16/06/10

3º SUPLEMENTO NO BADALADAS - 14 MAIO 2010

Primeira e última página do suplemento



Do papel ao terreno
a construção das Linhas de Torres Vedras
André Filipe Vítor Melícias

As Linhas de Torres Vedras, enquanto sistema defensivo, permitiram a Wellington travar o avanço de Massena sobre Lisboa em 1810. O facto de Portugal ter permanecido livre possibilitou que servisse de base a ofensivas do exército aliado de Ingleses, Portugueses e Espanhóis contra o território espanhol ocupado, permitindo ainda a Inglaterra a manutenção de um importante ponto de escala para a sua marinha mercante e de guerra, evitando a asfixia que Napoleão projectara anos antes ao decretar o Bloqueio Continental.
As Linhas como hoje as conhecemos não resultaram de um projecto estático, aplicado inflexivelmente ao terreno. Foram antes o resultado do trabalho intelectual e físico de muita gente, desde Wellington a Neves Costa, passando pelos 19 oficiais de engenharia ingleses, portugueses e alemães que dirigiram as obras até aos inúmeros anónimos - soldados e populares – que, uma a uma, edificaram as fortificações.
Ainda que tenham existido trabalhos anteriores de reconhecimento de terreno, dos quais o mais conhecido será o do oficial português José Maria das Neves Costa, é a Wellington que se atribui o acto fundador das Linhas: o Memorando de 20 de Outubro de 1809. Deixando temporariamente as operações que dirigia em território espanhol, Wellington dirigiu-se a Portugal para preparar a defesa para uma expectável nova invasão. Aqui realizou durante alguns dias um breve reconhecimento do terreno – certamente com base em material cartográfico já existente – tendo depois enviado ao engenheiro Richard Fletcher um memorando onde ordenava a criação de um sistema defensivo que garantisse o domínio de Lisboa, bem como um embarque seguro em caso de derrota do exército inglês. Para tal estabeleceu uma série de zonas que deveriam ser fortificadas de imediato, indicando ainda o número e o posicionamento dos efectivos militares, bem como eixos de comunicação que deveriam tomar em caso de se terem que deslocar. Além disso solicitou a Fletcher que continuasse o estudo do terreno para a implantação de mais fortificações.
Foi na sequência deste memorando que no dia 3 de Novembro tiveram início obras em S. Julião, na terceira linha, no dia seguinte em Sobral de Monte Agraço e no dia 8 em Torres Vedras. Provavelmente da mesma época são os fortes de Enxara dos Cavaleiros e do Alto da Ajuda.
Em Fevereiro de 1810 Wellington realizou um nova visita ao terreno, talvez motivado pelo ritmo lento a que as obras decorriam. Entre os dias 5 e 10 de Fevereiro Wellington esteve em plena região das Linhas, passando por Torres Vedras, Mafra e Vila Franca de Xira.
Como resultado deste reconhecimento assistiu-se à pormenorização e desenvolvimento do plano iniciado com o Memorando de 20 de Outubro. Nos dias seguintes as obras ganharam um novo ritmo, iniciando-se a fortificação das zonas de Mafra, Ericeira, Montachique, Bucelas, Vialonga, Alhandra, Arruda, Ponte do Rol e São Pedro da Cadeira. Com estas obras constituiu-se uma linha efectiva de defesa – a actual 2.ª Linha -, que, complementada por um conjunto de postos avançados (como Torres Vedras, por exemplo), possibilitava a cobertura das principais vias de acesso à capital.
No entanto, o tempo decorrido até à efectivação da invasão de Massena, permitiu que mais trabalhos fossem lançados. Assim, a partir de 17 de Julho de 1810, já sob o comando do engenheiro John T. Jones, foi iniciado mais um conjunto de obras com o objectivo de fortalecer ao máximo os flancos direito e esquerdo das posições avançadas. Até Outubro foram iniciadas as obras junto a Alhandra, bem como a fortificação do Vale do Calhandriz que visava impedir que Alhandra fosse contornada. Também a Serra de Serves foi reforçada, pela construção de mais dois fortes. No flanco esquerdo das posições avançadas tiveram início as obras de construção de três fortificações junto da Foz do Sizandro.
Para além das novas fortificações Jones também fez construir uma série de obras complementares – escarpamentos, terraplanagens, minagem de estradas e pontes, construção de vias militares, etc. Foi igualmente nesta altura que se estabeleceram e testaram os postos de comunicação ao longo do sistema defensivo e, para permitir uma melhor logística, dividiu-se o mesmo em seis ‘distritos’ com sede em Torres Vedras, Sobral, Alhandra, Bucelas, Montachique e Mafra.
Quando, a 8 de Outubro desse ano os dois exércitos começaram a chegar às Linhas, encontraram um sistema composto por duas linhas sucessivas de fortificações, cobrindo o terreno entre o Tejo e o Atlântico e uma terceira em torno de Oeiras, para proteger o embarque inglês em caso de derrota. No entanto, ainda não era o sistema que hoje conhecemos, pois, para acautelar algumas fragilidades foram logo iniciadas fortificações no centro da 1.ª linha (entre Catefica e Ribaldeira).
Após cerca de um mês frente às Linhas, Massena retirou para Santarém. No entanto, a incerteza de invasões futuras levou a que se tivesse continuado o trabalho de fortificação, nomeadamente no Vale do Sizandro, entre Torres Vedras e o oceano, onde a descida do nível do rio durante o tempo mais quente levou a que essa região fosse protegida com 18 novas fortificações. Estas construções, iniciadas em 1811 mas terminadas talvez só em 1812, marcam o final do período de construção das Linhas.
Entre os anos de 1812 e 1814, foram detectadas em Torres Vedras obras, já não de construção, mas de recuperação de alguns fortes e estradas militares, a cargo do Sargento Mor Lourenço Homem da Cunha d’Eça. Estas obras terão terminado em Julho de 1814, talvez na sequência do clima de pacificação decorrente da assinatura da Convenção de Paris e da capitulação de Napoleão.
Quando se perfazem dois séculos sobre a construção deste sistema defensivo que teve implicações tão sérias no desenrolar da guerra, aproveitar a oportunidade de conhecer melhor a sua História é igualmente conhecer em maior profundidade a identidade de nossa terra e de nossa região: o local onde se iniciou a expulsão dos exércitos franceses da Península Ibérica.

                                                                                     

                                                            * * *
Portugueses no exército de Massena

Rui Prudêncio

Com algum espanto as autoridades portuguesas tiveram conhecimento de estarem incorporados no exército do general Massena oficiais portugueses. Esses oficiais pertenciam à Legião Portuguesa formada em 1808 e que se juntou aos exércitos napoleónicos em França. Em 1810, aquando da preparação da 3.ª Invasão a Portugal, o ministério da guerra francês ordenou que alguns desses oficiais se juntassem ao estado-maior de Massena, a fim de lhe dar apoio no relacionamento com as populações locais e no conhecimento do território a invadir. Atribuiu-se-lhes assim mais a função de ligação com os portugueses civis do que a função de combater o exército anglo-luso. Tal circunstância, juntamente com o facto de muitos deles serem, afrancesados, ou seja, adeptos da ideias mais moderadas da Revolução Francesa, de verem na administração napoleónica um factor de modernidade política e social e possivelmente a expectativa de integrarem o governo de Portugal após a esperada expulsão dos ingleses talvez contribuísse para aceitarem essa incumbência.

