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20/11/11

OS POSTOS NO EXÉRCITO PORTUGUÊS DURANTE A GUERRA PENINSULAR

Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão,
Coronel de Infantaria na Reserva

Cada homem presente no Exército tinha (e tem) um posto, desde Soldado a General. Os postos correspondem a um lugar na hierarquia militar, isto é, têm correspondência com as diferentes funções desempenhadas por cada um numa organização com escalões bem definidos: esquadra, secção, pelotão, companhia, batalhão, regimento, brigada, divisão, corpo de exército, exército. O comando de cada um destes escalões é atribuído a diferentes postos. Isto não significa que um militar com um determinado posto não possa desempenhar funções do posto superior. Esta era uma situação frequente. O contrário já não é válido, assim como não era naquela época. Beresford chamou a atenção numa das suas ordens do dia para alguns oficiais que indevidamente se mantinham no mesmo cargo após a promoção. Portanto, fica desde já claro que, por exemplo, nem sempre o comandante de uma Brigada tem o posto adequado a essa função.

Os postos são agrupados em classes. Vamos utilizar uma terminologia moderna para compreendermos melhor cada um destes conjuntos. Dos postos mais baixos para os mais altos, na sua forma mais simples, encontramos vários conjuntos (classes): Praças, Sargentos e Oficiais. Na época das Guerras Napoleónicas, os Sargentos estavam englobados na classe dos Praças. Tínhamos, assim, Praças e Oficiais. Charles Oman (que eu aqui refiro por ser o autor de uma das obras fundamentais sobre a Guerra Peninsular – A History of the Peninsular War) refere frequentemente (em Língua Inglesa) officers and men.

AS PRAÇAS

Não é fácil de encontrar textos sobre os postos mais baixos mas, em termos gerais, podemos dizer que os postos tinham correspondência com os atuais. Se encontramos frequentemente designações que nos são estranhas, isso deve-se ao facto de ser costume designar muitas praças pela função que desempenhavam ou, por outras palavras, pela sua especialidade. Por exemplo, na Ordem do Dia de 20 de fevereiro de 1810, de Beresford, foi publicado o Plano de Organização de um Batalhão de Caçadores composto de um Estado-maior, e seis Companhias. De acordo com este plano, existia em cada Batalhão, no Estado-maior (isto significa unicamente que não estavam integrados nas Companhias) um Coronheiro, um Espingardeiro, oito Músicos e um Corneta Mor. Não se define qual o posto destes elementos mas indica-se a sua função. Em cada Companhia existiam seis Cabos de Esquadra, seis Anspeçadas, dois Cornetas e oitenta e oito Soldados. A expressão Anspeçada significava (e significa ainda em alguns exércitos) um posto militar que se situava entre o Soldado e o Cabo de Esquadra (no final do século XIX, os postos de Cabo de Esquadra e de Anspeçada foram substituídos pelos postos de Primeiro-Cabo e Segundo-Cabo).

Outros exemplos em que não são indicados os postos: as Companhias de Bombeiros dos regimentos de Artilharia (Ordem do Dia de 24 de outubro de 1809, de Beresford) dispunham de seis Artífices de Fogo; o Regimento de Cavalaria (Ordem do Dia de 23 de novembro de 1809, de Beresford) dispunha de um Picador e um Seleiro e cada Companhia tinha um Ferrador.

Para além de algumas funções que encontramos acima referidas temos como postos bem definidos daquela época, nas praças, não incluindo os Sargentos:
  • Cabo; 
  • Anspeçada; 
  • Soldado. 
Como já dissemos, naquela época os Sargentos estavam integrados no conjunto das Praças. Neste grupo que hoje se encontra individualizado encontrávamos os Furriéis, os Segundo Sargentos e os Primeiros-sargentos. O Furriel, enquanto posto, corresponde à categoria mais baixa da classe (atual) dos Sargentos, imediatamente acima de Cabo. No tempo da Guerra Peninsular, o Furriel era o responsável (grosso modo) pelo alojamento das tropas em cada Companhia. O Segundo-Sargento era normalmente o comandante de uma Secção. O Primeiro-Sargento era o responsável pela administração da Companhia.

Um caso que frequentemente causa alguma confusão é o posto de Sargento-Mor. Hoje é o posto mais elevado da classe de Sargentos mas, há duzentos anos, tratava-se de um Oficial Superior que, em termos atuais corresponde ao Major.

Tínhamos então três postos no que chamamos hoje a classe dos Sargentos:
  • Primeiro-sargento 
  • Segundo-Sargento 
  • Furriel 
OFICIAIS SUBALTERNOS, CAPITÃES E OFICIAIS SUPERIORES

O corpo de Oficiais estava dividido em quatro grupos: Oficiais Subalternos, Capitães, Oficiais Superiores e Oficiais Generais. Esta divisão não terá sido sempre a forma oficial de agrupar os diferentes postos mas é a que se utiliza hoje e ajuda-nos a compreender melhor esta parte da hierarquia militar. Os mapas publicados nas Ordens do Dia de Beresford são bons para se ficar com uma ideia dos postos naquela época mas, à semelhança do que já vimos para outros casos, aparecem pelo meio designações de funções.

Os oficiais subalternos eram os Alferes e os Tenentes. O Alferes, o primeiro posto dos Oficiais Subalternos, é o comandante do Pelotão (Para recordar: o Batalhão está dividido em Companhias e estas dividem-se em Pelotões). O Tenente, que também pode comandar pelotões, é normalmente o adjunto do Comandante da Companhia.

Por vezes encontramos a designação de Segundo-tenente e Primeiro-tenente. Ainda hoje se utilizam essas designações na Armada (Marinha de Guerra) sendo o Primeiro-tenente o posto equivalente ao Capitão no Exército. Ainda na Armada, o posto equivalente a Alferes designa-se Guarda-Marinha ou Subtenente. No Exército, em 1809, as Companhias de Bombeiros dos Regimentos de Artilharia (Companhias que mais tarde passariam para o Corpo de Engenheiros) tinham quatro oficiais: um Capitão, um 1º Tenente e dois 2º Tenentes (Ordem do Dia de 24 de outubro de 1809, de Beresford), equivalendo nesta organização o 1º Tenente a Tenente e o 2º Tenente a Alferes. O Tenente-general é um posto dos Oficiais Generais.

O Capitão é o Comandante de Companhia, seja ela de Infantaria, Artilharia ou Cavalaria. Mas surgem, por vezes dois tipos de confusão: designações de capitão com significado diferente noutras épocas ou na Armada. No primeiro caso temos o Capitão-general que correspondia a um alto comando militar, ou o Capitão de Campo, o Capitão Cerra-fila ou o Capitão dos Ginetes, cargos que já tinham sido extintos há 200 anos. No segundo caso – Armada - temos o Capitão-tenente que equivale, no Exército, ao posto de Major, o Capitão-de-Fragata que equivale ao posto de Tenente-coronel e o Capitão-de-Mar-e-Guerra que equivale ao posto de Coronel.

Para além dos exemplos acima apresentados, existia também na época que estamos a tratar o cargo de Capitão-Mor das Ordenanças, responsável pelo comando deste tipo de tropas em cada concelho, cidade ou vila. Trata-se de um cargo fora do chamado Exército de Linha mas não fora da hierarquia militar. Tanto as Brigadas de Ordenanças como os Regimentos de Milícias estavam sujeitos à mesma hierarquia do Exército de Linha.

Os Oficiais Superiores eram o Major, o Tenente-coronel e o Coronel. O Major era, no Batalhão, o Chefe do Estado-Maior e segundo Comandante. Também existia um Major no Estado-Maior dos Regimentos de Cavalaria e Artilharia. Como referimos para outros postos, há situações de confusão e destas vamos ver apenas as duas mais frequentes: uma, já referida, respeita ao Sargento-Mor que pertence a épocas anteriores mas não deixa de ser ainda referido nesta época; outra refere-se ao posto de Major-general, que pertence à categoria dos Oficiais Generais como veremos adiante.

O Tenente-coronel era o Comandante de Batalhão ou o Segundo Comandante e Chefe do Estado-Maior dos Regimentos de Infantaria, Artilharia ou Cavalaria. O Coronel era o Comandante do Regimento ou o Segundo Comandante e Chefe de Estado-Maior da Brigada.

Em resumo, os postos dos Oficiais, excluindo os Oficiais Generais, eram:
  • Coronel 
  • Tenente-coronel 
  • Major 
  • Capitão 
  • Tenente 
  • Alferes 

OFICIAIS GENERAIS

Este grupo de postos representa os mais elevados escalões da hierarquia militar. Como estes postos são muitas vezes designados de forma abreviada por General, gera-se alguma confusão. Os postos dos Oficiais Generais são os que encontramos com maior frequência na literatura sobre a Guerra Peninsular. Era neste grupo de oficiais que tinha origem a maior parte das decisões que marcaram o rumo dos acontecimentos. Vejamos cada um dos postos existentes há 200 anos. 

O posto de Brigadeiro foi criado em 1798, por D. João V. O Brigadeiro era o comandante da Brigada de Infantaria ou de Cavalaria. Não estava previsto nenhum Brigadeiro comandar qualquer unidade de Artilharia. Recorde-se que as chamadas Brigadas de Artilharia eram unidades de constituição variável que, numa correspondência de escalões, ficariam quando muito ao nível do Batalhão. No entanto, existiam cargos relativos à Artilharia que podiam ser desempenhados por um Brigadeiro. Na Ordem do Dia de Beresford de 21 de março de 1809 (a sua primeira Ordem do Dia em Portugal), era nomeado «Comandante da Artilharia o Sr. Brigadeiro José António da Rosa». Tratava-se, de acordo com os conceitos da época, de um posto entre os Oficiais Superiores e os Oficiais Generais.

Marechal de Campo foi um posto que tinha surgido em 1762 com as reformas do Conde de Lippe em substituição do Sargento-Mor da Batalha. Era o primeiro posto dos Oficiais Generais. Tal como os Brigadeiros comandavam Brigadas ou desempenhavam outras funções adequadas ao ser posto. O segundo Comandante de uma Divisão era, por norma um Marechal de Campo. Voltando aos exemplos das Ordens do Dia de Beresford, na O.D. de 10 de Maio de 1809, é estabelecido que o [...] Exército em Campanha, debaixo das Ordens imediatas do Marechal, será dividido em Brigadas, e será colocado na ordem seguinte da direita para a esquerda.

  • Marechal de Campo Manoel Pinto Bacelar – 1 Batalhão do Regimento de Linha N. 9 e 2 Batalhões do Regimento de Linha N. 11. 
  • Brigadeiro Mosinho - [ ... ] 
  • Brigadeiro Silveira - [ ... ] 
  • Marechal de Campo José Lopes de Sousa -  […]

No Exército Britânico existia o posto de Major-General, ao qual correspondia o de Brigadeiro e a designação de Major-General só foi introduzida no Exército Português em 1863 aglutinando os anteriores postos de Brigadeiro e Marechal de Campo.

O posto de General, sem que esta palavra esteja associada a qualquer outra, só aparece em 1911, com o decreto de 26 de Maio. Há 200 anos, existiam vários postos e cargos que incluíam a palavra General.

