito mais barata e adequada, perto do Forte de S. Vicente, com leitura visual das Linhas desde o Forte do Alqueidão até perto da costa, num projecto que seja participado pelas populações e que corresponda a um programa museológico previamente delineado.

13/07/10

RECUPERAÇÃO DOS FORTES DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS

O concelho de Torres Vedras é o que está mais atrasado no que respeita ao trabalho de recuperação dos Fortes. Para além de um pequeno trabalho de investigação arqueológica junto à casa do guarda no Forte de S. Vicente e da deslocação de uma locatária no Forte da Forca, nada mais foi feito.
No entanto, o Programa das Comemorações 2009/2010 ( publicado em Junho de 2010...) diz, na página 120:

"Para Torres Vedras está prevista a recuperação de seis obras militares: o reduto de Olheiros e os fortes do Grilo, do Paço, São Vicente, Forca e Feiteira."

Segundo informação que recolhemos junto dos serviços da Câmara Municipal, estas obras deverão estar concluídas no primeiro semestre de 2011.

Entretanto no concelho do Sobral de Monte Agraço já foi festejada pelo Presidente da República a recuperação do Forte Grande do Alqueidão e o respectivo complexo dos fortes auxiliares.

Em Mafra já foram feitas obras de recuperação no Forte do Zambujal, Juncal e Circuito da Enxara do Bispo.

No concelho de Arruda dos Vinhos foi inaugurado o Circuito que inclui os Fortes da Carvalha e do Cego.

Ontem visitámos o Forte do Zambujal, situado na freguesia da Carvoeira, concelho de Mafra.
É uma obra militar impressionante, como se poderá ver nas fotos. Pareceu-nos, no entanto, que a limpeza dos terrenos terá sido demasiado radical pois rapou por completo o coberto vegetal. Uma grande chuvada provocará, necessariamente, forte erosão nas estruturas construídas.

Como chegar lá: passada a Ericeira, na direcção de Sintra, a estrada desce para a ponte sobre o Lisandro, depois sobe até à Carvoeira; aí, junto à Igreja, virar à esquerda, direcção da capela de Nª Srª do Ó. Depois da pequena ponte junto da capela, virar à direita e subir para a aldeia do Zambujal. Aí começamos a encontrar placas de sinalização para o Forte.

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Foto 1: aproximação ao Forte do Zambujal, lado oposto ao Vale do Lisandro


Foto 2: fosso exterior


Foto 3: outro aspecto do fosso



Foto 4: aspecto do interior do Forte, com os traveses de protecção




Foto 5: fosso poente, vendo-se ao fundo a abertura do tunel de acesso ao reduto interior.


Foto 6: aspecto exterior do tunel de ligação entre o reduto central e a bateria avançada




Foto 7: perspectiva do tunel a partir do reduto central

Foto 8: panorama para o lado poente, a partir do terreiro da bateria externa. Vê-se o vale do Lisandro e o adro da Senhora do Ó.

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Fotos: Associação de Defesa do Património de Torrres Vedras
Mais pormenores: veja-se o folheto da Câmara Municipal de Mafra, a partir do respectivo site.


NOVA ACTIVIDADE DO PROGRAMA DO BICENTENÁRIO DAS LINHAS


Conan Doyle, o célebre criador de Sherlock Holmes, escreveu um conto em que faz referências à Guerra Peninsular: "As Aventuras do Brigadeiro Gèrard". Motivo suficiente para esta iniciativa da Casa da Cultura da Ponte do Rol, em que o público é convidado a participar no jantar e na resolução de um enigma. Lá estaremos.

10/07/10

XADREZ HUMANO

O Académico de Torres Vedras anunciou e concretizou: uma encenação de Xadrez Humano no recinto do castelo - espectáculo integrado no Programa de Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras.

As imagens dão uma ideia muito pequena do que foi esta realização. Cor, movimento, inventiva, abordagem original de um tema já tão repetido. Sobretudo a quantidade de jovens envolvidos, perto de quatro dezenas.
No final ainda houve um porco assado no espeto, às portas da Sede do Académico, no Largo do Grilo.


Rapaziada valente!










04/07/10

AS LINHAS DE TORRES VEDRAS E A GUERRA PENINSULAR NA FEIRA DE S. PEDRO














A Associação do Património de Torres Vedras participou na Feira de S. Pedro deste ano com um espaço duplo no pavilhão B.
Com painéis criteriosamente escolhidos e uma maquete do reduto nº 20 do Forte de S. Vicente, o espaço da ADDPCTV (Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras) atraiu muitos visitantes e suscitou muitas conversas interessantes.

BADALADAS - TEXTO 51 - 2 JULHO 2010

Le Moniteur, jornal fundado em Paris em 1789 e que se publicou até 1901. Durante muito tempo foi o órgão oficial do governo francês com o título principal de Gazette Nationale. O sub-título Le Moniteur passou a principal em 1 Janeiro de 1811.