Apesar de não pretenderem a extinção política de Portugal como estado independente, esses militares foram vistos como traidores à pátria e como tal acusados pelo governo português. Formou-se um tribunal (Junta da Inconfidência) que os julgou e sentenciou à revelia. A pena foi a condenação à morte. E os condenados foram:

D. Pedro José de Almeida (3.º marquês de Alorna).
D. Agostinho Domingos Rolim de Moura Barreto (1.º marquês de Loulé).
Manuel Inácio Martins Pamplona Corte Real (general de brigada).
D. Álvaro Xavier Botelho (6.º conde de S. Miguel).
José Manuel de Noronha.
José Pereira Pinto (capitão de infantaria 11).
João da Gama (capitão de infantaria 16)
João Freire Salazar (sargento mor da Legião Portuguesa)
Francisco Taveira Cardoso.
Alexandre Henriques Lima.
Henrique Lima.
José Soares de Albergaria.
João Reicend (capitão de infantaria 16).
Piton (sargento da Guarda Real da Policia).
João António Ramos Nobre (sargento mor do regimento de cavalaria 5).
Fortunato José Barreiros (sargento mor de artilharia).
João Pedro Salabert (fabricante de chapéus)
Estevão de Carvalho (alferes)
Manuel Joaquim Rodrigues da Fonseca
João Mascarenhas Neto
José Maria Carvalho
José Alexandrino da Costa Fortuna
Cândido José Xavier

Destes condenados à morte nenhum cumpriu a pena por não estarem presentes em julgamento, à excepção de João Mascarenhas Neto que morreu de garrote na praça do Cais de Sodré. O condenado José Pereira Pinto (capitão do regimento de infantaria 11) foi mais tarde absolvido (1816) e o marquês de Loulé e o conde de S. Miguel foram amnistiados em 1818 e 1820 respectivamente.

Dos acusados, D. Miguel de Assis Mascarenhas (3.º conde do Sabugal) foi absolvido mas como medida preventiva foi desterrado para a ilha de S. Miguel. Os restantes acusados, João Pedro Salabert (fabricante de chapéus); Estevão de Carvalho (alferes) e Manuel Joaquim Rodrigues da Fonseca não foram condenados porque os seus processos judiciais não foram instruídos por falta de legalidade.

Posteriormente foram acusados D. José de Portugal e Castro (5.º marquês de Valença); D. Tomás da Silva (marquês da Ponte de Lima) e José de Vasconcelos e Sá (coronel), Miguel Bernardo de Meneses, Joaquim José Pombeiro Salvador Sá Benevides (5.º visconde da Asseca), tendo sido todos absolvidos.

Depois da Revolução Liberal foram os demais amnistiados pelo governo (decreto de 9 de Fevereiro de 1821), com a justificação de terem sido julgados à revelia, logo impossibilitados de se defenderem com prescreve o direito natural. O decreto de amnistia geral abrangia todos os indivíduos perseguidos por opinião ou comportamento político bem como os que se ausentaram de Portugal pelo mesmo motivo desde 1807.


Bibliografia:

SORIANO, Luz - História da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal comprehendendo a história diplomática militar e política d'este reino desde 1777 até 1834.Lisboa : Imprensa Nacional, 1866-1890, segunda épocha, tomo III, p. 99 -115.
Acessível na Biblioteca Nacional Digital em http://purl.pt/12103/2/

        
                                                                                         
                                                                                                * * *


Tipologias de fortificação presentes nas Linhas de Torres Vedras

Forte - Obra militar de pequena ou média dimensão, isolada, dependente de uma praça principal ou funcionando de modo autónomo.

Reduto - Numa fortaleza, o reduto é uma obra geralmente quadrangular num pano de muralha de um baluarte. No contexto das Linhas de Torres Vedras aparece isolado. É, no entanto, confusa a aplicação deste conceito e do de forte, no contexto das Linhas de Torres Vedras. Por exemplo, o Forte de São Vicente é constituído por três diferente redutos interligados.

Bateria - Plataforma criada para a colocação de peças de artilharia.


Obras complementares

Entrincheiramentos – Tipo de fortificação de campanha, utilizado na época sobretudo para aproximação de tropas sitiantes aos locais sitiados. No contexto das Linhas, foram estabelecidos alguns entrincheiramentos, nomeadamente em Alhandra, como obra complementar aos fortes existentes junto ao rio Tejo.

Abatizes - Obstáculo construído a partir de troncos de árvores cravados firmemente no terreno e cuja extremidade visível é aguçada para obstar ao inimigo.

EscarpamentosEntrave artificial que consiste na criação um declive no terreno, ou aumento de um declive já existente, através da construção de um talude de terras.

Terraplanagens – Em vários locais das linhas procedeu-se à terraplanagem de pequenas elevações, para que não interferisse no ângulo de fogo de artilharia.

Minagem de estradas e pontes – Enquanto os exércitos contendentes se aproximavam, John T. Jones, o engenheiro inglês responsável pelas obras, recebe ordens de Wellington, via Richard Fletcher, para que se procedesse à minagem das vias de comunicação, para que pudessem ser destruídas à aproximação do inimigo.

Abate de árvores – Por toda a frente de combate, foram abatidas as árvores encontradas dentro do raio de tiro, para que não obstasse à artilharia e não permitisse que o inimigo encontrasse nelas abrigo para o fogo. Estas árvores serviam para construir os abatizes.

Estradas militares – Foi construída uma rede de estradas que interligava os fortes. O facto das estradas serem construídas nas vertentes protegidas dos montes, permitia que os fortes fossem abastecidos de víveres e soldados com mais facilidade.


* * *
OPUS 2



Sobem e descem a encosta num vai vem
bois e jumentos por pederneira e matagal
pé ante pé às cegas sem descanso,
dia e noite entre nuvem bruta e o boreal
que os carregos urgem e o rumo é ficar
pronto para batalha rija e sem bonança.



Ao cabo de meses eis o forte de S. Vicente
em pedra construído por tenaz labor
de quem cavalgou a escarpa até ao morro,
homens e animais que em degredo
trabalhavam mais por cada jeira
que durante um ano de sementeira.



Abrindo as asas eis assim um pássaro
de trinta e nove bocas de fogo para
barrar a estrada que liga Coimbra a Lisboa,
cantar bem alto aqui é terra antiga
lugar de um nome só fundado
em osso vivo e bandeira alcantilada.



Mais que pássaro cantador se ouvem
passos dia-a-dia agora de quem
marinhando a encosta e mais além
vê seu próprio rosto nesse rosto
moldado há anos, imagem
do tempo golpeando sem limite.


Luís Filipe Rodrigues in: Escrito à Mão, Torres Vedras, 2010




BADALADAS - Texto 49 - 7 MAIO 2010


BARTOLOZZI, Francesco, 1728-1815

Lord Wellington, terror hostium Lusitaniae... [Visual gráfico / Pelegrini pinxit ; F. Bartolozzi sculp. de idade 83 annos em Lx.ª, em 1810. - [Lisboa? : s.n., 1810]. - 1 gravura : água-forte e ponteado, p&b http://purl.pt/6163 - Biblioteca Nacional Digital






CENAS DA 3ª INVASÃO

UMA CARTA DE WEELLINGTON A MASSENA

jOSÉ NR ERMITÃO

No início da 3ª invasão francesa, dias antes da capitulação da praça de Almeida (27 de Agosto de 1810), um grupo de militares franceses, composto pelo coronel Pavetti, 2 oficiais e uma dúzia de soldados, entraram em Portugal em missão de reconhe-cimento; ao regressarem a Espanha, foram surpreendidos por uma noite escura e tempestuosa e perderam o caminho. Encontraram um pastor português que se propôs guiá-los; mas es-te, manhoso e incapaz de resistir à animosidade contra os invasores, em lugar de os conduzir ao destino, levou-os à povoação de Nave de Haver (situada a sul de Almeida) e entregou-os à Ordenança. Os franceses resistiram, houve mortos, mas o coronel Pavetti foi aprisionado pelo capitão da ordenança, que o entregou a Wellington.