O General de Artilharia foi um posto instituído na reforma do Conde de Lippe (1762) para designar o Diretor-geral da Artilharia. De forma idêntica existia o General de Cavalaria e o General de Infantaria.

O General de Brigada e o General de Divisão eram postos que, na época das Invasões, existiam no Exército Francês. Estas expressões foram criadas em Portugal com a organização militar de 1864. Em Portugal existia o posto de Tenente-General, com origem na reorganização do Conde de Lippe, em substituição do Mestre de Campo General. O Tenente-General era o Comandante da Divisão ou escalão superior.

O cargo de Marechal é antigo. Em Portugal apareceu no reinado de D. Fernando, por influência inglesa. O Marechal do Exército, posto criado em 1762, era atribuído aos que tinham funções de Governador das Armas (cargo de carácter mais político-militar). Beresford, Tenente-General do Exército Britânico, foi nomeado Marechal do Exército, em 7 de Março de 1809, quando assumiu o cargo de Comandante-Chefe do Exército Português. Depois da Guerra peninsular, em 1815, foi promovido a Marechal-General. Este último posto, que existia também desde 1762, estava reservado ao Comandante-Chefe dos Exércitos, tal como o foi o Conde de Lippe ou Wellington e, mais tarde, Beresford.

Em resumo, estabelecendo uma hierarquia dos Oficiais Generais (incluindo Brigadeiros) temos:
  • Marechal-General; 
  • Marechal do Exército; 
  • Tenente-General; 
  • Marechal de Campo; 
  • Brigadeiro.
...........................................................................................

BIBLIOGRAFIA

COSTA, Cor. António José Pereira da Costa, Coord., Os Generais do Exército Português, volume 2, Biblioteca do Exército, Lisboa, 2005

SOARES, Cor. Alberto Ribeiro, Coord., Os Generais do Exército Português, volume 1, Biblioteca do Exército, Lisboa, 2003.

NOÇÕES DA ORGANIZAÇÃO MILITAR DURANTE A GUERRA PENINSULAR

Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão,
Coronel de Infantaria na Reserva

O Exército de Wellington estava organizado em Divisões. Quase todas as suas Divisões de Infantaria integravam um Brigada de Infantaria portuguesa. Os Esquadrões de Cavalaria não foram integrados da mesma forma. As Baterias de Artilharia portuguesas desempenharam um papel importante em numerosos confrontos.

Este pequeno texto foi escrito unicamente com a finalidade de realçar uma série de expressões que dizem respeito à organização militar e cujo significado é, com frequência, desconhecido para os que se interessam pelos acontecimentos referentes às Invasões Francesas de Portugal. Assim, é minha intenção publicar um ou mais textos que expliquem os conceitos essenciais sobre a organização militar durante a Guerra Peninsular. Os conceitos serão sempre apresentados de uma forma genérica e serão depois feitas as referências necessárias aos exércitos interveniente, especialmente de Portugal, Reino Unido e França.

O texto inicial fala de Infantaria, Cavalaria e Artilharia, as três Armas em que então se dividiam as forças combatentes. A Infantaria e a Cavalaria eram (e são) os elementos de manobra. Caracterizavam-se por combinar o fogo (dos mosquetes da Infantaria, das carabinas da Cavalaria) ou o choque (da Cavalaria armada com sabre ou da Infantaria que utilizava o mosquete com baioneta) com o movimento que lhes permite aproximarem-se do inimigo e/ou obter uma posição mais vantajosa. A Artilharia era o elemento de apoio de fogos. Apoiava os elementos de manobra visava neutralizar ou destruir, através das suas bocas-de-fogo, as forças inimigas. Para uma melhor compreensão do significado destas expressões - choque, fogo, movimento - podemos consultar o artigo da Wikipédia «Os Elementos Essenciais do Combate».

Estes elementos, que estavam presentes no campo de batalha, eram apoiados por um conjunto de serviços essenciais para o cumprimento da missão e para a sobrevivência das tropas. No entanto, ao contrário do que sucede nos nossos dias, não existiam unidades de comunicações, de engenharia, de apoio logístico, do serviço de saúde, etc. Estes serviços eram prestados muitas vezes por elementos civis que, de alguma forma, estavam sujeitos à hierarquia militar. A Engenharia, por exemplo, era constituída por um corpo de oficiais e utilizava as praças da Infantaria e, especialmente, da Artilharia. Vamos, portanto, concentrar a nossa atenção nos elementos de manobra e de apoio de fogos.

A INFANTARIA

Tipos de Infantaria

Em primeiro lugar é preciso definir Infantaria na época napoleónica. Tratava-se da força militar que combatia apeada, armada de mosquete (em alguns casos de rifles - espingardas de cano estriado) e baioneta. Dividia-se em dois grupos: Infantaria de Linha (ou pesada) e Infantaria Ligeira.

A infantaria de linha era o tipo de infantaria constituída pela maior parte dos efectivos dos exércitos europeus. Este nome passou a ser utilizado desde que as condições tácticas obrigaram as unidades de infantaria no campo de batalha a disporem os seus efectivos em linha (com três ou duas fileiras de profundidade). Desta forma tiravam o máximo rendimento do fogo dos seus mosquetes.
Soldado do Batalhão de Caçadores n.º 6
do Exército Português, em 
1811.
in
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ca%C3%A7ador_(militar) 

A infantaria ligeira era, na realidade muito semelhante à infantaria de linha. Destinava-se a actuar como corpo de tropas destacadas, à frente do corpo principal da força que era formado por tropas de infantaria de linha, com vários objectivos: obter informações sobre as formações inimigas, flagelar as forças inimigas antes de estas entrarem em contacto com o corpo principal de tropas, dificultar ou impedir a observação e o fogo da infantaria inimiga sobre as tropas de linha (dispostas em linha) à retaguarda. Poderiam ter outras missões e também actuavam muitas vezes como tropas de linha, exactamente da mesma forma que as tropas de infantaria de linha actuavam, quando necessário, como infantaria ligeira.

No Exército do Reino Unido era utilizada a expressão Light Infantry para designar este tipo de infantaria. Os seus soldados, quando em acções próprias deste tipo de forças, eram designados skirmishers. A expressão skirmish, em Língua Inglesa, significa escaramuça, o que traduz a natureza da acção destes combatentes. Alguns batalhões de infantaria do Reino Unido, aparecem com a designação Rifle (por exemplo, o 5/60th Rifle - 5º batalhão do 60º Regimento de Infantaria) o que significa que estavam armados com uma espingarda com cano estriado (o cano do mosquete, a espingarda normal da época, não tinha estrias, era de alma lisa).

No Exército Francês existia uma Infanterie légère complexa, sujeita a sucessivas alterações na sua organização. Aparecem com as expressões Chasseurs à pied, Tirailleurs e Voltigeurs. Na prática, não eram muito diferentes da Infanterie de Ligne. Estas tropas de infantaria ligeira eram designadas em Portugal por Caçadores. Existiram, durante a Guerra Peninsular, doze Batalhões de Caçadores. A Espanha dispunha de algumas unidades de Infantería ligera e era normalmente designados por Cazadores. A sua atuação, nos casos francês, espanhol e português, era idêntica ao que foi mencionado para o Reino Unido.

Os Granadeiros eram uma infantaria de élite. Os seus soldados eram escolhidos entre os mais altos, robustos e corajosos. Tinham o mesmo equipamento que os soldados de infantaria de linha. Com origem em França, estas unidades foram imitadas por toda a Europa.
Detalhe do mosquete conhecido como "Brown Bess" pelos exércitos britânico e português durante a Guerra Peninsular
in
http://www.icollector.com/Henshaw-Marked-Brown-Bess-Flintlock-Musket_i9752051

Unidades de Infantaria

A unidade base de combate da infantaria era o Batalhão. O seu efectivo variou com as reformas militares e com os exércitos e variava entre os 500 e os 1.500 homens distribuídos por um número variável de Companhias. Cada companhia era formada por vários Pelotões.

Em Portugal, de acordo com a reforma de 1806 que se manteve quando Beresford foi nomeado comandante do Exército Português em 1809, um batalhão completo tinha (teoricamente) à volta de 1.500 homens. Estes homens estavam distribuídos por dez companhias das quais oito eram companhias de infantaria de linha, uma era de infantaria ligeira e a outra de granadeiros.

De onde vinham estes batalhões? Dos Regimentos. Estes são unidades de que ouvimos falar com alguma frequência. Por exemplo, ouvíamos falar do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, hoje Escola de Sargentos do Exército. Eram unidades com uma implantação territorial fixa e que se destinavam a produzir unidades operacionais. Pela organização de 1806, os regimentos eram designados por um número. O Regimento de Infantaria 7, designado de forma informal apenas por Infantaria 7, era o Regimento de Infantaria de Setúbal. O que fazia este regimento (ou os outros)? Produzia batalhões (Veremos, mais à frente, um exemplo). O regimento é uma unidade territorial que está fixa num determinado local. No caso acima apontado, o regimento encontrava-se no seu quartel em Setúbal, com o seu comando, estado-maior e serviços. Os seus batalhões, desde que já tivessem terminado o período de instrução, poderiam ter sido enviados para o local onde atuava a unidade de escalão superior em que era integrado. Normalmente, cada regimento de infantaria fornecia dois batalhões.

Em Portugal, de acordo com a organização de 1806, retomada por Beresford, existiam vinte e quatro Regimentos de Infantaria assim distribuídos:

  • Regimento de Infantaria nº 1 – Lisboa 
  • Regimento de Infantaria nº 2 – Lagos 
  • Regimento de Infantaria nº 3 – Estremoz 
  • Regimento de Infantaria nº 4 – Lisboa 
  • Regimento de Infantaria nº 5 – Elvas 
  • Regimento de Infantaria nº 6 – Porto 
  • Regimento de Infantaria nº 7 – Setúbal 
  • Regimento de Infantaria nº 8 – Castelo de Vide 
  • Regimento de Infantaria nº 9 – Viana 
  • Regimento de Infantaria nº 10 – Lisboa 
  • Regimento de Infantaria nº 11 – Viseu 
  • Regimento de Infantaria nº 12 – Chaves 
  • Regimento de Infantaria nº 13 – Peniche 
  • Regimento de Infantaria nº 14 – Tavira 
  • Regimento de Infantaria nº 15 – Vila Viçosa 
  • Regimento de Infantaria nº 16 – Lisboa 
  • Regimento de Infantaria nº 17 – Elvas 
  • Regimento de Infantaria nº 18 – Porto 
  • Regimento de Infantaria nº 19 – Cascais 
  • Regimento de Infantaria nº 20 – Campo Maior 
  • Regimento de Infantaria nº 21 – Valença 
  • Regimento de Infantaria nº 22 – Elvas 
  • Regimento de Infantaria nº 23 – Almeida 
  • Regimento de Infantaria nº 24 - Bragança
No Exército Britânico a generalidade dos regimentos formaram dois batalhões. No entanto, existem casos de apenas um batalhão e outros com mais de dois batalhões. Os batalhões não seguiam todos para o mesmo teatro de operações. Por exemplo, o 1º Regimento de Infantaria de Linha britânico (1st Foot) formou quatro batalhões e só o 3º batalhão esteve na Península Ibérica. A Espanha tinha uma organização idêntica mas mais heterogénea. Os Franceses tinham regimentos que formavam dois a quatro batalhões. A diferença relativamente aos Britânicos era que estes poucas vezes juntavam os batalhões de um mesmo regimento enquanto os Franceses, por norma, os mantinham juntos.