DESINFORMAÇÃO EM TEMPO DE GUERRA




José NR Ermitão

O Le Moniteur foi o jornal oficial do governo francês durante o período revolucionário e napoleónico; transmitia notícias controladas pelo governo, boletins militares, declarações oficiais e textos de propaganda política. Apresentava também artigos culturais e tinha grande divulgação em França e na Europa.

Como a informação do Moniteur era completamente controlada pelo poder napo-leónico, podemo-nos interrogar sobre que notícias teriam os franceses acerca da invasão de Portugal pelo exército comandado por Massena. A resposta é simples: poucas, atrasadas e mentirosas.

Antes da 3ª invasão, o jornal transcreve declarações ameaçadoras de Napoleão indicando claramente os seus intentos. Nelas afirma que “Antes de um ano, os Ingleses, por muitos esforços que façam, serão expulsos da Península, e a águia imperial flutuará sobre as fortalezas de Lisboa...” (27/9/1809); que Wellington, general incompetente, terá o mesmo destino de outros generais ingleses derrotados (9/10/1809); e que “Ape-nas eu transponha os Pirenéus, o leopardo (a Inglaterra) assustado fugirá em direcção ao Oceano para evitar a vergonha, a derrota e a morte” (4/12/1809).

Com a invasão em curso, as primeiras notícias aparecidas no Moniteur, a 29/11/ 1810 (já quinze dias depois dos franceses terem abandonado as Linhas de Torres), são sobre a batalha do Buçaco e comunicam que “o ataque no Buçaco não foi senão um falso ataque... a fim de cobrir o movimento de flanco que tinha sido decidido para tornear as montanhas...” Como é evidente, nada disto é verdadeiro: o ataque francês no Buçaco não foi falso e foi rechaçado pelos luso-ingleses; e o movimento de flanco dos franceses foi posterior à sua derrota. Ou seja, o jornal transforma em manobra de diversão vitoriosa uma derrota que custou aos franceses milhares de mortos e de feridos.

No dia seguinte (30/11) o jornal torna a noticiar sobre a invasão e nos seguintes termos: “Os Ingleses tinham a sua direita em Alhandra, sobre o Tejo, a sua esquerda, perto da embocadura do Lisandro; ocupavam uma posição com dez léguas de extensão sobre uma linha de colinas entrincheiradas; (Massena) fez o que pôde para levar os Ingleses à luta; mas foi-lhe impossível travar uma batalha com um inimigo extremamente prudente e que não queria combater... resguardado... por trás de trincheiras cheias de artilharia e inexpugnáveis.»

Desta vez o jornal foi fiel à verdade, pois refere a inexpugnabilidade das Linhas, a incapacidade de Massena em as tomar e a extrema prudência de Wellington. Mas as mentiras são imediatas quando comunica “Que os regimentos e os soldados franceses recebiam diariamente a sua provisão de pão e biscoito, que se tinham organizado inúmeros armazéns de cereais e que nada havia a temer quanto a subsistências...” – ou seja, exactamente o contrário do que estava a acontecer, com a fome a morder severamente o exército de Massena.

Em 26 de Fevereiro de 1811, uma semana antes da retirada definitiva dos franceses, ainda adiantava o Moniteur que “...o dia em que o exército inglês (derrotado) embarcar, será um dia de festa...” E assim o jornal iludia os franceses falando-lhe em vitórias futuras que, como sabemos, nunca aconteceram.

Mas o cúmulo da mentira aparece no dia seguinte, 27 de Fevereiro, quando comunica “que o marechal... (Massena) tinha julgado conveniente fazer um movimento; que tinha feito chegar a sua direita até ao mar e a sua esquerda até ao Zêzere e que o seu quartel-general estava em Pombal; que os diferentes corpos de tropas a soldo da Inglaterra tinham sido derrotadas; que colunas (francesas) tinham percorrido Portugal por todo o lado e conseguido a submissão... de várias regiões.”

De facto Massena fez um movimento, de recuo; mas nem os ingleses foram derrotados nem os franceses dominaram outras parcelas do território para além das que ocupavam militar e fugazmente, nem nunca o seu quartel-general esteve em Pombal, salvo por momentos e já no movimento de retirada definitiva.

Os franceses não eram informados, mas sim desinformados. Definitivamente, numa guerra, as grandes vítimas são sempre as pessoas e a verdade!



[Publicado no Badaladas em 2 JULHO 2010]

19/06/10






O "jantar em acampamento" foi um sucesso. Cerca de 300 pessoas saborearam uma ementa de estalo: salada de fruta com molho salgado; Carne de vaca estufada à Moda ( receita da corte de D. Maria I), acompanhada de batatas e couve cozidas, regadas com molho Gasconha; bolo de nozes com ovos moles (receita favorita de D. João VI); pudim de coco; tarte gelada.

De parabéns toda a organização.




Gente do povo, a cigana que lê a sina...







O Grupo de Gaiteiros da Freiria