Massena, comandante do exército invasor, perante as notícias do facto, considera-o praticado não por militares mas por assaltantes e assassinos; manda cercar Nave de Haver, ordena o fuzilamento dos soldados da ordenança e o incêndio da casa do respectivo capitão.

Wellington, ao tomar conhecimento da vingança brutal dos franceses, absoluta-mente contrária às leis da guerra, fica tão constrangido que decide escrever uma carta a Massena – uma carta em que explica a estrutura do exército português e solicita tratamento digno para os soldados da Ordenança, não deixando de antever o pior para os soldados franceses, caso Massena mantenha a ordem de fuzilamento dos soldados desta estrutura militar.

A carta é data de 9 de Setembro de 1810; transcrevo-a parcialmente:

“Senhor Marechal (...)


É preciso que saiba que todos os portugueses são obrigados, pelas antigas leis do país, a servir no Exército Regular ou na Milícia ou na Ordenança, e que todas estas tropas estão sujeitas às leis militares e sob ordens de oficiais generais portugueses*. A prova é que, apesar do que a Ordenança tem sofrido... por causa das ordens que o Sr. deu e da violação das leis da guerra sobre os seus soldados, eles obedecem às ordens que lhes foram dadas; e têm poupado a vida e tratado bem todos os prisioneiros que fazem. O coronel Pavetti, por quem o Sr. tanto se interessa, foi feito prisioneiro pela Ordenança, foi por ela bem tratado, tal como a sua escolta.


Como a Ordenança faz parte do exército português... peço-lhe que dê ordens para que os oficiais e soldados da Ordenança, quando feitos prisioneiros, possam usufruir, como os outros soldados do exército português, das leis da guerra.


Desde que assumi o comando das tropas neste país, tenho feito todos os possí-veis... para conduzir a guerra de um modo leal e para respeitar as leis da guerra... Mas se o exército francês continuar a fuzilar os soldados da Ordenança, certamente que não pode esperar que os soldados deste corpo e os outros soldados do exército português não façam o mesmo aos prisioneiros do exército francês. Não estará em meu poder protegê-los; e as ordens que o Senhor deu serão a causa das desgraças que os soldados franceses, ao caírem nas mãos das tropas portuguesas, vão sofrer.”

Nas suas “Memórias”, Massena comenta a carta e atitude de Wellington de forma absolutamente negativa: diz que a humanidade dos ingleses só se comovia quando estavam em causa os seus interesses, que Wellington estava a legitimar actos de assassínio e prisão indevida ao transformar camponeses/salteadores em militares e que, agindo assim, devia assumir a responsabilidade moral por transformar «uma guerra política em guerra de extermínio».

Em conformidade com estes raciocínios, Massena respondeu a Wellington, numa carta datada de 14 de Setembro e cujo conteúdo se pode deduzir das suas Memórias. No próximo artigo darei conta desta e da segunda carta que Wellington lhe escreveu.

___________

* Após a Restauração, em 1640, a defesa do reino assenta em 3 tipos de tropas com funções dife-rentes e que integram todos os homens válidos dos 15 aos 60 anos: o exército de 1ª linha, ou regular, defensivo e ofensivo, de carácter nacional; o exército auxiliar, chamado Milícias no reinado de D. Maria I, defensivo e de carácter regional; e as Ordenanças, chefiadas pelos capitães-mor, também defensivas mas de carácter mais local.

14/06/10

UM ACAMPAMENTO PARA REVIVER A HISTÓRIA

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Mais uma actividade integrada no plano de Comemorações dos 200 anos das Linhas e Torres Vedras.
As inscrições estão abertas.

28/05/10

UM TEXTO ESQUECIDO SOBRE UM MÓVEL HISTÓRICO

Rafael Salinas Calado foi o primeiro director do Museu Municipal de Torres Vedras, por ele instalado numa sala - que já não existe - anexa da Igreja de S. Pedro.
Do seu livro MEMÓRIAS DUM FERRO-VELHO ( Portugália Editora, Lisboa, s/d, mas com a data de 1947 no preâmbulo do autor) transcrevemos todo o artigo referente à história da aquisição do histórico bufete onde, em 22 de Agosto de 1808, foi assinado o armistício que pôs fim aos confrontos militares da 1ª invasão francesa:

«Se um objecto ou um móvel estão ligados à tradição comprovada de um facto histórico, isto é, a um acontecimento da história nacional, e se esse acontecimento foi uma batalha travada e ganha pela independência da Pátria, esse objecto ou esse móvel são peças históricas de primeira grandeza.

Está nesse caso o Bufete de Maceira, cuja existência muita gente desconhece, não obstante
ter sido trazido a Lisboa nas comemorações centenárias de 1940 e exposto, bem em
destaque, num dos magníficos pavilhões de Belém.
Lá o fui encontrar, e embevecido contemplei esse velho amigo, que, por minha exclusiva
Intervenção, entrou no p¬trimónio nacional, quando o adquiri, para o então formoso Museu Municipal de Torres Vedras, instalado numa das salas mais graciosas do estilo português do século XVIII: a da Irmandade dos Clérigos Pobres anexa à Matriz de São Pedro.

Esta sala, quadrada, era do tipo perfeito da mais pura elegância setecentista; forrada dum alto silhar de belos azulejos, tinha tecto de maceira todo debruado de florões dourados, e como cúpula, os painéis dos quatro evangelistas, da autoria de Bernardo António de Oliveira Goes, filho do ericeirense António de Goes, pintor que trabalhou na opulência joanina de Mafra.
Ali, num dia feliz para a história da arte em Torres Vedras, instalei amorosamente o seu Museu Municipal em 1928. Esta sala não existe já, sacrificada aos arranjos urbanistas da importantíssima vila estremenha, ou ao restauro da velha Matriz de São Pedro, coeva da fundação de Portugal.

O Museu, hoje dirigido pelo meu sucessor Dr. Aurélio Belo, notável arqueólogo e numismata, está certamente em melhores mãos que as minhas, mas pobremente instalado numas divisões escassas da velha e outrora rica Misericórdia local.
Lá se encontra o bufete histórico que me dita estas impressões consagradoras e saudosas.
Quem supuser que os sentimentos de afectividade se podem somente dedicar a seres vivos, engana-se redondamente; eu amo e venero o precioso móvel histórico que contemplei tantas e tantas vezes, sozinho, fechado no Museu, e que eu vi sempre aureolado da sua glória incontroversa.

Depois, cabe-me uma honra que não declino: a de ter conseguido que o seu proprietário de então, José da Cunha Santos Bernardes, casado com uma ilustre senhora, descendente dos Morgados da Maceira e Moita Longa, cedesse, a rogos meus, a sua propriedade ao Museu Municipal a troco de outro bufete «exactamente igual».