Organização de um Batalhão de Infantaria


A unidade táctica de escalão superior ao batalhão era a Brigada. Uma brigada de infantaria era formada por dois ou mais batalhões. No Exército Português, as brigadas eram, em regra, formadas por quatro batalhões, dois de cada regimento. Era assim que estava previsto no decreto de 19 de Maio de 1806. A algumas brigadas foi também atribuído um batalhão de caçadores. No entanto, conforme as necessidades das operações, uma brigada podia ser reforçada com mais batalhões de infantaria ou unidades de cavalaria ou artilharia ou, pelo contrário, poderia ceder batalhões para outra brigada.

As brigadas eram agrupadas em Divisões. Em Portugal, pela organização de 1806, existiam 24 regimentos de infantaria e cada um fornecia dois batalhões; os quatro batalhões pertencentes a dois regimentos formavam uma brigada e cada duas brigadas (oito batalhões), formavam uma divisão. Estava pois prevista a existência de três divisões. A infantaria portuguesa, em Outubro de 1810 tinha já organizado e colocado à disposição de Wellington, nove brigadas de infantaria, algumas formadas por quatro batalhões de infantaria de linha (2ª, 3ª, 4ª, 8ª e 9ª Brigadas), outras formadas igualmente por quatro batalhões de linha e um batalhão de caçadores (1ª, 5ª e 6ª Brigadas). A 7ª Brigada de Infantaria portuguesa era formada por dois batalhões do Regimento de Infantaria 8 e dois batalhões da Leal Legião Lusitana, os 1º e 2º, que foram em 1811 convertidos em batalhões de caçadores (Caçadores 7 e 8). Uma divisão podia ser reforçada com tropas de cavalaria e de artilharia, isto é, passava a dispor em si mesma de todos os elementos combatentes, de manobra e de apoio de fogos, quando actuava independente ou em situações especiais.

O que foi dito sobre as divisões do Exército Português é válido para os outros exércitos. Wellington tinha as suas divisões compostas, normalmente, por duas brigadas. À medida que as unidades portuguesas iam sendo reorganizadas e consideradas prontas para o combate, foi-as integrando nas suas divisões. Por exemplo, a 1 de Novembro de 1810, a 3ª Divisão de Infantaria britânica era formada por duas brigadas, cada uma com três batalhões de infantaria de linha, e com um efectivo de 1.681 e 1.655 homens. A estas duas brigadas juntou-se uma brigada portuguesa, a 8ª Brigada, formada por quatro batalhões de infantaria de linha, dois do Regimento de Infantaria 9 e dois do Regimento de Infantaria 21, com um total de 1.961 homens. Durante a Guerra Peninsular, encontramos no Exército Aliado unidades que integram forças britânicas e forças portuguesas.

Os Franceses apresentavam ainda um outro escalão: o Corpo de Exército. Um Corpo de Exército é uma grande unidade formada essencialmente por Divisões. Um Corpo de Exército, em regra, dispunha de duas ou mais Divisões de Infantaria, uma Brigada de Cavalaria e um determinado número de bocas de fogo de Artilharia. Por exemplo, o Exército de Portugal de Massena era formado por três Corpos de Exército (CE): o II CE sob o comando de Reynier, o VI CE sob o comando de Ney e o VIII CE sob o comando de Junot.


A CAVALARIA

Tipos de Cavalaria

À semelhança do que sucedia com a infantaria, também existiam diversos tipos de cavalaria. Existiam mais variantes que na infantaria e nem todos os autores as classificam da mesma forma. A cavalaria mais poderosa durante as Guerras Napoleónicas foi, sem dúvida, a cavalaria francesa. Esta era formada por tropas de cavalaria pesada (desta, os couraceiros são os mais conhecidos) destinados a executar os ataques à cavalaria ou à infantaria inimigas, cavalaria média (os dragões, originalmente infantaria montada) que desempenhavam todos os tipos de missões, como a cavalaria pesada, ou a cavalaria ligeira (chasseurs-a-cheval, lanceiros, hussardos) vocacionada para o reconhecimento e missões de protecção mas que, se necessário, à semelhança dos outros tipos de cavalaria, podia executar cargas sobre as formações inimigas.

A cavalaria britânica, assim como a cavalaria portuguesa, apresentava-se mais simples: dividia-se em ligeira (dragões ligeiros e hussardos) e pesada (dragões). As missões a atribuir eram idênticas à do exército francês. No que respeita à organização das unidades, existiam diferenças entre os diferentes exércitos mas também existiam princípios comuns e são esses que importa conhecer.
Carga dos hussardos da cavalaria napoleónica, na batalha de Friedland
in
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cavalaria


Unidades de Cavalaria

A unidade base de combate da cavalaria era o Esquadrão. Se quisermos compara com a infantaria, o esquadrão equivalia, com uma dimensão diferente, ao batalhão de infantaria. Os esquadrões tinham origem nos regimentos. Em Portugal, com a reorganização de Beresford, cada regimento tinha um total de 595 oficiais e praças e estava organizado num estado-maior e quatro esquadrões com duas Companhias por esquadrão. Por norma, os esquadrões de um regimento actuavam juntos e, por isso, aparece frequentemente nos textos a designação do regimento. Por exemplo, Charles Oman (History of the Peninsular War, volume III) indica que a cavalaria portuguesa na fronteira da Beira em Setembro de 1811 eram os Regimentos de Cavalaria nº 1, 3, 4 e 7, sem fazer qualquer referência aos esquadrões. O número destes era variável e dependia em muito das montadas disponíveis. Com frequência, os regimentos encontravam-se a 50 %, normalmente por falta de montadas.

Em Portugal, depois de reorganizado o Exército, existiam doze unidades territoriais de Cavalaria:
  • Regimento de Cavalaria nº 1 – Lisboa 
  • Regimento de Cavalaria nº 2 – Moura 
  • Regimento de Cavalaria nº 3 – Beja 
  • Regimento de Cavalaria nº 4 – Lisboa 
  • Regimento de Cavalaria nº 5 – Évora 
  • Regimento de Cavalaria nº 6 – Chaves 
  • Regimento de Cavalaria nº 7 – Lisboa 
  • Regimento de Cavalaria nº 8 – Elvas 
  • Regimento de Cavalaria nº 9 – Chaves 
  • Regimento de Cavalaria nº 10 – Santarém 
  • Regimento de Cavalaria nº 11 – Almeida 
  • Regimento de Cavalaria nº 12 - Bragança 
Os regimentos de cavalaria agrupavam-se em Brigadas e as brigadas em Divisões. Por norma, devido à escassez de efectivos de cavalaria, os Britânicos não agrupavam as brigadas em divisões e, da mesma forma faziam os Portugueses. Já os Franceses, que possuíam uma cavalaria mais numerosa, utilizaram na Península Ibérica divisão de cavalaria. Foi o caso da Divisão de Dragões de Montbrun, do “Exército de Portugal”, formada pelos 3º, 6º, 8º, 10º, 11º, 15º e 25º Regimentos de Dragões.

No caso do exército anglo-luso, as brigadas de cavalaria actuavam, em regra, sob comando directo de Wellington (embora toda a cavalaria fosse comandada pelo General Stapleton Cotton. O mesmo sucedia, portanto, às unidades de cavalaria portuguesas que estavam integradas naquele exército. Houve uma situação em que uma brigada de cavalaria foi, por norma, atribuída a uma divisão: a Brigada de cavalaria ligeira de Alten (formada pelo 11º Regimento de Dragões Ligeiros e pelo 1º Regimento de Hussardos da King's German Legion) actuava juntamente com a Divisão Ligeira.
Organização de um Corpo de Exército


 
Também no caso dos Franceses, não é normal encontrar uma unidade de cavalaria atribuída a uma divisão. Isso podia acontecer quando a divisão actuava isolada e necessitava de outros componentes como a cavalaria para os reconhecimentos e protecção e a artilharia para o apoio de fogos como foi o caso da Divisão de Infantaria de Girard que travou o combate de Arroyomolinos com a Divisão de Rowland Hill. A Divisão de Girard tinha sido reforçada com uma brigada provisória de cavalaria (uma brigada organizada apenas para aquela missão) e alguma artilharia.

Os exércitos franceses, por norma muito mais numerosos, estava organizados em corpos de exército como já vimos quando falámos da infantaria. O Exército de Portugal de Massena, para além dos três Corpos de Exército referidos, tinha a chamada Reserva de Cavalaria que consistia no conjunto das unidades de cavalaria não atribuídas aos Corpos de Exército. Neste caso tratava-se de toda a cavalaria que se encontrava sob comando do General Montbrun. Formavam uma unidade do tipo Divisão que além dos Regimentos de Cavalaria reunidos em Brigadas também tinha uma unidade de Artilharia a cavalo. 

A ARTILHARIA

Napoleão era um oficial de Artilharia e herdou o melhor sistema de artilharia daquela época. O sistema Gribeauval, tinha dotado a França de uma artilharia mais leve, embora de maiores calibres, mais fácil de movimentar e que proporcionava maior poder de fogo. O sistema Gribeauval não era um segredo francês. Outros países tiveram a oportunidade de fabricar uma artilharia idêntica, mais ou menos numerosa. Tal como hoje, era uma questão de investimento.

Tipos de Artilharia

A Artilharia pode ser classificada de acordo com a sua utilização. Estamos aqui a referir unicamente a Artilharia do Exército e deixamos de parte a Artilharia Naval quer a (mais recente) Artilharia de Costa. Os exércitos utilizam a Artilharia de três formas distintas: 

  • No campo de batalha, para apoiar pelo fogo as forças de manobra (Infantaria e Cavalaria) – Artilharia de Campanha; trata-se de um tipo de Artilharia que deve ter a possibilidade de acompanhar o movimento das forças de manobra que apoia; com calibre até 12 libras; 
  • Nas fortificações para defesa destes sistemas de protecção colectiva – Artilharia de Posição. Não tem de ser deslocada no campo de batalha e é mais pesada, de maior calibre e com maior alcance que a Artilharia de Campanha; 
  • Para as operações de cerco, quando era preciso abrir brechas nas muralhas, utilizava-se uma artilharia pesada, de calibre elevado, que conseguisse causar danos na estrutura ou, preferencialmente derrubar partes da muralha a ser atacada; esta Artilharia era denominada Artilharia de Cerco ou Artilharia de Sítio; com calibre superior a 12 libras.

A Artilharia de Campanha, como referimos, tinha a missão de dar apoio de fogos às forças de manobra; apoiava o ataque fazendo fogo sobre as forças que iam ser atacadas, com a finalidade de criar pontos mais fracos no dispositivo inimigo; apoiava a defesa, batendo as forças atacantes por forma a quebrar o ímpeto, desorganizar e/ou enfraquecer o dispositivo. O transporte desta artilharia e das suas munições implicava um grande esforço tanto no movimento como na montagem ou desmontagem das bocas de fogo nas posições em que eram utilizadas. Quando a força a ser apoiada era muito móvel, isso constituía um problema.

A Cavalaria desloca-se mais rapidamente que a Infantaria. Para permitir o apoio que a Cavalaria necessitava, o Marechal de Campo Lennart Torstenson (1603 - 1651), do Exército do Rei Gustavo Adolfo da Suécia (1594 – 1632), durante a Guerra dos Trinta Anos, organizou a sua Artilharia ligeira em unidades em que todos os elementos das guarnições das armas se deslocavam a cavalo. As bocas de fogo e os carros com as munições e equipamentos eram puxadas por parelhas de cavalos. Foi assim criada a Artilharia a Cavalo destinada a apoiar as unidades de cavalaria.



Tipos de bocas de fogo

Uma arma de fogo pode ser concebida para disparar um projéctil numa trajectória tensa (tiro directo) com o objectivo à vista ou numa trajectória curva, que permite bater um objectivo que não se vê da posição da arma por ter um obstáculo (elevação de terreno, área urbanizada, muralhas) entre os dois. No primeiro caso, na Artilharia, temos as peças e, no segundo, os obuses e os morteiros. A Artilharia portuguesa dispunha de uma grande variedade de materiais, de ferro (as bocas de fogo mais antigas) e de bronze.



Unidades de Artilharia

Tal como a Infantaria e a Cavalaria, a Artilharia tinha os seus Regimentos. Em Portugal, tal como para as outras Armas, cada Regimento era conhecido por um número e existiam quatro Regimentos de acordo com a organização de 1806, que se manteve com Beresford:

  • Regimento de Artilharia nº 1 – Lisboa (S. Julião); 
  • Regimento de Artilharia nº 2 – Faro; 
  • Regimento de Artilharia nº 3 – Estremoz; 
  • Regimento de Artilharia nº 4 – Porto. 

Cada Regimento tinha um estado-maior, uma Companhia de Bombeiros, uma de Mineiros, uma de Pontoneiros e sete de Artilheiros, num total de 1.200 praças. Esta organização pode parecer estranha mas, naquela época, a expressão Artilharia compreendia bocas de fogo, petardos, minas, bombas, pólvora e toda a espécie de engenhos explosivos. A partir de 1812, as Companhias de Mineiros e de Pontoneiros foram retiradas dos Regimentos de Artilharia e passaram a fazer parte do Corpo de Engenheiros.

Por influência britânica, as Companhias de Artilharia, quando destacadas para operações, passaram a designar-se Brigadas de Artilharia. Por norma, cada brigada de artilharia apoiava uma Divisão de Infantaria. Estas unidades tinham uma composição variável entre 6 e 12 bocas de fogo que incluíam, em regra, 2 obuses e 10 peças. Em meados de 1810, Portugal dispunha de 11 Brigadas de Artilharia: duas de calibre 9, cinco de calibre 6, três de calibre 3 e uma de montanha (bocas de fogo especialmente concebidas para serem desmontadas e transportadas em cargas separadas; normalmente de 3 libras).

O termo Bateria (hoje equivalente a uma Companhia) só seria adoptado para designar uma unidade de Artilharia na segunda metade do século XIX. Durante a Guerra Peninsular, este termo estava associado à posição das bocas de fogo.


ORGANIZAÇÃO GERAL DO EXÉRCITO

O levantamento de todas estas unidades territoriais (Regimentos de Infantaria, Cavalaria e Artilharia) tinha em vista a formação de uma estrutura de campanha, isto é, cada Regimento iria fornecer as unidades (Batalhões; Esquadrões; Brigadas de Artilharia) destinadas a formarem o Exército de Campanha que, de acordo com o Alvará de 19 de Maio de 1806, era «formado em três Divisões, com as denominações seguintes: Divisão do Sul, Divisão do Centro, Divisão do Norte». Este era o Exército de Linha que o reino de Portugal apresentava.

Mas estabelecia ainda o mesmo Alvará que cada Divisão «será formada por oito Regimentos de Infantaria, divididos em quatro Brigadas, quatro Regimentos de Cavalaria e um de Artilharia, exceptuando a Divisão do Sul, que compreenderá dois regimentos dessa Arma.» Contrariamente ao que foi dito (porque falávamos de exércitos com uma dimensão superior), estas Divisões, que tinham áreas de actuação específicas e podiam actuar isoladas, necessitavam de incluir no seu conjunto ambos os elementos de manobra (infantaria e cavalaria) e de apoio de fogos (artilharia).

Esta estrutura deveria estar montada «mesmo em tempo de paz». Isto significava que, não havendo guerra, existia a estrutura de comando das Divisões e Brigadas e, sempre que necessário (para exercícios ou em caso de conflito armado), os regimentos acima indicados forneciam os Batalhões de Infantaria que iriam constituir as Brigadas, os Esquadrões de Cavalaria que o Comandante da respectiva Divisão atribuía a cada Brigada ou deixava sob seu comando directo e as Brigadas de Artilharia (Baterias) que apoiavam a respectiva Divisão. Vejamos um exemplo:

A Divisão Centro estava organizada em quatro Brigadas de Infantaria. Destas, a 1ª Brigada era formada pelos Regimentos de Infantaria nº 1 (Lisboa) e 13 (Peniche). Isto significava na prática que, quando a 1ª Brigada se reunia, dois Batalhões do Regimento de Infantaria nº 1 e dois Batalhões do Regimento de Infantaria nº 13, eram colocados sob o comando do Brigadeiro comandante daquela Brigada. Não era o Regimento (unidade territorial) que avançava mas sim os seus Batalhões operacionais. O mesmo acontecia nas unidades de Cavalaria e de Artilharia. Refere-se com frequência a presença do Regimento X ou Y no campo de batalha para indicar que estavam presentes todas as suas subunidades (Batalhões; Esquadrões; Brigadas de Artilharia) operacionais.

Além destas tropas existiam outras que aparecem frequentemente nos textos. É o caso dos Regimentos de Milícias (uma segunda linha do Exército), que forneciam 43 Batalhões de Milícias; do Corpo de Voluntários Reais de Milícias a Cavalo, especialmente dedicado à segurança de Lisboa; das 24 Brigadas de Ordenanças, divididas pelos sete Governos Militares, que constituíam um sistema de recrutamento para os 24 Regimentos de Infantaria de Linha; as unidades de tropas ligeiras, os Caçadores, primeiro distribuídos pelos Regimentos (uma Companhia por Regimento) depois organizados em Batalhões de Caçadores; a Leal Legião Lusitana que, em 1812, daria origem a dois Batalhões de Caçadores; o Batalhão Académico; os Voluntários Reais do Comércio (de Lisboa) e os Voluntários do Porto; as 16 Legiões formadas pela população de Lisboa. Por outras palavras, além da estrutura relativamente bem definida do Exército de Linha, existia uma outra estrutura, complexa, que por vezes era difícil de controlar, mas que punha em prática a ideia de «que todos os habitantes destes reinos se armassem pelo modo que a cada um fosse possível; e que todos os indivíduos, que se acharem compreendidos na idade de quinze até sessenta anos, se reunissem todos os domingos, e dias santos, e se exercitassem nos movimentos, e evoluções militares ...». Contra a França revolucionária foi necessário levantar a Nação em armas.


BIBLIOGRAFIA

AAVV, Armies of the Napoleonic Wars, Osprey Publishing, Great Britain, 2009.
AAVV, A Artilharia em Portugal, Estado Maior do Exército, 1982.
BORGES, João Vieira, «Artilharia e Artilheiros Portugueses na Guerra Peninsular», Revista de Artilharia, Ano CV, 2ª série, Números 1019 a 1021, Julho – Agosto – Setembro de 2010, Lisboa, pp. 259 a 284.
CENTENO, João Torres, O Exército Português na Guerra Peninsular, volume 1 – do Rossilhão ao fim da Segunda Invasão Francesa 1807-1810, Prefácio, Lisboa, 2008.
COSTA, Cor. António José Pereira da Costa, Coord., Os Generais do Exército Português, volume 2, Biblioteca do Exército, Lisboa, 2005.
OMAN, Charles Chadwick, A History of the Peninsular War, volumes 1 a 7, Grennhill Books, Londres, 2004.
SOARES, Cor. Alberto Ribeiro, Coord., Os Generais do Exército Português, volume 1, Biblioteca do Exército, Lisboa, 2003.

24/01/11

BALANÇO - TEXTOS PUBLICADOS

TEXTOS NO SEMANÁRIO DE TORRES VEDRAS  "BADALADAS"


Nº - Data - Título - Autor


1 25-01-08 Manter viva a memória J. Moedas Duarte

2 15-02-08 Guerra Peninsular Carlos Guardado

3 29-02-08 Napoleão J. Travanca Rodrigues

4 14-03-08 França e Inglaterra em confronto J. Travanca Rodrigues

5 28-03-08 Guerra Peninsular: Porque é que Portugal se viu envolvido J. Moedas Duarte

6 11-04-08 A 1ª Invasão Francesa Graça Mira

7 25-04-08 A 2ª Invasão Francesa Mª Guilhermina Pacheco

8 09-05-08 A 3ª Invasão Francesa Manuela Catarino

9 23-05-08 Jacinto Correia, um herói popular Ten.Coron. Abílio Lousada

10 13-06-08 “Brilos”: um enigma histórico Pedro Fiéis

11 27-06-08 A batalha de Dois Portos Venerando A de Matos

12 18-07-08 A batalha da Roliça Pedro Fiéis

13 25-07-08 O príncipe Regente D. João comunica a passagem da família real para o Brasil José Ermitão

14 01-08-08 Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Franceses Pedro Fiéis

15 15-08-08 Doutrinas militares em confronto na Guerra Peninsular: os Ingleses Pedro Fiéis

16 22-08-08 A batalha do Vimeiro Pedro Fiéis

17 12-09-08 As denúncias contra os partidários dos franceses José Ermitão

18 26-09-08 As aguadeiras do exército francês Pedro Fiéis

19 10-10-08 A conspiração do Porto [1] João Flores Cunha

20 24-10-08 A conspiração do Porto [2] João Flores Cunha

21 14-11-08 Manifesto de declaração de guerra à França José Ermitão

28-11-08 1º Suplemento “Bicentenário Inv. Francesas” Venerando A. Matos / Pedro Fiéis / Luís F. Rodrigues

22 12-12-08 A Comemoração do 1º centenário da Guerra Peninsular Célia Reis

23 02-01-09 Marrocos e a 1ª Invasão Francesa José Ermitão

24 16-01-09 História e Literatura de ficção. As Aventuras de Richard Sharpe, um herói no tempo das guerras napoleónicas Manuela Catarino

25 30-01-09 Continuar a manter viva a memória J. Moedas Duarte

26 13-02-09 Revolta populares no Algarve contra os franceses de Junot Henrique Vieira