Com que alvoroço, medindo bem o alcance transcendente da troca e autorizado, previamente, pela digna Câmara, eu gastei dos fundos do Museu o conto e tal, orçamentado para mandar fazer um bufete exacta e rigorosamente igual ao bufete histórico, no feitio, nas dimensões e até na madeira.

Assim foi construída a mesa de pés e travessas torneados em contas, com a sua travessa suplementar ao meio, sobre dois pés rasteiros, e, como o outro, uni pouco sobre o quadrado, com as gavetas e tremidos também iguais.

Deve a História de Portugal aos dignos proprietários de então o melhor reconhecimento pelos sentimentos de desinteresse material de que deram a prova realíssima, em prol da sua orgulhosa terra natal de Torres Vedras.
O valor do elegantíssimo móvel é extraordinário.
É tempo de dizer em que consiste a historicidade incontroversa e rica do seu passado.

Em 21 de Agosto de 1908 engalanou-se a pequena povoação do Vimeiro, ao norte de Torres Vedras, no concelho da Lourinhã, limítrofe e vizinha pertissima da povoação de Maceira, do concelho torreense.
O rei D. Manuel II, generais, ministros e oficiais de alta patente, deslocaram-se ao histórico local a inaugurar o obelisco comemorativo da Batalha do Vimeiro, travada e ganha exactamente cem anos antes.
Do solar dos Morgados da Maceira foi para o local um móvel pedido para esse fim: o Bufete Histórico da Maceira.




Sobre ele foi assinado o auto de inauguração do obelisco, e um nobre inglês alto e decorativo na sua farda imponente, vindo expressamente de Inglaterra, assinou esse auto também.
Esse oficial, neto do Marquês de Torres Vedras, Sir Arthur Wellesley, usava o mesmo título do seu famoso antepassado, o glorioso Duque de Wellington.
Porque foi pedido e deslocado para ali esse bufete?
Porque exactamente cem anos atrás, o General Kellerman, delegado de Jean Andoche Junot, o primeiro invasor francês de Portugal a seguir ao Tratado de Fontainebleau, de 27 de Outubro de 1807, assinou sobre essa mesa gloriosa o «arrangement avec armistice» de que fala Foy, ditado por Sir Arthur Wellesley, como representante das forças vitoriosas anglo-lusas.
Tem, pois, um transcendente valor histórico o precioso móvel a que os jornais de 1908 se referiram com largueza.
Deve ter orgulho nele Portugal, Torres Vedras e, especialmente, a nossa nobre e digna aliada Inglaterra.
Quando, uma vez, acompanhado pelo erudito General Teixeira Botelho, o grande político inglês Lloyd George visitou as linhas gloriosas de Torres Vedras, acedeu à minha solicitação para visitar o Museu Municipal.
Eu convoquei à pressa alguns antigos combatentes da grande guerra de 1914-18, e com eles aguardei a visita do antigo primeiro-ministro britânico.
Este mostrou-se muito sensível a essa atenção, tendo cumprimentado efusivamente os antigos combatentes, abrindo um largo sorriso, que os seus olhos dum azul carregado mais avivavam ainda, e, quando lhe mostrei o bufete e pedi ao General Teixeira Botelho que lhe explicasse a glória que lhe competia pela sua história, Lloyd George, como que deslumbrado, abraçou-o.
Estou a ver a sua bela cabeça de neve, quase encostada ao tampo do móvel precioso.
Ele é, na parte histórica, a peça mais rica do pequeno Museu Municipal de Torres Vedras, onde procurei coleccionar também armas, balas e documentos referentes às Guerras Peninsulares.
Em Inglaterra dão, justificadamente, um grande apreço a tudo quanto diz respeito ao seu passado histórico, como pode ler-se no ofício que adiante transcrevemos, referente também às Guerras Peninsulares.
Em 1938, ofereci ao Royal Military College, de Sandhurst, um saquinho de damasco vermelho, contendo doze balas encontradas nos campos de batalha de Vimeiro e uma fotografia do Bufete Histórico. Levou-me a fazer a oferta àquele instituto britânico o facto de ter sido um professor dele, Charles Walker Robison, que escreveu um trabalho sintético, mas magnífico, sobre a Guerra da Península, trabalho que foi traduzido para português pelo Major de Artilharia Matias Nunes.
Em 2 de Maio do mesmo ano, recebi o ofício seguinte que me foi enviado gentilissimamente pela Embaixada Britânica em Portugal, que se tinha dignado fazer chegar ao Royai College a minha oferta:

2nd May, 1938.

«Sir
It was with the greatest pleasure that I received your most generous gift of twelve bullets which were found on the battlefield of Vimeiro. This gift has been placed in the Museum of the College where it will always be of the greatest interest to ali Officers, Cadets who serve here. I would like on behalf of the Officers, Cadets and myself to offer you our most sincere thanks for your historical gift.
It is yet another instance of the friendship that has always existed between your distinguished country and ours.
May I finish with offering most respectfully my best wishes for the continued prosperity of Portugal. I have the honour to be, Sir.. .

a) Eastwood, Major General
Command Royal Military College»

Pelos termos de efusivo agradecimento deste penhorante ofício, se infere bem o apreço que em Inglaterra dispensaram à modesta oferta.
Outra peça consagradora, mas esta ao gosto popular, quo a família Moura Borges guardava avaramente, deu entrada também no Museu, por solicitação minha, oferecida nobremente pela referida família: a tabuleta de A dos Cunhados.
Descrevi-a na encantadora revista literária Feira da Ladra a pág. 114 do segundo volume. É uma grossa tábua de pinho, de o,m03 de espessura, o,'"6o de alto e o,m30 de largo, pintada de branco numa das faces, tendo uma faixa larga de negro enquadrando os seguintes versos ingénuos e frementes de patriotismo:

NESTE LVGAR DOS CV-
CNADOS COM GRANDE
PRAZER E GOSTO FOI O PRÍN
CIPE ACLAMADO EM
19 D AGOSTO
1808 ERA
O ANO QVE CORIA
SACODIOCE O JVGO
FRANCES RESTAV
ROVSE A MONAR
QVIA

A tabuleta apresenta os dois orifícios com que fora pregada na praça onde se fazem as transacções do peixe, da praia do Porto Novo, no lugar de «A dos Cunhados».
Depois, o primeiro proprietário da tabuleta, o Capitão Luís Paulo Cosme, que providencialmente a recolheu, utilizava-a, cedendo-a ao sapateiro que lhe ia a casa consertar o calçado para a numerosa família, e a madeira acusa bem o uso inglório que dela faziam.
Lá figurava sobre o Bufete Histórico, com as suas maiúsculas a apagarem-se, delidas pelo tempo, e não ficava mal junto da sua glória, como regozijada expressão popular de orgulho e de alegria pela derrota das opressivas águias de Napoleão e mormente pela vitória de Portugal.»