27 27-02-09 Simão J. da Luz Soriano, historiador…(1) José Ermitão

28 20-03-09 “ “ (2) José Ermitão

29 03-04-09 Dias 1 e 2 de Maio: Visita guiada a Almeida… J Moedas Duarte

30 24-04-09 Um correspondente de guerra na Seg Invasão Pedro Fiéis

31 15-05-09 Almeida e Buçaco: notas de viagem Manuela Catarino

32 29-05-09 A “protecção britânica”: duas cartas de lord Wellington José Ermitão

33 12-06-09 1809: Segunda Inv Franc. Cronologia… J. Moedas Duarte

34 26-06-09 A 2ª Inv francesa (1) As instruções e a realidade José Ermitão

35 10-07-09 A 2ª Inv Francesa (2) Tudo vai ser diferente José Ermitão

36 07-08-09 A 2ª inv Franc (3) Às armas, portugueses, às armas! José Ermitão

14-08-09 2º Suplemento “Bicentenário Inv. Francesas” J. Ermitão / Manuela Catarino/ Venerando Matos / Luís F. Rodrigues

37 28-08-09 Um outro lado das Invasões francesas nas Memórias do Marechal Soult Manuela Catarino

38 11-09-09 A 2ª Inv franc Dos anónimos ao brigadeiro Silveira José Ermitão

39 25-09-09 A 2ª Inv franc Pormenores importantes José Ermitão

40 09-10-09 Um cirurgião na frente de batalha:Dominique Jean Larrey Manuela Catarino

41 30-10-09 A decisão do Duque de Wellington em 1809 Venerando de Matos

42 13-11-09 200 anos depois J. Moedas Duarte

43 27-11-09 Memória do Brigadeiro Neves Costa J. Moedas Duarte

44 11-12-09 Miguel Pereira Forjaz José Ermitão

45 08-01-10 As Linhas de Torres Vedras vistas por um general francês J. Moedas Duarte

46 22-01-10 A batalha do Côa J. Moedas Duarte

47 12-02-10 Ao encontro da História ADDPCTV

48 26-02-10 O marechal Massena Guilhermina Pacheco

49 12-03-10 A oposição ao plano de defesa de Wellington Rui Prudêncio

50 02-04-10 Napoleão faz estremecer a Europa J. Moedas Duarte

51 16-04-10 Visita guiada ao Forte da Forca ADDPCTV

52 07-05-10 Cenas da 3ª Invasão – Uma carta de Wellington a Massena José Ermitão

14-05-10 3º Suplemento – Bicenten. Inv. Francesas André Melícias / Rui M. Prudêncio / J. Ermitão / Luís F. Rodrigues

53 11-06-10 Nova carta a Massena José Ermitão

54 02-07-10 Desinformação em tempo de guerra José Ermitão

55 16-07-10 Quotidiano em tempos de guerra – “Malditos figos! Malditos figos!” Manuela Catarino

56 30-07-10 De Santarém a Vila Franca – A decisão do duque de Wellington em 1809 José Ermitão

57 13-08-10 Tempo de guerra: portugueses, espanhóis e ingleses José Ermitão

58 27-08-10 Almeida rende-se à tragédia J. Moedas Duarte

59 10-09-10 Tempo de guerra – Os bons e os maus José Ermitão

60 15-10-10 Batalha do Buçaco Ten. Cor. Abílio Lousada

61 05-11-10 Tempo de Guerra – Portugueses, ingleses e franceses José Ermitão

28-01-11 4º Suplemento – Bicenten. Inv. Francesas Cor. Manuel Mourão / J. Ermitão / Luís F. Rodrigues

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TEXTOS NO SEMANÁRIO DE TORRES VEDRAS "EM FRENTE OESTE" (Entretanto extinto)



Nº Data Título Autor




1 05 FEV Guardar bem viva a memória J Moedas Duarte

2 12 FEV Início da Revolução Francesa Manuela Catarino

3 19 FEV Ventos de liberdade – Antecedentes da Guerra Peninsular Manuela Catarino

3 26 FEV Tempestade no horizonte – Portugal entre a França e Inglaterra J Moedas Duarte

4 05 MAR A “Guerra das Laranjas” e a perda de Olivença J Moedas Duarte

5 12 MAR Figuras históricas: D. João VI Mª Guilhermina Pacheco

6 19 MAR A primeira obra histórica sobre a invasão dos franceses José Ermitão

8 26 MAR Que nome dar a esta guerra? Carlos Guardado da Silva

9 02 ABR Napoleão José Travanca Rodrigues

10 09 ABR A Corte portuguesa no Brasil Mª Guilhermina Pacheco

11 16 ABR A primeira invasão francesa J. Moedas Duarte

12 23 ABR Jacinto Correia, um herós popular de Mafra Ten Cor Abílio Lousada

13 30 ABR Mulheres no exército francês Pedro Fiéis

14 07 MAI História das Linhas de Torres Vedras – TURRES VETERAS XII ADDPCTV

15 14 MAI Moinho de Brilos: o primeiro combate Pedro Fiéis

16 21 MAI O General Junot J Moedas Duarte

17 28 MAI Laura Permon, a mulher do General Junot J Moedas Duarte

18 04 JUN A batalha da Roliça Pedro Fiéis

19 11 JUN Figuras históricas: D. Carlota Joaquina Mª Guilhermina Pacheco

20 18 JUN Batalha do Vimeiro Pedro Fiéis

21 25 JUN Um túmulo no meio da paisagem J Moedas Duarte

22 02 JUL A ADDPCTV na Comemoração dos 200 anos da Guerra Peninsular JMoedas Duarte

23 09 JUL Duque de Wellington Mª Guilhermina Pacheco

24 16 JUL Cena histórica com toque de Aquilino João Flores Cunha

Em Agosto a Direcção da ADDPCTV decidiu cancelar a colaboração com o Frente Oeste, na sequência da demissão do corpo redactorial do jornal, o qual viria a encerrar alguns meses depois.

24/08/10

BADALADAS - Texto 54 - 13 AGOSTO 2010

TEMPO DE GUERRA
PORTUGUESES, ESPANHÓIS E INGLESES...

José NR Ermitão


          A Guerra Peninsular pôs em contacto frontal ingleses, portugueses e espanhóis, todos aliados num objectivo comum – a luta contra o domínio francês – mas com grandes diferenças entre eles quanto a relações humanas e mentalidades.
Assim, os portugueses e espanhóis nunca deixaram de mostrar o desafecto que sentiam uns pelos outros; por outro lado, os espanhóis e ingleses detestavam-se fortemente. Um dos pontos de fricção entre os ibéricos e os britânicos era a religião: os ingleses desprezavam o catolicismo como um conjunto de superstições e tolices, e os portu- gueses e espanhóis viam os britânicos como não cristãos.

          H. W. Maxwell publicou, em meados do século XIX, uma colectânea de narrativas de ingleses que participaram na Guerra Peninsular (1). Duas dessas narrativas dão conta dos sentimentos de hostilidade pessoal mútua entre os aliados. Uma delas, A night in the Peninsular War (Uma noite na Guerra Peninsular), refere aspectos da tensão existente entre os dois povos ibéricos: o facto de as suas disputas acabarem quase sempre em sangue e o facto de os condutores espanhóis de mulas servirem os regimentos ingleses mas recusarem-se a servir os militares portugueses.
Entretanto este vingavam-se, ou pondo-se sempre do lado dos ingleses quando havia altercações entre estes e os espanhóis, ou fazendo “visitas” predatórias nocturnas aos acampamentos dos arrieiros espanhóis – que tiveram de recorrer a cães de guarda e a tiros de mosquete para se defenderem dos portugueses... Estas tensões eram tão fortes que preocupavam os comandos militares pelos efeitos disciplinares negativos que originavam.

Outra narrativa, Recollections of the late war in Spain and Portugal (Lembranças da última guerra em Espanha e Portugal), anota a diferença de atitudes dos espanhóis e portugueses para com os ingleses – os primeiros, distantes e arrogantes; os segundos, cordiais e agradecidos – e descreve, com humor, o modo como os militares de um regimento inglês se transformaram em bons cristãos junto dos portugueses. Traduzo livremente:
“Descobrimos que ninguém no nosso exército era considerado como cristão excepto os militares que declaravam ser naturais da Irlanda (2), que eram logo tomados pelos portugueses com bons católicos romanos; tal declaração era em geral seguida de favores da parte deles; mas de vez em quando levantavam-se suspeitas e era necessário dar um testemunho prático da nossa sinceridade, benzendo-nos conforme o rito da igreja romana. Neste importante teste, os que realmente não eram católicos enganavam-se fazendo o sinal da cruz com a mão esquerda – um erro crasso que não só provocava decepção como era considerado um grosseiro acto de impiedade. Quando isto acontecia os habitantes ficavam muito agitados e clamavam, juntamente com gestos significativos: “Eles não são cristãos!”
 A pouco e pouco este erro irreverente foi sendo em grande parte corrigido e por meio desta manobra pia muitos incorrigíveis heréticos tornaram-se verdadeiros «bons cristãos». Depois continuámo-nos a aperfeiçoar segundo as ideias religiosas deles, afirmando que o nosso regimento era formado por um conjunto de fiéis da verdadeira igreja, servidores de um grande convento na Irlanda, e constituído para lutar contra os infiéis franceses. E para lhes tirarmos as dúvidas e escrúpulos mostrávamos mesmo a mal desenhada imagem de um castelo, que figurava nas nossas placas peitorais, como sendo a mansão dos nossos reverendos senhores.
Descobrimos também que o povo mostrava tendência para considerar melhor certos nomes, como António, o nome de um dos santos mais venerados naquele santo país; e rapidamente o número de militares que se tratavam por este nome excedeu todos os outros nomes no nosso regimento.”
E assim, com este truque burlão, a paz religiosa entre os habitantes e este regimento inglês foi alcançada – com reforço do desprezo inglês pela credulidade fácil dos portugueses...

(1)  Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2)  A Irlanda, apesar de colonizada pelos ingleses, manteve-se sempre fiel ao Catolicismo.

                                                                                          





16/05/10

NOVOS LIVROS SOBRE A GUERRA PENINSULAR



MEMÓRIA DAS 'INVASÕES FRANCESAS' EM PORTUGAL (1807-1811). Teresa Caillaux de Almeida, Lisboa, Março de 2010, Ésquilo edições e multimédia. 543 p.
Versão portuguesa da tese de doutoramento da autora, apresentada na universidade de Nanterre, em Fev de 2008,  com o título La Mémoire des 'Invasions Françaises' au Portugal(1807-1811) au croisement  des sources orales, écrites et iconographiques. A autora é professora da Universidade de Aix-en-Provence. Prefácio de António Pedro Vicente, que foi um dos membros do júri naquele acto académico.
Resumo do índice:
Cap.1-Os factos históricos
Cap.2-A escrita da História
Cap.3-A memória em imagens
Cap.4-A memória oral
Cap.5-«Casa das Gaeiras»
Cap.6-Comemorações
Síntese conclusiva

Na Introdução a autora refere que o cap. 4 é o cerne deste trabalho:
« A memória oral, tema do capítulo quarto, é um ponto crucial deste trabalho porque é a parte viva desta investigação e o ponto de ancoragem de todos os outros domínios.»
Mais adiante explica o teor do cap. 5: «Refere-se à Casa das Gaeiras, lugar de concentração memorial, incomparável em Portugal, no que dis respeito ao período napoleónico, quer pela sua diversidade quer pela quantidade de objectos, manuscritos, armas, planos de campanha e de livros. Além disso, na Casa das Gaeiras, memória e objectos são conservados amorosamente dentro do círculo familiar, o dos Gomes Pinheiro/Pinto Basto Lupi, residindo, desde há dois séculos, numa mesma casa da região Oeste do país, não distante dos campos de duas das principais batalhas desta campanha.»
Lembramos que a Casa das Gaieiras se situa no concelho de Óbidos, no qual se deu a Batalha da Roliça em 17 de Agosto de 1808.

.....................................................................................................

         
                                           

AS LINHAS DE TORRES VEDRAS / XII Encontro TURRES VETERAS: AS LINHAS DE TORRES VEDRAS; coord. Carlos Guardado da Silva - Lisboa: Colibri, Universidade de Lisboa;Torres Vedras:Município, 2010. - 212 p. : il.  ;27 cm. - (Turres Veteras;12)


SUMÁRIO


-Enfrentar as Linhas. Testemunhos franceses sobre uma Barreira intransponível
António Ventura

-(Re)Construções da Memória: as Linhas de Torres em Narrativas Britânicas
Gabriela Gândara Terenas

-The View from Torres Vedras: Southey’s Construction of Portugal between Historical Presence and Textual Invisibility
Diego Saglia

A visão de Torres Vedras: a formação de Portugal, segundo Southey entre presença histórica e invisibilidade textual
Diego Saglia

-L’armée du Portugal ou o desconcerto de um exército: preparação e concretização de uma expedição a Portugal
Cristina Clímaco

-População e Família na época das Invasões Francesas – o caso da freguesia de StªMaria do Castelo de Torres Vedras (1806-1812)
Venerando Aspra de Matos

-PRODUTOS E PREÇOS EM TORRES VEDRAS
NA ÉPOCA DA GUERRA PENINSULAR
Henrique Vieira

-Wellington’s Peninsular Strategy, Portugal, and the Lines of Torres Vedras
Donald D. Howard

-A Estratégia Peninsular de Wellington, Portugal e as Linhas de Torres Vedras
Donald D. Horward

-Un militar de genio: Sir Robert Wilson en Portugal a través de su correspondencia (1808-1809)
Alícia Laspra

-La estratégia napoleónica y las ciudades sitiadas en la Guerra Peninsular
Antonio Moliner Prada

-Irlandeses em armas em espaço peninsular: a obra esquecida de Charles Lever
Maria de Deus Duarte

- As Linhas em Torres Vedras
Francisco Sousa Lobo

-As Linhas de Torres Vedras: impactos regionais: o caso de Leiria
António Pedro Vicente

15/03/10

BADALADAS - Texto 46 - 26 FEVEREIRO 2010

O MARECHAL MASSENA

Maria Guilhermina Pacheco


“Guindam-se aos mais altos cargos homens como Massena, contrabandista e estalajadeiro...” Raul Brandão, El-rei Junot


Realmente, poder-se-á perguntar quem foi André Massena, que em 1810 comandou a terceira invasão francesa a Portugal.

Nasceu em Nice, em 1758, o pai era taberneiro. Começou por ser grumete, na marinha mercante, depois alistou-se no exército, mas como era de origem burguesa, não podia atingir o cargo de alferes, demitiu-se, era sargento-ajudante, estava-se em 1789.

Com a revolução, vai aderir à Guarda Nacional e, regressa à vida militar, em 1792, já detém o cargo de chefe de batalhão e, em 1793, era general de divisão.
Conhecido como bom estratega, Napoleão, elogiava-o, dizendo que tinha “...des talents militaires devant lesquels il faut se prosterner...”. (talentos militares, diante dos quais temos de nos inclinar…)
A sua carreira militar não se caracteriza, no entanto, por uma ascensão contínua, terá campanhas vitoriosas, seguidas de períodos de abrandamento ou mesmo paragem.
Entre 1795 e 1799, Massena, combate os piemonteses, os austríacos, tendo alcançado vitórias em Loano (1795) e na campanha da Itália (1797), mas vai ser em Zurique (1799) que consegue uma das suas mais importantes vitórias militares. Como resultado, ganha o cognome de Filho Querido da Vitória e o título de marechal.
Entretanto, em França a cena política sofre mudanças, Massena é republicano, mas não aprovou o golpe de 18 de Brumário, vai apoiar o Império, e passa a fazer parte da lista dos marechais do exército francês, tendo recebido a condecoração da Grã-cruz da Legião de Honra.

Novamente em campanha, trava batalhas na Itália e na Polónia, tendo tido êxito em Essling e Wagram (1809). Teve um acidente, impossibilitando-o de combater, e será durante a sua recuperação que Napoleão o vai enviar como comandante do exército que invadirá Portugal pela terceira vez.
Este exército estava dividido em três corpos, comandados respectivamente por Reynier, Ney e Junot, tinha também, uma divisão de cavalaria comandada por Kellerman, no total eram 65 000 homens, tinha ainda 65 oficiais e 16 ajudantes-de-campo sob as suas ordens.
Em Julho de 1810, o exército francês está perto da fronteira portuguesa. Depois de ocupar Astorga e Cidade Rodrigo, prepara-se para tomar a praça de Almeida, o que consegue devido a uma explosão no paiol, tendo o seu responsável, Costa e Almeida, capitulado.

A 15 de Setembro, Massena inicia a invasão, dirige-se para Celorico da Beira, seguidamente Fornos de Algodres em direcção ao Mondego. Entretanto as populações com medo e recebendo ordens de Wellington, abandonam as suas casas, contribuindo para dificultar o abastecimento ao exército inimigo. Massena vai seguindo para o interior do país as tropas de Wellington, não se apercebendo da estratégia. Encontram-se os dois exércitos em Buçaco, tendo as tropas portuguesas e inglesas lutado tão vigorosamente que os franceses tiveram que retirar, perdendo 4 498 homens.
Massena, no entanto, ansiava chegar a Lisboa, e continuou o seu caminho, indo em direcção a Coimbra que tomou e pilhou, e continuou desconhecendo a existência de fortes defesas: Linhas de Torres Vedras. Aí não teve capacidade para atacar, ficando à espera de reforços, enquanto os seus soldados saqueavam as populações das aldeias mais perto, havendo também grupos de desertores que se organizavam em quadrilhas de ladrões, devastando tudo à sua roda.

Em meados de Novembro, Massena, dá inicio à retirada, tendo seguido na direcção de Santarém, quando a ajuda que esperava chegou, era insuficiente, pelo que o comandante francês resolveu retirar-se para Espanha. O seu caminho de regresso não foi fácil, vários foram os encontros entre os dois exércitos, a retirada tinha-se iniciado a 4 de Março de 1811, e atravessa a fronteira a 8 de Abril, continuando a ser perseguido quer pelos aliados quer por grupos de guerrilhas e de milícias.
O próprio exército francês sofre problemas fracturantes como é o caso da insubordinação de Ney, que não concorda com a estratégia do marechal, tendo sido destituído do seu comando.
Em Espanha travou vários combates, destacando-se o de Fuentes de Oñoro a 2 de Maio, tendo sido posteriormente destituído do seu cargo por Napoleão e substituído por Marmont, duque de Ragusa.

Com as mudanças políticas em França, aceita a Restauração e Luís XVIII, mantém-no como comandante da 8ª divisão militar em Marselha. Morre em Paris em 1817.
Massena distinguiu-se como militar pela coragem, dotes estratégicos e mesmo bravura, mas como pessoa, actuou de uma forma ambiciosa e sem escrúpulos, esquecendo-se muitas vezes da posição que detinha, aproximando-se das atitudes dos seus subordinados. Assim, em 10 anos aumentou sua fortuna pessoal em 40 milhões de francos.
“Em Portugal, deixou um rasto de ruínas e de morte, que ficarão pelos tempos fora, a macular a sua memória e a empanar o lustre que alcançou nos campos de batalha.” (António Álvaro Dória)

07/11/09

ESCRITO À MÃO







(Clicar para aumentar)


A obra consiste em 11 poemas, com ilustrações, impressos em cartões separados. O conjunto vem dentro de um envelope cartonado.
Deixamos aqui a reprodução de três desses poemas. De notar que eles foram mesmo escritos à mão pelo autor, sendo a impressão feita a partir desse grafismo. Um objecto artístico que honra as Comemorações dos 200 anos da construção das Linhas de Torres Vedras.

30/08/09

BICENTENÁRIO DAS INVASÕES FRANCESAS

SUPLEMENTO DO JORNAL BADALADAS, 14 AGOSTO 2009



(Combate de Grijó - 11 de Maio de 1809 - Biblioteca Nacional de Portugal)

A SEGUNDA INVASÃO FRANCESA

José NR Ermitão


CONQUISTA DE CHAVES

No dia 8 de Fevereiro de 1809, Soult e o seu exército marcham de Santiago de Compostela para a fronteira portuguesa, com o objectivo de atravessar o rio Minho e descer em direcção ao Porto. Frente ao rio, Soult sofre as primeiras contrariedades: o grande caudal que, devido à chuva, o transforma em barreira difícil de transpor e o dispositivo de defesa organizado pelo general Bernardim Freire na margem portuguesa.
Os franceses fazem três tentativas para atravessar o rio, a 13 e 16 de Fevereiro, próximo de Valença, Caminha e Cerveira, tentativas que são rechaçadas pelas forças mi-litares portuguesas. Assim, Soult vê-se forçado a um novo percurso: subir até à cidade de Orense, descer pela linha do Tâmega e entrar em Portugal pela fronteira de Chaves – um caminho péssimo e cheio de riscos, que cansava as tropas e as expunha aos ataques da guerrilha espanhola.
Realizado o percurso alternativo à custa de perdas várias, os franceses aproximam-se da fronteira, atravessam-na a 10 de Março e dirigem-se para Chaves. O brigadeiro Francisco da Silveira, responsável militar da região de Trás-os-Montes, percebe a impossibilidade de defender a cidade frente ao exército de Soult e ordena a retirada.
Populares desesperados pelo medo dos franceses, diversos elementos do exército, milícias e ordenanças, não acatam a ordem de retirada e tentam resistir, mas são derrotados pelos franceses, que tomam a cidade no dia 11 de Março. Soult faz de Chaves o ponto de ligação com a Espanha.