16/05/10

NOVOS LIVROS SOBRE A GUERRA PENINSULAR



MEMÓRIA DAS 'INVASÕES FRANCESAS' EM PORTUGAL (1807-1811). Teresa Caillaux de Almeida, Lisboa, Março de 2010, Ésquilo edições e multimédia. 543 p.
Versão portuguesa da tese de doutoramento da autora, apresentada na universidade de Nanterre, em Fev de 2008,  com o título La Mémoire des 'Invasions Françaises' au Portugal(1807-1811) au croisement  des sources orales, écrites et iconographiques. A autora é professora da Universidade de Aix-en-Provence. Prefácio de António Pedro Vicente, que foi um dos membros do júri naquele acto académico.
Resumo do índice:
Cap.1-Os factos históricos
Cap.2-A escrita da História
Cap.3-A memória em imagens
Cap.4-A memória oral
Cap.5-«Casa das Gaeiras»
Cap.6-Comemorações
Síntese conclusiva

Na Introdução a autora refere que o cap. 4 é o cerne deste trabalho:
« A memória oral, tema do capítulo quarto, é um ponto crucial deste trabalho porque é a parte viva desta investigação e o ponto de ancoragem de todos os outros domínios.»
Mais adiante explica o teor do cap. 5: «Refere-se à Casa das Gaeiras, lugar de concentração memorial, incomparável em Portugal, no que dis respeito ao período napoleónico, quer pela sua diversidade quer pela quantidade de objectos, manuscritos, armas, planos de campanha e de livros. Além disso, na Casa das Gaeiras, memória e objectos são conservados amorosamente dentro do círculo familiar, o dos Gomes Pinheiro/Pinto Basto Lupi, residindo, desde há dois séculos, numa mesma casa da região Oeste do país, não distante dos campos de duas das principais batalhas desta campanha.»
Lembramos que a Casa das Gaieiras se situa no concelho de Óbidos, no qual se deu a Batalha da Roliça em 17 de Agosto de 1808.

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AS LINHAS DE TORRES VEDRAS / XII Encontro TURRES VETERAS: AS LINHAS DE TORRES VEDRAS; coord. Carlos Guardado da Silva - Lisboa: Colibri, Universidade de Lisboa;Torres Vedras:Município, 2010. - 212 p. : il.  ;27 cm. - (Turres Veteras;12)


SUMÁRIO


-Enfrentar as Linhas. Testemunhos franceses sobre uma Barreira intransponível
António Ventura

-(Re)Construções da Memória: as Linhas de Torres em Narrativas Britânicas
Gabriela Gândara Terenas

-The View from Torres Vedras: Southey’s Construction of Portugal between Historical Presence and Textual Invisibility
Diego Saglia

A visão de Torres Vedras: a formação de Portugal, segundo Southey entre presença histórica e invisibilidade textual
Diego Saglia

-L’armée du Portugal ou o desconcerto de um exército: preparação e concretização de uma expedição a Portugal
Cristina Clímaco

-População e Família na época das Invasões Francesas – o caso da freguesia de StªMaria do Castelo de Torres Vedras (1806-1812)
Venerando Aspra de Matos

-PRODUTOS E PREÇOS EM TORRES VEDRAS
NA ÉPOCA DA GUERRA PENINSULAR
Henrique Vieira

-Wellington’s Peninsular Strategy, Portugal, and the Lines of Torres Vedras
Donald D. Howard

-A Estratégia Peninsular de Wellington, Portugal e as Linhas de Torres Vedras
Donald D. Horward

-Un militar de genio: Sir Robert Wilson en Portugal a través de su correspondencia (1808-1809)
Alícia Laspra

-La estratégia napoleónica y las ciudades sitiadas en la Guerra Peninsular
Antonio Moliner Prada

-Irlandeses em armas em espaço peninsular: a obra esquecida de Charles Lever
Maria de Deus Duarte

- As Linhas em Torres Vedras
Francisco Sousa Lobo

-As Linhas de Torres Vedras: impactos regionais: o caso de Leiria
António Pedro Vicente

09/05/10

ACABADINHO DE ACONTECER...

As fotos não são nada jeitosas... Mas a vontade de registar sobrepôs-se à pouca qualidade do fotógrafo e do equipamento disponível.

Aqui ficam algumas imagens do espectáculo de marionetas apresentado pelo Espeleo Clube e o seu grupo de fantoches -Algarucho. A apresentação foi o final de uma oficina de construção e manipulação de "robertos" organizada pelos Museu.
O espectáculo integrou-se nas comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.






Junot



Homem do povo

Alguns dos artistas bonecreiros



ONTEM, NO FORTE DE S. VICENTE

Reconstituição de cenas da guerra peninsular, no Forte de S. Vicente (Torres Vedras), em 9 de Maio de 2010



Disparando por trás do parapeito, acima do fosso. 
Ao fundo, a capela de S. Vicente.



Os soldados preparam-se para o combate,  depois de uma oração com o frade



Preparando as espingardas



Disparando para fora do parapeito




Treinando o tiro, à voz de "Fogo!"


Canhão preparado para o combate



Mulheres do povo, resistentes da guerrilha popular.  Elas apoiavam o exército nos abastecimentos e quando era preciso também lutavam com o que tinham à mão: chuços, foices roçadoras, varapaus...





Uma benção antes do combate

05/05/10

01/05/10

ARRUDA DOS VINHOS:GASTRONOMIA E LINHAS DE TORRES VEDRAS

A criatividade humana não tem limites, é bem verdade.
Vejam-se as ementas a concurso nesta meritória iniciativa da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos. É o delírio da criatividade.
Com esta gastronomia guerreira só podemos desejar "bom proveito e poucos efeitos bélicos colaterais...".
Para abrir o apetite:

Restaurante Nazareth


Peixe - Bacalhau à terra queimada
Carne - Lombo de porco à Napoleão
Sobremesa - Manjar dos fortes


Restaurante O Barril

Peixe - Paliçada de bacalhau
Carne - Tornedó de porco com frutos secos à moda do forte
Sobremesa - Doce da casa à barril de pólvora


Restaurante O Morgado

Peixe - Ensopado de bacalhau à forte
Carne - Pernil no forno com molho Wellington
Sobremesa - Montanha de suspiro e framboesas

* Nota: A ementa só será servida nos jantares, excepto aos Sábados e Domingos. cada prato demora aproximadamente 40 minutos na sua confecção. Entrada: caldo de caça.


Restaurante Valverde

Peixe - Bacalhau à retirada Francesa (lascado sobre uma cama de batata doce e grelos, envolvido num suave souflé de pão caseiro)
Carne - Porco à Inglesa (a peça mais nobre do porco “presa no lombo ibérico” num espeto de louro, assada em forno de lenha)
Sobremesa - Folhado de laranja com frutos do bosque

Restaurante Porta Um
Peixe - Bacalhau no forno sobre “canhoneiras” de grão, massa e enchidos
Carne - Lombinho de porco em paiol de couve salteada e cogumelos
Sobremesa - Través de chocolate e laranja

27/04/10




TURRES VETERAS XIII

A VIDA QUOTIDIANA NAS LINHAS DE TORRES VEDRAS
Dias 14 e 15 de Maio
Auditório dos Paços do Concelho
TORRES VEDRAS

É a 13ª edição do TURRES VETERAS, encontro anual sobre História Local.
A entrada é livre.

23/04/10

RESTAURO DOS FORTES


Começaram as obras no forte da Carvalha, concelho de Arruda dos Vinhos.

Notícia lida no site da Câmara Municipal:


No passado dia 19 de Abril tiveram inicio as obras de recuperação do Forte da Carvalha, Obra Militar n.º 10, a cargo do Município de Arruda dos Vinhos, que contratualizou com a empresa Arqueohoje – Conservação e Restauro do Património Monumental, Lda., com o total apoio e participação do Exército Português, através da Direcção de Infraestruturas do Exército, com a disponibilização de 8 militares e máquinas para o desenvolvimento dos trabalhos.


As obras de recuperação têm a autorização do IGESPAR, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, seguindo todas as normas previstas na Lei do Património Cultural.


O Forte do Cego será igualmente intervencionado, no âmbito do projecto financiado pelo Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu, e serão ambos colocados à fruição pública no dia 5 de Junho de 2010.

Pouco a pouco os Fortes das Linhas de Torres Vedras vão sendo repurados...

VISITA AO FORTE DA FORCA

Não choveu, o tempo aguentou-se. Vinte passeantes meteram-se ao caminho e lá foram até ao Forte. O Carlos Guardado foi o nosso guia. Sempre muito bem documentado, é um livro aberto. "E com pernas..." - como ele diria, na brincadeira. É o homem da parka vermelha, para que conste.
O Joaquim Cosme não se esqueceu da máquina digital e registou.


14/04/10

E SE CHOVER?

No dia 18 de Abril, caso esteja a chover, a ida ao Forte da Forca será substituída por uma visita guiada à Exposição sobre as Linhas de Torres Vedras, no Museu Municipal, com início às 15.30 h.

Para saber mais dados técnicos sobre o Forte da Forca, consulte http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com/2010/04/dados-tecnicos-sobre-o-forte-da-forca.html.

09/04/10

FORTE DA FORCA - TORRES VEDRAS


É a estrutura militar das LINHAS DE TORRES VEDRAS mais próxima do centro da cidade de Torres Vedras e que os torrienses praticamente não conhecem.
Por isso a ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO PATRIMÓNIO DE TORRES VEDRAS organizou uma


VISITA GUIADA AO FORTE DA FORCA

18 de ABRIL

 
Está a pouco mais de 15 minutos a pé. Venha conhecê-lo connosco.
Continuando a evocação dos acontecimentos históricos relacionados com a Guerra Peninsular, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras propõe hoje aos nossos leitores a participação numa VISITA GUIADA ao Forte da Forca, situado à saída de Torres Vedras, no morro fronteiro ao Choupal e ao Forte de S. Vicente.

Não é precisa inscrição prévia. Trata-se de um passeio pedestre aberto a toda a população. Basta aparecer. Venha conhecer o nosso Património e desfrutar a Primavera.

PROGRAMA:

• 15.00 – Concentração à porta do Museu Municipal Leonel Trindade, junto ao Jardim da Graça.

• 15.30 – Partida e passagem por alguns locais evocativos da Guerra Peninsular.

• 16.15 – Chegada ao Forte da Forca. Observação e interpretação do lugar.

• 16.30 – Regresso

Este passeio está integrado no programa nacional de actividades do DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS, coordenado pelo IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico e é um complemento de outras iniciativas programadas no âmbito da Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras.


01/04/10

BADALADAS - Texto 48 - 2 ABRIL 2010

NAPOLEÃO FAZ ESTREMECER A EUROPA




JOAQUIM MOEDAS DUARTE


Raul Brandão, no seu formidável livro EL-REI JUNOT, pinta em traço grosso e impressivo o drama da História europeia do início do século XIX, quando Napoleão e a nova classe político-militar que governava a França espalham o seu exército de 300 000 homens pelas nações que eles combatem e submetem e onde eles impõem e dispõem. Casas reais, mal afeitas aos novos tempos e às ideias revolucionárias – Liberdade, Igualdade, Fraternidade! – encolhem-se e resignam-se. Ou combatem com armas de outros tempos, tão ineficazes que chegam a ser ridículas.

A família real portuguesa escapou porque fugiu para o Brasil. Essa ideia não a tiveram os seus familiares espanhóis e Napoleão fez gato-sapato deles. Prendeu-os e pôs em seu lugar o seu irmão José, um novo-rico dos novos tempos.

Raul Brandão não tem piedade para com esta realeza timorata, com suas fraquezas e pecadilhos, enredada em casamentos de conveniência e adultérios mais ou menos secretos. Pois não diziam as más-línguas que a rainha Maria Luisa de Espanha se entendia demasiado com o ministro Manuel Godoy, amigo do rei Carlos, que o estimava mais do que ele merecia?

Raul Brandão usa fontes históricas fidedignas e os dados que expõe não são inventados. Mas não está interessado em escrever um tratado de História, com o rigor do aparato usual nesse tipo de livros, com notas, bibliografia exaustiva, citações, etc. Mais do que escrever História, ele interpreta a História. Talvez seja esse o segredo do seu fascínio.

Vamos ler:

«À primeira vista o drama de Espanha não passa de uma tragé¬dia burguesa: marido ultrajado, mulher, filho, amante — e rol da roupa suja. Como nas peças, basta pôr de pé as personagens para compreender o enredo. É uma mixórdia de assombro e de gro¬tesco: a ambição, a cólera, o sonho, as paixões, que avultam certas figuras, rebaixam-nos e apelintram-nos a eles. A gente sofre e passa. Só um consegue deter-nos; só ele conserva, amarfanhado e ton¬to, certa grandeza no ridículo. Eis as personagens:

É o pobre Carlos IV, feito manequim nas mãos da mulher, que o ludibria de acordo com o favorito; é Carlos IV, cego até comunicar ternura, e, apesar de tudo, inabalável na sua profunda confiança. Arrastam-no, mentem-lhe, perde tudo, mulher, trono, oiro, e já entre as mãos de Napoleão, sem coroa, sem reino, sem prestígio, ainda pergunta numa aflição: — O Manuel? Onde está o Manuel?

É a rainha, a impetuosa e lasciva Maria Luísa. Tem 50 anos. Até aí o tropel da vida, o sangue, a miragem, não a deixaram ver a rea¬lidade em todos os seus aspectos. Primeiro rebate da velhice, pri¬meiro sabor do sepulcro. Tantas horas perdidas... Pouco te resta já - e já rugas, a pele ressequida, os olhos apagados. É quando a mulher se apega com desespero — restos de colo, restos de cabelo - ao pó de um sonho extinto. Momento em que a vida e a morte se tocam, em que a verdade e a ilusão se misturam. Submete-se. Godoy trata-a como uma criada de servir.

É Fernando, envelhecido na crápula, obtuso e concentrado, odiando o próprio pai, e conseguindo abrir a estúpida boca com sono, perante o formidável drama que se desencadeia na Europa. É enfim o valido, que, por ser esbelto e tocar guitarra como um bandido de Astorga, conquistara um trono. Godoy, que iniciara o seu reinado com estrépito, engorda e parece um cocheiro sebáceo. Há um quadro no Prado que aclara todo o drama confuso: as tintas conservaram e exprimem os sentimentos, os rancores, a am¬bição, o ódio, as vergonhas e o indeciso e o falso dos caracteres: es¬tá ali vivo o que há muito se sumiu para sempre na eternidade. Basta vê-lo ao rei, pachorrento e gordo, de olhos à flor do rosto, es¬tupidez e inocência, satisfação por que o retratem com a família toda — e o Manuel ao lado: compreende-se logo que o represen¬tante da sombria raça de crueldade e loucura, nasceu para ser o ludíbrio da mulher e do aventureiro vulgar. É “o boi”, como lhe cha¬ma o embaixador francês em Madrid. Chega a desgraça e ele não entende nem a catástrofe nem o escárnio; num espanto, sem um ímpeto, obedece às ordens deste ou daquele, da rainha, de Godoy, do filho, dos generalões sem escrúpulos, de Napoleão, até ao fim enganado e iludido, obcecado por uma amizade cujas raízes se ti¬nham apoderado de todo o seu ser. Vale a pena encará-lo por mo¬mentos no cenário a negro que é a Espanha, rodeado de fidalgos, de intrigas, de tropas sobre tropas — multidões sôfregas que des¬cem os Pirenéus para lhe arrancarem o trono, de ódios, de gritos de vergonhas: num mar bravio depois: mortes, rapinas, almas sanguinárias à solta — e ele simples e terno, espantadiço e inalte¬rável: — Onde está o Manuel?» (RAUL BRANDÃO, El-Rei Junot, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 2007)