CONQUISTA DE BRAGA

A 14, o exército francês inicia a marcha em direcção a Braga. Neste percurso os invasores começam a sentir as garras da resistência popular. As palavras são de Soult: “A nossa marcha de Chaves para Braga foi um combate contínuo. Tinha de me haver com toda a nação: todos os habitantes, homens, mulheres, crianças, velhos e padres, estavam em armas; as aldeias estavam abandonadas, mas os desfiladeiros bem defendidos”.
A resistência também é de natureza militar: o brigadeiro Silveira ataca a retaguarda e os flancos dos franceses na área de Venda Nova e Cabeceiras de Basto; e no caminho para Braga os franceses tiveram de travar combates em Ruivães, Salamonde, e sobretudo nos arredores de Braga, durante três dias (7, 18 e 19 de Março), antes de tomarem a cidade. O exército português, na incapacidade de ofensivas frontais, opta pela defensiva onde e quando possível, por ataques rápidos e mortíferos contra a retaguarda e flancos dos franceses e pela reocupação dos espaços por eles menos guarnecidos. População e militares empenham-se ainda na imobilização dos transportes e na captura dos correios franceses de modo a isolarem totalmente o exército invasor – o que conseguem.
Um ponto importante a referir: no dia 15 de Março, o general inglês Beresford assume o comando do exército português e inicia a sua reorganização.
As notícias da progressão dos franceses criam na cidade um grave ambiente de exaltação. O general Bernardim Freire, comandante militar da região do Porto e Minho, ao receber ordens dos Governadores do reino para dar prioridade à defesa do Porto e ao verificar a insuficiência das defesas de Braga em Carvalho d’Este e noutros pontos, decide-se pela retirada. População, numerosos militares, milícias e ordenanças, amotinam-se, acusam o general de traidor e assassinam-no barbaramente.
O barão de Eben encarrega-se da defesa da cidade e resiste durante três dias em Carvalho d’Este (17, 18 e 19 de Março), combate onde morrem mais de 2000 portugueses e dezenas de franceses. Só no dia 20 os franceses tomam a cidade, entretanto abandonada pela população. Comenta Le Noble: “... Braga apresentava-se à nossa imaginação provida de tudo quanto um exército necessitava. Mas qual o nosso doloroso espanto quando, ao entrar nela, a encontrámos deserta! Em três dias, vinte mil pessoas abandonaram a cidade... Que ódio contra o domínio estrangeiro! Que péssimo presságio para a condução da nossa expedição”.
Depois de cinco dias de paragem, Soult parte em direcção ao Porto em 25 de Março. Nesse mesmo dia Francisco da Silveira, depois de uns dias de combate renhido, reconquista a cidade de Chaves, cortando assim as ligações dos franceses com a Espanha, o que vai criar uma situação de total isolamento a Soult
Silveira, em seguida, movimenta as tropas para retomar Braga; só não o faz porque, tendo notícias de que o Porto foi tomado, decide posicionar-se na região de Vila Real. Mas Braga será retomada mais tarde, no dia 5 de Abril, pelo general Botelho.



CONQUISTA DO PORTO

No caminho para o Porto os franceses vêem aumentadas as dificuldades devido à guerrilha e à acção defensiva junto das pontes que tinham de atravessar. De salientar a fortíssima resistência da população e de alguns militares à passagem dos franceses nas pontes em Trofa e Santo Tirso – passagem conseguida à custa de combates violentos e de muitos mortos para ambos os lados.
No dia 27 de Março, Soult chega junto das defesas da cidade do Porto, a 28 cerca-a completamente, ordena o seu ataque, e no dia seguinte conquista-a. Esta rapidez na tomada da cidade tem causas civis e militares. Civil – o estado de anarquia da população, que mais se empenhava em assassinar supostos afrancesados traidores e que não aceitava qualquer disciplina; militares – inexistência de oficiais competentes (o próprio bispo se arvorou em general), obras de engenharia defensiva mal executadas, tropas regulares insuficientes e mal comandadas, milícias e ordenanças desenquadradas e quase sem armamento e artilharia disfuncional...
O que se seguiu é conhecido – a fuga em massa dos portuenses pela ponte das barcas em direcção a Gaia, com o afogamento de milhares de pessoas. Menos conhecida é a resistência no interior da cidade: milícias, ordenanças, populares e eclesiásticos cortam as ruas e disparam das janelas das casas e até do Paço do Bispo, causando aos invasores numerosas baixas. Esta resistência enfurece os franceses que, como escreve Beauchamps, “... chacinaram indistintamente os habitantes e praticaram todo o tipo de pilhagens e de crimes” durante o saque nos três dias seguintes.
O primeiro objectivo de Soult, a tomada do Porto, estava conseguido; mas a sua situação era a de completo isolamento em relação aos exércitos franceses em Espanha. Pior, estava cercado por uma activa resistência popular e militar que, sobretudo a leste, lhe haverá de cercear a liberdade de movimentos.
Soult vai tentar quebrar a situação de isolamento militar em que se encontrava desenvolvendo três frentes de progressão militar.
A primeira, para ocupar o Minho (de 5 a 13 de Abril) e estabelecer ligações com o exército francês na Galiza. Os franceses ocupam os centros urbanos mas não os campos: neles se movimentam guerrilhas que, por exemplo, capturam todos os correios franceses. E no Baixo Minho actua o general Botelho, que retoma Braga a 5 de Abril, donde é forçado a sair a 10 pelos franceses, mas que em seguida retoma Guimarães...
A segunda, em direcção ao sul, pretendia atingir Coimbra: os franceses ocupam Vila da Feira (a 17 de Abril) e Albergaria, e atingem o rio Vouga. O coronel Trant, nomeado por Beresford para o governo civil e militar de Coimbra, organiza a defesa da cidade e barra a progressão francesa no Vouga.
A terceira, em direcção a leste, com o objectivo de dominar Trás-os-Montes e a Beira Alta, aniquilar o exército de Francisco da Silveira e conseguir uma via de comunicação com os exércitos franceses em Espanha. Tentativa fracassada pela impressionante resistência portuguesa em Amarante e áreas circundantes, chefiada por Silveira, e que constituiu o toque de finados da 2ª invasão.
Politicamente, Soult ensaia uma política de apaziguamento de que resultou um grupo de bracarenses e outros nortenhos, suplicarem a Napoleão “se dignasse nomear um príncipe... para ocupar” o trono português. Episódio com mão óbvia de Soult e sem mais consequências...


RESISTÊNCIA EM AMARANTE

Com o objectivo de abrir caminho para leste, os franceses ocupam Penafiel e dirigem-se para a ponte de Canavezes a 31 de Março. Penafiel fora abandonada pelos habitantes mas Canavezes e sua ponte estão bem defendidas, e tanto que os franceses retrocedem para Penafiel. A 7 de Abril, Soult envia reforços e nomeia para chefiar as operações o terrível general Loison.
A 9 de Abril, Silveira desloca-se de Vila Real para Amarante, onde se reúnem as tropas, milícias, ordenanças e voluntários das regiões próximas. Com um exército díspar de 6000 homens, sem quadros nem armamento suficientes, ataca Penafiel no dia 13, donde expulsa Loison. Perante o facto, Soult envia novos reforços – os franceses nesta área de acção passam a 9000, mais de 40% do total dos invasores.
Conseguem assim retomar Penafiel a 15 de Abril e dar combate ao exército de Sil-veira que, perante a superioridade francesa, retira para Amarante, onde os franceses en-tram no dia 18, após horas de combate e muita destruição. Os franceses ocupam a vila, na margem direita do rio Tâmega; os portugueses ocupam a margem esquerda do rio e impedem a tomada da ponte.
E durante duas semanas, de 18 de Abril a 2 de Maio, numa eficaz acção defensiva, em contínuos duelos de artilharia e de fogo de atiradores, os portugueses frustram todas as tentativas francesas para a tomada da ponte. Só a 2 de Maio, devido a nevoeiro e a deficiências da vigilância portuguesa, Loison consegue tomar a ponte e passar o rio. Silveira, vendo-se derrotado, desloca o exército para leste e margem sul do Douro.
Embora na posse deste ponto estratégico, Loison só irá progredir até Vila Real (3 de Maio), Mesão Frio e próximo da Régua, encontrando sempre a resistência de destacamentos do exército de Silveira. Em Vila Real (retomada por Silveira a 8 de Maio) os franceses tomam conhecimento “das grandes mobilizações que tinham sido feitas em Portugal, além do movimento do Exército Luso-Britânico em direcção ao Norte” (De Nayles). A 11 de Maio, Loison inicia o movimento de retirada, sempre acossado pelas tropas de Silveira, que o combate em Moure, a 12, levando-o a abandonar Amarante e continuando a persegui-lo.
Por onde passa, Loison deixa um rasto de destruição e morte. Mas é o princípio do fim da 2ª invasão: a resistência popular e o exército do general Silveira, sem auxílio exterior, combatem, esgotam e desmoralizam irreversivelmente os franceses.


FIM DA SEGUNDA INVASÃO

Em meados de Março de 1809, Beresford assume o comando do exército português e inicia o processo da sua reorganização. A 22 de Abril, acompanhado de 20000 homens, o general Wellington desembarca em Lisboa e toma o comando do exército britânico no país. Os dois chefes militares articulam-se e organizam o exército luso-britânico, que vai avançar para Norte, iniciando uma fortíssima pressão militar sobre os franceses.
Soult verifica a impossibilidade de resistir e decide a retirada, o que em muito facilita a Wellington a tomada do Porto. Em fuga, os franceses fazem explodir tudo o que lhes impede a rapidez de andamento (artilharia, carros de transporte e até o produto dos saques), desfazem-se da própria caixa militar e optam por um caminho difícil mas inesperado para os seus perseguidores.
Perseguido pelas tropas anglo-lusas, o exército francês tem ainda de enfrentar a resistência desesperada das milícias e dos populares, que fazem guerrilha por todo o lado, matando centenas de soldados invasores. Devido ao caminho imprevisto que escolheu e às horas de avanço que tem, Soult consegue escapar, evitando uma derrota fatal. Mas tem de enfrentar as dificuldades do caminho, um tempo invernoso, a fome, doença e exaustão dos soldados, as pontes de Saltadouro e de Misarela, cujas trágicas passagens tiveram de ser conquistadas violentamente.
Soult, à frente de um exército em estado moral e material calamitoso, atravessa enfim a fronteira da Galiza de 17 para 18 de Maio. Dos cerca de 23000 homens com que entrou no país conseguiu salvar pouco mais de 15000 – um bem trágico final para a “bela expedição” de que o imperador o encarregara.




(Desenho a lápis do capitão Manuel Isidro da Paz - Arq. Nac. Torre Tombo)
PELA INTERNET

Manuela Catarino

Muito longe estariam os marechais de Napoleão, em 1809, quando procuravam cumprir as ordens recebidas, de que os seus planos de batalha, as suas memórias, os pormenores dos estandartes das suas companhias, ou, simplesmente as imprescindíveis ordens do dia, tudo sempre tão ciosamente guardado, estivesse hoje, para nós, à simples distância de um click…
A acessibilidade, que a rede nos permite, a Bibliotecas, Fundos Documentais, Museus, ou a espaços pessoais (os famosos “blogs”) onde se disponibiliza e partilha todo o tipo de informação, facilita a obtenção de dados que, de outra forma, seria impensável visualizar com a rapidez e fiabilidade que todos conhecemos. A propósito do tema “Invasões Francesas”, em particular a chamada 2ª Invasão, aqui deixamos nota de alguns “links” para uma pesquisa mais personalizada de quem se interessa por estas temáticas.