23/03/10

A CAVALO PELAS LINHAS



Venerando de Matos, incansável investigador da nossa História Local e sempre atento ao que por cá se vai passando, deixou estes apontamentos no seu VEDROGRAFIAS. Pela sua actualidade e importância aqui o transcrevemos com a devida vénia e agradecimento.
De notar que inclui a reportagem publicada hoje no jornal PÚBLICO.
Chamamos ainda a atenção para o endereço da organização responsável por este Raid. Vale a pena  visitar: http://www.linesoftorresvedras.com/


Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.



O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:



"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão


Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo.
Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)


Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.

É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.

São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.

As invasões francesas

Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.

Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.

Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.

Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...


A história a cavalo

Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."

Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."

O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.

Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.

É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"


Uma guerra moderna

"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."

A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."

Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.

É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.

Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."

Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".

15/03/10

BADALADAS - Texto 47 - 12 MARÇO 2010

A OPOSIÇÃO AO PLANO DE DEFESA DE WELLINGTON


Rui Prudêncio


Apesar da vitória na batalha de Talavera (27-28 de Julho de 1809) Wellington entendeu que o avanço do exército anglo-luso até Madrid era arriscado devido às discrepâncias com o exército espanhol quanto à adopção de uma estratégia comum e à ameaçadora proximidade do exército francês da fronteira portuguesa. Além disso, a diplomacia francesa obtinha mais uma relevante vantagem para Napoleão com repercussões na Península Ibérica. O tratado de paz entre o império francês e o império austríaco (14 de Outubro de 1809) possibilitava a Napoleão a formação de um grande exército de conquista de Portugal. Com a situação militar controlada em Espanha a terceira invasão seria apenas uma questão de tempo.

Neste contexto político-militar Wellington define um plano de defesa de Portugal. O plano visava preservar o exército, evitando os confrontos directos com o inimigo, de resultados imprevisíveis. Objectivando também a defesa de Lisboa, o plano prevê a invasão das Beiras e Estremadura, retirando destas os meios de subsistência ao invasor como parte da táctica da terra queimada e constrói as linhas de defesa de Torres Vedras. As linhas de Torres Vedras articulavam-se com o primeiro objectivo ao servirem de protecção a uma eventual retirada do exército inglês por mar.

O plano de defesa de Portugal foi apresentado em Fevereiro de 1810 aos governadores do reino. Estes concordaram com a sua execução, aparentemente sem qualquer reserva. Contudo, algum tempo depois, verificou-se uma alteração no elenco governativo, com a nomeação do principal Sousa para o governo. Na opinião do principal Sousa, a defesa de Portugal devia fazer-se em território espanhol, por meio de batalha forte e dura ao invasor para impedir a sua entrada em solo português. Estava persuadido que permitir ao exército francês percorrer o país até às linhas de Torres Vedras era condenar a economia agrária e as populações. Obrigar as populações a abandonar casas e propriedades seria não só desmoralizante como lesivo para as finanças do reino, e consequentemente para o exército pela falta de dinheiro e de homens. Pensamento incompatível com o plano de defesa de Wellington que previa a evacuação da população em grande escala e a destruição de culturas e colheitas para retirar abastecimentos ao exército napoleónico.

Outro ponto discordante dizia respeito aos objectivos militares. Enquanto Wellington tinha por objectivo primordial a defesa de Lisboa e a retirada em segurança do exército inglês em caso de retirada, o principal Sousa pretendia a defesa da integralidade do território português através de acções militares em Espanha. Criticava as premissas militares de Wellington interrogando-se retoricamente: «Há de a fuga ser o meio de resistir ao inimigo? Há de ser a ruína das propriedades o meio de defender o reino? Há de Lisboa só considerar-se o ponto a defender em Portugal, e gostosamente hão de os povos danificar as suas fortunas para defesa desta cidade?» . (Arquivo Histórico Militar-DIV-1-14-002-34)

Queixa-se Wellington a 30 de Novembro de 1810 ao príncipe regente D. João que além dos governadores do reino não terem competências políticas nos planos e operações militares, pois só ele era responsável perante o rei português e inglês pela condução do exército anglo - luso, foram, sobretudo devido à oposição do principal Sousa, demorados em tomar as medidas necessárias para dificultar o avanço do invasor e implementar a táctica da terra queimada. Como consequência desta demora, escreve Wellington, «o inimigo há achado na Estremadura todas as coisas que não somente podiam cooperar para o seu conforto, mas até mesmo para a sua subsistência e para os habilitar a manter a sua posição em Portugal» . Em conclusão, o general inglês responsabilizava o principal Sousa pela sorte dos acontecimentos e pedia ao príncipe regente os devidos resultados políticos da sua acção: «Há sido pois a consequência da oposição ocasionada pelo principal Sousa contra as indicadas medidas que elas hão ficado improcedentes, e parte dos territórios de Vossa Alteza Real assim como do seu povo, estão agora suportando vexames e muitos pesados sofrimentos. A influência do principal Sousa se há em uma tal instância manifestado perniciosa e por isto deixo às sábias determinações de Vossa Alteza Real o decidir se acaso será conveniente que esta personagem continue um dos membros do governo» . Porém, o principal Sousa permanece no governo até à Revolução de 1820.

BADALADAS - Texto 46 - 26 FEVEREIRO 2010

O MARECHAL MASSENA

Maria Guilhermina Pacheco


“Guindam-se aos mais altos cargos homens como Massena, contrabandista e estalajadeiro...” Raul Brandão, El-rei Junot


Realmente, poder-se-á perguntar quem foi André Massena, que em 1810 comandou a terceira invasão francesa a Portugal.

Nasceu em Nice, em 1758, o pai era taberneiro. Começou por ser grumete, na marinha mercante, depois alistou-se no exército, mas como era de origem burguesa, não podia atingir o cargo de alferes, demitiu-se, era sargento-ajudante, estava-se em 1789.

Com a revolução, vai aderir à Guarda Nacional e, regressa à vida militar, em 1792, já detém o cargo de chefe de batalhão e, em 1793, era general de divisão.
Conhecido como bom estratega, Napoleão, elogiava-o, dizendo que tinha “...des talents militaires devant lesquels il faut se prosterner...”. (talentos militares, diante dos quais temos de nos inclinar…)
A sua carreira militar não se caracteriza, no entanto, por uma ascensão contínua, terá campanhas vitoriosas, seguidas de períodos de abrandamento ou mesmo paragem.
Entre 1795 e 1799, Massena, combate os piemonteses, os austríacos, tendo alcançado vitórias em Loano (1795) e na campanha da Itália (1797), mas vai ser em Zurique (1799) que consegue uma das suas mais importantes vitórias militares. Como resultado, ganha o cognome de Filho Querido da Vitória e o título de marechal.
Entretanto, em França a cena política sofre mudanças, Massena é republicano, mas não aprovou o golpe de 18 de Brumário, vai apoiar o Império, e passa a fazer parte da lista dos marechais do exército francês, tendo recebido a condecoração da Grã-cruz da Legião de Honra.