O município de Amarante, por ocasião das Comemorações da 2ª Invasão Francesa em Amarante, apresenta um interessante espaço com Galeria e Vídeo, excertos da Recriação Histórica, bem com alguma Bibliografia específica, entre outros aspectos.
Basta um click em http://amarantesegundainvasao.blogspot.com

Também a região de Albergaria-a-velha, outro dos cenários da 2ª Invasão, mereceu destaque, a partir de Março de 2009, nas postagens feitas e cruzadas com referências à História Local. Para saber mais: http://blogdealbergaria.blogspot.com

Outra forma de olhar sobre os espaços percorridos pelas tropas francesas é-nos apresentado pelo Grupo Portuense de Montanhismo. Recordando o percurso efectuado pelo II Corpo do exército francês, no mês de Maio de 1809, apresentam-se fotos e iconografia específica. Olhemos, pois, http://gpmcaminhadas.blogspot.com

Uma rápida e ilustrada pesquisa sobre Invasões Francesas poderá ser sempre feita n’O Portal da História. Neste mesmo espaço, o seu autor, Manuel do Amaral, apresenta um trabalho de investigação sobre as transformações verificadas no Exército Português entre 1793 e 1823, com particular incidência na iconografia do período das Invasões Francesas. Consulte-se : http://www.arqnet.pt

Figura incontornável neste tema é a do próprio Napoleão Bonaparte. De entre muitos e variados espaços que, na net, a ele se dedicam, merece atenção um blog que apresenta um conjunto assinalável de informação sobre a figura de Napoleão e o contexto em que viveu. Curioso o projecto que nele se apresenta – a juventude de Napoleão em Banda Desenhada. Texto em francês.
A visitar: http://napoleonbonaparte.wordpress.com
Os apaixonados pelas miniaturas poderão encontrar um vasto manancial de informação e expressivas fotografias num espaço peculiar. Ainda que escrito em francês, o seu autor surpreende quem o visite. Destacamos, neste caso, a área sobre La campagne d’Espagne, que inclui miniaturas e maquetas de várias situações ocorridas na campanha peninsular das forças napoleónicas. A não deixar de descobrir em : http://el-frances.over-blog.com

Tesouro inestimável que deixamos à consideração de quem quiser dispor de uma visita ao Arquivo da Torre do Tombo. Um documento iconográfico produzido pelo capitão Manuel Isidro da Paz, entre Fevereiro e Julho de 1812. Um álbum de desenhos a lápis retratando pormenores da vida militar, paisagens rurais, interiores, vida quotidiana, retratos, esboços, uniformes…
Para um primeiro relance : http://antt.dgarq.gov.pt consultando o link especifico – As Invasões Francesas – Eventos em Documentos



SUGESTÕES DE LEITURA


MEMÓRIAS DO MARECHAL SOULT sobre a guerra em Espanha e Portugal
Introdução e notas de António Ventura, Livros Horizonte, Lisboa, 2009.
Soult, um dos mais destacados chefes militares de Napoleão, que depois da queda deste, em 1815, ainda desempenhou elevados cargos politicos em França - embaixador, ministro e Presidente do Conselho de Ministros - quis testemunhar o seu tempo através da escrita das suas memórias. Não chegou a vê-las publicadas, o que seria feito por seu filho em 1854, três anos depois da sua morte.
Este livro contém a parte relativa à Guerra Peninsular. Revela um homem extremamente lúcido e crítico em relação a muitas opções estratégicas de Napoleão. Longe de ser uma descrição enfadonha de movimentações militares, é um testemunho vivo de uma época, bem escrito e servido por uma boa tradução.


O PORTO E AS INVASÕES FRANCESAS -1809/2009. 4 vols, coordenação de Valente de Oliveira, edição conjunta do jornal PÚBLICO e da Câmara Municipal do Porto, 2009.
Trata-se de uma obra monumental - mais de mil páginas nos quatro volumes - que reune trinta e sete comunicações, relacionadas com a segunda invasão francesa e escritas por especialistas, professores universitários de todas as universidades portuguesas onde se ensinam e investigam temas de História e também de algumas iniversidades do Reino Unido, França e Espanha.

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TORRES VEDRAS E A SEGUNDA INVASÃO

Tudo se passou bem longe de Torres Vedras, ao contrário do que sucedera um anos antes, na primeira invasão. Mas sabia-se que a missão de Soult era chegar a Lisboa, vindo do Porto, pelo litoral. Se acaso não tivesse sido detido, Torres Vedras voltaria a sofrer a guerra do invasor. Havia, pois, que tomar providências. É o que vemos nestes dois excertos do Livro de Acordãos da Câmara Municipal de Torres Vedras, compilados por Venerando de Matos.

Torres Vedras fortifica-se

“Illustrissimos senhores vereadores:
“Tendo sido mandado por Sua Alteza Real para fortificar provizoriamente esta villa,” (Torres Vedras) “precizo par por em pratica o q se tem projectado que Vossas Senhorias me fornessão na manhã de segunda feira dez do corrente (...) na meia laranja da Ponte de Mentira o seguinte: trinta trabalhadores, dez enxadas, dez cêstos, quatro picaretas, duas paviolas e dois (...?) - Torres Vedras oito de Abril de 1809”
“Tenente Coronel de Enginharia; Cypriano José da Silva, encarregado pella Regencia em nome de Sua Alteza Real para a Fortificação d’esta villa”
(in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, ff. 193v-194, AMTV) .

Torres Vedras melhora o sistema de comunicações

“Tendo-se estabelecido signaes em cazo de rebate para avizar os Povos pertencentes a esta capitania mór, se determinou por ser o metodo mais facil o uzarem de foguetes para o que se fazem precizos quatro duzias de foguetes de quatro respostas cada hum. Rogo portanto a Vossa Senhoria queira mandallos apromptar com toda a brevidade como tambem seis covados de sarafina ou outra qualquer fazenda encarnada que devem servir para signaes de Faxos”
(oficio do Governo Militar, datado de 6 de Abril de 1809, enviado à Câmara de T.Vedras, in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, f.196, AMTV) .




(Ex-voto da Irmandade das Almas, pormenor, Igreja de S. João das Taipas, Porto)


A TRAGÉDIA DA PONTE DAS BARCAS

José NR Ermitão

Na memória colectiva nacional a tomada do Porto pelos franceses durante a 2ª invasão estará sempre relacionada com o desastre da Ponte das Barcas.
Aterrorizados com a chegada dos franceses, uma multidão de portuenses tentou passar para Gaia utilizando a ponte de madeira assente sobre barcaças que então ligava as duas margens. A tragédia subsequente é arrepiante e conhecida. Apresentamo-la descrita por Arnaldo Gama (1828-1869) na obra O Sargento-Mor de Vilar, Episódios da invasão dos franceses em 1809.
Do romance citado, diz o próprio autor que «Não fiz mais do que ir às partes oficiais, aos escritos e manuscritos de alguns contemporâneos, copiá-los e dialogá-los. Um historiador pode escrever a história da 2ª invasão pelos feitos do meu Sargento-Mor de Vilar». De facto, a sua leitura oferece um vivo panorama da invasão desde o seu início até à tomada do Porto, da província do Minho no princípio do século XIX (seu estado social, movimentos populares, mentalidades), do estado do exército, da acção de alguns militares e outros importantes aspectos.

Seguiu-se depois aquela medonha quarta-feira de cinza, 29 de março de 1809, memorável nos anais do Porto pelas desgraças e atrocidades que nela tiveram lugar. (...)
Luís Vasques e o sargento (de Vilar) dirigiram-se à pressa para o lado da ponte. Precedera-os porém compacta e monstruosa massa de povo, que se lançava, correndo, para ela... mas apenas (os dois amigos) tinham dados uns passos para a frente, quando pararam assombrados por um grito pavoroso, medonho e terrível de agonia dilacerante... Era horrendo o espectáculo diante de que se achavam.
A meio da ponte, aquela massa compacta de fugitivos estava como que estacada diante de um abismo, pelo qual se sumiam, uns após outros, homens, velhos, crianças e mulheres; e mais atrás desse medonho sorvedouro, os parapeitos de madeira arrebentados vomitavam pelas aberturas milhares de pessoas sobre o rio.(...)
Depois que o bispo e o general Parreiras passaram para... (Gaia)... os que estavam de guarda à ponte fizeram levantar um dos enormes alçapões que ela tinha a meio, sem se lembrarem que era naturalmente por ela que a cidade se havia de esvaziar logo que os franceses se assenhoreassem das linhas.
Assim aconteceu. Os habitantes, dementados pelo pavor, correram à ponte, como estrada de salvação... Ao chegar junto dela, aquilo era uma massa compacta e apertadíssima onde mal se podia respirar – e aquela massa compacta lançou-se por ela... cada vez mais comprimida e cada vez mais alucinada... impelida pelo terror.
Ao chegar a meio da ponte estacou um momento... É que diante daquela massa compacta... estava um abismo, estava aquele terrível boqueirão, que a estupidez humana deixara após si ao fugir. As primeiras dezenas de pessoas sumiram-se de repente na voragem, sem terem tempo sequer para fazer um esforço para estacar, sem terem tempo para mais que para soltar aquele brado pavoroso de medonha agonia, aquele grito de alarme contra a morte, que de súbito e à traição se lhe abria debaixo dos pés... Todos pretenderam estacar, firmar-se, não ir mais avante; mas a força da impulsão, que lhes comunicavam os que vinham de trás, era mais forte do que a da repulsão da agonia dos que viam aos pés o abismo; e centenas e centenas de pessoas continuaram a sumir-se por aquele medonho boqueirão. Era um só brado de desespero o alarido... por fim as forças dos que resistiam puderam quase equilibrar-se com as dos que empurravam para a frente. O número dos que se sumiam pelo boqueirão abaixo começou a... (diminuir); mas a imensa (massa de gente)... comprimida nas extremidades, começou a alargar ao centro... sobre as guardas da ponte... (que) não puderam dilatar-se mais; estoiraram, e por aqueles dois enormes rombos lufaram imediatamente... centenares e centenares de pessoas.
(...) No rio, junto da ponte, viam-se milhares de desgraçados, aferrados uns aos outros... ora aparecendo, ora desaparecendo, e depois... deslizando em fieira, a debater-se sempre, pela corrente do rio abaixo. Mais além já eram cadáveres... que boiavam à tona da água; e só longe... é que aquela medonha pavezada se ia desfazendo pouco a pouco, pedaço a pedaço, até que de todo mergulhava e sumia.
O alarido dos que... se achavam subitamente em frente da morte e o dos que de terra presenciavam esta imensa desgraça, com a morte também a poucos passos... – porque os franceses desciam pela rua... abaixo, lançando um chuveiro de balas – era medonho, tremendol... Naquela meia dúzia de palmos de terra, naquela estreita ponte de madeira que se estendia sobre o Douro, representou-se naquele dia uma cena que compendiou em breve resumo tudo quanto a agonia e o pavor têm de mais...horroroso.(…)

A soldadesca corria desenfreada pelas ruas, arrombando casas, entrando nas já arrombadas, roubando tudo o que achavam em dinheiro e atirando os trastes (/móveis) e roupas para o meio da rua. Espancavam toda a gente, e cometiam toda a ordem de desacatos, sem respeitarem velhos, mulheres ou crianças... nem escaparam os conventos das freiras... Os excomungados não queriam senão botas e camisas; e de dinheiro só o metal... Aqui e ali via-se gente morta... fuzilavam por dá cá aquela palha qualquer homem... (...)
Aqueles três dias de saque foram três dias de inferno. Hoje o Soult saiu com uma proclamação, em que dizia que o Porto devia ser queimado por ter resistido, mas que ele lhe perdoava.


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FICHA TÉCNICA:
Coordenação: Joaquim Moedas Duarte
Textos: José Ermitão Manuela Catarino Venerando de Matos
Concepção Gráfica: José Pedro Sobreiro
Execução Gráfica: Carlos António Ferreira