Novamente em campanha, trava batalhas na Itália e na Polónia, tendo tido êxito em Essling e Wagram (1809). Teve um acidente, impossibilitando-o de combater, e será durante a sua recuperação que Napoleão o vai enviar como comandante do exército que invadirá Portugal pela terceira vez.
Este exército estava dividido em três corpos, comandados respectivamente por Reynier, Ney e Junot, tinha também, uma divisão de cavalaria comandada por Kellerman, no total eram 65 000 homens, tinha ainda 65 oficiais e 16 ajudantes-de-campo sob as suas ordens.
Em Julho de 1810, o exército francês está perto da fronteira portuguesa. Depois de ocupar Astorga e Cidade Rodrigo, prepara-se para tomar a praça de Almeida, o que consegue devido a uma explosão no paiol, tendo o seu responsável, Costa e Almeida, capitulado.

A 15 de Setembro, Massena inicia a invasão, dirige-se para Celorico da Beira, seguidamente Fornos de Algodres em direcção ao Mondego. Entretanto as populações com medo e recebendo ordens de Wellington, abandonam as suas casas, contribuindo para dificultar o abastecimento ao exército inimigo. Massena vai seguindo para o interior do país as tropas de Wellington, não se apercebendo da estratégia. Encontram-se os dois exércitos em Buçaco, tendo as tropas portuguesas e inglesas lutado tão vigorosamente que os franceses tiveram que retirar, perdendo 4 498 homens.
Massena, no entanto, ansiava chegar a Lisboa, e continuou o seu caminho, indo em direcção a Coimbra que tomou e pilhou, e continuou desconhecendo a existência de fortes defesas: Linhas de Torres Vedras. Aí não teve capacidade para atacar, ficando à espera de reforços, enquanto os seus soldados saqueavam as populações das aldeias mais perto, havendo também grupos de desertores que se organizavam em quadrilhas de ladrões, devastando tudo à sua roda.

Em meados de Novembro, Massena, dá inicio à retirada, tendo seguido na direcção de Santarém, quando a ajuda que esperava chegou, era insuficiente, pelo que o comandante francês resolveu retirar-se para Espanha. O seu caminho de regresso não foi fácil, vários foram os encontros entre os dois exércitos, a retirada tinha-se iniciado a 4 de Março de 1811, e atravessa a fronteira a 8 de Abril, continuando a ser perseguido quer pelos aliados quer por grupos de guerrilhas e de milícias.
O próprio exército francês sofre problemas fracturantes como é o caso da insubordinação de Ney, que não concorda com a estratégia do marechal, tendo sido destituído do seu comando.
Em Espanha travou vários combates, destacando-se o de Fuentes de Oñoro a 2 de Maio, tendo sido posteriormente destituído do seu cargo por Napoleão e substituído por Marmont, duque de Ragusa.

Com as mudanças políticas em França, aceita a Restauração e Luís XVIII, mantém-no como comandante da 8ª divisão militar em Marselha. Morre em Paris em 1817.
Massena distinguiu-se como militar pela coragem, dotes estratégicos e mesmo bravura, mas como pessoa, actuou de uma forma ambiciosa e sem escrúpulos, esquecendo-se muitas vezes da posição que detinha, aproximando-se das atitudes dos seus subordinados. Assim, em 10 anos aumentou sua fortuna pessoal em 40 milhões de francos.
“Em Portugal, deixou um rasto de ruínas e de morte, que ficarão pelos tempos fora, a macular a sua memória e a empanar o lustre que alcançou nos campos de batalha.” (António Álvaro Dória)

11/03/10


Andar a pé e visitar alguns dos fortes das Linhas de Torres Vedras.
Mais uma iniciativa da Comissão para a comemoração dos 200 anos das famosas Linhas. 

27/02/10

RAID HÍPICO DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS





Mais um raid nas Linhas de Torres Vedras. A organização pede-nos que divulguemos. Com todo o gosto o fazemos.

Raid Hípico dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.

“Galopando nas Linhas com Wellington”

Realiza-se já no próximo Sábado 20 de Março o V Raid Hípico das linhas de Torres Vedras com os seguintes apoios:
Arenescar , BP Lubrificantes , Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Mafra , Campo Real , ELO Artes Gráficas , Império Bonança , Junta de Freguesia do Turcifal , Município de Mafra , Município de Sobral de Monte Agraço , Município de Torres Vedras , Tecsport /Audi , Turismo do Oeste.

A edição do bicentenário, para além da promoção histórica e turística da lindíssima envolvente paisagística, conta este ano com uma participação muito especial, o herdeiro do Ducado de Wellington e Marquês de Douro e de Torres Vedras, Lord Arthur Charles Wellesley, em representação de seu pai o 8º Duque de Wellington, com 95 anos de idade.

Lord Douro, conforme é conhecido no Reino Unido, graças ao título Inglês, surgido da célebre alcunha “Douro”, colocada ao General Wellington pelos soldados portugueses, manifestou a sua paixão por cavalos e o seu enorme desejo de participar no raid hípico, que recria criteriosamente os percursos históricos efectuados durante a defesa das Linhas de Torres Vedras, pelo seu famoso 4º avô, que derrotou Napoleão.

O evento equestre realiza-se como é habitual na zona central das Linhas de Torres Vedras, destacando-se ao longo do itinerário os soberbos miradouros das Serras da Archeira, Alqueidão, Enxara e Socorro, onde termina com uma espectacular recriação histórica e animação do telégrafo óptico de Wellington, da responsabilidade do Município de Mafra. Toda a informação adicional no site oficial : www.linesoftorresvedras.com

Em simultâneo ao raid hípico decorrerá ainda o concurso fotografia Tecsport/ Audi designado “ O cavalo e as Linhas de Torres Vedras” destinado a jovens entre os 11 e 16 anos, cujos prémios incluem desde viagens a Londres e máquinas fotográficas. Inscrições e regulamento no site :

www.belgest.pt/concursofoto

A organização do Raid Hípico das linhas de Torres Vedras

www.linesoftorresvedras.com

31/01/10

DIVULGAÇÃO DAS LINHAS DE TORRES VEDRAS




AO ENCONTRO DA HISTÓRIA



À atenção de:

Escolas

Juntas de Freguesia

Paróquias

Associações recreativas e culturais

Centros de Dia

Outras entidades interessadas



A Associação do Património de Torres Vedras desloca-se a estes locais, sempre que solicitada, para realizar palestras sobre a Guerra Peninsular, adaptando-as às audiências e apoiando-as em projecção de imagens. Duração base: 1h 30m

Este serviço, totalmente gratuito e a cargo de Professores de História, está integrado no Programa Municipal das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras, de cuja Comissão executiva a Associação do Património faz parte.

Disponível mediante marcação prévia. Contactos:

TM: 962 435 928 / 914 002 792 / 261 332 854

Apartado 50, 2564-909 TORRES VEDRAS

addpctvedras@gmail.com


Para saber mais sobre a Associação do Património de Torres Vedras, visitar os blogues:

http://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com

http://linhasdetorres.blogspot.com